top of page
Background.png

Entrevista | “O cinema é o que a gente quiser que seja. Precisamos destruir essa ideia de que o que é popular não é bom”: Gabriela I. Gaia fala sobre Revelação

Foto do escritor: Giulia Meneses
Giulia Meneses
há 1 hora
9 min de leitura

O terceiro curta da trilogia da diretora carioca comercializa o ritual do Chá Revelação e aprofunda questões como gênero e pertencimento.


Divulgação


Entre os destaques do 54º Festival de Cinema de Gramado, o curta-metragem Revelação, da diretora Gabriela I. Gaia, apresenta uma divertida discussão sobre identidade e descobrimento, enquanto satiriza tradicional cerimônia em que os pais e convidados descobrem o sexo do bebê que vai nascer. A trama acompanha uma câmera, e cinco personagens peculiares que se preparam para um chá revelação, transformando o momento em um dilema sobre identidade e pertencimento. 


É a partir de toda essa mistura que o filme constrói uma comédia afiada sobre performance, raça, gênero e pertencimento no Brasil contemporâneo, transformando a celebração íntima em uma sátira bem-humorada sobre a vida performada nas redes. Revelação é o terceiro curta da chamada Trilogia do Encontro, composta por Afeto (2019), codirigido com Tainá Medina, e Escasso (2022), codirigido com Clara Anastácia e vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival do Rio. 


Este ano, o filme estreou na Mostra Competitiva de Curtas-Metragens do 54º Festival de Cinema de Gramado, em 20 de agosto, com a presença especial de toda a equipe e do elenco. O curta também integrou a programação do 37º Festival Internacional de Curtas de São Paulo – Kinoforum e do Festival do Rio 2026. 


Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora falou sobre o processo de criação do filme, nascido do encontro com o ator Lorre Motta, e sobre como o boom dos chás de revelação nas redes sociais serviu de ponto de partida para uma história em que ninguém é exatamente bom ou mau. Gabriela também comentou o uso da câmera como elemento narrativo e a escolha por uma linguagem popular e heteronormativa, próxima da TV aberta. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Como nasceu a ideia de comercializar o Chá Revelação (na verdade, a gente já faz um pouco disso) e transformá-lo em um cenário para discutir raça, gênero e identidade?


Gabriela I. Gaia: Eu acho que, como cineasta, toda vez que a gente faz um filme, sobretudo um filme como esse, ou como o Escasso, meu filme anterior, ou mesmo o Afeto, que é o primeiro da trilogia e ficou pronto em 2019, é um tiro no escuro. O Revelação é o terceiro filme de uma trilogia. Então, de alguma forma, ele é a culminação do que eu vinha experimentando desde o Afeto, um filme em que eu tensionava as questões de gênero e de planejamento público. Eu falava sobre arquitetura e ocupação feminina do espaço público a partir de um documentário experimental. Depois, quando a Clara Anastácia me chamou para fazer o Escasso, ela me apresentou o poder do riso e como ele consegue contagiar e construir discursos extremamente políticos, mas não necessariamente politizados.


Esse é um filme que fala sobre festa e que nasceu de forma muito despretensiosa. A leveza com que o projeto veio ao mundo também se transmite na tela: a leveza com que a gente consegue abordar temas tão sérios e que, em última instância, ferem e matam pessoas de gênero dissidente, pessoas postas à margem da sociedade. O filme nasce de um encontro meu com o Lorre Motta, que é o protagonista e um ator transmasculino. A gente se encontrou no Festival de Tiradentes, em 2023. Eu estava com o Escasso e ele estava com outro filme de uma galera super legal do Rio; nesse caso específico, o filme do Lorran Dias.


A gente acabou voltando junto. Ficamos aquelas cinco horas num espaço de extrema intimidade, que é um carro, com duas pessoas. A gente não se conhecia, embora os dois sejamos cariocas e pessoas que fazem cinema periférico, mas viéssemos de subúrbios e periferias muito distintos e de convivências muito distintas. Começamos a pensar: e se a gente fizesse um filme juntos? O que a gente faria? Talvez algo menos ancorado nas nossas proximidades e mais nas nossas diferenças. E como criar uma história debochada, crítica e que também gozasse tanto da opressão quanto da vida?


Tem esse lugar da celebração, da festa, que era muito importante para a gente e para as nossas famílias, onde fomos criados, e que a gente queria trazer para a tela. Então começamos a conversar e entendemos que existia esse interesse em comum: o dele, como ator e pessoa transmasculina sempre chamada para fazer personagens de drama, como se a comédia não pudesse carregar a sua crítica social e o seu poder de mudança. E eu, como diretora, fui provocada por ele: "Então, vamos fazer um filme de comédia?" E aí chegamos a esse lugar em comum.


