Entrevista | Olinda em Hollywood: a trajetória de 'Os Arcos Dourados de Olinda'

há 7 horas
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Em exclusiva ao OP, Douglas Henrique conta como seu TCC saiu da UFPE e chegou à disputa pelo Oscar.

Passei cinco anos dentro de cursos de Cinema e Audiovisual em universidades federais brasileiras. Desses, foram quatro como aluna e um como professora. Conheço, portanto, em primeiríssima mão, as ansiedades, as expectativas e as crises existenciais que acompanham um TCC nessa área.
Para quem não sabe, o modelo mais comum de conclusão de curso em Cinema não envolve necessariamente uma monografia. Na maioria dos casos, o estudante chega à banca com uma obra audiovisual pronta. Pode ser curta-metragem ficcional, documentário, piloto de série, projeto experimental, videoclipe, animação ou, dependendo da universidade, até um jogo digital.
Seja qual for o formato, é uma odisseia. Se você começar o planejamento um ano antes da previsão de entrega, já está atrasado. É preciso desenvolver argumento, fazer pitch, montar equipe, escrever roteiro, conseguir equipamento, encontrar locações, inscrever o projeto em editais, levantar dinheiro, organizar cronograma e, claro, suplicar por um orientador. Tudo isso antes mesmo de apertar o primeiro REC. É o que, no audiovisual, chamamos de pré-produção.
É também a parte mais gostosa de acompanhar, porque boa parte da obra ainda existe apenas no plano das ideias. Nada deu errado ainda. O elenco ainda não faltou à gravação, o equipamento ainda não quebrou, o áudio ainda não ficou imprestável, a locação ainda não cancelou e ninguém descobriu que o orçamento necessário é cinco vezes maior do que o disponível.
É nessa fase que sempre – sempre! – alguém vai dizer: “com esse filme, a gente vai para o Oscar.”
Não é exagero meu. Já ouvi diferentes versões dessa previsão mais vezes do que consigo contar. Aconteceu, inclusive, comigo: meu próprio TCC foi um curta-metragem de animação, e lembro perfeitamente do sorriso que não consegui disfarçar ao ouvir aquilo, acreditando que, de alguma forma, poderia ser verdade. É um curso de artista, afinal – e artista, por natureza, é sonhador.
Em toda a minha experiência, porém, conheci apenas um caso em que a brincadeira de “vamos para o Oscar” deixou de ser uma fantasia universitária e se tornou, de fato, uma possibilidade concreta: Os Arcos Dourados de Olinda, curta-metragem documental pernambucano criado e dirigido por Douglas Henrique.
Para conseguir o diploma em Cinema e Audiovisual pela UFPE, Henrique estabeleceu três exigências: a obra precisava ser, primeiro, um filme em que ele realmente acreditasse; segundo, algo que considerasse importante; e, terceiro, um projeto com potencial de distribuição. Ele mesmo admite que, à época, a lista parecia “maluquice”.
“Foram dois anos que passei trancando a faculdade. Eu tive várias oportunidades em que poderia ter me formado, por exemplo, fazendo a fotografia de filmes dos outros ou fazendo videoclipes. Mas eu sempre pensava: ‘Não, acho que tem um peso’. Cada um leva de uma forma. Tem gente que quer apenas se livrar, mas para mim não fazia sentido me livrar rápido, porque o vínculo universitário me dava algumas vantagens.”
Hoje, o resultado dessa lista de requisitos auto-impostos é o filme mais distribuído e premiado da história do curso.
“Voltei a Recife nessas semanas e o pessoal que está no primeiro ou quarto período agora me reconhece e fala: ‘Nossa, você é a grande inspiração para a gente!’. Isso é muito engraçado, porque eu estava literalmente no ano passado lá, apresentando o TCC.”
Henrique enxerga nessa recepção algo maior do que o reconhecimento pessoal. Para ele, Arcos ajuda a desmontar a ideia de que a universidade seria apenas um lugar de formação, enquanto os grandes filmes aconteceriam depois, quando o estudante finalmente estivesse “no mercado”.

