Resultados de busca
Buscar neste site
1408 resultados encontrados com uma busca vazia
- Entrevista | Olinda em Hollywood: a trajetória de 'Os Arcos Dourados de Olinda'
Em exclusiva ao OP, Douglas Henrique conta como seu TCC saiu da UFPE e chegou à disputa pelo Oscar Imagem: Divulgação Passei cinco anos dentro de cursos de Cinema e Audiovisual em universidades federais brasileiras. Desses, foram quatro como aluna e um como professora. Conheço, portanto, em primeiríssima mão, as ansiedades, as expectativas e as crises existenciais que acompanham um TCC nessa área. Para quem não sabe, o modelo mais comum de conclusão de curso em Cinema não envolve necessariamente uma monografia. Na maioria dos casos, o estudante chega à banca com uma obra audiovisual pronta. Pode ser curta-metragem ficcional, documentário, piloto de série, projeto experimental, videoclipe, animação ou, dependendo da universidade, até um jogo digital. Seja qual for o formato, é uma odisseia. Se você começar o planejamento um ano antes da previsão de entrega, já está atrasado. É preciso desenvolver argumento, fazer pitch, montar equipe, escrever roteiro, conseguir equipamento, encontrar locações, inscrever o projeto em editais, levantar dinheiro, organizar cronograma e, claro, suplicar por um orientador. Tudo isso antes mesmo de apertar o primeiro REC. É o que, no audiovisual, chamamos de pré-produção. É também a parte mais gostosa de acompanhar, porque boa parte da obra ainda existe apenas no plano das ideias. Nada deu errado ainda. O elenco ainda não faltou à gravação, o equipamento ainda não quebrou, o áudio ainda não ficou imprestável, a locação ainda não cancelou e ninguém descobriu que o orçamento necessário é cinco vezes maior do que o disponível. É nessa fase que sempre – sempre! – alguém vai dizer: “com esse filme, a gente vai para o Oscar.” Não é exagero meu. Já ouvi diferentes versões dessa previsão mais vezes do que consigo contar. Aconteceu, inclusive, comigo: meu próprio TCC foi um curta-metragem de animação, e lembro perfeitamente do sorriso que não consegui disfarçar ao ouvir aquilo, acreditando que, de alguma forma, poderia ser verdade. É um curso de artista, afinal – e artista, por natureza, é sonhador. Em toda a minha experiência, porém, conheci apenas um caso em que a brincadeira de “vamos para o Oscar” deixou de ser uma fantasia universitária e se tornou, de fato, uma possibilidade concreta: Os Arcos Dourados de Olinda, curta-metragem documental pernambucano criado e dirigido por Douglas Henrique. Para conseguir o diploma em Cinema e Audiovisual pela UFPE, Henrique estabeleceu três exigências: a obra precisava ser, primeiro, um filme em que ele realmente acreditasse; segundo, algo que considerasse importante; e, terceiro, um projeto com potencial de distribuição. Ele mesmo admite que, à época, a lista parecia “maluquice”. “Foram dois anos que passei trancando a faculdade. Eu tive várias oportunidades em que poderia ter me formado, por exemplo, fazendo a fotografia de filmes dos outros ou fazendo videoclipes. Mas eu sempre pensava: ‘Não, acho que tem um peso’. Cada um leva de uma forma. Tem gente que quer apenas se livrar, mas para mim não fazia sentido me livrar rápido, porque o vínculo universitário me dava algumas vantagens.” Hoje, o resultado dessa lista de requisitos auto-impostos é o filme mais distribuído e premiado da história do curso. “Voltei a Recife nessas semanas e o pessoal que está no primeiro ou quarto período agora me reconhece e fala: ‘Nossa, você é a grande inspiração para a gente!’. Isso é muito engraçado, porque eu estava literalmente no ano passado lá, apresentando o TCC.” Henrique enxerga nessa recepção algo maior do que o reconhecimento pessoal. Para ele, Arcos ajuda a desmontar a ideia de que a universidade seria apenas um lugar de formação, enquanto os grandes filmes aconteceriam depois, quando o estudante finalmente estivesse “no mercado”. Imagem: Divulgação “Isso mostra que o cinema universitário não precisa ser algo de distribuição modesta, sob a lógica de que só depois de sair da faculdade você fará um filme que vai longe. Qualquer momento é momento para se dedicar a um filme que vá longe. É isso que os europeus fazem, essa é a grande chave.” O caminho até as telas, entretanto, não foi exatamente um McSundae misto com calda de chocolate. Antes de virar referência entre seus calouros, Douglas Henrique precisou, além de cineasta, virar historiador. Tudo começou, segundo Henrique, de maneira quase acidental. Ele se lembrou por acaso da lenda urbana de que Olinda havia sido a primeira cidade a “falir” um McDonald’s e decidiu descobrir se aquilo era verdade. A pesquisa começou como boa parte das pesquisas começa hoje: na internet. Não encontrou muita coisa. Foi então que teve uma ideia: “vou fazer um filme que encontre esses materiais.” A normalidade com que ele me falou isso é surpreendente. Tipo, quem nunca resolveu uma lacuna historiográfica fazendo um curta documental? “Comecei a conversar com as pessoas e a dizer que queria fazer um filme sobre isso. Às vezes, alguém sabia de algo e agregava um ponto novo. Fui encontrando esses pontos soltos. Quando o filme foi finalmente aprovado no edital, nós sistematizamos o processo. Contratei um pesquisador profissional para achar coisas em jornais, e aí a pesquisa realmente andou.” Assim, ao lado de Arnon Hochman, assina um roteiro que constrói um paralelo inusitado e muito bem amarrado entre a vitória estadunidense na Guerra Fria e a resistência cultural e política do povo nordestino. Entre a ideia inicial, surgida durante uma tarde de muito tempo livre na pandemia, e o último corte, realizado na mesma semana marcada para a estreia no Festival do Rio de 2025, foram aproximadamente cinco anos. Três deles foram de pesquisa mais “casual” e os dois últimos de investigação propriamente ativa, impulsionada pelo professor Fernando Vello e pela possibilidade de financiamento público. “Cerca de seis meses antes da estreia, decidimos parar a pesquisa para escrever o roteiro. Escrevemos o roteiro e gravamos em um mês, mas a pesquisa continuou acontecendo em paralelo porque não fechamos as portas. Do nada aparecia alguém dizendo que tinha um primo com materiais do McDonald’s, e eu entrava em contato.” O resultado dessa obsessão é um material bruto de aproximadamente 45 horas (cerca de 109 minutos de material para cada 1 minuto do curta!). A maior parte é formada por reportagens de televisão e materiais de arquivo, incluindo documentos de partidos políticos. Há também centenas de fotografias pessoais de frequentadores e clientes do McDonald’s. A equipe fez um trabalho admirável de recuperação e digitalização desse material – uma etapa que costuma ser invisível para o público, mas que é fundamental para que um filme de arquivo como Arcos exista. Não se trata simplesmente de “achar” uma fotografia antiga ou uma reportagem perdida: é preciso localizar, negociar acesso, preservar, digitalizar, catalogar e, muitas vezes, restaurar documentos que sobreviveram por décadas em condições precárias. No filme, esse trabalho ultrapassa a etapa técnica e se transforma em parte da própria linguagem, com cada imagem recuperada funcionando como uma pequena pincelada de uma pintura histórica que o documentário expõe diante do espectador. Nesse acumulado de referências, narrativa perpassa pela corrida espacial, queda do Muro de Berlim, comunismo, imperialismo, palhaços, blocos de carnaval e Big Macs. Tudo isso em 24 minutos. “Foi difícil fazer as pessoas comprarem a ideia do filme, principalmente em editais, porque era difícil mensurar um documentário sobre tantas coisas misturadas e com esse tom, sem referências claras.” Mas é precisamente essa falta de definição o maior mérito de Arcos: ele não parece interessado em escolher entre documentário histórico, comédia, ensaio político e crônica cultural. Faz tudo ao mesmo tempo, e sempre com igual qualidade. Há uma ironia particularmente deliciosa no fato de que um filme essencialmente interessado em discutir a fragilidade de modelos políticos e econômicos tenha escolhido fazer isso sem adotar a formalidade que normalmente acompanha esses assuntos de gente séria e intelectual. Em momento algum Arcos Dourados de Olinda parece ser uma aula de História, embora seja, talvez, a melhor possível. A sacada de contrapor o ego estadunidense ao ego — aparentemente ainda maior — do pernambucano produz uma sequência de ironias que reconta acontecimentos conhecidos e apresenta outros nem tão conhecidos de maneira irresistivelmente acessível. Quando ouviu que, por ser seu primeiro filme, talvez fosse mais seguro apostar em uma abordagem “clássica”, ignorou solenemente o conselho e estabeleceu uma métrica bastante particular para avaliar o resultado: se ele próprio desse uma risada assistindo ao filme, já estaria satisfeito. Bem pernambucano de sua parte, se me permite. Henrique admite que estava receoso na estreia mundial do filme, quase exatamente um ano atrás. Não precisava: “foi uma sessão lotada e as pessoas riram o filme inteiro. Isso me deu um sinal de que o filme funcionava.” E não é a megalomania pernambucana falando: eu estava lá, na plateia, cobrindo o festival. Fui uma das pessoas que “riram o filme inteiro”. Também estava na cerimônia de premiação, quando Arcos recebeu uma menção honrosa. Eu e várias pessoas ao meu redor aplaudimos de pé. De lá para cá, o hype só cresceu. No Brasil, o público abraçou o filme de uma maneira talvez inédita para um documentário universitário. Pernambuco, é claro, rende sessões esgotadas, espectadores reagindo em voz alta nas sessões e em caixa alta nas redes digitais. Mas Henrique diz que uma das preocupações centrais durante a produção era justamente construir uma obra que pudesse viajar sem perder aquilo que a tornava regional. “O filme consegue situar o espectador que nem sabe que Pernambuco existe, fazendo-o entender onde fica no mapa e qual é o nosso sentimento pelo lugar. Minha preocupação era torná-lo vendível para fora, mas ao mesmo tempo bom para quem é daqui.” O humor foi fundamental nessa equação. “Se eu fosse apenas didático explicando onde fica Pernambuco, o espectador local acharia chato e diria que é ‘filme para gringo’. O filme precisava funcionar para todos os públicos.” A primeira risada, segundo ele, costuma acontecer quando a narração informa que “o lugar mais importante do Brasil é Pernambuco”. “Nesse momento, tanto o gringo quanto o brasileiro riem da nossa ‘puxada de sardinha’ absurda.” De festival em festival, Arcos Dourados de Olinda foi acumulando prêmios até chegar ao ponto em que aquela velha piada universitária precisou ser levada a sério. Era a hora de colocar o sonho à prova: inscrever o filme em competições que poderiam qualificá-lo para o Oscar. “Nos BogoShorts, ganhamos como melhor documentário internacional, mas esse prêmio específico não dava a qualificação. No Curta Cinema, que também qualificava, ficamos com o prêmio especial do júri, em segundo lugar. O festival seguinte foi o É Tudo Verdade, que é focado em documentários. Sabíamos que, se ganhássemos, estaríamos qualificados.” [Pausa de suspense] "Ganhamos todos os prêmios do festival.” E foi assim que um filme realizado com aproximadamente R$ 30 mil, com uma equipe de menos de dez pessoas, sobre uma cidade do interior nordestino e que se recusa a diluir sua identidade, chegou à corrida pelo Oscar. A qualificação coloca o filme na disputa; depois dela, vem a seleção da shortlist de 15 títulos, dos quais apenas cinco chegam efetivamente à lista de indicados. A verdade é que um Oscar não ficaria nada mal ao lado dos quase 50 prêmios que, hoje, Arcos Dourados de Olinda já coleciona. Mas, se não vier, tudo bem. Se tem uma coisa que aprendi, é que Pernambuco não está muito preocupado com agrado de estadunidense.