A gente adorava ver vídeos na internet de chás de revelação que deram errado. Tem uma coisa que a gente quis trazer na concepção do filme. E, quando digo "a gente", é porque eu chamo esse filme de o terceiro da trilogia do encontro. Começou com Afeto, depois Escasso. São filmes que nascem justamente dessa fricção, desse desejo, com atores que me instigam a pensar propostas de filmes. Então, não dá para pensar em Revelação sem pensar nessa teia de talentos que eu costurei para fazer essa festa acontecer.


Quando começamos a pensar Revelação, começamos a pensar no que esse boom dos chás de revelação revelava sobre a nossa sociedade contemporânea. E a entender como a festa, que é um elemento fundamental para a sociabilidade das periferias do Brasil, estava sendo usada, de alguma forma, para reforçar padrões retrógrados. Comecei a pesquisar e entendi que os chás de revelação são um ritual que surgiu nos anos 2010, nos Estados Unidos e, como a gente adora copiar uma mania dos Estados Unidos e elevá-la à máxima potência, fizemos isso com maestria. É um ritual muito ligado à dinâmica das redes, né? O importante não é celebrar uma vida, é celebrar uma revelação, uma informação que só você tem sobre esse bebê que vai vir ao mundo. E construir um espetáculo que seja televisionado, no caso filmado, gravado, e que gere curtidas.


E aí você vai desde as famílias pequenas, como a minha, em que tive o primeiro contato com o evento de chá de revelação, que foi a festa da minha sobrinha, no play do nosso condomínio, um conjunto habitacional na Tijuca, onde eu nasci e cresci. De repente, eu estava chorando aos prantos, vendo a minha prima, que tem a mesma idade que eu, estourar a caixa de um balão de onde saiu fumaça rosa. Então tive essa experiência pessoal, mas recentemente teve também o chá de revelação do Neymar, do Endrick, da Ludmilla, e todo esse balaio foi entrando na construção de um filme que não é sobre a festa, mas sobre a preparação de uma festa. E, mais do que isso, sobre o jogo de interesses entre todas as pessoas envolvidas.


Então, eu acho que é um filme sobre o desejo de celebrar, mas também sobre o perigo de celebrar sem se questionar o porquê. Nesse balaio, a gente coloca o lugar da tokenização, uma branquitude muito ávida por captar identidades e se manter no poder. Coloca esse casal de influenciadores que querem dar o melhor para o filho, mas também querem monetizar em cima dessa gravidez. Coloca o próprio Cris, que a gente tentou construir não só como o bonzinho, mas como uma pessoa que escolhe ficar pela grana nesse ritual com o qual não concorda moralmente.


Nosso interesse era construir uma história em que ninguém fosse exatamente bom ou mau. Por isso a gente fala de um filme que se passa nos anos de surto, que são os nossos anos, o momento em que vivemos. Acho que é um pouco isso.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Os personagens são bem diferentes, né? Além da celebração em si, o título Revelação carrega vários sentidos. Queria saber como eles se relacionam com o que os personagens estão revelando ao longo do curta.


Gabriela I. Gaia: Nossa brincadeira com o título, para além do chá de revelação, é que a revelação do sexo do bebê, no filme, é o que menos importa. O que a gente está mais interessado em revelar são justamente essas dinâmicas de poder. E fomos desdobrando isso para cada um dos personagens. Temos o Cris, essa pessoa não binária que está sendo usada como token pela agência, sem saber. De alguma forma, a presença dele é o grande catalisador que revela as tensões entre todos os personagens.


Temos a Adriana, que eu sempre apresento como uma branca sem noção, mas que muitas vezes tem muita noção, né? Ela tem consciência dos absurdos que propaga ou da forma como capitaliza em cima da identidade alheia. As Adrianas estão por aí, nos nossos mundos, muito mais perto do que a gente gostaria de admitir, e, sobretudo, em nós. Então, a Adriana também revela a branquitude, a cisgeneridade e como esses sistemas de captura operam.


Temos a Carla, a suposta amiga do Cris, que também está completamente envolvida nessa trama com a tia. Ela revela um pouco esse jogo de interesses. E há uma segunda trama que, por ser um curta, a gente não consegue aprofundar tanto, mas que me interessa muito: a relação pregressa da Fernanda, que é a grávida, com o Cris. Acho que ele fica ali um pouco para tentar conseguir uma grana, mas, quando encontra a cliente, de fato, algo acontece para os dois. Talvez essa seja a revelação que mais me interessa: a revelação de dois ex-colegas. A gente deixa em aberto qual era a relação que eles tinham antes, mas que se vê em cada um, à sua forma: ele transicionando, ela prestes a parir, com o corpo mudando de forma. E tentando entender o que essas transformações corporais revelam sobre eles ou sobre as escolhas que tomaram.


