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  • Entrevista | Diretora e Elenco de 'Paying for It' em Exclusiva ao Oxente, Pipoca?

    OP? conversou com diretora, Sook-Yin Lee e elenco sobre a adaptação da famosa e polêmica HQ Foto: Divulgação Vim parar no jornalismo de entretenimento depois de me aventurar em alguns sets de filmagem e ser sufocada pela grande ansiedade que todo aquele ambiente gera. Ego de atores, silêncio demandado pela equipe de som, luzes capazes de te cegar enquanto te matam de calor. E, é claro, a demanda emocional da narrativa. Trabalhei em pouquíssimos projetos: uma comédia sobre a relação entre um recém-casal e a sogra; uma ficção meio abstrata sobre luto; uma animação sobre solidão contemporânea… Em nenhum desses fui diretora. Em nenhum desses fui roteirista. Em todos esses, em algum nível, a história me atravessou emocionalmente. Imagina agora dirigir e roteirizar uma história que (1) é sua, (2) sobre a vida sexual do seu ex-namorado e (3) tendo ele como protagonista. Nas minhas mãos, seria a receita do desastre e do ansiolítico. Mas nas mãos de Sook-Yin Lee, se tornou um dos filmes mais interessantes que já vi em algum tempo. Antes das atrizes Emily Lê e Andrea Werhun entrarem na nossa sala de reunião, conversei exatamente sobre isso com Lee. Talvez percebendo meu nervosismo por conduzir uma entrevista em outra língua, puxa assunto comigo perguntando o que faço da vida. Comento sobre minha formação de cinema e minha frustração nos sets, confessando que “não sei como [ela] conseguiu”. Em uma sala bagunçada com um enorme violoncelo atrás, digna de uma residência habitada por uma artista, ela ri e parece não entender bem do que estou falando. Conta que, assim como nos meus curtas, não teve um orçamento considerável, precisando gravar em sua própria casa, que também foi o local real onde se passou a história que inspirou Paying for It. Porém, ao contrário de mim, ela não parece lamentar esses desafios – ao contrário, percebo um certo prazer. Percebo duas coisas: a primeira é que eu realmente não nasci para fazer cinema; a segunda, é que Sook-Yin Lee nasceu. A canadense é descrita em sua página da Wikipédia como “artista multimedia”, e bem pudera. Já trabalhou como cantora, compositora, apresentadora de rádio e tv, atriz, roteirista e diretora. Foi nessa vida de artista que conheceu Chester Brown, cartoonista e ex namorado de Lee. O casal terminou o relacionamento, em 1996, mas seguiu morando junto, (na mesma casa que serve como locação principal do filme). Testemunhando as desilusões de Lee e seus novos parceiros, Brown decide que não daria mais chances ao romance, ou, mais especificamente, às amarras que vem com ele. Mas seu desejo por sexo se manteve. Depois de um tempo em celibato, resolve deixar de lado as vergonhas sociais e se aventurar com prostitutas locais. Logo toma gosto pela coisa e passa a advogar pela superioridade da relação prostituta-cliente entre seu grupo de amigos. Quando, em 2009 Victor Malarek publica “The Johns: Sex for Sale and the Men Who Buy It”, que retratava o cliente de prostituição de forma negativa, Brown escreve a graphic novel “Paying for It: a comic strip memoir about being a john” em resposta (no Canadá, os clientes de prostitutas são chamados de “johns”, nome masculino genérico, tal como o cliente na percepção da profissional). A publicação atraiu tanto prestígio quanto polêmica, e em 2022 foi anunciado que seria adaptado para filme – com direção da ex-namorada que começou isso tudo. Sook-Yin recebe Emily Lê (que dá a vida a Sonny Lee, personagem inspirada em Sook-Yin) e Andrea Werhun (Yulissa, uma das prostitutas com quem Brown se relaciona) na reunião com um largo sorriso e perguntas sobre suas rotinas agora e fase de divulgação do filme. É a minha primeira experiência observando em primeira mão o contato com atores e roteiristas de longas-metragens internacionais e certamente não era o que eu esperava. Muito menos rigidez hierárquica e muito