- Succession 3X05: O Fogo no Parquinho está Montado
E vamos aproveitar Macall B. Polay/HBO Ia começar falando que esse novo episódio de ‘Succession’ foi o melhor da temporada até agora, mas do jeito que a qualidade dessa série só aumenta ia parecer redundância. Escrito por Tony Roche e Susan Soon He Stanton, mesmos roteiristas de Which Side Are You On? (1x06) e Hunting (2x03), dois dos melhores episódios de toda a série, a trama está andando de forma mais feroz do que nunca. Sarah Snook, nossa amada e subestimada Shiv, foi o grande nome da vez. Com sagacidade e tomando a dianteira, a personagem mostrou o que é capaz como presidente, porém Logan não reconhece isso e a joga de lado como de costume. Será que dessa vez ela percebe que não passa de uma marionete do pai? Como o Kendall lhe disse no início da terceira temporada? Espero que sim! Já o próprio Kendall, vivido brilhantemente pelo Jeremy Strong, precisou “se juntar” ao lado oposto da briga (claro que em prol dele mesmo) para garantir que nada saia fora do planejado, se é que ele tem algo planejado. O grito de desespero que ele deu diante de todos os acionistas pode acabar terminando de destruir o que ele quer ou dar mais força por mostrar o quanto ele tá disposto em destronar o pai, mas não sei se vamos ter essa resposta tão rápida. Falando em Logan, ele está mais insano e perdido que nunca, ele acha que tem todas as respostas em sua mão (o que pode ser verdade), mas a forma que ele demonstra isso pode fazer com que acabe sozinho no final e não adiante bulhufas. É o segundo episódio seguido em que ele tem problemas de saúde em momentos chaves de negociação, alguém assim está com condições de se manter como único tomador de decisões? Não, e os seus funcionários sabem disso como vimos ontem. Enfim, chegamos no fim de um dos grandes problemas da temporada, a reunião dos acionistas, mas será que isso é o suficiente para que eles relaxem? Com certeza não e eu estou contando justamente com isso. O fogo no parquinho está montando e temos que aproveitar!
- Succession 3X06: Cuidado com a subestimação
Brasil citado (mas será que de forma boa?) Photo: Macall Polay/HBO A cada episódio, fica mais difícil tirar o título de Succession de melhor série da atualidade. É incrível como uma série com 3 temporadas e episódios longos consegue não só manter uma qualidade invejável, mas também se aprimorar cada vez mais. Os episódios dessa temporada tem sido divididos por grandes acontecimentos. Depois da reunião dos acionistas, chegou a vez da família Roy, no topo do seu privilégio, escolher o próximo presidente dos Estados Unidos. O grande ponto trabalhado brilhantemente foi o perigo da subestimação. Shiv subestima a ascensão de um presidente outsider e fascista na era de Trump e Bolsonaro. Kendall subestima a dificuldade de punir um bilionário. E principalmente, Logan subestima a fúria e a competência de Shiv, que vem sendo constantemente diminuída e manipulada por ele ao longo da temporada. Shiv dá tudo de si, é muito mais assertiva que o Roman e não recebe nem metade do reconhecimento do pai. Por mais que Logan veja certa competência nela e a maltrate por isso, ele nunca trairia sua misoginia dando o braço a torcer por ela. A diferença, é que agora ela sabe disso, o que torna muito provável que o final da temporada seja carregado por ela. Outro destaque desse episódio foi Tom. O personagem já sabe que vai ser queimado pela família Roy e que seu casamento com Shiv está com os dias contados com sua prisão. Pela primeira vez, ele cogita trocar de time porque não tem o que perder. Por mais que Tom hesite em criar esperança de escapar da cadeia e duvide que Kendall consiga derrubar o pai, a proposta de aliança foi muito tentadora e pode render uma grande reviravolta nos próximos episódios. Talvez a armadilha que Shiv está criando para o pai seja o que falta para que Tom troque de lado e Kendall consiga finalmente derrubar Logan. Por fim, não posso deixar de citar a menção que Shiv fez da política brasileira. Durante a escolha do presidente, Shiv afirma que tem medo de apoiar o candidato fascista e favorito de Roman e os EUA virar uma “put4ri4 russa, berlusconiana e brasileira”. Pelo visto, não é mais o futebol e o samba que representam o Brasil atualmente no exterior. Já podemos dar a carteira de comunista para Shiv?
- 30 Anos de ER: Os 10 Melhores Episódios da Série Médica
Uma homenagem para uma das séries mais revolucionárias da TV Divulgação No dia 19 de setembro de 1994, no canal NBC, estreava uma das grandes séries dos anos 90 e ficaria marcada na história da televisão mundial: ER. Nela, acompanhamos a história de um grupo de profissionais de um hospital de Chicago vivendo seu dia a dia no trabalho e, consequentemente, na vida pessoal Inspiração pra todas as séries médicas que vieram depois, a série criada por Michael Crichton não se limitava ao que estava em alta na época de seu lançamento, e é justamente por isso que se transformou num furacão de audiência e de avaliação dos críticos. Uma aula de como se fazer séries procedurais e de apego aos personagens apresentados. ER recebeu mais de 120 prêmios em diversas premiações, incluindo o Emmy de Melhor Série de Drama, um TCA Award de Melhor Programa do Ano, e uma honraria no Peabody Awards. Então,, nada mais justo do que fazermos nossa própria homenagem ao elencar os melhores episódios da história da série — e que trabalho difícil foi escolher! Confira a lista aqui: Divulgação 1º) Love´s Labor Loss (Temporada 1, Episódio 19) A medicina, além de uma bela profissão, carrega um peso imensurável e neste episódio “ER” demonstra isto com toda força. Quando Mark (Anthony Edwards) erra um diagnóstico de pré-eclâmpsia acontece o pior pesadelo na vida de qualquer médico: ele perde a paciente. É uma das melhores horas não só da série, mas da televisão no geral porque consegue englobar um conflito de emoções ao colocar um personagem querido do público em uma situação tão difícil e que o deixa ainda mais humano. É cruel, brutal e emociona de uma forma genuína, seja na dor da morte ou na beleza do nascimento. 2º) On the Beach (Temporada 8, Episódio 21) Quando descobrimos que o Dr. Greene estava com câncer, ainda havia esperança de que ele sobrevivesse, mas não foi o caso. A despedida do personagem acontece em três episódios, mas é neste que vemos seus últimos dias. Mark está com Elizabeth (Alex Kingston), sua esposa e suas filhas, Rachel (Hallee Hirsh) e Ella em uma praia no Havaí. É um dos momentos mais tristes da TV, mas não deixa de ser bonito. Ele vai como queria, ao lado de quem amava e um dos personagens mais queridos da série, que estava lá desde o piloto, nos deixa ao som de “Somewhere Over the Rainbow” na voz de Israel Kamakawiwo’ole e não tem quem segure as lágrimas. 3º) All in the Family (Temporada 6, Episódio 14) Em outro episódio devastador, os médicos lutam para salvar dois deles. Carter (Noah Wyle) e Lucy (Kellie Martin) estão entre a vida e a morte após serem esfaqueados por um paciente esquizofrênico, todos se unem em prol dos dois. É agonizante, e mesmo que os colegas tenham lutado pela vida de Carol (Julianna Margulies) no piloto, a audiência ainda não tinha apego pela personagem como havia com estes dois depois de tantos momentos juntos. Carter consegue sobreviver e nós ficamos felizes e quando parece que Lucy também sobreviveria, a jovem sofre uma embolia pulmonar e é a primeira perda de um personagem do elenco principal. Arrasador. 4º) Be Still My Heart (Temporada 6, Episódio 13) O que parecia ser um episódio temático comum de meio de temporada se transforma em um dos momentos mais assustadores da série e é o que faz dele fantástico, porque os piores dias das nossas vidas não começam com um aviso ou sinais de que algo ruim vai acontecer. A única coisa que havia de diferente na rotina era uma festa de Dia dos Namorados ocorrendo no hospital, e enquanto o evento acontece, Carter (Noah Wyle) é esfaqueado por um paciente esquizofrênico em uma sala e ao cair no chão, se depara com uma agonizante Lucy Knight (Kellie Martin) em uma das cenas mais chocantes da televisão. Divulgação 5°) Secrets and Lies (Temporada 8, episódio 16) O famoso 'Clube dos 5' da série reúne Abby, Carter, Lewis, Kovac e Gallant, que são obrigados a participar de um seminário sobre assédio sexual após um incidente considerado inapropriado por Weaver no local de trabalho. Com o atraso do palestrante, os personagens se veem envolvidos em uma troca de verdades não ditas, que estavam presas em suas gargantas. Amor, ódio, inveja e, principalmente, ciúme são explorados e desembrulham alguns dos plots que vinham sendo desenvolvidos na temporada (a 8ª, considerada uma das melhores). Ah, sem esquecer a dominatrix, luta de esgrima e piadas sexuais que aliviam a tensão antes do impacto emocional do final da temporada. Ai, ai. 6º) Hell or High Water (Temporada 2, Episódio 7) Uma das melhores coisas da personalidade de Doug (George Clooney) era como ele lidava com seus pacientes e quebrava regras para defender suas crianças, o que o faz quase perder o emprego no County Hospital. “ER” sempre teve seus episódios-tragédia e este é um dos melhores. Com os holofotes em Doug, o médico age como um verdadeiro herói para salvar um garoto de uma enchente em uma tempestade. À medida que a água sobe, a tensão aumenta, assim como admiração por Doug, que não desiste e mostra que há muito mais no seu personagem do que sua irresponsabilidade. 7º) Exodus (Temporada 4, Episódio 15) Desde o começo, Carter (Noah Wyle) é os nossos olhos no hospital. A série cresce com ele e é ótimo ver o rapaz vencer várias etapas na carreira, mas seu maior desafio chega com este episódio. Quando um acidente químico acontece, Weaver (Laura Innes) precisa se afastar e Carol (Julianna Margulies) e Doug (Goerge Clooney) estão presos no elevador tentando salvar a vida de uma garota. É um daqueles episódios-evento que “ER” faz tão bem e é a chance de ver o quanto Carter amadureceu e é seu momento de brilhar. Ele, ainda interno, está liderando a equipe para evacuar o hospital em meio ao caos que se instala no lugar. É pressão para o personagem e para quem assiste, que fica na ponta do sofá o tempo todo, mas vê-lo se sair bem é mais do que satisfatório. 8º) Ambush (Temporada 4, Episódio 1) ER é considerada uma das grandes precursoras das séries dramáticas (e médicas, obviamente) — e não é à toa. "Ambush" foi gravado totalmente ao vivo, em formato de documentário, e feito duas vezes (uma para cada costa dos Estados Unidos, devido ao fuso horário). A estreia da quarta temporada traz um frescor ao formato procedural, dando continuidade a algumas histórias anteriores (como o ataque a Mark no banheiro e o início de sua paranoia), além de introduzir novas tramas (como a adição da incrível Corday ao elenco). É tão bem feito que nem parece que foi gravado ao vivo. Fico pensando só no caos e no nervosismo deles sem poder errar nadinha. 9º) 24 Hours (Temporada 1, Episódio 1) Tradicionalmente na TV, era essencial que o piloto fosse bom para que fosse aprovado pela emissora e posteriormente pelo público, quando fosse ao ar. Estreando com 23.8 milhões de telespectadores, ER já chegou com os dois pés na porta. Primeiro dia de Carter (Noah Wyle) naquele mundo e o nosso já tendo uma noção do caos e do senso de urgência que está na essência da série. Dirigido por Rod Holcomb, o episódio captura a realidade de um pronto-socorro com muita agilidade, o que deixa tudo mais verossímil e ainda surpreende quando uma das pacientes é Carol (Julianna Margulies), trazendo o lado emotivo à tona. É um dos melhores episódios piloto da televisão e já nos deixa imediatamente impressionados e apaixonados por aquele mundo. Divulgação 10º) And in the End (Temporada 15, Episódio 22) Nas temporadas finais, a série teve uma visível queda na qualidade, mas sabendo que seria encerrada na 15ª, os roteiristas puderam se concentrar em finalizar com a dignidade merecida. Com o retorno de personagens queridos e Carter no centro de novo, o episódio já nos pega pela nostalgia, mas emociona de verdade quando vemos Rachel, filha de Mark, chegando no Hospital. É o fechamento de um ciclo, que funciona de uma maneira simples, mas extremamente poderosa. Honra tudo o que assistimos até então porque enquanto uma história termina, outra começa, e mesmo que nós não possamos mais acompanhar, sabemos que ela terá uma jornada bonita e intensa, se for metade da médica que o pai dela foi. Plantão Médico (ER) está disponível no catálogo do Max.