“Isso mostra que o cinema universitário não precisa ser algo de distribuição modesta, sob a lógica de que só depois de sair da faculdade você fará um filme que vai longe. Qualquer momento é momento para se dedicar a um filme que vá longe. É isso que os europeus fazem, essa é a grande chave.”
O caminho até as telas, entretanto, não foi exatamente um McSundae misto com calda de chocolate.
Antes de virar referência entre seus calouros, Douglas Henrique precisou, além de cineasta, virar historiador. Tudo começou, segundo Henrique, de maneira quase acidental. Ele se lembrou por acaso da lenda urbana de que Olinda havia sido a primeira cidade a “falir” um McDonald’s e decidiu descobrir se aquilo era verdade. A pesquisa começou como boa parte das pesquisas começa hoje: na internet. Não encontrou muita coisa. Foi então que teve uma ideia: “vou fazer um filme que encontre esses materiais.” A normalidade com que ele me falou isso é surpreendente. Tipo, quem nunca resolveu uma lacuna historiográfica fazendo um curta documental?
“Comecei a conversar com as pessoas e a dizer que queria fazer um filme sobre isso. Às vezes, alguém sabia de algo e agregava um ponto novo. Fui encontrando esses pontos soltos. Quando o filme foi finalmente aprovado no edital, nós sistematizamos o processo. Contratei um pesquisador profissional para achar coisas em jornais, e aí a pesquisa realmente andou.”
Assim, ao lado de Arnon Hochman, assina um roteiro que constrói um paralelo inusitado e muito bem amarrado entre a vitória estadunidense na Guerra Fria e a resistência cultural e política do povo nordestino.
Entre a ideia inicial, surgida durante uma tarde de muito tempo livre na pandemia, e o último corte, realizado na mesma semana marcada para a estreia no Festival do Rio de 2025, foram aproximadamente cinco anos. Três deles foram de pesquisa mais “casual” e os dois últimos de investigação propriamente ativa, impulsionada pelo professor Fernando Vello e pela possibilidade de financiamento público.
“Cerca de seis meses antes da estreia, decidimos parar a pesquisa para escrever o roteiro. Escrevemos o roteiro e gravamos em um mês, mas a pesquisa continuou acontecendo em paralelo porque não fechamos as portas. Do nada aparecia alguém dizendo que tinha um primo com materiais do McDonald’s, e eu entrava em contato.”
O resultado dessa obsessão é um material bruto de aproximadamente 45 horas (cerca de 109 minutos de material para cada 1 minuto do curta!). A maior parte é formada por reportagens de televisão e materiais de arquivo, incluindo documentos de partidos políticos. Há também centenas de fotografias pessoais de frequentadores e clientes do McDonald’s.
A equipe fez um trabalho admirável de recuperação e digitalização desse material – uma etapa que costuma ser invisível para o público, mas que é fundamental para que um filme de arquivo como Arcos exista. Não se trata simplesmente de “achar” uma fotografia antiga ou uma reportagem perdida: é preciso localizar, negociar acesso, preservar, digitalizar, catalogar e, muitas vezes, restaurar documentos que sobreviveram por décadas em condições precárias. No filme, esse trabalho ultrapassa a etapa técnica e se transforma em parte da própria linguagem, com cada imagem recuperada funcionando como uma pequena pincelada de uma pintura histórica que o documentário expõe diante do espectador.
Nesse acumulado de referências, narrativa perpassa pela corrida espacial, queda do Muro de Berlim, comunismo, imperialismo, palhaços, blocos de carnaval e Big Macs. Tudo isso em 24 minutos.
“Foi difícil fazer as pessoas comprarem a ideia do filme, principalmente em editais, porque era difícil mensurar um documentário sobre tantas coisas misturadas e com esse tom, sem referências claras.” Mas é precisamente essa falta de definição o maior mérito de Arcos: ele não parece interessado em escolher entre documentário histórico, comédia, ensaio político e crônica cultural. Faz tudo ao mesmo tempo, e sempre com igual qualidade.