mais calor humano do que se ouve por aí. Aquele ego de atores que comentei aqui não parece existir. As três gentilmente tentam me incluir na conversa. Como um john, em frente a mulheres tão estimulantes, eventualmente me sinto confortável para chegar aos finalmentes da minha razão ali. Começamos a entrevista. Foto: The Globe and Mail Aianne: Certo, então, primeiro de tudo, para Sook-Yin, onde termina o quadrinho que inspirou o filme e onde começa a vida real de Chester Brown no filme? Porque é uma mistura de ambos, certo? Sook-Yin Lee: Sim, sim, sim. O livro em si é incrível. É uma graphic novel incrível. Aianne: Ainda não li, mas já comprei na Amazon. Está chegando. Sook-Yin: Ok, ótimo. Bem, de muitas maneiras, é um tratado político. Não é apenas uma memória de eventos reais da vida dele, mas grande parte do trabalho dele tem o propósito de ter uma política muito distinta. Eu vejo esse como um manifesto político pela descriminalização do trabalho sexual consensual. Então, quando o livro dele foi lançado, e isso foi depois de termos estado juntos, achei tão interessante. Eu adorei. Quero dizer, acho que ele é um dos contadores de histórias mais brilhantes do mundo, e adorei o que ele estava tentando transmitir. Tem tantas paralelas com a política LGBTQ, a política das pessoas de cor, os direitos humanos e os direitos das trabalhadoras do sexo. Perguntei a ele se eu poderia adaptar para um filme, e ele disse: “Claro, se você quiser”. E eu pensei que seria tão fácil. Eu pensei: “Aqui estão os desenhos dele. Parece um filme pequeno de qualquer forma, então, sabe, vou apenas transpor o que ele tem”. E então foi como, “Oh meu Deus”. É uma graphic novel, não é um filme. É episódico. Meio que divaga por todos os lados. Não tem necessariamente um arco de filme. Filmes são muito diferentes. Chester foi muito cuidadoso em proteger a privacidade das trabalhadoras do sexo que ele visitou, e também muito cuidadoso com a privacidade de seus amigos, incluindo a mim, em sua graphic novel, há pouqíssimos detalhes. E ele estava realmente transmitindo de forma muito míope do ponto de vista dele. E enquanto eu tentava adaptar o filme, estava achando cada vez mais difícil porque ele não podia compartilhar comigo nenhum detalhe sobre as mulheres, e eu sabia que não queria um filme que fosse míope, apenas do ponto de vista dele. Um dia reli e vi um pequeno detalhe: ele havia visitado uma trabalhadora sexual no meu aniversário, pensei: “oh”. Assim me dei conta que poderia trazer uma perspectiva completamente diferente, de nós dois sendo amantes, coexistindo em uma pequena casa, com eu seguindo o caminho socialmente sancionado e aceitável de namorar para encontrar amor e conexão, e ele sendo um cartunista tímido, introvertido, sem habilidade para flertar nem desejo de ter um relacionamento. Chester e eu éramos... ele é minha família. Eu o conheço por quase toda a minha vida. Ele foi, tipo, um relacionamento formativo na minha vida quando eu era jovem, e, sabe, nosso relacionamento, como muitos, parou de ser sexual, mas éramos a família um do outro. A ideia de rompimento que se aplica à maioria dos relacionamentos não se aplicava a nós. Era um conceito completamente alienígena. A princípio, quando nosso relacionamento começou a se tornar menos sexual, pensamos: “Vamos abrir o relacionamento?”. Pensei que poderia lidar com múltiplos amantes, mas logo percebi que havia muitas necessidades a serem atendidas e que eu era muito mais monogâmica do que pensava. Ele foi celibatário por um longo tempo antes de começar a considerar a opção de pagar por sexo. E lá estava ele, seguindo esse caminho. E pensei: “Ok, vou apenas reforçar isso e trazer uma tonelada de outros elementos que não estão em sua graphic novel”. Da minha perspectiva como amigos e família estendida tentando navegar por esse curso desafiador para ambos. E isso se tornou a chave para desbloquear a história e como eu poderia contá-la. Foto: Divulgação Aianne: A forma como esse filme