Entrevista | “O filme é uma mitologia baseada nesses fragmentos de memória”: Akinola Davies, Duval Timothy e CJ Mirra falam sobre “A Sombra do Meu Pai”
- Vinicius Oliveira

- há 2 dias
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Diretor e compositores têm viajado pelo Brasil para promover o filme, que será exibido em 20 cinemas pelo país entre abril e junho.

Divulgação
Agraciado com a Menção Honrosa do júri da Caméra D’Or no último Festival de Cannes, o filme nigeriano A Sombra do Meu Pai, que estreou na 49ª edição da Mostra de São Paulo, agora chega ao circuito comercial de cinemas do Brasil, onde será exibido em 20 cinemas entre abril e junho. Para promovê-lo, seu diretor Akinola Davies Jr. retornou ao país após estar presente no lançamento do filme durante a Mostra – ocasião em que foi entrevistado pelo Oxente Pipoca, como você pode conferir aqui. Desta vez ele passou por Recife, Salvador e São Paulo para as sessões de pré-estreias, sendo acompanhado dos compositores do longa, Duval Timothy e CJ Mirra. A estreia, que ocorrerá na próxima quinta (30), faz parte do Ano Cultural Brasil/Reino Unido, temporada realizada pelo British Council, em parceria com o Instituto Guimarães Rosa (IGR), e conta com o apoio do Governo do Reino Unido e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Ambientado na Nigéria de 1993, A Sombra do Meu Pai conta com elementos autobiográficos conforme acompanha os irmãos Olaremi “Remi” (Chibuike Marvelous Egbo) e Akinola “Aki” (Godwin Egbo) em uma jornada por Lagos com o pai distante Folarin (Ṣọpẹ́ Dìrísù) em meio às tumultuadas eleições daquele ano no país, que precederam um golpe de estado armado pelas forças militares nigerianas. O filme marcou a estreia de Akinola Davies Jr. na direção de longas-metragens e foi corroteirizado por ele e seu irmão Wale Davies. Além da Menção Honrosa do júri da Caméra D’Or, o filme também ganhou o BAFTA de artista revelação em roteiro, direção ou produção, além do Prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional na Mostra de SP. Você pode conferir a crítica dele aqui.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar mais uma vez Akinola Davies Jr., além de entrevistar Duval Timothy e CJ Mirra. O diretor falou sobre as escalações de Ṣọpẹ́ Dìrísù e dos irmãos Chibuike Marvelous Egbo e Godwin Egbo, do trabalho delicado de equilibrar elementos autobiográficos e ficcionais no filme e de como tem sido a recepção por parte do público brasileiro. Já os compositores discutiram o trabalho da trilha sonora e das músicas para a atmosfera metafísica e onírica da obra. Você pode conferir as entrevistas abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Akinola, queria dizer que é um prazer poder te entrevistar novamente após termos nos encontrado na Mostra de SP. Revi o filme para essa nova entrevista e saltou muito aos meus olhos a potência do vínculo entre Folarin e seus filhos. E muito disso vem da escalação certeira de Ṣọpẹ́ Dìrísù e sobretudo de Godwin Chiemerie Egbo e Chibuike Marvellous Egbo. Como foi o processo de encontrá-los – principalmente os meninos, que são irmãos na vida real – e trabalhar com eles para dar vida aos personagens?
Akinola Davies Jr: É bom te ver de novo. Sim, agradeço muito o reconhecimento de como a relação e o vínculo entre Ṣọpẹ́ e os meninos são fantásticos. Com Ṣọpẹ́ foi bem fácil. Começamos a fazer uma lista de quem poderia ser o pai, e logo no início, acho que percebemos que precisávamos de alguém com uma estatura imponente e forte fisicamente, mas que também fosse capaz de interpretar esse papel tão delicado. Eu vi Ṣọpẹ́ em um filme chamado His House [O Que Ficou Para Trás], dirigido por outro diretor incrível chamado Remi Weekes, e soube que ele seria capaz de fazer uma interpretação muito emocionante.