E temos ainda o Roger, esse homem negro que está tentando ser o melhor pai e o melhor marido, mas que também está completamente envolvido nessa masculinidade extremamente tóxica. Acho que ele revela um pouco desse binarismo também. Ele joga junto com a Adriana e a Carla nesse lugar do binarismo, de reforçar se o bebê é menino ou menina, de criar essa tensão em cada um dos espectadores.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Uma coisa muito legal também é o jogo de câmera, que tem um papel fundamental em toda a narrativa. O que muda quando os personagens sabem que estão sendo filmados? Há algo que quebra a quarta parede. Como essa escolha contribui para falar sobre identidade e sobre aquela performance? Porque é tudo uma performance.


Gabriela I. Gaia: Cara, você sabe que isso me interessa muito. Não tenho uma resposta pronta, porque acho que é uma investigação em curso. Mas revelar a presença da câmera numa cena é algo que eu venho investigando desde o Afeto, cada um à sua forma. No Afeto, a gente tinha uma câmera extremamente performática, que levava o espectador a se sentir dentro de uma rua vazia ou de uma rua cheia, com essa claustrofobia, essa insegurança.


No Escasso, a gente tinha esse cameraman, que tinha um jogo muito grande com a protagonista. E tinha essa diretora, que era muito fã dela e que, a todo momento, era dirigida pela personagem. Mas ele era um interlocutor, o que é diferente do Revelação, porque era um interlocutor de intimidade, já que estávamos falando de um cameraman, que era um homem negro, e de uma personagem filmada, que era uma mulher negra. Então, ela estabeleceu uma cumplicidade com a câmera e uma oposição à diretora.


Agora, no Revelação, essa câmera é meio dúbia para capturar a imagem do Cris. Ela não é necessariamente amiga do Cris, não é uma câmera amigável com ele. Ela é uma câmera de captura. Mas, ao mesmo tempo, diante dos absurdos, o Cris vai jogando com essa câmera. Por exemplo, no roteiro do filme, sobretudo nos ensaios, sempre tentei estabelecer essa câmera de modo que o personagem Cris, o protagonista, duvidasse dela, porque só tem ela como escape, até que aparece o bebê e eles começam a se conectar.


O que está me deixando muito feliz com a recepção desse filme é que eu experimentei, com a câmera em Revelação, uma linguagem extremamente heteronormativa e, portanto, comercial. É uma linguagem que se assemelha muito às séries de TV norte-americanas e às séries infantis que eu e muitas crianças suburbanas víamos na TV aberta. Isso me deixou muito animada. Foi uma grande experimentação para mim e para toda a minha equipe, que é majoritariamente queer, racializada e periférica. Foi muito divertido tentar fazer a norma. Mas a minha maior insegurança era como o público receberia isso. Conforme a gente vai adentrando os espaços de cinema, entende que existe uma linguagem lida como cinematográfica e uma linguagem lida como menor, menos importante. E essa linguagem, em geral, é o que entendemos como linguagem popular.


Então, se você está fazendo um filme com uma linguagem que dialoga, flerta com as telenovelas, com a televisão aberta, em geral ele é percebido como menor, como não digno de ser classificado como cinema. Essa era uma insegurança nossa. Cheguei a ouvir isso de alguns amigos quando mostrava o corte em processo: "Ah, legal, mas poderia ser um programa que ia estar na TV." E eu tenho reivindicado muito isso. Falei disso quando ganhamos os prêmios em Gramado: o cinema é o que a gente quiser que seja. E acho que a gente precisa destruir essa ideia de que o que é popular não é bom, de que o erudito é o que é europeu, o que passa no festival internacional, o que está longe da gente, das nossas famílias suburbanas. É lindo ver como as pessoas têm se afeiçoado ao filme, mesmo com uma linguagem que ousa brincar com a cisgeneridade dentro da cinematografia.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Para finalizar, sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem três produções brasileiras para o nosso público.


Gabriela I. Gaia: Acho que a primeira de todas é Adirley Queirós. Eu traria o último filme dele, Mato Seco em Chamas. Eu amo de paixão. Ele parte de uma premissa fantástica para falar sobre a realidade em que vive, a mesma que as pessoas do lugar onde ele mora experienciam. Então, eu começaria pelo Adirley. Tem também um curta. Estou começando agora a entender o que está passando nessa safra, então não vou me comprometer tanto com ela; vou falar mais do que consumi nos últimos tempos. Chama-se Remendo, e a cineasta é a Gegê Facolodei, do Espírito Santo. Acho que é uma galera que está fazendo um cinema queer incrível.


LEIA TAMBÉM NO SITE:

FILMES BRASILEIROS DE 2026

bottom of page