- Entrevista | Diretora e Elenco de 'Meu Casulo de Drywall' em Exclusiva ao Oxente, Pipoca?
Uma conversa sobre adolescência, saúde mental e cinema nacional Foto: Divulgação Um dos meus subgêneros de filme preferidos é aquele que retrata a adolescência de maneira crua e abraçando todos os problemas da fase. Longas como Aos Treze (2003), Diário de um Adolescente (1995), Oitava Série (2018) e How to Have Sex (2023) me obrigam a continuar sentada, digerindo, muitos minutos após os créditos rolarem e voltam à minha mente com uma constância mais frequente que muitos outros. Vejo a adolescência como período que encapsula e potencializa os sentimentos mais humanos. O colorido é mais saturado e o preto e branco muito mais cinza. O amor vira obsessão e a chateação, ódio. Quando uma história consegue utilizar dessa ebulição para fazer refletir sobre nós mesmos, em qualquer idade, é muito precioso. É o caso de Meu Casulo de Drywall, suspense de Caroline Okoshi Fioratti que estreou nesta quinta (12), após ser o único representante do cinema nacional na SXSW 2023, nos EUA. Estrelado por Bella Piero, Maria Luísa Mendonça, Daniel Botelho e Michel Joelsas, além de contar com uma participação de tirar o fôlego de Caco Ciocler, o filme aborda a solidão, o luto, os exageros e as pressões de crescer. O casulo do título se faz bem representado pela limitação espacial: no espaço físico, toda a trama se passa dentro dos muros de um condomínio de luxo da capital paulista; já no espaço temporal, somos limitados a vivenciar, junto aos personagens as 24 horas entre o início da festa de aniversário da jovem protagonista até a noite após sua morte. O Oxente, Pipoca? teve o prazer de conversar com a diretora e o elenco do filme, na entrevista exclusiva abaixo. Foto: Divulgação Aianne: Caroline, vi que demorou 10 anos desde a concepção até finalmente o filme chegar no cinema. Como esse tempo ajudou a aprimorar a ideia até a obra final? Caroline: Eu acho que foi muito importante porque teve também o amadurecimento de um assunto que é muito denso e complexo. A gente, como sociedade, também amadureceu em compreender o assunto e como falar sobre ele. O tempo todo, desde a concepção, do início do roteiro e até o final da montagem, a minha preocupação era estar sempre em constante atualização para conseguir, de alguma forma, estar alinhada com a OMS e com todos os órgãos que estudam como falar sobre as questões do suicídio e da saúde mental. Também parti muito de conversas que eu tive com adolescentes por conta de um curta-metragem, e eles trouxeram para mim conflitos que retrato nesse filme. E eu acho que também é um filme que eu vivi junto durante o meu amadurecimento como cineasta. Eu comecei a escrever quando nunca tinha dirigido nenhum longa-metragem e agora estou lançando, depois de ter feito alguns comerciais no meio. Então, eu acho que ele vem muito com uma pulsão minha de querer fazer um filme que fale da maneira e do tom que eu me sinto como pessoa. Eu sou uma pessoa mais melancólica, sempre fui. Aprendi a colher essa melancolia, e eu acho que o filme mostra um pouco isso: no momento em que a imagem é muito importante – em que se mostrar feliz, se mostrar bem-sucedido é muito importante –, falar “eu posso colher a minha dor, eu posso colher a minha melancolia”. Eu queria fazer um filme porque filmes assim me acolheram quando eu era adolescente, quando eu tinha as minhas dores. Então, eu espero que esse filme de alguma forma fale para o jovem “olha, eu estou discutindo, eu quero dialogar com você, eu entendo que você tem dores e você não está sozinho”. Acredito muito em falar de forma honesta, sincera com o jovem de hoje, porque eles esperam isso. Aianne: Você falou honesta e sincera, eu acho que também uma palavra boa seria responsável. Porque a gente tem muitos exemplos de obras da cultura pop mesmo que tratam de suicídio de uma maneira totalmente irresponsável, às vezes até glamourizando, romantizando essa questão. E o filme não faz isso de jeito nenhum. Ele mostra realmente o impacto das dores que devem estar envolvidas e de outras pessoas ao redor quando chega nesse ponto. Parabéns por essa preocupação. Caroline: Obrigada! Aianne: Maria Luiza, falando em psicológico, acho que as suas cenas são as mais intensas ao longo do filme, porque sua personagem vai vivendo o luto até quase chegar no ponto de loucura. Qual dessas cenas foi a mais difícil, mais impactante de gravar? E houve algum preparo, algum exercício para você conseguir lidar com essa experiência? Maria Luísa: Eu acho que o que aconteceu foi que tinha um set muito estruturado para que eu me sentisse muito segura de estar dançando com a história, com tudo que eu tinha me preparado e com todos que estavam ali. E essa sintonia com o elenco e com a Carol foi fundamental. Eu acho que me preparo muito para o acaso, sabe? É assim que eu trabalho. Eu fico ali disponível, aberta e disponível com o meu dever de casa feito. E eu acho que a gente conseguiu isso com todo mundo, todo mundo estava brilhando. A equipe, o elenco, todo mundo. Então, acho que tudo isso vai para a cena. E eu voltei para casa bem! Eu tenho essa sensação: Eu acho que a arte me cura. Quando eu vou em lugares muito difíceis, eu sei que é construção, e isso é libertador. É isso, é construção, é escuta e é justamente o que o filme está ali pedindo. Onde está essa saúde mental, os sintomas que são tão difíceis de se perceber? O que é esse autoconhecimento? É a gente poder perceber, a gente falar que “é difícil, a gente é faltante, a gente é bom, mas é ruim, a vida é curta, a gente vai morrer”? Tudo isso é difícil. E fechando, eu acho que quando você fala que ela vai para a loucura, para mim é uma sublimação. Eu não vejo como loucura, eu vejo como aquilo… não tem nome para uma mãe que perde um filho. É um lugar tão absurdo, não tem forma, não tem lugar, não tem. Então, acho que ela sublimou, foi a maneira como ela estava conseguindo ali no começo realizar, de alguma maneira, essa tragédia, esse luto. E isso é saudável, porque senão ela se mata, não tem jeito. É esse acolhimento que o filme te dá, ele te acolhe, a gente vai para vários lugares. Isso é saudável – deixa o outro sentir. Às vezes, a pessoa pede e o outro fala “para de chorar, engole esse choro!” Não, cara, na maior parte, é resolver problemas difíceis, sim. Aianne: Bela, você interpreta uma personagem 10 anos mais nova que você, certo? Como foi retornar para essa intensidade da adolescência? Bela: A gente rodou o filme em 2020. Isso é um dado muito curioso e interessante, porque uma semana depois que a gente chegou em casa, instaurou-se a pandemia. E eu acredito que esse filme ficou muito mais potente depois da pandemia, e da gente ter atravessado tudo o que a gente já atravessou, e da gente ter adoecido e curado tudo o que a gente curou depois desses quatro anos. Então, sim, é uma personagem muito intensa, onde eu pude beber na fonte da minha própria adolescência, de casos muito próximos que aconteceram comigo, de vivências pessoais, para compor esse personagem. E com a condução da Carol, que foi majestosa e generosa em acessar esses buracos, essas dores nossas, pessoais, de uma forma tão profissional e respeitosa. A gente, o tempo todo, contou com uma equipe de psicólogos, de psicanalistas, de psiquiatras, que ajudaram a gente a conduzir da forma mais realista possível, para que esses personagens fossem humanos, reais, frágeis, falhos. E que é isso, né? Os adolescentes, eles estão nessa viagem, nessa jornada catártica, querendo sentir, querendo o “oh meu Deus!”, querendo descobrir coisas, se surpreender, e ao mesmo tempo cometem atitudes que são muitas vezes cruéis. Quem já não passou por períodos e situações extremamente cruéis na adolescência? E foi isso que a gente quis retratar. O quanto eles são múltiplos, o quanto eles são faltantes, o quanto eles podem se machucar, se ferir, se humilhar, se curar e se potencializar juntos. Então, a Virginia é essa montanha russa, é esse calendoscópio de uma pessoa que sente muito e que não consegue dar vazão a tudo que ela sente, não encontra o suporte no outro, não encontra o olhar do outro, não consegue se comunicar. E eu acho que o filme se propõe a isso, através dessa jornada imagética, poética, a conversar com os adolescentes e também com os pais que convivem com os filhos que não conseguem sair desse casulo e mostrar o quanto eles estão vivendo momentos difíceis. Aianne: Ano passado, pela primeira vez, o número de crianças e adolescentes com ansiedade e depressão, passou o número de adultos aqui no Brasil – o que é um dado que dialoga bastante com o filme. Como vocês acham que Meu Casulo de Drywall acrescenta para o debate sobre esse tema? Daniel: Uma coisa que tenho ouvido muito na faculdade – e é louco é um processo complexo – mas existe também uma hiper patologização das criança, que pode levar ao de desenvolver uma patologia de fato. O que a gente tem falado na faculdade é de o olhar nunca ser para o ambiente, e sim para o indivíduo, como se o ambiente fosse completamente propício para desenvolvimento de vida, como se o formato que a gente tem de educação hoje fosse completamente nosso contexto de mundo. E aí é a criança que tem “transtorno opositor desafiador”. Mari: eu acho que o filme é um convite a entender que existem outras alternativas que não são trágicas. É inquestionável. Adorei mesmo essa coisa da avaliação do indivíduo e não só do ambiente, porque faz todo sentido. Realmente nunca se foi tão complicado crescer mesmo, enquanto o Brasil, pandemia e um monte de coisa que mudou desde que a gente fez o filme. Mas o filme é um convite a repensar as relações, a repensar aquilo que te compõe, a repensar os seus comportamentos e os seus limites e mostrar outras alternativas que não sejam tão trágicas quanto a da Virgínia. A gente tem que acreditar, tem que jogar lá em cima. Michel: A Anna Muylaert, cineasta, fala que todo filme é uma cura. Você vê aquelas emoções que acontecem com o personagem, colocado naquela circunstância, você sente aquela emoção, e o que é um problema, às vezes, inconsciente, torna consciente para você. Então, de certa forma, é uma cura. Acho que o nosso filme tem essa temática, esse potencial –não de curar a pessoa, acho que seria muita pretensão – mas de trazer a consciência e falar que isso existe, a gente precisa falar, e se não for falado, o caminho é meio que esse trágico da Virgínia. Então, jogar para cima e falar, principalmente aos pais: vejam isso, porque esses personagens desse filme não são assim por causa deles, e sim pelo ambiente em que eles estão, pelos pais. Aianne: Carol fala muito sobre como o filme se relaciona com ela no nível pessoal, especialmente na adolescência dela. Vocês sentem que o personagem que vocês interpretaram conseguiu atingir também individualmente com a história de cada um? Daniel: Para mim, sim e não, porque o Gabriel acabou que caiu em emboscadas violentas, vamos colocar assim. Ele acabou tendo essas armadilhas violentas e fáceis para essa exclusão dele. Eu não tive isso, mas tive a exclusão. Eu, Daniel, particularmente, sempre fui uma criança muito ingênua, muito pacífica, muito cristã, do tipo, o moleque me zoava e eu tinha que dar outra face, então ele meio que me zoava e eu comprava picolé para ele. Mas acabava que eu peguei esse lugar do isolado, do não compreendido, e tive que entender esse aspecto do possível violento. Mari: Para mim, se relaciona quase totalmente, me emprestei muito das minhas experiências de despertencimento, de hipersexualização desde muito nova, de adultização dessa menina, de ter que ser responsável desde tão cedo pela ausência do pai e pela ausência presente da mãe, com a questão da depressão dela. É uma experiência, acredito, quase universal de mulheres negras no Brasil, especialmente a questão da responsabilidade. Assim que li [o roteiro], fiquei muito impactada dosando também o quanto eu emprestaria, entendendo o quanto eu poderia me abrir nesse processo. Mas, depois que a gente entendeu que estava todo mundo imerso, a gente mergulhou de cabeça nessas questões que já estavam pautadas. Os personagens já tinham as suas questões escritas, mas acho que eles ganharam muito quando a gente se emprestou um pouquinho também, eu na minha experiência, o Daniel na experiência de estranheza que ele falou da adolescência dele… Acho que eles ficam menos chapados nesse sentido, ficam mais profundos, mais relacionáveis, e acho que isso imprime muito. Michel: Engraçado. Tenho links com o Nicolas, mas me sinto muito distante. Acho que justamente por isso foi fascinante fazer ele, esse exercício de se colocar na pele. Os links que eu tenho são de esporte, eu era um