retrata as trabalhadoras do sexo é algo que eu nunca tinha visto antes. Especialmente no olhar feminino sobre o tema, o que se destaca na personagem de Andrea. Ela é sensual, mas não remete a algo ruim e pecaminoso, estamos acostumados a pensar nas trabalhadoras do sexo desta certa forma. Como foi construir essas personagens? Digo, qual o processo de acrescentar a perspectiva feminina e retratar a questão do trabalho, do caráter dessa profissão sem colocá-las em julgamento? Andrea Werhun: Essa detração das trabalhadoras do sexo é o padrão na maioria das representações delas no cinema. Eu acho que foi realmente importante trazer um toque humano para o personagem. Sabe, um calor humano, que é relevante para a experiência de humanidade de cada trabalhadora do sexo. Todos nós trazemos nosso próprio calor e nossas questões para nossos trabalhos, não importa quais sejam. E eu acho que o que é inovador neste filme, no que diz respeito à sua representação do trabalho sexual, e especialmente sendo uma adaptação das memórias de um cliente. A forma como Chester retrata as trabalhadoras do sexo, na capacidade anônima, perde um pouco do calor desses personagens porque eles foram despojados de suas identidades – como uma forma de proteger essas identidades, claro. Mas eu acho que o que este filme, ao subtrair o anonimato e trazer seres humanos para a tela, traz o calor que vem com isso. Mas também o que vemos na tela é a monotonia do trabalho sexual, o tédio do trabalho sexual, o aspecto de trabalho mesmo. A rotina do trabalho. E nem sequer damos às trabalhadoras do sexo no cinema a oportunidade de serem apenas trabalhadoras entediadas em seus empregos. Então, acho que, por esse motivo, essa é uma excelente contribuição ao gênero de filmes sobre trabalhadoras do sexo. Sook-Yin: Que realmente está em sua fase inicial. Estamos apenas começando aqui, com "Paying For It". Estou ansiosa para ver esse gênero crescer e evoluir. Havia muitos detalhes e pistas inseridos na graphic novel de Chester, como até a escolha de manter as coisas sem nunca entrar na cama, muitas vezes ele mantém tudo do outro lado da sala, com planos muito abertos. Então, eu sabia que não seria algo excessivamente sexualizado ou para excitação. Era realmente algo muito normal, explorando apenas planos abertos. Acho que a coisa radical com essa contribuição para a forma é que a nudez frontal total, se você olhar bem, é toda masculina. Sim. É só masculina. É só Chester. Já vimos mulheres assim mil vezes, mas aqui não. E muitas vezes é apenas ele acordando, coçando suas bolas, e atravessando o quarto. Sabe, hoje em dia vemos mais nudez frontal masculina, mas também é falsa. Como, em séries de TV como "Euphoria", há nudez frontal, mas o público não sabe que todos esses atores têm próteses perfeitas. Elas não são reais. Foram moldadas para parecerem perfeitas. Com Dan Garde, que fez o personagem Chester, poucas pessoas estavam dispostas a fazer isso, e Dan foi tipo, “me inscreva”. E acho que estou notando um ressurgimento e muitas contribuições realmente interessantes sobre o trabalho sexual nos filmes, mas acho que mesmo em coisas como... como se chama? “Poor Things”? É isso? Sim. “Poor Things”. Quero dizer, é, de certa forma, um filme de fantasia e a personagem que Emma interpreta é uma versão mais empoderadora ou menos julgadora, mas todos os "Johns" são horríveis! Andrea: Se me permite, adorei “Poor Things” e achei totalmente realista! E se “Johns” são horríveis? Bem… Sook-Yin: Quero dizer, eu conversei com minha amiga, que também é trabalhadora do sexo, e ela disse: “Eu adorei esse filme”. E eu disse: “Mas os ‘Johns’ eram tão horríveis”. E ela respondeu: “Mas todos os homens eram horríveis nesse filme”. E eu: “Isso é verdade”. (Risos) Aianne: O filme que sempre me vinha à mente enquanto eu assistia foi "Uma Linda Mulher" e como são obras diferentes – porque, mesmo que Julia Roberts seja a personagem principal e devêssemos amá-la e nos apaixonar por ela, ainda há algo