Então, nos encontramos em um parque e passamos talvez umas duas horas juntos, conversando sobre tudo, e eu percebi rapidamente que ele era alguém com quem eu queria passar algum tempo. Passamos por uma situação bem constrangedora com um rapaz no parque, e o Ṣọpẹ́, de forma muito compreensiva, soube lidar com a situação, e eu percebi que a empatia dele pelas pessoas, naquele momento, era enorme.
Então, fizemos uma audição com ele e acho que, desde a audição, já sabíamos que não queríamos ver mais ninguém. E também o Ṣọpẹ́ chegou para o papel com muitas inseguranças, devido à sua ascendência nigeriana, mas ele não passou muito tempo na Nigéria. Então, acho que o fato de ele querer embarcar nessa jornada, testar a si mesmo e enfrentar suas inseguranças e medos foi muito importante para o personagem.
A busca pelos meninos foi um pouco mais demorada. Nós fomos para a Nigéria uns quatro ou cinco meses antes de começarmos a filmar, procurando por garotos. Não estávamos necessariamente procurando irmãos, só queríamos garotos que soubessem atuar. Encontramos vários garotos com perfis diferentes. Alguns eram muito bons, outros ainda precisavam se aperfeiçoar, e achei que talvez tivesse encontrado dois garotos. Eles não combinavam muito como irmãos, mas pensei: “talvez a gente consiga contornar isso”.
Além disso, eu tinha feito um workshop de atuação talvez um ano antes, apenas para tentar entender melhor os atores, e gostei muito. Então, eu sabia que queria convidar o instrutor para vir ministrar um workshop na Nigéria. Para esse workshop, convidamos os meninos que eu tinha encontrado e também fizemos uma seleção por vídeo para outros meninos, a fim de chegar a um total de 20 participantes; e, nessas gravações, os irmãos [Egbo] estavam presentes.
Eu não sabia que eles eram irmãos. No primeiro dia, foram identificados erroneamente, mas eram muito carinhosos, muito gentis um com o outro, e eu não sabia que eram irmãos, mas pensei: “Tem algo muito interessante acontecendo aqui”. No dia seguinte, cortamos 10 dos garotos, e os outros 10 voltaram no segundo dia, e então percebemos que eles eram irmãos de verdade. Acho que toda a equipe de produção ficou muito animada, porque a química que se tem com irmãos é algo muito difícil de fabricar ou recriar com atores. Mas a mãe deles é atriz e roteirista, então eles se lembravam muito bem dos diálogos. Eles não atuaram muito bem, mas se lembravam muito bem dos diálogos. Minha equipe disse que precisávamos escolher esses meninos; eles eram irmãos de verdade e muito parecidos, e isso funcionava em vários níveis.
Também preciso dizer que, embora tivéssemos treinadores de atuação para os meninos, o Ṣọpẹ́ foi um fator muito importante para eles. Ele era realmente o pai deles, tanto nas telas quanto fora delas, realmente os orientou. Ele conseguiu extrair ótimas atuações deles ao lado dele, e acho que foi justamente a qualidade do elenco que montamos que fez com que todos realmente soubessem o que estávamos fazendo, acreditassem nisso e se sentissem seguros o suficiente para dar boas atuações. Então, sim, tive muita, muita sorte em encontrar os meninos, mas também muita sorte em ter alguém como ele [Ṣọpẹ́] a bordo.

Créditos: Mario Miranda Filho
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Na nossa outra entrevista você comentou que fazer o filme ajudou você e seu irmão Wale a questionar a perda do seu pai, e que vocês fizeram a conexão dessa perda pessoal com o cenário político da época na Nigéria. E eu estava vendo que seu curta-metragem anterior, Lizard, também mescla uma situação real sua com elementos fantásticos, então me parece ser uma marca do seu trabalho. Como foi construir esse equilíbrio delicado entre os elementos autobiográficos com os ficcionais em My Father’s Shadow? O quanto do seu pai há na figura de Folarin e o quanto você diria que é uma criação específica para o filme?