adolescente que tinha muita insegurança, e que não parecia, mas tinha. E o Nicolas tem, num lugar diferente, mas tem. Para mim, foi fascinante me colocar na pele dele, viver esse adolescente que não tem os pilares principais de afeto e segurança social, que são os pais, que são completamente ruídos, que não aceitam quem ele é, que ele não é visto, não é escutado, não consegue ser quem ele é. Começar a imaginar como seria esse ser, quais são os sonhos, o que ele sente em relação aos pais, qual é a carência que a Virgínia preenche nele, a Luana, o Gabriel… Como é que ele se enxerga, como é que foi a infância, o que ele vai ser para o futuro. Até que, conversando com a Carol na sua imagem, a gente chegou a uma conclusão: o Nicolas tem dois caminhos de futuro, que eu consigo enxergar, e que são extremos. Um, ser como o pai é, virar um pai rígido, um político de direita, completamente recalcado, reacionário. Ou vai quebrar esse casulo de drywall dele e descobrir e realmente ser quem ele é, e talvez ser um super artista performático. Acho que ele tem essa capacidade, ele tem esse potencial dentro dele, você vê que ele tem uma sensibilidade – é tóxica, mas ele usa essa sensibilidade que ele tem, porque ele precisou crescer lendo os pais, vendo quando ele ia ser extremamente reprimido. Ele podia usar essa sensibilidade para outro lugar. E hoje a gente tem muitas figuras públicas que são meio Nicolas, né? Na época [das gravações] a gente não tinha tanto, mas hoje a gente tem muitos caras jovens na política que são idênticos, claramente. Mari: Inclusive que se chamam Nicolas! [risos] Aianne: Vi no portfólio de vocês já muitos filmes e muitos créditos. Como tem sido crescer nesses últimos anos no audiovisual nacional? Daniel: É uma escola, né? É uma escola. E é a oportunidade de trazer um pouco realidades daqui para cá. Michel: Eu acho que quanto mais antropofágico, quanto mais a gente contar as nossas próprias histórias, mais colocar as pessoas que realmente são o Brasil na tela, mais representatividade a gente vai ter. E voltando para a pergunta anterior, acho que menos políticos recalcados, que não foram representados, que não tiveram nada que mostrasse para eles: “olha, isso existe, pode haver uma cura, cura no sentido de você com você mesmo, das suas emoções, de você pode ser quem você é, cura dessa saúde mental, desse recalque” acho que a gente estaria em uma sociedade andando muito mais sensivelmente para frente de verdade. E acho que o audiovisual tem essa potência. Mari: Como atriz, toda vez que o cinema me escolhe, eu fico honrada. Porque é realmente um lugar de paixão muito grande para mim. Como espectador, é uma coisa que eu estava refletindo essa semana, que me parece um momento muito próspero para fazer e consumir cinema nacional. Porque em tempos de internet, de edit, TikTok, coisas que a gente tinha pavor de afastar o espectador do cinema, tem acontecido justamente o efeito contrário. Eu sou super otimista nesse sentido, mas é real. Eu vejo o quanto o acesso a essas redes e a esse tipo de conteúdo tem levado o cinema brasileiro para mais jovens. Esses dias, a minha irmã veio me perguntar se eu já vi Madame Satã como se fosse um lançamento de mês passado. E eu falei “óbvio que já!”, fiquei até meio ofendida (risos), mas daí eu falei, “como esse filme chegou em você?” E ela disse, eu vi um edit lindo no TikTok e isso fez ela ir atrás do filme. E muitas pessoas vão atrás dos filmes por conta disso. Então, eu acho que a gente está num momento lindo de ter mais acessibilidade mesmo aos filmes e eles parecerem mais alcançáveis. Tem muitas pessoas fazendo trabalhos incríveis também para popularizar o cinema nacional. Tem um menino, que eu não vou lembrar o nome dele agora, mas ele faz um quadro, tipo, “tem um filme nacional para isso”. Se você gosta de um filme, aí começa a descrever um filme que, tipo, claramente seria, sei lá, um Hitchcock. Aí ele fala “existe filme tal que vai te atender”. Em todas essas categorias, em tudo que você quer assistir nesse sentido, existe um filme brasileiro para isso. Olha como esse cara está conseguindo popularizar, levar, democratizar e também desmistificar! Que é o mais importante, que a gente tenha essa noção de que filme brasileiro ele é cabeça, ele é cult, e às vezes ele é mesmo, mas hoje tem se feito cada vez mais os filmes mais populares, mais palatáveis. Eu me orgulho muito.
- Análise | Lost 20 anos
Duas décadas do último reset cultural da televisão estadunidense pré-streaming Divulgação Se você minimamente acompanhava séries de televisão estadunidenses no início dos anos 2000, ou mesmo se você tinha acesso a internet nessa época, sem dúvidas você sabe o tamanho do fenômeno internacional que foi Lost. Tenha você comprado a ideia ou não, poucas pessoas do nicho supracitado passaram ilesas a dimensão da repercussão que o programa levantou. Ano passado a nossa enciclopédia da televisão estadunidense, Filipe Chaves, escreveu um baita texto sobre os porquês de até hoje Lost não ter tido uma sucessora oficial, apesar de terem tentado à exaustão. Então esse artigo vai procurar evitar pontos citados pela autoridade no assunto, tentando complementar porque a série é influente até os dias de hoje e porque ela nunca sairá de moda. Vários astros tiveram que se alinhar para que em 2004 J.J. Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse estivessem juntos e comandassem a primeira temporada do programa. Entre ideias geniais de grandes talentos e polêmicas de abuso, a sala de roteiristas de Lost criou um conteúdo encorpado que em tudo imprimia as personalidades desses três homens. Basta olhar seus currículos antes e depois da série para entender como um acidente aéreo numa ilha tropical culminou num terreno pra lá de fértil e serviu como denominador comum de suas criatividades. Divulgação E as temáticas de Lost serão sempre citadas como um de seus principais atrativos, talvez o principal. A amálgama de gêneros que passava pela ficção científica, suspense, drama e romance permitiu que as mais diversas questões universais da existência humana fluíssem com muita naturalidade das linhas e entrelinhas. Temas antológicos, científicos e metafísicos recorrentemente mostravam que aquelas pessoas e aquela ilha eram apenas a superfície de um profundo material bem embasado na filosofia, literatura e ciência. Temas como fé, morte, propósito, passado, presente e futuro andaram lado a lado de forma inteligente, ilustrativa e supersensível, sem negar ou contrapor as diferentes interpretações que porventura um espectador tivesse. E se alguém se recusasse a queimar seus neurônios em teorias mais demoradas e quisesse apenas saber o que diabos estava acontecendo naquele lugar e como os sobreviventes sairiam dali, Lost também funcionava/funcionou/funciona em sua camada mais externa e imediata do processo. Estamos falando de uma época em que basicamente apenas a HBO produzia programas mais enxutos, com menos de 15 episódios; fora isso os canais de televisão abertos dos EUA faziam séries com mais de 20 capítulos por temporada. O que era um prato cheio para as farofas médicas e policiais, já que cada episódio era um caso a ser resolvido, e no plano de fundo um arco maior que ia se arrastando até o episódio final. Até hoje é assim e para quem gosta é bom. Lost resolveu levar sua estrutura mais a sério e valorizar o elenco que tinha em mãos. Suas três primeiras temporadas contaram com mais de 20 episódios. A fórmula inicial aplicou cada episódio a um passageiro (ou a um par deles que se acompanhavam no voo), e através de flashbacks apresentava o que estava acontecendo em suas vidas até que o ponto de convergência de todos eles, a queda do Oceanic 815. Divulgação E por mais houvesse mortes de personagens com certa frequência – algumas para o alívio tardio dos fãs e outras para o sofrimento –, eles não sucumbiam à trivialidade de episódios-casos, e sempre voltavam para somar à trama. Todos os coadjuvantes acabavam por se tornar recorrentes e o texto sabia aproveitar as possibilidades de um elenco versátil, diverso e internacional. Lost colocou em evidência mulheres e homens negros, latinos, asiáticos e africanos. A variedade de corpos e rostos era, claro, mais uma ferramenta de identificação com o público, mas não deixou de ser um dos primeiros grandes espaços na televisão estadunidense a misturar coreano, francês, português, espanhol, árabe e forçar os norte-americanos a lerem algumas legendas. Entre os personagens, a série tinha seu casal protagonista que ora virava trio-protagonista, ora virava quarteto, o que era natural para a estrutura argumentativa e importante para o marketing, mas em momento algum o roteiro os deixava serem os únicos pilares de uma gigante construção. Lost tinha suas influências bem à mostra, fosse nos famosos easter eggs (mensagens subliminares colocadas à vista ou meio que escondidas em cena) ou fosse em citações diretas, como nomes de episódios e nomes de personagens. E era o que a série fazia com essas referências que tornava a brincadeira ainda mais saborosa. Como se fosse uma caça ao tesouro tentar entender: por que aquela música tocou naquele momento? Será que aquela francesa tem o nome de um filósofo por acaso? Aquele livro citado tem a ver com algum personagem? Tudo poderia ser um quebra-cabeças que fazia o espectador se debruçar naquele universo. E, mais uma vez, se o espectador em questão não fazia tanto caso de se aprofundar, não faltavam questões mais explícitas e unânimes como “por que tem um urso polar numa ilha tropical?”. Como tudo que faz sucesso, não demorou a aparecer os primeiros críticos-haters-trolls de Lost. E durante a sua terceira temporada os impacientes e ineptos que não conseguiram engatar no ritmo e na frequência da série logo começaram a fazer tumultos virtuais nas saudosas redes sociais de outrora, e em blogs de longo alcance, atacando precisamente tudo de novo que Lost trazia em contraponto ao programas tradicionais e mais, digamos, lineares, da televisão gringa. A piadoca viral era de que os roteiristas é que realmente estavam perdidos e andavam em círculos por não saber como chegar a uma conclusão. Bem, não sejamos hipócritas, atire a primeira pedra quem, depois da quarta temporada, não chegou a pensar que de fato algumas coisas estavam saindo do lugar de origem e o rumo que a série estava tomando não era bem o que o senso comum estava esperando. E não era mesmo. Foi quando a série começou a apontar para o sentido de seu encerramento que houve uma ruptura entre os que de fato haviam comprado a ideia até o final e os que queriam respostas mais simples. Daí para frente os desencontros começaram a ser mais frequentes, os ritmos dos episódios já não dialogavam tanto entre si (o número de episódios diminuiu), mas as resoluções estavam aparecendo aos poucos, gostasse o público ou não. Divulgação O que não se pode dizer é que Lost deixou de ousar até seu último segundo. O para sempre famoso episódio final (não vou tacar spoiler, por mais que se tenha se passado todo esse tempo) foi a consagração de um apoteótico produto cultural que não teve medo de se apresentar e se desdobrar ao seu público entre erros e acertos. Ele contemplou aqueles mesmos assuntos que a série trazia desde seu início, respeitou seus personagens, suas narrativas, suas diretrizes, e deu aos fãs um material para se aproveitar, rever e comentar sem prazo de validade. A televisão norte-americana pré-serviços de streaming jamais veria outro acontecimento naqueles moldes, com aquela coragem e com tanta vontade de prosperar. Lost foi a série perfeita? SIM Não, mas ela também sequer perdia tempo tentando se polir, se arrumar ou se disfarçar de algo que não tinha intenção. Papo de velho, mas vou dizer: os tempos eram outros. O mundo antes dos smartphones tinha mais espaço para os encantos analógicos, para as páginas de revistas, os volumes especiais, os jornais, os outodoors - tudo respondia ao sucesso de um conteúdo que através do brilho da globalização colonial existia também fora do virtual e dos pixels. E junto com as locadoras e seus banners e posters criativos e lançamento dos boxes de DVD era fácil comprovar que a gente estava testemunhando um reset cultural e um fenômeno comercial. E quem era fã se orgulhava de ostentar tanta bugiganga quanto cabia num quarto; eu pelo menos me orgulhava. Mas que bom que Lost viveu e sobreviveu a tudo isso, basta volta e meia deixar e retornar ao catálogo de um canal online que a série entra no top 10 de programas mais assistidos. É, portanto, a prova final, a prova do tempo, que mostra que Lost não envelhece, ou que envelheceu bem, e que continua deslumbrando a minha e outras gerações.