sujo, e ela ainda é submissa a ele. Em "Paying For It", não vemos nada disso. Fiquei pensando nesses dois filmes o tempo todo, e, tipo, é o mesmo trabalho, mas de perspectivas diferentes, com o personagem de Richard Gere no centro, agora como Chester. Sook-Yin: Sim, Chester e eu estávamos conversando, e ele disse que está muito feliz em ver este filme como um exemplo de pessoas e trabalhadoras do sexo que podem continuar seu trabalho, ter vidas plenas e ricas, e também não é trágic, sabe? Muitas vezes, em filmes queer, é uma tragédia ou algo que acaba de forma terrível. Mas, neste caso, todos podem seguir em frente. Andrea: Acho que a principal diferença entre "Paying For It" e "Uma Linda Mulher" é que Chester Brown não é um cavaleiro branco que vem para salvar a trabalhadora do sexo. Ele não é Richard Gere, que está tentando tirar Denise do trabalho sexual. Ele está, na verdade, tentando mantê-la no trabalho sexual. (Risos) Apenas deixar ela ser quem é!. Quero dizer, há meio que um elemento de cavaleiro branco nisso, acho, com uma análise mais profunda. Mas eles não estão tentando se salvar. E ele não está tentando salvá-la. Ele não está tentando resgatá-la ou algo assim. Ela parece chegar a essa decisão por conta própria, de que vale a pena continuar um relacionamento com ele, onde ela recebe dinheiro dele regularmente para sexo. Sook-Yini: E, tipo, ele ainda está com Denise. Nosso relacionamento durou um ano. Eu nunca consegui passar dos 4 anos. Eles estão juntos há mais de 20 anos. Aianne: Emily, como foi interpretar a diretora do seu filme? Porque agora que eu conheço a Sook-Yin, consigo ver algumas semelhanças, mas não é bem como se você tivesse copiado também os maneirismos dela. Consigo ver como você se inspirou no jeito dela de ser, mas não a imitou. Como foi construir essa personagem? Emily: Bem, Sook-Yin é uma pessoa muito excêntrica e muito criativa. E acho que uma grande diferença entre Sook-Yin e eu é que eu sou muito interna, enquanto Sook-Yin é muito externa, e eu também sou uma pessoa meditativa, enquanto Sook-Yin é um pouco mais impulsiva. Então, definitivamente tive que sair da minha zona de conforto para interpretá-la, mas também vi muito de mim mesma nela, especialmente na era em que "Paying For It" se passa. É uma pessoa jovem e alternativa na cena, e me relacionei com isso no sentido de que me sinto mais alternativa, em vez de alguém que é mais, digamos, convencional. E eu também me relaciono com a experiência de me mudar para uma cidade grande e explorar a cena musical, e ter todas essas novas e empolgantes oportunidades surgindo, e conhecer todas essas novas pessoas legais. Então, foi divertido interpretar e explorar isso através da lente de Sook-Yin. E também, porque é tão pessoal para Sook-Yin. Sunny é literalmente uma versão ficcional dela, muito disso vem da vida real de Sook-Yin. Então, sempre que eu precisava me aprofundar e me conectar, eu apenas ia até Sook-Yin, nos abraçávamos, e eu chegava lá, especialmente nos momentos onde havia mais pessoas. Foi muito bom ter a pessoa que eu estava interpretando me dirigindo, mas também estando lá para mim e garantindo que estávamos alcançando o que precisávamos. Aianne: Sook-Yin, já se passaram 28 anos desde que vocês terminaram, certo? Como o tempo mudou sua perspectiva sobre essa história? Sook-Yin: Oh, nossa. Essa é uma pergunta interessante. Bem, acho que provavelmente, com o tempo, vem a capacidade de me distanciar da história e vê-la como uma história. Se eu estivesse muito próxima dela, eu teria mantido tudo e teria sido um filme de 4 horas. Acho que, no momento em que isso estava acontecendo – e vemos isso no filme – eu estava apavorada quando ele me disse que tinha visto uma trabalhadora do sexo. Eu fiquei com ciúmes e estava tentando parecer legal porque eu deveria ficar tranquila sobre tudo, mas eu estava com ciúmes. Eu estava chateada. Eu não sabia o que isso implicaria, e me lembro de ter que atravessar essa resposta inicial muito