Há uma ironia particularmente deliciosa no fato de que um filme essencialmente interessado em discutir a fragilidade de modelos políticos e econômicos tenha escolhido fazer isso sem adotar a formalidade que normalmente acompanha esses assuntos de gente séria e intelectual. Em momento algum Arcos Dourados de Olinda parece ser uma aula de História, embora seja, talvez, a melhor possível. A sacada de contrapor o ego estadunidense ao ego — aparentemente ainda maior — do pernambucano produz uma sequência de ironias que reconta acontecimentos conhecidos e apresenta outros nem tão conhecidos de maneira irresistivelmente acessível.
Quando ouviu que, por ser seu primeiro filme, talvez fosse mais seguro apostar em uma abordagem “clássica”, ignorou solenemente o conselho e estabeleceu uma métrica bastante particular para avaliar o resultado: se ele próprio desse uma risada assistindo ao filme, já estaria satisfeito. Bem pernambucano de sua parte, se me permite.
Henrique admite que estava receoso na estreia mundial do filme, quase exatamente um ano atrás. Não precisava: “foi uma sessão lotada e as pessoas riram o filme inteiro. Isso me deu um sinal de que o filme funcionava.” E não é a megalomania pernambucana falando: eu estava lá, na plateia, cobrindo o festival. Fui uma das pessoas que “riram o filme inteiro”. Também estava na cerimônia de premiação, quando Arcos recebeu uma menção honrosa. Eu e várias pessoas ao meu redor aplaudimos de pé.
De lá para cá, o hype só cresceu.
No Brasil, o público abraçou o filme de uma maneira talvez inédita para um documentário universitário. Pernambuco, é claro, rende sessões esgotadas, espectadores reagindo em voz alta nas sessões e em caixa alta nas redes digitais.
Mas Henrique diz que uma das preocupações centrais durante a produção era justamente construir uma obra que pudesse viajar sem perder aquilo que a tornava regional. “O filme consegue situar o espectador que nem sabe que Pernambuco existe, fazendo-o entender onde fica no mapa e qual é o nosso sentimento pelo lugar. Minha preocupação era torná-lo vendível para fora, mas ao mesmo tempo bom para quem é daqui.” O humor foi fundamental nessa equação. “Se eu fosse apenas didático explicando onde fica Pernambuco, o espectador local acharia chato e diria que é ‘filme para gringo’. O filme precisava funcionar para todos os públicos.” A primeira risada, segundo ele, costuma acontecer quando a narração informa que “o lugar mais importante do Brasil é Pernambuco”. “Nesse momento, tanto o gringo quanto o brasileiro riem da nossa ‘puxada de sardinha’ absurda.”
De festival em festival, Arcos Dourados de Olinda foi acumulando prêmios até chegar ao ponto em que aquela velha piada universitária precisou ser levada a sério. Era a hora de colocar o sonho à prova: inscrever o filme em competições que poderiam qualificá-lo para o Oscar.
“Nos BogoShorts, ganhamos como melhor documentário internacional, mas esse prêmio específico não dava a qualificação. No Curta Cinema, que também qualificava, ficamos com o prêmio especial do júri, em segundo lugar. O festival seguinte foi o É Tudo Verdade, que é focado em documentários. Sabíamos que, se ganhássemos, estaríamos qualificados.”
[Pausa de suspense]
"Ganhamos todos os prêmios do festival.”
E foi assim que um filme realizado com aproximadamente R$ 30 mil, com uma equipe de menos de dez pessoas, sobre uma cidade do interior nordestino e que se recusa a diluir sua identidade, chegou à corrida pelo Oscar. A qualificação coloca o filme na disputa; depois dela, vem a seleção da shortlist de 15 títulos, dos quais apenas cinco chegam efetivamente à lista de indicados.
A verdade é que um Oscar não ficaria nada mal ao lado dos quase 50 prêmios que, hoje, Arcos Dourados de Olinda já coleciona. Mas, se não vier, tudo bem. Se tem uma coisa que aprendi, é que Pernambuco não está muito preocupado com agrado de estadunidense.



