- 'Ainda Estou Aqui' será o representante do Brasil na corrida de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025
O longa de Walter Salles estreia em 7 de novembro nos cinemas do país Divulgação Nesta segunda-feira, dia 23 de setembro, a Academia Brasileira de Cinema anunciou que Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, será o representante do Brasil na corrida de Melhor Filme Internacional do Oscar 2025. “Estou orgulhosa de presidir essa comissão, que foi unânime na escolha desse grande filme sobre memória, um retrato emocionante de uma família sob a ditadura militar. ‘Ainda Estou Aqui’ é uma obra-prima, sobre o olhar de uma mulher, Eunice Paiva, e com atuações sublimes das duas Fernandas. Esse é um momento histórico para nosso cinema. Não tenho dúvida que esse filme tem grandes chances de colocar o Brasil de novo entre os melhores do mundo. Nós, da indústria do audiovisual brasileiro, merecemos isso”, afirma Bárbara Paz, presidente da Comissão de Seleção. O longa estreou no Festival de Veneza 2024, onde conquistou o prêmio de Melhor Roteiro da competição oficial. Em seguida, passou por outros festivais, incluindo Toronto e San Sebastián, e já está programado para várias outras exibições, como Nova York e Chicago, além da Mostra de São Paulo. Ainda Estou Aqui concorreu com outros 11 filmes pela representação e avançou para a pré-lista ao lado de cinco deles: Cidade; Campo, de Juliana Rojas; Levante, de Lillah Halla; Motel Destino, de Karim Aïnouz; Saudade Fez Morada Aqui Dentro, de Haroldo Borges; e Sem Coração, de Nara Normande e Tião, sendo que os três últimos são produções nordestinas. Em comunicado, o diretor Walter Salles fala sobre a escolha e destaca a grandiosidade do cinema brasileiro: “Para toda a família de ‘Ainda Estou Aqui’ é uma honra representar o Brasil no Oscar, e nos Festivais de cinema como Veneza e San Sebastian. Esperamos ansiosamente pelas estreias na Mostra de São Paulo e depois em uma sessão especial do Festival do Rio, porque esse filme existe, antes de mais nada, para se relacionar com o público brasileiro. Nada disso seria possível sem o livro fundamental de Marcelo Rubens Paiva e o apoio da família Paiva, que nos inspiraram constantemente nessa jornada. Aproveito para celebrar o fato de o cinema brasileiro estar sendo abraçado e premiado desde o início do ano nos principais festivais internacionais como Sundance, Berlim, Cannes, Veneza, Locarno. Vários filmes premiados são de cineastas estreantes, e não poderia haver melhor notícia para o cinema brasileiro. No documentário também temos um ano com filmes excepcionais. Esse conjunto de filmes prova que nossa cinematografia se reergue depois de anos difíceis. Torço para que o ano que vem seja ainda melhor para o cinema brasileiro.” A Comissão de Seleção deste ano foi formada por: Alfredo Alves, Allan Deberton, Alzyr Brasileiro, André Pellenz, Bárbara Paz (presidente), Bernardo Uzeda, Bia Oliveira, Carol Bentes, Cintia Domit Bittar, Diogo Dahl, Edson Ferreira, Eloisa Lopez Gomes, Gabriel Mellin, Gal Buitoni, Gláucia Camargos, Ivelise Ferreira, Joaquim Haickel, Lô Politi, Lucy Barreto, Malu Miranda, Mónica Trigo, Renata Martins, Sandra Kogut e Yasmin Martins Mendes. Divulgação Sinopse oficial de Ainda Estou Aqui: Rio de Janeiro, início dos anos 70. O país enfrenta o endurecimento da ditadura militar. Estamos no centro de uma família, os Paiva: Rubens, Eunice e seus cinco filhos. Vivem na frente da praia, numa casa de portas abertas para os amigos. Um dia, Rubens Paiva é levado por militares à paisana e desaparece. Eunice – cuja busca pela verdade sobre o destino de seu marido se estenderia por décadas – é obrigada a se reinventar e traçar um novo futuro para si e seus filhos. Baseada no livro biográfico de Marcelo Rubens Paiva, a história emocionante dessa família ajudou a redefinir a história do país. Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Valentina Herszage, Maria Manoella, Luiza Kosovski, Marjorie Estiano, Bárbara Luz, Gabriela Carneiro da Cunha, Cora Mora, Olivia Torres, Guilherme Silveira, Antonio Saboia, Pri Helena, Humberto Carrão, Maeve Jinkings, Dan Stulbach, Camila Márdila, Luiz Bertazzo, Lourinelson Vladmir, Thelmo Fernandes, Carla Ribas, Daniel Dantas, Charles Fricks, Helena Albergaria, Marcelo Varzea, Caio Horowicz, Maitê Padilha, Luana Nastas, Isadora Gupert, Alexandre Mello, Augusto Trainotti e Alan Rocha. A pré-lista de Melhor Filme Internacional do 97ª Oscar será divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no dia 17 de dezembro.
- Crítica | Não Fale o Mal
Remake hollywoodiano pode ser desnecessário, mas surpreende por escapar da sombra do original Foto: Divulgação O anúncio de um remake estadunidense do elogiado terror dinamarquês Não Fale o Mal não fez nenhum favor à imagem já consolidada da gana hollywoodiana por lucrar em cima de obras estrangeiras, aliada à aparente incapacidade dos estadunidenses de ler legendas. Afinal de contas, não estamos falando de um filme lançado há décadas, mas sim apenas dois anos atrás. No mínimo poderia se esperar uma obra apática que perderia muito do que tornou o original tão famoso. Embora eu considere que as adaptações devem ser avaliadas por seus próprios termos, fiz um esforço de assistir o original antes do remake (numa espécie de “sessão dupla”). A premissa é basicamente a mesma, com as devidas transposições geográficas: o casal estadunidense Ben e Louise (Scoot McNairy e Mackenzie Davis, repetindo a parceria de Halt and Catch Fire ) estão de férias na Itália quando conhecem os ingleses Paddy e Ciara (James McAvoy e Aisling Franciosi), que então os convidam para visitá-los no interior da Inglaterra. Incapazes de dizer não, o casal vai com a filha, mas não tarda para o fim de semana escalar rumo ao terror. Aqui cabe um pequeno adendo: não gostei tanto do original quanto muitas pessoas, especialmente pela maneira como o roteiro pesava a mão na passividade dos protagonistas para “aceitarem” os crescentes absurdos impostos pelo outro casal, além de ensaiar uma suposta crise entre o casal que, no entanto, nunca passava da superfície, sendo prejudicada por uma montagem inconstante na sua primeira metade. Para minha surpresa, o remake trabalha muito melhor essa perspectiva passiva de Ben e Louise, além de nos dar um contexto muito mais sólido a respeito dessa crise e como ela justifica que eles vão visitar uma família que mal conhecem. Se no original era o marido quem estava preso a essa passividade forçada e artificial (ao ponto de se tornar o personagem mais insuportável da obra), aqui a performance de McNairy – um ator ótimo em interpretar idiotas emasculados, como o seu Gordon de HACF – nos traz uma perspectiva mais convincente para as ações de seu personagem, ou falta delas, de modo que nosso desprezo por ele está muito melhor ancorado narrativamente, não parecendo apenas uma falha do filme em relação ao tratamento dado ao personagem. Foto: Divulgação Do outro lado, McAvoy consegue resgatar muito daquela persona carismática e aterrorizante vista em Fragmentado , na medida em que nossa relação com seu personagem evolui de uma atração magnética para um choque perante sua perversidade, o que é realçado pela fisicalidade que ele impõe ao seu Paddy. Diria até que o filme brinca e satiriza noções de masculinidade através dos dois protagonistas, com Paddy carregando uma espécie de discurso coach motivacional “masculinista” que atrai criaturas tão fracas e patéticas como Ben. Não à toa, isso dá espaço para que a Louise de Mackenzie Davis cresça como uma personagem mais reativa e proativa dentro da trama, em especial no último ato. É quase como se o filme soubesse que o original pedisse muito da suspensão de descrença para aceitar que o casal podia ser tão fraco, e então nos guiasse por um caminho narrativamente parecido, até que decide subverter essa estrutura praticamente por completo. O último ato será certamente o mais polarizador, visto que é onde o Não Fale o Mal estadunidense enfim escapa da sombra do dinamarquês. É uma aposta arriscada que, embora eu entenda as motivações por trás, não exatamente me conquista, visto que descamba para um encerramento um tanto genérico e alinhado com o que poderíamos esperar de uma produção hollywoodiana. Com todos os seus problemas, o final do original ainda se distinguia de alguma forma com uma conclusão cínica e cruel. Mas talvez o que mais me desagrada aqui é a maneira como o mal abstrato do longa dinamarquês é posto de lado em favor da necessidade de explicação e contextualização para este mal na nova versão. Precisamos mesmo que todo vilão tenha uma história de origem triste, ou que suas ações sejam justificadas? Não deixa de entrar em cena um certo moralismo, refletido até mesmo em algumas escolhas mais seguras (e covardes) para fechar esta versão da mesma história. Mas apesar dos problemas com o último ato, ouso dizer que, no saldo geral, Não Fale o Mal consegue a rara proeza de superar o original, consertando exatamente os principais problemas que eu tinha com o longa dinamarquês. Há uma narrativa mais polida e um trabalho mais primoroso do diretor James Watkins na construção e esticamento da tensão entre os protagonistas, mostrando como duas obras aparentemente idênticas podem ser tão distintas entre si a partir da maneira como é realizada a encenação. O longa pode não resolver o problema geral de Hollywood com seus infindáveis remakes, mas mostra que em meio a essa seara podem surgir novas versões com o seu devido valor. Nota: 3,5/5
- Crítica | Quando Eu Me Encontrar
Protagonista desinencial em roteiro sobre o vazio físico se encaixam muito bem em cena Foto: Divulgação/ Embaúba Filmes A partida de Dayane se desenrola na vida daqueles que ela deixou para trás. Sua mãe, Marluce, faz de tudo para não demonstrar o choque que a partida da filha lhe causou. A irmã mais nova de Dayane, Mariana, enfrenta alguns problemas na nova escola onde está estudando. Antônio, noivo de Dayane, se vê num vazio diante da partida dela e busca obsessivamente por respostas. O primeiro longa-metragem das cineastas Amanda Pontes e Michelline Helena é um filme esperto e bem encorpado. A proposta de roteiro à la Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940) – de ter uma protagonista que não vemos e só conhecemos através dos personagens que por ela orbitam – é um trunfo que prende a atenção do espectador com firmeza e conduz a narrativa com fluidez. Com sensibilidade e delicadeza, o texto aborda a ausência de quem parte repentinamente e como esse espaço físico afeta as pessoas que lidavam diretamente com que partiu. A falta de detalhes sobre o paradeiro de Dayane deixa a trama sempre instigante e fresca, e os personagens bem construídos conseguem preencher as camadas ao mesmo tempo que dão profundidade e credibilidade ao argumento. Foto: Divulgação/ Embaúba Filmes A produção flerta com o musical enquanto gênero, existem cenas em que personagens chegam a cantar e a música serve como canal de progressão da história, e existe cena em que a música, como trilha sonora, mesmo não sendo enunciada pelos atores, também intensifica as emoções e catalisa a cadência dos fatos. O elenco está deslumbrante. Destaque para a dinâmica orgânica da relação entre as atrizes Luciana Souza e Pipa, que brilham em cena. David Santos é outro nome que merece atenção, o ator que esteve em Motel Destino imprime um personagem vulnerável e complexo e que também funciona bem com quem divide a maior parte de seus momentos, a elegante Di Ferreira e o talentoso Lucas Limeira. No entanto, mesmo com uma boa condução narrativa e com um corpo de atores agudo, talvez o maior obstáculo do completo êxito seja o desfecho dos personagens que não consegue atingir, de maneira geral, um ponto satisfatório conclusivo a altura de suas motivações iniciais. De toda forma, é na maneira que as diretoras filmam a experiência de conhecer pessoas que resistem a perdas, e tentam ressignificar espaços, que reside a força e a beleza do longa, e nisso ele se sai muito bem. Nota: 3,5/5
- Emmy 2024: Quando a Expectativa Encontra a Surpresa – Uma Análise da Temporada