Akinola Davies Jr: Essa é uma pergunta difícil, Vini. Eu diria que muito do nosso pai, muitas das características do nosso pai, estão no filme: como ele era, como as pessoas falavam sobre eel. Quando estávamos na rua, foi assim que tentamos criar esse personagem, quando ele encontra pessoas na rua, como as pessoas falam sobre ele, como sentem sua falta, como elas falam sobre as coisas que ele fez por elas, o jeito como a mãe dos meninos o ama e o jeito como ele a ama; isso é exatamente o tipo de história que ouvimos sobre nosso pai.
Acho que essas histórias também criam essa imagem dele como um super-herói. Então, para os meninos, queríamos que ele parecesse esse personagem grandioso que, no começo, talvez seja bem durão, mas que, no final, vai ficando cada vez mais gentil. E, além disso, acho que eu e meu irmão – eu tenho outro irmão e uma irmã –, todos nós temos características dos nossos pais. E acho que, muitas vezes, quando fazemos algo, dizemos algo ou nos vestimos de uma certa maneira, todo mundo fica: “ah, isso nos lembra seu pai”.
Então, sim, muito do nosso pai foi incorporado ao Folarin; grande parte da imagem do nosso pai está presente no Folarin. Muitas das histórias, como a do irmão do meu pai que se afogou — foi por isso que meu irmão recebeu o nome dele —, e a dos nossos avôs, de ambos os lados, que tinham muitas esposas. Então, essa é a verdadeira história. Algumas das histórias do filme reproduzem as que nos contavam quando éramos crianças.
E quanto à política, nossos pais eram muito instruídos, muito conscientes de si mesmos e muito engajados politicamente. Meu avô foi muito proeminente no movimento pela independência da Nigéria. Ele era sindicalista, um advogado de muito sucesso, era uma figura social em Lagos. Então, muitos desses aspectos, especialmente os políticos, estão muito enraizados na nossa família. Nós somos uma família que fala de política o tempo todo. Na verdade, lembro-me de quando tinha 8 anos, disse à minha mãe que um dia seria presidente da Nigéria [risos]. Ela nunca me deixa esquecer isso, basicamente, mas eu já não quero mais isso.
Se a gente falar em termos espirituais, eu perdi meu pai há uns 40 anos, mas aqui estamos nós, 40 anos depois, ainda falando sobre ele, ainda fazendo trabalhos que fazem referência ao seu legado. Então acho que, espiritual e ancestralmente, algo mais está acontecendo por baixo; outra coisa aconteceu na escrita com meu irmão, ou na frequência com que desenvolvemos um filme na produção. Com o lançamento no festival, algo mais aconteceu, com os prêmios, o lançamento nos cinemas e agora online. É simplesmente um filme que tem, pelos motivos certos, muita profundidade. Tanta coisa está ligada ao nosso pai, aos homens que conhecemos, aos homens que somos e a muitos dos nossos relacionamentos. Então, o aspecto ficcional disso é a parte fácil, é o filme. Nós não passamos nenhum tempo com nosso pai na vida real.
Então, o filme inteiro é uma mitologia baseada nesses fragmentos de memória, nessas histórias que as pessoas nos contaram, e todos nós estamos reunindo todas essas informações e tentando criar algo. Obviamente eu descrevi minha família como sendo bem de classe média, mas o filme retrata a família como sendo bem de classe trabalhadora, é como essa ideia de viajar para longe por causa do trabalho ou da ausência e tentar explicar essa ausência, como é para as pessoas da Nigéria rural.
Eu consigo imaginar, vindo do interior, onde todo mundo pode migrar para onde está todo o trabalho. Isso meio que causa uma ruptura nas famílias, causa uma ruptura na forma como nos relacionamos uns com os outros, e ajuda as pessoas a perpetuar um estereótipo de ausência. Então acho que tudo isso é uma referência à família, ao nosso pai, às nossas ideias. É difícil separar essas coisas, mas, ao mesmo tempo, também é fácil separá-las. É muito parecido com o filme, que é muito agridoce.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Brasil e Nigéria são países muito conectados culturalmente e historicamente. Gosto muito daquela cena no filme em que os personagens estão comendo acarajé, porque mostra como, mesmo com um oceano inteiro nos separando, há muitas proximidades entre os dois países. E agora você está tendo a oportunidade de divulgar e falar sobre o filme aqui, em capitais como Salvador e Recife. Como tem sido a experiência da recepção do público brasileiro? O que as pessoas daqui têm transmitido a você ao falarem sobre o que acharam do filme?