emocional, e então, ver e trabalhar através do Chester para ver qual era a realidade disso. Desde então, também fiz o filme "Short Bus", um filme americano. É um filme queer que envolve sexo real, para contar a narrativa. E foi um filme que, novamente, foi contado de uma perspectiva extremamente humanista. E também conhecendo a Andrea, e a Andrea trazendo uma riqueza de entendimento e percepção. Outra coisa que foi super legal é que fizemos esse filme com muito pouco dinheiro. Não tínhamos muito dinheiro. Filmamos na minha casa, onde os eventos reais aconteceram. Eu chamei meu vizinho do outro lado da cerca e perguntei se poderíamos usar o videoclipe dele. Eu liguei para vizinhos e lojas no meu bairro, que nos deram seus lugares. A Andrea foi uma escolha natural. Ela é cineasta. Ela é inteligente. Ela é brilhante, e tem uma longa história com Chester como colaboradora e colega. Chester apareceu no curta dela, "Modern Horror", e fez o pôster gráfico. Então, essas conexões pessoais foram realmente fundamentais. E ao encontrar os protagonistas, Emily e Dan, eu literalmente tive que ver muitas pessoas, e como a Emily disse, ela foi a única com um conhecimento real e inato da cultura alternativa porque ela vive isso. E Dan foi uma das duas pessoas que conseguiram incorporar o personagem com lógica e percepção. Então, sabe, as mesmas falas ditas por outro ator que não entendia pareceriam vazias e horríveis. Então, tive muita sorte de encontrar os protagonistas. E a Andrea simplesmente me deixou impressionada, sabe. E ambas, vocês duas, simplesmente me impressionaram. Foto: The Globe and Mail Aianne: Última pergunta: Se e como a perspectiva de vocês sobre amor, relacionamento e sexo mudou durante esses filmes e como vocês querem que o público se sinta após assisti-los? Emily: Acho que o filme é como um portal para outras formas diferentes e não convencionais de explorar a intimidade. Acho que muitas vezes as pessoas recorrem apenas aos modelos convencionais que nos foram mostrados e que vimos crescer. Então, é como sair da norma e não ter tanto medo de algo diferente. Acho que é simplesmente encontrar a libertação nisso e um pouco de liberdade. Andrea: Eu diria que espero que este filme inspire mais clientes a contar suas histórias, porque as trabalhadoras do sexo muitas vezes são esperadas a colocar suas vidas e reputações em risco para contar suas próprias histórias e ajudar a desestigmatizar o trabalho. Mas raramente você vê os homens que se envolvem em nosso trabalho e pagam por ele terem a coragem de realmente falar sobre os benefícios que obtêm ao pagar por sexo. E, por isso, acho que o que Chester fez ao contar sua história é incrivelmente corajoso, e espero que isso inspire outras pessoas a se arriscarem e nos apoiarem na nossa luta por direitos iguais e descriminalização. Sook-Yin: Sim. Estou feliz que possamos ver exemplos de normas sociais desafiadas que são comoventes e difíceis, e pessoas se conectando e sendo tocadas pelo que veem. Espero que as pessoas possam se relacionar com o material. Eu adoraria ver mais representações de sexo dentro da indústria por pessoas que pagam por sexo e, sabe, é uma grande variedade, incluindo idosos, pessoas com deficiência, perspectivas culturais, das pessoas que pagam por sexo. É como se fosse uma visão inexplorada da humanidade. Sim. Para mim, é algo muito incomum, eu me sinto da mesma maneira que me senti depois que fiz Short Bus, e este foi um longo processo para mim ao fazer Paying For It. Estou muito orgulhosa de todas as conexões e estou muito orgulhosa, amo muito o Chester. Ele é um amigo tão querido e minha família, e estou tão orgulhosa dos relacionamentos que são refletidos neste filme. Mas, a nível pessoal, percebo que acabo me voltando mais para algo interno. É como se eu não estivesse realmente procurando me conectar com ninguém. Estou procurando me conectar comigo mesma. Na verdade, sinto que estou precisando de mais espaço sozinha. E isso é algo estranho.