Em um ano pós-greve e com expectativas baixas, a premiação superou a apatia nos momentos finais Divulgação: Max No último domingo, dia 15, aconteceu o Emmy 2024, uma edição que, para muitos, parecia uma das mais apáticas e desinteressantes dos últimos anos. Isso porque, desde o início da temporada de premiações, O Urso dominou suas respectivas categorias, deixando pouco espaço para surpresas. Nas categorias de série limitada ou antologia, Treta venceu tudo que podia, incluindo em cima de indicadas do Emmy deste ano. Além disso, com o fim de Succession — que, assim como a citada anteriormente, ainda conseguiu competir no Globo de Ouro, SAG e Critics' Choice devido à elegibilidade — a categoria de Drama ficou completamente em aberto. Mas será que essa abertura trouxe alguma renovação ou foi apenas uma formalidade previsível? Antes de nos aprofundarmos nisso, vamos relembrar os vencedores das premiações mencionadas anteriormente: Succession: 4x Globo de Ouro, 4x Critics Choice, 1x SAG, PGA… O Urso: 3x Globo de Ouro, 4x Critics Choice, 3x SAG, DGA, PGA… Treta: 3x Globo de Ouro, 4x Critics Choice, 2x SAG, PGA… The Crown (Elizabeth Debicki): 1x Globo de Ouro, 1x Critics Choice, 1x SAG… The Last of Us: 1x SAG, DGA… Fellow Traveler’s (Jonathan Bailey): 1x Critics Choice Lessons in Chemistry: DGA Agora, com essas vitórias relembradas na análise, sem falar diretamente do Emmy por enquanto, percebem que, apesar de pequenas variações, os mesmos vencedores se repetem constantemente em várias premiações. Esse padrão é preocupante para muitos que acompanham de perto o circuito de premiações, que deveriam, em tese, funcionar como um termômetro criativo da indústria televisiva. No entanto, parece que estamos presos em um ciclo repetitivo, onde poucas produções dominam quase todas as categorias de forma automática. Partindo do princípio de que esses prêmios são, acima de tudo, programas de TV em busca de audiência e prestígio, até quando o público vai tolerar essa falta de renovação, enquanto as próprias premiações afirmam valorizar a inovação? Essa hegemonia pode ser justificada até certo ponto. O Urso realmente se destacou na temporada e, em muitos aspectos, mereceu seu reconhecimento. Mas será que deveria ter vencido em todas as categorias? Será que outras produções não foram ofuscadas por uma tendência da crítica e da indústria em premiar o que está mais em evidência, por pura conveniência? Todos sabemos que a resposta é sim. Como já mencionado, o Emmy e outras premiações são feitas pela indústria e para a indústria, e isso dificilmente mudará. No entanto, será cada vez mais difícil suportar mais uma década sem a devida consideração pela diversidade do que há de melhor na TV. Afinal, essa apatia é sentida por todos que acompanham. E eu, como um mero fã de The Leftovers e The Wire, sei que isso acontece há décadas. Acredito que estamos chegando a um ponto em que o mercado está tão saturado de novidades e estreias que, como afirmou John Landgraf, presidente da FX Networks, ninguém vai acabar assistindo a nada. E as premiações seguem esse mesmo caminho: sem mudanças significativas e sem perspectivas de melhora. Divulgação: FX Para analisar o Emmy deste ano com mais profundidade, vamos incluir também os vencedores do TCA Awards 2024. Esta premiação, concedida pela Associação de Críticos de Televisão dos Estados Unidos, é amplamente reconhecida por muitos - e por mim - como uma das mais justas. Afinal, como todo prêmio deveria ser, os críticos que a compõem assistem ao que indicam e premiam com base nisso. Neste ano os ganhadores foram: Série de Drama: Shogun (FX) Série de Comédia: Hacks (Max) Série Limitada: Bebê Rena (Netflix) Atuação em Drama: Anna Sawai (Shogun) Atuação em Comédia: Jean Smart (Hacks) Programa do Ano: Shogun (FX) Novo Programa do Ano: Shogun (FX) "Mas, Rafael, isso é exatamente o que você mencionou antes: repetição de vencedores e pouca variedade." Sim e não. Embora tenhamos visto as mesmas séries ganhando, o problema não está na repetição em si. O verdadeiro problema surge quando essa repetição acontece sem justificativa, ou seja, quando as séries vencedoras não apresentam razões claras para sua predominância. E mais: embora eu considere o TCA a premiação mais justa, até eles cometem deslizes. Um exemplo é nunca terem premiado Reservation Dogs. A diferença é que, ao contrário de outras premiações, o TCA reconheceu a série em todas as suas temporadas, inclusive na principal categoria de Melhor Programa do Ano. Para comparação, o Emmy só a indicou em categorias principais na última temporada, apesar de sua inegável contribuição à televisão, tanto pela qualidade narrativa quanto pela inédita representação indígena, tanto nos bastidores quanto diante das câmeras. Sim, estou insistindo no mesmo ponto. Agora, entrando no que vocês realmente querem saber: o Emmy 2024 e seus vencedores. Para facilitar a análise, vou dividir os resultados e minha opinião por gênero. Vamos lá! Série Limitada Divulgação: Netflix Essa categoria se renova a cada ano, já que a maioria das séries limitadas ou antologias tem apenas uma temporada e, quando possuem mais, geralmente apresentam novas histórias. Olhando para trás, percebemos que as regras dessa categoria passaram por várias mudanças, seja com a inclusão e exclusão de filmes para TV ou com a introdução das antologias. Isso é especialmente relevante devido ao boom das minisséries nos anos 2010. Se antes havia anos com apenas dois indicados por conta da escassez de produções, hoje temos cinco indicados fixos, refletindo a crescente demanda e a diversidade do gênero. Em 2024, as novatas Lessons in Chemistry (Apple TV+) e Ripley (Netflix) foram indicadas, ao lado das veteranas Fargo (FX) e True Detective (HBO), que, apesar das expectativas iniciais, acabaram surpreendendo com suas novas temporadas. No entanto, nenhuma delas conseguiu superar o fenômeno Bebê Rena (Netflix). A série, criada, escrita e estrelada por Richard Gadd, tornou-se um dos maiores sucessos da década na Netflix, dominando a categoria. Bebê Rena venceu como Melhor Minissérie, Ator (Gadd), Atriz Coadjuvante (Jessica Gunning) e Roteiro, conquistando seis das 11 categorias em que foi indicada. Surpreendentemente, o número de vitórias foi menor do que o esperado, já que havia chances de vencer também em Melhor Direção em Minissérie, prêmio que foi para Steven Zaillian por Ripley. Essas dominações, como mencionei no início, têm se tornado frequentes. No Emmy passado, Treta (Netflix) conquistou 8 dos 13 prêmios para os quais estava indicada. Em 2022, The White Lotus (HBO) venceu impressionantes 10 prêmios e, neste ano, ainda dominou metade das categorias de coadjuvante (algo que se repetiu no ano seguinte, quando passou para as categorias de drama). Será que metade dessas indicações realmente foi merecida, ou a aclamação em torno de The White Lotus acabou influenciando as escolhas? Sabemos a resposta. Enfim, para finalizar esse tópico, as veteranas Fargo e True Detective acabaram cada uma levando um prêmio para casa. Lamorne Morris fez com que a antologia do FX vencesse o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, enquanto a oscarizada Jodie Foster conquistou o Emmy de Melhor Atriz em Minissérie por seu trabalho na série da HBO. Série de Drama Divulgação: FX Após o domínio de Succession na edição anterior do prêmio, surgiram dúvidas sobre qual série herdaria seu legado. Seria The Crown? Após a recepção morna da última temporada, muitos descartaram essa possibilidade. Ou talvez a nova aposta dos criadores de Game of Thrones, David Benioff e D. B. Weiss? Acertou quem apostou em 3 Body Problem, que recebeu uma indicação, mas foi sua única no Primetime Emmys. E quanto a The Morning Show? Sendo sincero, se não houvesse uma grande concorrente no páreo, não me surpreenderia se tivesse levado, especialmente após receber 16 indicações, muitas delas nas categorias principais. Eu diria que Slow Horses foi a grande surpresa da categoria do ano. Esnobada nas suas duas primeiras temporadas, a série chegou com força em 2024, recebendo 9 indicações e levando para casa o prêmio de Melhor Roteiro em Drama. Essa vitória teria sido a maior surpresa da noite, não fosse o último caso que discutirei neste artigo. Criada por Will Smith, a série de espionagem do Apple TV+ é uma das poucas produções que consegue estrear pelo menos uma temporada por ano, e às vezes até mais — falamos um pouco sobre isso nesta análise aqui, o que torna essa vitória ainda mais significativa. Enfim, no final das contas, nada disso importa quando a grande novata do ano, Shogun, chega com os dois pés na porta e bate o recorde de maior número de vitórias por uma única temporada, com impressionantes 18 prêmios. Além disso, tornou-se a primeira série majoritariamente falada em língua não-inglesa a ganhar o troféu principal. Mas voltamos à mesma questão: será que entre esses 18 prêmios, não havia uma série capaz de desafiar o grande nome do ano? Havia, sim. Séries como Silo, The Curse, Tokyo Vice, Sugar, For All Mankind e Dark Winds estavam presentes, mas nenhuma delas recebeu uma indicação nas categorias principais. Será que elas foram assistidas? Eu duvido muito — lembrando que críticos não votam no Emmy, apenas pessoas de dentro da indústria, como atores, diretores, roteiristas. Contudo, também é importante considerar que estamos falando de uma edição esvaziada, sem grandes veteranos competitivos, e os que foram considerados não foram tão bem recebidos. Fico muito feliz por Shogun, de verdade. Só ela ou Slow Horses poderiam vencer esse prêmio e honrar a grandiosidade da categoria. Mas será que era necessário conquistar tanto, ou precisava mesmo? O futuro e a trajetória da série vão nos mostrar. Série de Comédia Divulgação: Max Todos que acompanharam a temporada de premiações sabiam que O Urso era o grande favorito do ano. A série conquistou tudo: Globo de Ouro, Critics' Choice, PGA, DGA… Não parecia haver ninguém com real chance de desafiá-la, especialmente após ter vencido vários prêmios no Creative Arts Emmy e começado a noite ganhando outros. Jeremy Allen White e Ebon Moss-Bachrach foram novamente premiados como Melhor Ator e Ator Coadjuvante em Comédia, respectivamente. Liza Colon-Zayas conquistou o troféu de Melhor Atriz Coadjuvante, um reconhecimento merecido pela terceira temporada da série, apesar da competição ser da segunda temporada (a FX estrategicamente lançou cada temporada durante o período de votação do Emmy, lembrando aos votantes da série). Além disso, o prêmio de Melhor Direção em Comédia foi para o trágico e brilhante episódio Fishes. Enfim, tudo indicava que O Urso seria o grande vencedor da categoria principal do gênero, até que Jean Smart surgiu com uma surpresa e roubou o protagonismo para Hacks (Max), que finalmente levou o prêmio de Melhor Série de Comédia, após ter ficado perto da vitória em duas ocasiões anteriores. A polêmica sobre se a série de Christopher Storer se enquadrava ou não como comédia pode ter influenciado essa decisão, mas essa questão pode ser abordada em outra análise, pois esta já está bastante extensa. "Alguns de vocês estão esperando que façamos uma piada sobre se ‘The Bear’ é um drama ou uma comédia. Mas, no espírito de ‘The Bear’, não faremos nenhuma piada." — Eugene Levy no palco do Emmy. De verdade, acompanho toda a temporada de premiações, seja de TV ou cinema, e nos últimos anos nada chegou perto da surpresa que tive quando Catherine O’Hara anunciou o nome de Hacks no palco. Não foi por questionar a qualidade da série, mas por tudo que tentei expressar neste artigo. O Emmy é uma premiação previsível; com os preditores certos, você já sabe quem vai vencer. Com uma rápida olhada no site Goldderby, dá para prever os prêmios com precisão. Mas, dessa vez, a Academia de Televisão decidiu surpreender de forma muito positiva justamente na última entrega da noite, e foi um final mais do que satisfatório. No Bluesky, os fãs ficaram em êxtase; nem os mais otimistas, torcendo pela série de Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky, acreditavam no que havia acontecido. E é exatamente para isso que as premiações também servem: surpreender, inovar e premiar quem realmente merece. Talvez tudo tenha sido potencializado pela falta desse sentimento de surpresa no restante da noite e nos anos anteriores? Sem dúvidas alguma, mas é ótimo saber que de vez em quando isso ainda pode acontecer.
