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Entrevista | “Todo mundo torce para um time e para o Zico também”: João Wainer fala sobre 'Zico, O Samurai de Quintino'

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura

Diretor comenta o desafio de retratar um dos maiores ídolos do futebol brasileiro e explica por que o filme vai além do esporte para falar sobre valores, memória e coletividade.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O documentário Zico, O Samurai de Quintino, dirigido por João Wainer, revisita a trajetória de Zico, um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro. Do subúrbio carioca aos gramados internacionais, o filme percorre a carreira do jogador ao mesmo tempo em que busca entender o homem por trás do ídolo.


Em cartaz nos cinemas, a produção aposta em um olhar que vai além das quatro linhas, explorando temas como disciplina, família, respeito e coletividade. Com vasto material de arquivo e um trabalho técnico cuidadoso, o documentário constrói uma experiência que dialoga tanto com fãs de futebol quanto com quem pouco acompanha o esporte.


Na conversa a seguir, João Wainer fala sobre o processo de construção do filme, as escolhas narrativas e o impacto de revisitar a história de um personagem que ultrapassa rivalidades.


Confira na íntegra:


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): É um prazer falar com você. Eu assisti ao filme no início da semana passada e gostei bastante. Uma coisa que me chamou atenção, inclusive conversando com colegas e familiares, é como o Zico é um personagem que ultrapassa a torcida do Flamengo. Muita gente que nem acompanha futebol ainda tem uma relação com ele. Como foi, para você, dar luz a tantos aspectos da vida dele com esse olhar no documentário agora nos cinemas?

João Wainer: Eu acho que o Zico, na verdade, é a maior torcida do Brasil. Não é o Flamengo, não é o Corinthians. Todo mundo torce para um time e para o Zico também. Eu brinco que falo que sou “ziquense”, porque eu não sou flamenguista, eu sou santista. Mas eu sou ziquense.

Então eu entendi que o Zico é isso mesmo, está acima de qualquer rivalidade, de qualquer clubismo. Todo mundo gosta do Zico.

E foi muito legal fazer esse filme e perceber que pessoas que não torcem para o Flamengo, que não gostam de futebol, se conectam com ele de algum jeito. Porque tem uma coisa ali que não é só sobre futebol. É sobre família, amor, respeito, várias outras coisas que vão além.

O futebol está lá, claro, mas a gente tentou trazer esse Zico mais humano, esse cara que pensa no outro, que tem um olhar coletivo. Porque, para entender o atleta, a gente precisava entender esse cara.

Muitos documentários focam só no esportivo. Quando você traz esse lado, você entende por que o atleta é daquele jeito.

Eu sempre cito uma frase do começo do filme, quando ele diz que está há 60 anos no futebol e nunca perdeu um voo. Isso fala muito mais sobre ele do que qualquer estatística. Mostra o comprometimento, o respeito pelos outros.

E é bonito ver como dá certo você ser uma pessoa que pensa no outro. Por mais talentoso que você seja, isso não costuma dar errado.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa que me chamou atenção foi essa filosofia dele, especialmente no período no Japão, que aparece no título, O Samurai de Quintino. O que motivou destacar esse lado?

João Wainer: É porque a gente entendeu que o Zico é a mistura desses dois elementos.

Desse elemento do talento, da criatividade, do improviso, com a disciplina, o senso de coletivo, a resiliência que o japonês tem.

Então acho que o “Samurai de Quintino” resume bem quem o Zico é. Porque ele tem a disciplina de um samurai e a criatividade e o talento do subúrbio do Rio de Janeiro.

E o mais curioso é que isso meio que aconteceu sem querer. A gente já tinha o título antes de entender completamente isso.

Quando a gente entendeu que fazia sentido, ficou mais legal ainda.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Teve alguma parte do processo que foi mais difícil do que você esperava?

João Wainer: Não, muito difícil eu não diria, não.

Eu já fiz bastante coisa, então eu já não me assusto tanto com o documentário. Eu já conheço bem o processo.

O que teve foram surpresas boas. Porque, normalmente, quando você se aproxima de um ídolo, você se decepciona um pouco, né? Você descobre que o cara é um ser humano.

E com o Zico foi o contrário. A gente foi se apaixonando cada vez mais por ele, entendendo cada vez mais o jeito dele de lidar com a vida, com as coisas. Então foi muito legal nesse sentido. A surpresa foi positiva, não teve uma dificuldade negativa.

Talvez a maior dificuldade tenha sido lidar com tanto material e fazer uma história tão grande caber em uma hora e quarenta.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O Zico tem muitos registros ao longo da carreira. Como foi o processo de selecionar o que entraria no filme?

João Wainer: É melhor sobrar material do que faltar. Melhor você deixar coisa boa de fora do que não ter coisa boa para colocar.

A gente trabalhou com muita coisa, muito arquivo, muito arquivo legal, muita coisa mesmo. Então valeu muito, porque ele tinha um material muito grande. E a Sandra também foi muito importante, porque ela guardou muita coisa. Tem coisa que só está no filme porque ela guardou.

Senão, por mais que existisse, a gente não ia conseguir encontrar. Então foi meio por aí.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A gente tem visto uma onda de documentários celebrando figuras ainda em vida. Isso influenciou a decisão de fazer o filme agora?

João Wainer:  Acho que a gente não pensou nisso, não, de fazer com ele em vida ou não.

Até porque o Zico ainda tem muita lenha para queimar. Ele nunca parou.Eu tenho brincado que a missão do Zico não era só jogar bola. A missão dele é levar essa palavra, esse espírito, essa postura de vida.

Ele é quase um pastor nesse sentido, de levar essa forma de enxergar o mundo.

Eu queria muito que as novas gerações prestassem atenção nisso.

Porque ele era um jogador extremamente talentoso, mas era o primeiro a chegar no treino, o último a sair, pensava no coletivo, voltava para marcar, não tinha estrelismo, não tinha frescura.

Ele fazia todo mundo crescer junto com ele. Não pisava na cabeça de ninguém para crescer.

Então acho que ele é muito essa referência para as próximas gerações.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como você espera que o filme ressoe no público? E, para fechar, queria uma indicação de filme ou série brasileira.

João Wainer: Eu recomendo muito Cangaço Novo, que acabou de lançar a segunda temporada.

Eu adoro essa série, acho impressionante a profundidade, os atores, tudo. Para mim, é uma das melhores séries brasileiras já feitas.

E deixo o convite para as pessoas irem ao cinema assistir Zico, O Samurai de Quintino.

É um filme que merece muito ser visto na tela grande, porque a gente fez um trabalho de som muito especial. A gente gravou os instrumentos da torcida em canais separados, para espalhar pelo cinema, criar essa sensação imersiva, com som vindo de diferentes lados, aquela coisa do 7.1.

A gente regravou gritos de guerra antigos e trabalhou as imagens de arquivo com novas tecnologias. Então você vê imagens que antes eram pequenas com uma qualidade muito maior.

É uma experiência que faz o cinema parecer um estádio. Tem coisas ali que até o próprio Zico se surpreendeu quando viu.



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