Akinola Davies Jr: Acho que o público brasileiro tem sido realmente maravilhoso e muito, muito generoso com o filme. Acho que, como você mesmo disse, seja por causa daquele “acarajé”, seja pela política, acho que percebemos que há muitas semelhanças entre o Brasil e a Nigéria. Seja no Ifá e no Candomblé, seja em tantas outras coisas, tantas coisas que a gente não sabe até saber, até ver, vivenciar, ouvir o que nos é revelado.
Estou ansioso pelo lançamento do filme no dia 30 de abril, porque acho que, a partir daí, ele estará disponível para que mais brasileiros possam assisti-lo. Agora é só uma pré-estreia e só podemos receber um número limitado de pessoas, mas espero que mais gente se interesse, que mais pessoas negras se interessem e se vejam em uma realidade nigeriana da mesma forma que os nigerianos se veem em uma realidade brasileira. É muito empolgante, porque, para mim, isso mostra que o filme tem a chance de ser maior do que eu imaginava.
Acho que o fato de fazer parte de uma família global, uma família da diáspora, em que o Brasil e a Nigéria são como irmãos, permite que eu esteja mais motivado para o próximo filme, para os próximos personagens e para as próximas ideias; e, além disso, vir ao Brasil, a Recife, a São Paulo e a Salvador me faz sentir, de muitas maneiras, como se estivesse voltando para casa. Estou muito animado para o filme ser lançado, acho que a recepção tem sido ótima. Este é o último lançamento nos cinemas do filme e acho que é uma maneira tão linda e marcante estarmos aqui no Brasil promovendo o filme.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Duval e CJ, o filme pra mim evoca muito uma camada metafísica e até mesmo onírica, e acho que a trilha sonora é um dos grandes responsáveis por isso, seja pelos elementos mais atmosféricos como pela intensidade da percussão em sequências como a da praia ou do caos nas ruas. Como vocês buscaram criar uma trilha que se alinhasse ao que Akinola desejava para o filme?
Duval Timothy: Acho que o filme e o roteiro deixaram bastante espaço para esse tipo de sequência onírica, que pode ser mais musical do que em muitas outras sequências cinematográficas, simplesmente porque a história se situa entre a realidade, o estado de sonho, a espiritualidade, em todos esses espaços. Então, sim, essas sequências oníricas são provavelmente minhas partes favoritas do filme.
Tem uma parte em que os cavalos chegam e estão meio que só de passagem por Lagos, e trata-se basicamente do estado em que eles se encontram ao percorrer esses espaços. Musicalmente é muito legal poder me apoiar, na ternura e em uns aspectos mais suaves e talvez mais inesperados da Nigéria atual, e da masculinidade de uma forma inesperada ou menos típica, e ser um pouco mais indulgente musicalmente. O piano está bem no centro da trilha sonora e tive a sorte de poder entrar com algumas sequências centrais bastante emocionais.
CJ Mirra: É isso mesmo: há uma emoção e, nas partes em que você mencionou, ou nos elementos percussivos, você está deliberadamente trabalhando com a tensão. Mas mesmo dentro delas, há a beleza da relação, a atemporalidade da relação, é como relembrar. Então não é como se fosse algo perfeito que está acontecendo no momento, talvez seja uma lembrança distorcida.
Nós gravamos, mixamos, brincamos com fitas e formatos que têm uma qualidade granular, que espelhou não só o fato de terem filmado o filme em 16 mm — esse formato lindo e inteligente para apresentar as imagens —, mas também conseguiu ser mais evocativo dos temas menos óbvios do filme. Acho que só com as próprias melodias, as próprias progressões, as estruturas rítmicas, são elementos em que conseguimos realmente nos aprofundar e ter bastante liberdade, bastante espaço para improvisar e, com sorte, tocar o coração de vocês, em tantos lugares quanto possível.