- Entrevista | Diretora e Elenco de 'Paying for It' em Exclusiva ao Oxente, Pipoca?
OP? conversou com diretora, Sook-Yin Lee e elenco sobre a adaptação da famosa e polêmica HQ Foto: Divulgação Vim parar no jornalismo de entretenimento depois de me aventurar em alguns sets de filmagem e ser sufocada pela grande ansiedade que todo aquele ambiente gera. Ego de atores, silêncio demandado pela equipe de som, luzes capazes de te cegar enquanto te matam de calor. E, é claro, a demanda emocional da narrativa. Trabalhei em pouquíssimos projetos: uma comédia sobre a relação entre um recém-casal e a sogra; uma ficção meio abstrata sobre luto; uma animação sobre solidão contemporânea… Em nenhum desses fui diretora. Em nenhum desses fui roteirista. Em todos esses, em algum nível, a história me atravessou emocionalmente. Imagina agora dirigir e roteirizar uma história que (1) é sua, (2) sobre a vida sexual do seu ex-namorado e (3) tendo ele como protagonista. Nas minhas mãos, seria a receita do desastre e do ansiolítico. Mas nas mãos de Sook-Yin Lee, se tornou um dos filmes mais interessantes que já vi em algum tempo. Antes das atrizes Emily Lê e Andrea Werhun entrarem na nossa sala de reunião, conversei exatamente sobre isso com Lee. Talvez percebendo meu nervosismo por conduzir uma entrevista em outra língua, puxa assunto comigo perguntando o que faço da vida. Comento sobre minha formação de cinema e minha frustração nos sets, confessando que “não sei como [ela] conseguiu”. Em uma sala bagunçada com um enorme violoncelo atrás, digna de uma residência habitada por uma artista, ela ri e parece não entender bem do que estou falando. Conta que, assim como nos meus curtas, não teve um orçamento considerável, precisando gravar em sua própria casa, que também foi o local real onde se passou a história que inspirou Paying for It. Porém, ao contrário de mim, ela não parece lamentar esses desafios – ao contrário, percebo um certo prazer. Percebo duas coisas: a primeira é que eu realmente não nasci para fazer cinema; a segunda, é que Sook-Yin Lee nasceu. A canadense é descrita em sua página da Wikipédia como “artista multimedia”, e bem pudera. Já trabalhou como cantora, compositora, apresentadora de rádio e tv, atriz, roteirista e diretora. Foi nessa vida de artista que conheceu Chester Brown, cartoonista e ex namorado de Lee. O casal terminou o relacionamento, em 1996, mas seguiu morando junto, (na mesma casa que serve como locação principal do filme). Testemunhando as desilusões de Lee e seus novos parceiros, Brown decide que não daria mais chances ao romance, ou, mais especificamente, às amarras que vem com ele. Mas seu desejo por sexo se manteve. Depois de um tempo em celibato, resolve deixar de lado as vergonhas sociais e se aventurar com prostitutas locais. Logo toma gosto pela coisa e passa a advogar pela superioridade da relação prostituta-cliente entre seu grupo de amigos. Quando, em 2009 Victor Malarek publica “The Johns: Sex for Sale and the Men Who Buy It”, que retratava o cliente de prostituição de forma negativa, Brown escreve a graphic novel “Paying for It: a comic strip memoir about being a john” em resposta (no Canadá, os clientes de prostitutas são chamados de “johns”, nome masculino genérico, tal como o cliente na percepção da profissional). A publicação atraiu tanto prestígio quanto polêmica, e em 2022 foi anunciado que seria adaptado para filme – com direção da ex-namorada que começou isso tudo. Sook-Yin recebe Emily Lê (que dá a vida a Sonny Lee, personagem inspirada em Sook-Yin) e Andrea Werhun (Yulissa, uma das prostitutas com quem Brown se relaciona) na reunião com um largo sorriso e perguntas sobre suas rotinas agora e fase de divulgação do filme. É a minha primeira experiência observando em primeira mão o contato com atores e roteiristas de longas-metragens internacionais e certamente não era o que eu esperava. Muito menos rigidez hierárquica e muito mais calor humano do que se ouve por aí. Aquele ego de atores que comentei aqui não parece existir. As três gentilmente tentam me incluir na conversa. Como um john, em frente a mulheres tão estimulantes, eventualmente me sinto confortável para chegar aos finalmentes da minha razão ali. Começamos a entrevista. Foto: The Globe and Mail Aianne: Certo, então, primeiro de tudo, para Sook-Yin, onde termina o quadrinho que inspirou o filme e onde começa a vida real de Chester Brown no filme? Porque é uma mistura de ambos, certo? Sook-Yin Lee: Sim, sim, sim. O livro em si é incrível. É uma graphic novel incrível. Aianne: Ainda não li, mas já comprei na Amazon. Está chegando. Sook-Yin: Ok, ótimo. Bem, de muitas maneiras, é um tratado político. Não é apenas uma memória de eventos reais da vida dele, mas grande parte do trabalho dele tem o propósito de ter uma política muito distinta. Eu vejo esse como um manifesto político pela descriminalização do trabalho sexual consensual. Então, quando o livro dele foi lançado, e isso foi depois de termos estado juntos, achei tão interessante. Eu adorei. Quero dizer, acho que ele é um dos contadores de histórias mais brilhantes do mundo, e adorei o que ele estava tentando transmitir. Tem tantas paralelas com a política LGBTQ, a política das pessoas de cor, os direitos humanos e os direitos das trabalhadoras do sexo. Perguntei a ele se eu poderia adaptar para um filme, e ele disse: “Claro, se você quiser”. E eu pensei que seria tão fácil. Eu pensei: “Aqui estão os desenhos dele. Parece um filme pequeno de qualquer forma, então, sabe, vou apenas transpor o que ele tem”. E então foi como, “Oh meu Deus”. É uma graphic novel, não é um filme. É episódico. Meio que divaga por todos os lados. Não tem necessariamente um arco de filme. Filmes são muito diferentes. Chester foi muito cuidadoso em proteger a privacidade das trabalhadoras do sexo que ele visitou, e também muito cuidadoso com a privacidade de seus amigos, incluindo a mim, em sua graphic novel, há pouqíssimos detalhes. E ele estava realmente transmitindo de forma muito míope do ponto de vista dele. E enquanto eu tentava adaptar o filme, estava achando cada vez mais difícil porque ele não podia compartilhar comigo nenhum detalhe sobre as mulheres, e eu sabia que não queria um filme que fosse míope, apenas do ponto de vista dele. Um dia reli e vi um pequeno detalhe: ele havia visitado uma trabalhadora sexual no meu aniversário, pensei: “oh”. Assim me dei conta que poderia trazer uma perspectiva completamente diferente, de nós dois sendo amantes, coexistindo em uma pequena casa, com eu seguindo o caminho socialmente sancionado e aceitável de namorar para encontrar amor e conexão, e ele sendo um cartunista tímido, introvertido, sem habilidade para flertar nem desejo de ter um relacionamento. Chester e eu éramos... ele é minha família. Eu o conheço por quase toda a minha vida. Ele foi, tipo, um relacionamento formativo na minha vida quando eu era jovem, e, sabe, nosso relacionamento, como muitos, parou de ser sexual, mas éramos a família um do outro. A ideia de rompimento que se aplica à maioria dos relacionamentos não se aplicava a nós. Era um conceito completamente alienígena. A princípio, quando nosso relacionamento começou a se tornar menos sexual, pensamos: “Vamos abrir o relacionamento?”. Pensei que poderia lidar com múltiplos amantes, mas logo percebi que havia muitas necessidades a serem atendidas e que eu era muito mais monogâmica do que pensava. Ele foi celibatário por um longo tempo antes de começar a considerar a opção de pagar por sexo. E lá estava ele, seguindo esse caminho. E pensei: “Ok, vou apenas reforçar isso e trazer uma tonelada de outros elementos que não estão em sua graphic novel”. Da minha perspectiva como amigos e família estendida tentando navegar por esse curso desafiador para ambos. E isso se tornou a chave para desbloquear a história e como eu poderia contá-la. Foto: Divulgação Aianne: A forma como esse filme retrata as trabalhadoras do sexo é algo que eu nunca tinha visto antes. Especialmente no olhar feminino sobre o tema, o que se destaca na personagem de Andrea. Ela é sensual, mas não remete a algo ruim e pecaminoso, estamos acostumados a pensar nas trabalhadoras do sexo desta certa forma. Como foi construir essas personagens? Digo, qual o processo de acrescentar a perspectiva feminina e retratar a questão do trabalho, do caráter dessa profissão sem colocá-las em julgamento? Andrea Werhun: Essa detração das trabalhadoras do sexo é o padrão na maioria das representações delas no cinema. Eu acho que foi realmente importante trazer um toque humano para o personagem. Sabe, um calor humano, que é relevante para a experiência de humanidade de cada trabalhadora do sexo. Todos nós trazemos nosso próprio calor e nossas questões para nossos trabalhos, não importa quais sejam. E eu acho que o que é inovador neste filme, no que diz respeito à sua representação do trabalho sexual, e especialmente sendo uma adaptação das memórias de um cliente. A forma como Chester retrata as trabalhadoras do sexo, na capacidade anônima, perde um pouco do calor desses personagens porque eles foram despojados de suas identidades – como uma forma de proteger essas identidades, claro. Mas eu acho que o que este filme, ao subtrair o anonimato e trazer seres humanos para a tela, traz o calor que vem com isso. Mas também o que vemos na tela é a monotonia do trabalho sexual, o tédio do trabalho sexual, o aspecto de trabalho mesmo. A rotina do trabalho. E nem sequer damos às trabalhadoras do sexo no cinema a oportunidade de serem apenas trabalhadoras entediadas em seus empregos. Então, acho que, por esse motivo, essa é uma excelente contribuição ao gênero de filmes sobre trabalhadoras do sexo. Sook-Yin: Que realmente está em sua fase inicial. Estamos apenas começando aqui, com "Paying For It". Estou ansiosa para ver esse gênero crescer e evoluir. Havia muitos detalhes e pistas inseridos na graphic novel de Chester, como até a escolha de manter as coisas sem nunca entrar na cama, muitas vezes ele mantém tudo do outro lado da sala, com planos muito abertos. Então, eu sabia que não seria algo excessivamente sexualizado ou para excitação. Era realmente algo muito normal, explorando apenas planos abertos. Acho que a coisa radical com essa contribuição para a forma é que a nudez frontal total, se você olhar bem, é toda masculina. Sim. É só masculina. É só Chester. Já vimos mulheres assim mil vezes, mas aqui não. E muitas vezes é apenas ele acordando, coçando suas bolas, e atravessando o quarto. Sabe, hoje em dia vemos mais nudez frontal masculina, mas também é falsa. Como, em séries de TV como "Euphoria", há nudez frontal, mas o público não sabe que todos esses atores têm próteses perfeitas. Elas não são reais. Foram moldadas para parecerem perfeitas. Com Dan Garde, que fez o personagem Chester, poucas pessoas estavam dispostas a fazer isso, e Dan foi tipo, “me inscreva”. E acho que estou notando um ressurgimento e muitas contribuições realmente interessantes sobre o trabalho sexual nos filmes, mas acho que mesmo em coisas como... como se chama? “Poor Things”? É isso? Sim. “Poor Things”. Quero dizer, é, de certa forma, um filme de fantasia e a personagem que Emma interpreta é uma versão mais empoderadora ou menos julgadora, mas todos