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Crítica | Feito Pipa (Festival do Rio 2026)

Foto do escritor: Aianne Amado
Aianne Amado
há 7 horas
5 min de leitura

A aposta brasileira no Oscar encontra melancolia, humor e delicadeza em uma história sobre o que aprendemos uns com os outros.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O Brasil inteiro sabe: ninguém é mais mimado que o famoso “menino criado com vó”. Vó foi mulher quando ser mulher era ainda mais difícil. Talvez por isso tenha o coração mais calejado e, ao mesmo tempo, mais permissivo. Aposentada, já não tem o estresse do trabalho para descontar em casa, mas tem tempo para a cozinha, para os amigos, para a reza e, principalmente, para os netos.


Gugu (Yuri Gomes) é um menino de vó. Mas não qualquer menino: apesar de muito novo, já se entende — e, mais importante, se aceita — gay e afeminado. Cobre-se de brilho para ir à escola, refletindo a luz que carrega por dentro. Gosta de dançar tanto quanto gosta de jogar bola.  Naturalmente, comemora o gol dançando — para alegria dos amigos e desprezo dos colegas que ainda não aprenderam a enxergar a beleza da autenticidade.


Também não estamos falando de qualquer vó. Dona Dilma (Teca Pereira) gosta de maquiagem chamativa, brincos enormes e de se agarrar com o paquera no banco do carro depois do forró de sábado. Tem em Gugu seu melhor amigo, mas também a maior fonte de lembranças da filha que perdeu.


Juntos, vó e neto são imbatíveis. A pequena cidade do sertão cearense vira palco para os dois.


Dilma dá asas a Gugu, e ele sabe disso. É por isso que se encolhe sempre que está na presença do pai, Batista (Lázaro Ramos), que, em vez de admirar o voo do filho, preocupa-se com quem, sem nunca conseguir sair do chão, aponta e ri. Para o bem dos dois, estabelece-se um acordo silencioso: construir a relação baseada em ausência e distância, perto o suficiente para não parecer abandono e longe o bastante para não ferir ninguém.


Não é que Batista seja um pai ruim. Sem dúvida, quer o melhor para o filho. O problema é que sua ideia de “melhor” não cabe exatamente na imensidão de Gugu. Também não é justa a concorrência que lhe foi imposta: em comparação com a grandiosa Dilma, qualquer um corre o risco de parecer pequeno.


O problema das avós, porém, é que elas desabrocham cedo demais. Quando chega a nossa vez, elas já estão perto de murchar. Pouco a pouco, Dilma é consumida por um esquecimento que compromete o cuidado com o seu menino. Ela faz de tudo para disfarçar. Gugu, por sua vez, faz de tudo para fingir que não percebe.


Com medo de ter seu mundo perfeito abalado, o menino inverte as posições. Ao esconder a doença de Dilma, o menino de vó, do alto de seus um metro e meio de altura, vira o homem da casa. Seu brilho se perde, literal e figurativamente, e a criança doce e energética que conhecemos no início do filme também começa a murchar, embora de uma maneira diferente.


Batista sabe que precisa fazer alguma coisa. Mas o quê? Sua masculinidade não lhe permite sequer perguntar qual é a comida preferida do filho, quanto mais demonstrar culpa, preocupação ou afeto.


São três gerações marcadas por desafios absurdamente geracionais e, ao mesmo tempo, amarradas por um sentimento profundamente universal: o medo do desconhecido. Gugu só sabe ser quem é. Batista só sabe educar como foi educado. E Dilma só lembra como viver com as memórias.


Feito Pipa constrói esses três personagens como figuras multidimensionais, capazes de carregar contradições sem jamais se reduzirem a elas. O resultado é um drama melancólico sobre a passagem do tempo vista pelos olhos de uma criança cuja infância vai sendo roubada antes cedo demais. Só que drama e melancolia não combinam muito com Gugu e Dilma. Por isso, o roteiro de André Araújo encontra no humor seu melhor aliado, arrancando risadas sinceras mesmo quando a garganta já está embargada.


