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Entrevista | “É só isso? Então é pouco”: Elza Cataldo fala sobre memória, ausência e criação em O Silêncio de Eva

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 4 horas
  • 6 min de leitura

Diretora comenta o processo de reconstrução da trajetória de Eva Nil, atriz do cinema mudo brasileiro, e reflete sobre fazer cinema fora do eixo, memória e o gesto radical de recusa.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O documentário O Silêncio de Eva, dirigido por Elza Cataldo, resgata a trajetória de Eva Nil, uma das figuras mais enigmáticas do cinema brasileiro dos anos 1920. Apesar do destaque na época, grande parte de sua obra se perdeu, restando apenas fragmentos, fotografias e registros dispersos.


Com uma linguagem híbrida, o filme mistura pesquisa histórica, imagens de arquivo e recriações ficcionais para lidar com essas lacunas, e, ao mesmo tempo, refletir sobre memória, apagamento e o papel das mulheres na história do cinema.

Na entrevista abaixo, a diretora fala sobre o processo de descoberta da personagem, os desafios da narrativa e o que significa contar histórias a partir da ausência.


Leia na íntegra:


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiro, eu queria agradecer pela disponibilidade. Eu assisti ontem ao documentário e gostei bastante. É muito curioso revisitar uma memória que a gente nem sabia que existia. Queria começar te perguntando o que te motivou a contar essa história e como ela chegou até você.

Elza Cataldo: Eu fui apresentada à personagem Eva Nil pela atriz Inês Peixoto, do Grupo Galpão. Ela tinha visto uma exposição sobre a Eva e ficou encantada com essa atriz que também não conhecia, ali da região de Cataguases, na Zona da Mata mineira, e me apresentou essa história.

Eu também sou da Zona da Mata, nasci em uma cidade pequena próxima de Cataguases, chamada Tocantins, em Minas Gerais. Quando conheci a Eva, me encantei imediatamente. É uma personagem muito instigante, inclusive pela relação dela com o pai.

A exposição que a Inês viu era composta por fotografias, e essas imagens são muito impressionantes. Mostram um processo criativo muito rico: Eva se vestia, usava figurinos, maquiagem, adereços, criava personagens, enquanto o pai fotografava. Muitas dessas personagens acabaram ficando mais registradas nesses retratos do que no próprio cinema.

Outro aspecto que chama muita atenção, e continua chamando, é o fato de que quase ninguém conhece a história da Eva Nil. E, no entanto, ela foi uma jovem corajosa, uma atriz à frente do seu tempo, que sonhava em fazer cinema em uma pequena cidade de Minas Gerais.

Também é importante lembrar que ela era filha de Pedro Comello, um homem cosmopolita, que viveu no Egito, onde a própria Eva nasceu, e que, ao chegar ao Brasil, passou a trabalhar com Humberto Mauro. Foi nesse ambiente criativo que ela iniciou sua trajetória.

No Brasil, a preservação da memória ainda é muito limitada. Os filmes da Eva se perderam quase todos, restam apenas alguns fragmentos. O que ficou, em grande parte, foram esses retratos, que considero um legado fundamental dela e do pai.

O que me moveu foi justamente esse mistério em torno da personagem e a vontade de resgatá-la, tanto para a história do cinema quanto para a história das mulheres.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): No documentário, vocês comentam que há materiais até das décadas de 70 e 80 que já se perderam. Então, imagina o que aconteceu com registros da década de 1920.

Elza Cataldo: Então, o filme tinha esse grande desafio. A narrativa da trajetória da Eva é muito frágil. E, como você viu, a gente usou muitos dispositivos no documentário para conseguir chegar até ela.

Uma das opções foi recuperar o roteiro de Senhorita, agora mesmo, que também chegou até nós de forma fragmentada. A gente recria, reconstitui, reescreve um pouco, junta esses fragmentos e constrói uma pequena parte do filme.

É uma forma de responder a essa ausência de memória. Já que não temos, vamos criar uma memória para Eva.

E aconteceu também uma coisa muito interessante: a Bárbara Luz, filha da Inês com o Eduardo Moreira, parece muito com a Eva Nil. É impressionante. Quando a gente coloca as imagens lado a lado, dá até um susto.