Duval Timothy: Sim, eu realmente nos encorajei a seguir nossos instintos ao longo do processo, e a maioria das coisas que criamos não ficou muito literal. Não é necessariamente fácil explicar por que fizemos cada escolha, mas muitas vezes se tratava apenas de um sentimento, e acho que o que acontece com o cinema em geral é que ele pode oferecer uma visão de como algo era. Acho que a vida não parece um documentário, nem os vídeos que gravamos no celular não são como a vida realmente é. Quando a gente pensa em memórias e vivencia coisas que têm um efeito profundo, parece algo grandioso e muito emocionante, de uma forma que a gente pôde explorar neste filme.
Nas conversas que tivemos sobre criar – mesmo que fosse algo reconhecível como um piano ou alguns instrumentos nigerianos, como o tambor falante –, seria como se, sonoramente, estivéssemos apresentando aquele elemento mais ou menos como se esperaria dele, mas depois, quase como foi descrito. É como se você imaginasse ver uma maçã, e ela parecesse boa, mas depois você a vira e vê que está toda podre. Por baixo há essa sensação de decomposição ou textura que dá a impressão de degradação.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Não tem como não falar da música que ouvimos na sequência final, A o pade leti odo, é uma canção a capella muito impactante e, naquele contexto, devastadora. Corrijam-me se estiver enganado, mas é um hino cristão tradicional em iorubá, correto? Os acordes dela me fizeram lembrar um hino cristão brasileiro, Alvo Mais do que a Neve, que por sua vez é baseada em um hino tradicional estadunidense chamado Blessed Be the Fountain. O que motivou vocês a trazerem A o pade leti odo para aquele momento específico? Como vocês acham que ela se comunica com aquela sequência?
Duval Timothy: Não sei ao certo qual foi o raciocínio por trás dessa decisão. Talvez seja uma pergunta interessante para a equipe de produção do Akinola. A cantora original também é uma das atrizes dessa cena, ela mesma cantou a música. Foi como se a cena já tivesse essa música poderosa, e nós vimos a tradução da letra e, sim, foi realmente interessante. Quero dizer, originalmente, na verdade, não adicionamos nenhuma música à cena porque a voz era tão poderosa e o grupo estava lá. Mas decidimos apenas adicionar um pouco mais de profundidade, palavras e música, e há tipo uma parede cheia de fitas.
Quando tocamos isso em Salvador com as bandas locais, a cantora com quem trabalhamos disse: “O que você acabou de dizer é que essa música é como uma canção tradicional cantada por aqui, que tem a ver, eu acho, com a deusa da água, a Mami Wata, que chamamos de ‘Mãe Água’”. É tão interessante que existam esses laços universais e semelhanças entre as culturas e, sim, dentro da mesma cultura em lugares diferentes. É lindo. Queríamos mantê-lo o mais simples possível. A interpretação vocal que tivemos é cantada de forma muito direta, não há nada de mais na interpretação vocal e, então, sim, o piano é igualmente direto e as coisas simplesmente fluem; toda a emoção é tudo o que temos, que foi construída ao longo do filme.
CJ Mirra: Essa foi a última coisa a se encaixar; na verdade se encaixou quando estávamos mixando o filme, pegando os elementos do áudio que foram gravados na procissão. Era tão cru, tipo um testemunho da atuação, como quando é uma atuação em grupo, quando você tem um grande grupo de pessoas e elas cantavam como se fosse um funeral de verdade, e dá para ouvir o luto ali.
Então, tentamos manter isso o máximo que pudemos, mas não era um trecho muito longo de som para brincar, então combinamos isso com o piano que você [Duval] gravou em Serra Leoa. E depois tínhamos essas outras gravações que foram feitas de forma totalmente independente e depois foram unidas para formar uma sequência fluida que nos leva até o final, e trata-se justamente de manter essa simplicidade. Então, tudo isso se encaixou.



