Outra grata surpresa é descobrir um sertão que não precisa ser apresentado pela velha cartela sépia de sempre. Feito Pipa é um filme colorido, vibrante e cheio de vida, recusando aquela fotografia quase monocromática que tantas vezes transforma o semiárido brasileiro em sinônimo visual de sofrimento. A direção de arte, o figurino e a maquiagem acompanham essa escolha com inteligência: as crianças, especialmente, parecem vestir a própria infância, com cores, brilhos e combinações que têm a espontaneidade de quem ainda não aprendeu que existe uma maneira “certa” de se apresentar ao mundo. Nada disso soa artificial ou distante da realidade daquelas famílias. Ao contrário: a exuberância visual nasce justamente daquilo que existe de mais cotidiano.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O timing e a química dos três protagonistas são irretocáveis. A naturalidade de Yuri Gomes é daquelas que fazem o espectador se perguntar se ele sabia que estava atuando ou se simplesmente estava sendo ele mesmo. Seu prêmio no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI) e a Menção Honrosa no Festival de Gramado são completamente merecidos. Lázaro Ramos, muito distante dos Foguinhos e Roques que ajudaram a consolidá-lo como um dos grandes nomes do cinema e da televisão brasileiros, encontra a força de Batista na contenção: no maxilar travado, na testa franzida, na postura rígida de quem aprendeu a esconder tudo aquilo que sente. Já Teca Pereira atravessa diferentes Dilmas dentro da mesma personagem: há a mulher apaixonada pela vida, a avó cúmplice, a mãe enlutada e, aos poucos, a pessoa que convive com a agonia de uma memória que começa a lhe escapar. 


Mas, com todo respeito aos veteranos, quem rouba a cena mesmo é o elenco infantil. Há uma sequência, logo depois de um dos momentos mais tensos do filme, em que as crianças assumem brevemente o controle da narrativa, no momento mais divertido do longa. A sequência funciona porque não tenta fabricar uma piada para aliviar a tensão: o humor nasce da lógica própria daquele universo infantil, de sua capacidade quase indecente de transformar qualquer situação séria em brincadeira. É uma pequena e poderosa demonstração de como Feito Pipa entende que criança não é sinônimo de ingenuidade passiva. 


Eu diria que o ponto alto da direção de Allan Deberton está justamente em como ele soube aproveitar o elenco jovem sem infantilizar a narrativa. A presença das crianças injeta frescor em uma história que poderia facilmente cair em um dramalhão piegas. Em vez disso, encontra um equilíbrio delicado entre a dor e a leveza, especialmente no ritmo da montagem. O filme dá tempo para que cada sentimento apareça, seja contemplado e amadureça, mas nunca se demora tanto a ponto de transformar melancolia em peso. Quando parece que a tristeza vai tomar conta, uma piada, uma dança ou uma pequena desobediência infantil abre uma fresta de luz.


É também nesse equilíbrio que o contraste mais bonito do filme se constrói: de um lado, a pobreza material de um sertão semiárido, marcada por limitações concretas; do outro, a abundância quase inesgotável da imaginação infantil. Gugu pode ter pouco, mas seu mundo é enorme. Há música, dança, amigos, brilho, futebol, sonhos e uma avó que lhe ensina que existir não precisa ser uma coisa pequena. 


No fim, Feito Pipa é um filme sobre o que nos mantém no ar e sobre aquilo que nos puxa de volta para o chão. Sobre as raízes que recebemos sem escolher, os caminhos que tentamos abrir para quem vem depois e as coisas que inevitavelmente deixamos pelo caminho. Gugu aprende cedo demais que até quem nos ensinou a voar pode, um dia, precisar que a gente segure a linha.


Não sei usar outro adjetivo para Feito Pipa além de “lindo”. Talvez “agridoce” caiba – um agridoce delicioso. 


Feito Pipa estreia nos cinemas brasileiros dia 5 de novembro, e merece ser visto por todas as famílias.


Nota: 4.5/5


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