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Entrevista | Diretores de “A Flor do Buriti” falam da temática indígena no longa e de Cannes

Vinicius Oliveira

08 de jul de 2024 · 3 min de leitura

Renée Nader Messora e João Salaviza conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca?

Foto: Divulgação


Chegou aos cinemas na última quinta-feira (04) o filme A Flor do Buriti , codirigido por Renée Nader Messora e João Salaviza. Filmado durante um período de 15 meses, o longa narra a luta do povo indígena Krahô pela sua terra no norte do Tocantins ao longo de três épocas — 1940, 1969 e o presente — que se entrecruzam. Exibido em diversos festivais internacionais, o filme conquistou o prêmio de Melhor Elenco na Mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, em 2023.


Em entrevista exclusiva ao Oxente, Pipoca? , os diretores falaram um pouco mais sobre a escolha de levar às telas a história dos krahô e o processo de construção do filme. Para Renée, a relação com o povo começou ainda em 2010, quando ela participou de uma equipe que gravou uma das festividades krahô na aldeia. O momento permitiu que ela conhecesse jovens indígenas interessados no ofício cinematográfico, e daí nasceram oficinas audiovisuais voltadas para edição, fotografia e outros tópicos.


O trabalho com as oficinas eventualmente instigou o desejo de trabalhar na produção de um longa-metragem, mas para Renée isso significava pensar um novo fazer cinematográfico. “Trabalhar com essa comunidade obrigou a gente a desaprender tudo que tínhamos aprendido na escola de cinema. Então a gente teve que inventar um modelo de produção que se adaptasse àquele contexto, àquelas pessoas, porque eu acho que ainda era um filme que estava muito preso numa certa forma de narrar que é clássica, onde a gente vai acompanhar o percurso de um herói, apesar de tratar de uma subjetividade indígena”, relatou ela.

Foto: Divulgação


Renée considera que a espinha dorsal de A Flor do Buriti é a relação dos krahô com a terra, relação esta atravessada historicamente pela violência. Ela destaca inclusive a vontade da comunidade em falar a respeito de um massacre realizado na década de 1940 contra a população krahô por latifundiários. Tal massacre quase poderia ter resultado na extinção deste povo, já que muitas das vítimas foram mulheres grávidas e crianças.


No que se refere à vitória de A Flor do Buriti na Mostra Un Certain Regard em Cannes, João considera de tremenda importância o fato do maior festival de cinema do mundo ter exibido um longa-metragem cujo idioma principal é falado por cerca de apenas 4000 pessoas atualmente — um número que já foi significativamente menor, inclusive. “Esse lugar é incrível porque numa mesma sala pôde ser exibido o novo filme de [Martin] Scorsese e um filme como este, que foi feito por uma microequipe de cinco pessoas numa comunidade indígena, foi feito de forma antagônica ao que os editais exigem, sem essa estrutura corporativista do cinema”, destacou ele.


O diretor afirma que isso só aconteceu porque os krahô não apenas tiveram uma presença muito intensa na construção do filme, mas se apropriaram das possibilidades dele para saírem pelo mundo e utilizá-lo como uma arma de denúncia e resistência. Para ele, ver o longa ser exibido em outros países como França, Suíça, Equador, Argentina e também na Ásia mostra a capacidade deste povo de levarem sua história pelo mundo e se fazerem serem vistos e ouvidos, evidenciando o potencial do cinema para se construir outras narrativas que vão de encontro à historiografia hegemônica no Brasil.

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Entrevista | Diretores de “A Flor do Buriti” falam da temática indígena no longa e de Cannes

8 de jul. de 2024
3 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

Renée Nader Messora e João Salaviza conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca?

Foto: Divulgação


Chegou aos cinemas na última quinta-feira (04) o filme A Flor do Buriti , codirigido por Renée Nader Messora e João Salaviza. Filmado durante um período de 15 meses, o longa narra a luta do povo indígena Krahô pela sua terra no norte do Tocantins ao longo de três épocas — 1940, 1969 e o presente — que se entrecruzam. Exibido em diversos festivais internacionais, o filme conquistou o prêmio de Melhor Elenco na Mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, em 2023.


Em entrevista exclusiva ao Oxente, Pipoca? , os diretores falaram um pouco mais sobre a escolha de levar às telas a história dos krahô e o processo de construção do filme. Para Renée, a relação com o povo começou ainda em 2010, quando ela participou de uma equipe que gravou uma das festividades krahô na aldeia. O momento permitiu que ela conhecesse jovens indígenas interessados no ofício cinematográfico, e daí nasceram oficinas audiovisuais voltadas para edição, fotografia e outros tópicos.


O trabalho com as oficinas eventualmente instigou o desejo de trabalhar na produção de um longa-metragem, mas para Renée isso significava pensar um novo fazer cinematográfico. “Trabalhar com essa comunidade obrigou a gente a desaprender tudo que tínhamos aprendido na escola de cinema. Então a gente teve que inventar um modelo de produção que se adaptasse àquele contexto, àquelas pessoas, porque eu acho que ainda era um filme que estava muito preso numa certa forma de narrar que é clássica, onde a gente vai acompanhar o percurso de um herói, apesar de tratar de uma subjetividade indígena”, relatou ela.

Foto: Divulgação


Renée considera que a espinha dorsal de A Flor do Buriti é a relação dos krahô com a terra, relação esta atravessada historicamente pela violência. Ela destaca inclusive a vontade da comunidade em falar a respeito de um massacre realizado na década de 1940 contra a população krahô por latifundiários. Tal massacre quase poderia ter resultado na extinção deste povo, já que muitas das vítimas foram mulheres grávidas e crianças.


No que se refere à vitória de A Flor do Buriti na Mostra Un Certain Regard em Cannes, João considera de tremenda importância o fato do maior festival de cinema do mundo ter exibido um longa-metragem cujo idioma principal é falado por cerca de apenas 4000 pessoas atualmente — um número que já foi significativamente menor, inclusive. “Esse lugar é incrível porque numa mesma sala pôde ser exibido o novo filme de [Martin] Scorsese e um filme como este, que foi feito por uma microequipe de cinco pessoas numa comunidade indígena, foi feito de forma antagônica ao que os editais exigem, sem essa estrutura corporativista do cinema”, destacou ele.


O diretor afirma que isso só aconteceu porque os krahô não apenas tiveram uma presença muito intensa na construção do filme, mas se apropriaram das possibilidades dele para saírem pelo mundo e utilizá-lo como uma arma de denúncia e resistência. Para ele, ver o longa ser exibido em outros países como França, Suíça, Equador, Argentina e também na Ásia mostra a capacidade deste povo de levarem sua história pelo mundo e se fazerem serem vistos e ouvidos, evidenciando o potencial do cinema para se construir outras narrativas que vão de encontro à historiografia hegemônica no Brasil.

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