os "Johns" são horríveis! Andrea: Se me permite, adorei “Poor Things” e achei totalmente realista! E se “Johns” são horríveis? Bem… Sook-Yin: Quero dizer, eu conversei com minha amiga, que também é trabalhadora do sexo, e ela disse: “Eu adorei esse filme”. E eu disse: “Mas os ‘Johns’ eram tão horríveis”. E ela respondeu: “Mas todos os homens eram horríveis nesse filme”. E eu: “Isso é verdade”. (Risos) Aianne: O filme que sempre me vinha à mente enquanto eu assistia foi "Uma Linda Mulher" e como são obras diferentes – porque, mesmo que Julia Roberts seja a personagem principal e devêssemos amá-la e nos apaixonar por ela, ainda há algo sujo, e ela ainda é submissa a ele. Em "Paying For It", não vemos nada disso. Fiquei pensando nesses dois filmes o tempo todo, e, tipo, é o mesmo trabalho, mas de perspectivas diferentes, com o personagem de Richard Gere no centro, agora como Chester. Sook-Yin: Sim, Chester e eu estávamos conversando, e ele disse que está muito feliz em ver este filme como um exemplo de pessoas e trabalhadoras do sexo que podem continuar seu trabalho, ter vidas plenas e ricas, e também não é trágic, sabe? Muitas vezes, em filmes queer, é uma tragédia ou algo que acaba de forma terrível. Mas, neste caso, todos podem seguir em frente. Andrea: Acho que a principal diferença entre "Paying For It" e "Uma Linda Mulher" é que Chester Brown não é um cavaleiro branco que vem para salvar a trabalhadora do sexo. Ele não é Richard Gere, que está tentando tirar Denise do trabalho sexual. Ele está, na verdade, tentando mantê-la no trabalho sexual. (Risos) Apenas deixar ela ser quem é!. Quero dizer, há meio que um elemento de cavaleiro branco nisso, acho, com uma análise mais profunda. Mas eles não estão tentando se salvar. E ele não está tentando salvá-la. Ele não está tentando resgatá-la ou algo assim. Ela parece chegar a essa decisão por conta própria, de que vale a pena continuar um relacionamento com ele, onde ela recebe dinheiro dele regularmente para sexo. Sook-Yini: E, tipo, ele ainda está com Denise. Nosso relacionamento durou um ano. Eu nunca consegui passar dos 4 anos. Eles estão juntos há mais de 20 anos. Aianne: Emily, como foi interpretar a diretora do seu filme? Porque agora que eu conheço a Sook-Yin, consigo ver algumas semelhanças, mas não é bem como se você tivesse copiado também os maneirismos dela. Consigo ver como você se inspirou no jeito dela de ser, mas não a imitou. Como foi construir essa personagem? Emily: Bem, Sook-Yin é uma pessoa muito excêntrica e muito criativa. E acho que uma grande diferença entre Sook-Yin e eu é que eu sou muito interna, enquanto Sook-Yin é muito externa, e eu também sou uma pessoa meditativa, enquanto Sook-Yin é um pouco mais impulsiva. Então, definitivamente tive que sair da minha zona de conforto para interpretá-la, mas também vi muito de mim mesma nela, especialmente na era em que "Paying For It" se passa. É uma pessoa jovem e alternativa na cena, e me relacionei com isso no sentido de que me sinto mais alternativa, em vez de alguém que é mais, digamos, convencional. E eu também me relaciono com a experiência de me mudar para uma cidade grande e explorar a cena musical, e ter todas essas novas e empolgantes oportunidades surgindo, e conhecer todas essas novas pessoas legais. Então, foi divertido interpretar e explorar isso através da lente de Sook-Yin. E também, porque é tão pessoal para Sook-Yin. Sunny é literalmente uma versão ficcional dela, muito disso vem da vida real de Sook-Yin. Então, sempre que eu precisava me aprofundar e me conectar, eu apenas ia até Sook-Yin, nos abraçávamos, e eu chegava lá, especialmente nos momentos onde havia mais pessoas. Foi muito bom ter a pessoa que eu estava interpretando me dirigindo, mas também estando lá para mim e garantindo que estávamos alcançando o que precisávamos. Aianne: Sook-Yin, já se passaram 28 anos desde que vocês terminaram, certo? Como o tempo mudou sua perspectiva sobre essa história? Sook-Yin: Oh, nossa. Essa é uma pergunta interessante. Bem, acho que provavelmente, com o tempo, vem a capacidade de me distanciar da história e vê-la como uma história. Se eu estivesse muito próxima dela, eu teria mantido tudo e teria sido um filme de 4 horas. Acho que, no momento em que isso estava acontecendo – e vemos isso no filme – eu estava apavorada quando ele me disse que tinha visto uma trabalhadora do sexo. Eu fiquei com ciúmes e estava tentando parecer legal porque eu deveria ficar tranquila sobre tudo, mas eu estava com ciúmes. Eu estava chateada. Eu não sabia o que isso implicaria, e me lembro de ter que atravessar essa resposta inicial muito emocional, e então, ver e trabalhar através do Chester para ver qual era a realidade disso. Desde então, também fiz o filme "Short Bus", um filme americano. É um filme queer que envolve sexo real, para contar a narrativa. E foi um filme que, novamente, foi contado de uma perspectiva extremamente humanista. E também conhecendo a Andrea, e a Andrea trazendo uma riqueza de entendimento e percepção. Outra coisa que foi super legal é que fizemos esse filme com muito pouco dinheiro. Não tínhamos muito dinheiro. Filmamos na minha casa, onde os eventos reais aconteceram. Eu chamei meu vizinho do outro lado da cerca e perguntei se poderíamos usar o videoclipe dele. Eu liguei para vizinhos e lojas no meu bairro, que nos deram seus lugares. A Andrea foi uma escolha natural. Ela é cineasta. Ela é inteligente. Ela é brilhante, e tem uma longa história com Chester como colaboradora e colega. Chester apareceu no curta dela, "Modern Horror", e fez o pôster gráfico. Então, essas conexões pessoais foram realmente fundamentais. E ao encontrar os protagonistas, Emily e Dan, eu literalmente tive que ver muitas pessoas, e como a Emily disse, ela foi a única com um conhecimento real e inato da cultura alternativa porque ela vive isso. E Dan foi uma das duas pessoas que conseguiram incorporar o personagem com lógica e percepção. Então, sabe, as mesmas falas ditas por outro ator que não entendia pareceriam vazias e horríveis. Então, tive muita sorte de encontrar os protagonistas. E a Andrea simplesmente me deixou impressionada, sabe. E ambas, vocês duas, simplesmente me impressionaram. Foto: The Globe and Mail Aianne: Última pergunta: Se e como a perspectiva de vocês sobre amor, relacionamento e sexo mudou durante esses filmes e como vocês querem que o público se sinta após assisti-los? Emily: Acho que o filme é como um portal para outras formas diferentes e não convencionais de explorar a intimidade. Acho que muitas vezes as pessoas recorrem apenas aos modelos convencionais que nos foram mostrados e que vimos crescer. Então, é como sair da norma e não ter tanto medo de algo diferente. Acho que é simplesmente encontrar a libertação nisso e um pouco de liberdade. Andrea: Eu diria que espero que este filme inspire mais clientes a contar suas histórias, porque as trabalhadoras do sexo muitas vezes são esperadas a colocar suas vidas e reputações em risco para contar suas próprias histórias e ajudar a desestigmatizar o trabalho. Mas raramente você vê os homens que se envolvem em nosso trabalho e pagam por ele terem a coragem de realmente falar sobre os benefícios que obtêm ao pagar por sexo. E, por isso, acho que o que Chester fez ao contar sua história é incrivelmente corajoso, e espero que isso inspire outras pessoas a se arriscarem e nos apoiarem na nossa luta por direitos iguais e descriminalização. Sook-Yin: Sim. Estou feliz que possamos ver exemplos de normas sociais desafiadas que são comoventes e difíceis, e pessoas se conectando e sendo tocadas pelo que veem. Espero que as pessoas possam se relacionar com o material. Eu adoraria ver mais representações de sexo dentro da indústria por pessoas que pagam por sexo e, sabe, é uma grande variedade, incluindo idosos, pessoas com deficiência, perspectivas culturais, das pessoas que pagam por sexo. É como se fosse uma visão inexplorada da humanidade. Sim. Para mim, é algo muito incomum, eu me sinto da mesma maneira que me senti depois que fiz Short Bus, e este foi um longo processo para mim ao fazer Paying For It. Estou muito orgulhosa de todas as conexões e estou muito orgulhosa, amo muito o Chester. Ele é um amigo tão querido e minha família, e estou tão orgulhosa dos relacionamentos que são refletidos neste filme. Mas, a nível pessoal, percebo que acabo me voltando mais para algo interno. É como se eu não estivesse realmente procurando me conectar com ninguém. Estou procurando me conectar comigo mesma. Na verdade, sinto que estou precisando de mais espaço sozinha. E isso é algo estranho.
- Crítica | Maldoror (Festival de Veneza)
Filme belga traz a tona história de crime real com toque ficcionalizado, mas perde a mão com longa duração Foto: Divulgação Na Bélgica, em 1995, o jovem policial Paul Chartier fica obcecado com o caso de duas jovens desaparecidas. Quando ele é recrutado para fazer parte da Maldoror, uma unidade secreta para monitorar homens com antecedentes criminais em casos de abusos de menores, e a operação falha por conta de erros dos seus superiores, Paul embarca em uma jornada de caçada e culpa também para desmascarar os envolvidos no caso. Exibido no Festival de Veneza, essa é a trama principal do filme Maldoror, coprodução da Bélgica e da França, que conta uma história real que se entrelaça em uma trama política e social do país belga. Na época dos fatos, a polícia funcionava de forma subdividida, existindo assim a ‘Gendarmerie’, algo equivalente a guarda municipal na atualidade brasileira. Assim, esses núcleos policiais não trabalhavam de forma integrada, sendo um grande problema em casos de grande complexidade, como no sequestro de várias jovens de forma sequencial nos anos 90. Dirigido por Fabrice du Welz, fica claro que a intenção é dar luz a esse fato histórico e triste da Bélgica e explorar essa história real sob uma ótica ficcional. Além de denunciar e expor esses crimes de sequestro, abuso e violência contra menores, o filme também expõe as falhas na polícia e na justiça criminal do país, com referências claras a longas como Zodíaco e Memórias de um Assassino. Focar no personagem fictício de Paul Chartier, um jovem adulto com uma vida problemática, mesclando com essa história real tem seus erros e acertos. Foto: Divulgação Paul é um personagem complexo, em alguns momentos irritante pela sua insistência, deixando sua própria família de lado. Inclusive, um dos núcleos mais interessantes do filme é a família da esposa de Paul, mesmo que pouco explorada. Mesmo com sua complexidade, não sei se ele é o personagem ideal para liderar essa história feita para colocar sob a luz do público esse crime bárbaro. Alguns outros fios narrativos aqui se perdem e o filme, em certo ponto, parece não saber se quer ser um drama, um true crime ou um suspense policial. Muito disso acontece pela sua longa duração, de quase 2h33 minutos, que em muitos momentos torna a trama mais lenta e arrastada e em outros mais frenética, despontando com bons momentos de ação, mas não convencendo no drama. Com uma boa direção de arte e também boas atuações, Maldoror tem um saldo positivo mesmo com os problemas e traz uma luz e dá voz a um dos casos mais tristes da Bélgica. Nota: 3/5