E eles formam também uma família criativa. Então eu tentei fazer esse paralelo entre a família da Eva e essa família de artistas.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme rompe com aquele formato mais tradicional de documentário e constrói uma linguagem própria, com recriações e paralelos. Como surgiu essa escolha?

Elza Cataldo: Foi uma licença poética, uma forma de sair dessa linguagem documental mais tradicional. Como o nosso objeto é uma personagem com pouca informação factual, com pouca preservação de imagem, a solução foi recriar.

A gente até usa o termo fabular. Vamos fabular sobre a vida da Eva Nil.

E como ela era uma atriz do cinema mudo, a gente achou interessante recriar um fragmento de Senhorita, agora mesmo dentro dessa linguagem, usando inclusive a ideia de janelas. A gente trabalha com três janelas: a do documentário, a do estúdio recriado do Pedro Comello e a da encenação.

E aí surgem essas coincidências, como a semelhança do Eduardo com o pai da Eva. Tem cenas em que isso fica muito forte.

É quase uma conjunção misteriosa que permite que a gente conte essa história usando esses artifícios.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A Eva aparece como uma mulher à frente do seu tempo, mas também como alguém que decide parar. Existe um mistério aí.

Elza Cataldo Existe, e isso é muito interessante. Falam até dela como uma “Greta Garbo brasileira”.

O que me impressiona é esse lado visionário. Ela queria fazer cinema, gostava de Hollywood, tinha referências, queria cenários, figurinos, interpretação, queria ser paga, ser tratada com profissionalismo.

Para uma jovem atriz naquele contexto, isso é muito forte. Ela queria um cinema mais grandioso, e muitos projetos não foram adiante porque eram elaborados demais.

E tem o momento da recusa. Quando ela escreve aquela carta dizendo que está à disposição para qualquer coisa, menos para o cinema, isso tem elementos muito atuais. Ela fala de ego, de dificuldades de produção, de orçamento, de limitações que a gente ainda enfrenta.

Às vezes, eu tenho a sensação de que ela pensou: “é só isso? Então é pouco, não quero”.

E quem trabalha com cinema sente isso. Só que a gente continua. E eu não sei quem é mais corajosa, se ela que rompeu ou a gente que continua.

Mas ela também se reinventou. Ela virou fotógrafa, continuou criando, do jeito que era possível, com mais autonomia. Viveu disso, construiu a vida dela assim até os 80 anos.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Nosso portal busca dar visibilidade a produções fora do eixo. Como você enxerga esse lugar de fazer cinema fora desse circuito?

Elza Cataldo Tem muita afinidade. A gente compartilha essas dificuldades.

Mas o que move a gente é o desejo de fazer cinema, a paixão. No meu caso, também a questão da história e de revelar personagens femininas, ser uma espécie de porta-voz dessas mulheres invisibilizadas.

Eu não encaro o cinema só como entretenimento. Ele precisa ter sentido para mim, para que eu consiga ficar anos desenvolvendo um projeto.

Mesmo no eixo, as coisas não são imediatas, mas o acesso é diferente.E, ao mesmo tempo, a gente vê hoje um cinema muito potente sendo feito fora desse eixo. O cinema do Nordeste, do Norte, com muita força, muita identidade.

No fundo, o que move é isso, a paixão pelo cinema.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como tem sido a recepção do público e o que você espera que as pessoas levem do filme?

Elza Cataldo: Tem sido uma recepção muito positiva, porque é uma história que pouca gente conhece. E, mesmo sendo da década de 1920, ela tem muitas semelhanças com o presente.

O público se conecta com essa mulher jovem, visionária, autêntica. E eu espero que as pessoas se surpreendam com essa história e reconheçam a importância da Eva, tanto para o cinema quanto para a história das mulheres.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, queria pedir uma indicação de filme ou série e também um convite para o público assistir ao filme.

Elza Cataldo Eu acho que, neste momento, não poderia deixar de citar O Agente Secreto, que também fala sobre memória, ainda que por outro ponto de vista.

E, internacionalmente, eu citaria Hamnet, que me emocionou muito. É um filme histórico, com um olhar feminino muito forte e que eu queria ter feito.

E convido o público a assistir O Silêncio de Eva e conhecer essa história. É uma trajetória que ainda é pouco conhecida, mas que pode surpreender bastante.



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