  • Crítica | Maldoror (Festival de Veneza)

    Filme belga traz a tona história de crime real com toque ficcionalizado, mas perde a mão com longa duração Foto: Divulgação Na Bélgica, em 1995, o jovem policial Paul Chartier fica obcecado com o caso de duas jovens desaparecidas. Quando ele é recrutado para fazer parte da Maldoror, uma unidade secreta para monitorar homens com antecedentes criminais em casos de abusos de menores, e a operação falha por conta de erros dos seus superiores, Paul embarca em uma jornada de caçada e culpa também para desmascarar os envolvidos no caso. Exibido no Festival de Veneza, essa é a trama principal do filme Maldoror, coprodução da Bélgica e da França, que conta uma história real que se entrelaça em uma trama política e social do país belga. Na época dos fatos, a polícia funcionava de forma subdividida, existindo assim a ‘Gendarmerie’, algo equivalente a guarda municipal na atualidade brasileira. Assim, esses núcleos policiais não trabalhavam de forma integrada, sendo um grande problema em casos de grande complexidade, como no sequestro de várias jovens de forma sequencial nos anos 90. Dirigido por Fabrice du Welz, fica claro que a intenção é dar luz a esse fato histórico e triste da Bélgica e explorar essa história real sob uma ótica ficcional. Além de denunciar e expor esses crimes de sequestro, abuso e violência contra menores, o filme também expõe as falhas na polícia e na justiça criminal do país, com referências claras a longas como Zodíaco e Memórias de um Assassino. Focar no personagem fictício de Paul Chartier, um jovem adulto com uma vida problemática, mesclando com essa história real tem seus erros e acertos. Foto: Divulgação Paul é um personagem complexo, em alguns momentos irritante pela sua insistência, deixando sua própria família de lado. Inclusive, um dos núcleos mais interessantes do filme é a família da esposa de Paul, mesmo que pouco explorada. Mesmo com sua complexidade, não sei se ele é o personagem ideal para liderar essa história feita para colocar sob a luz do público esse crime bárbaro. Alguns outros fios narrativos aqui se perdem e o filme, em certo ponto, parece não saber se quer ser um drama, um true crime ou um suspense policial. Muito disso acontece pela sua longa duração, de quase 2h33 minutos, que em muitos momentos torna a trama mais lenta e arrastada e em outros mais frenética, despontando com bons momentos de ação, mas não convencendo no drama. Com uma boa direção de arte e também boas atuações, Maldoror tem um saldo positivo mesmo com os problemas e traz uma luz e dá voz a um dos casos mais tristes da Bélgica. Nota: 3/5

  • Crítica | Anora (Festival Internacional de Cinema de Toronto - TIFF 2024)

    O maior filme de Baker até agora combina sua clássica sutileza com uma rotina frenética Foto: Divulgação Estamos acostumados a assistir ao trabalho dramático e sutil nos filmes de Sean Baker, mas seu novo filme, mesmo ainda seguindo sua índole independente, consegue chegar ao nível das aventuras exuberantes de grandes estúdios, sem abandonar as essências do diretor. Anora, filme que conseguiu conquistar o júri de Greta Gerwig, levando a Palma de Ouro no Festival de Cannes, mostra a história de uma prostituta que se envolve romanticamente com um jovem russo, até que problemas surgem quando a família do jovem descobre o relacionamento entre os dois. O filme, estrelado por Mikey Madison - cuja performance já foi comparada à de Daniel Day-Lewis em Sangue Negro e Gena Rowlands em Uma Mulher Sob Influência- talvez ainda não alcance o mesmo patamar dessas memoráveis atuações, mas, sem sombra de dúvidas, usa este filme para gravar seu nome na memória de todos os espectadores. Através da performance de Madison, vemos um mundo fantasioso no qual ela decide viver após ser enganada e manipulada. Ainda que exagerado em relação à nossa realidade, sua atuação nos permite trazer sua personagem para perto de nós. O elenco também é composto por incríveis atores coadjuvantes, que, apesar de não terem tantos momentos para brilhar, elevam a história e ajudam Madison a criar momentos emocionantes e hilariantes. Mark Eidelstein, Darya Ekamasova, Vache Tovmasyan, Karren Karagulian e Yura Borisov são alguns dos nomes que compõem o elenco. Apesar de serem desconhecidos do grande público, todos foram grandes acertos de Baker, que merece crédito pela direção de elenco. Baker consegue unir nomes do cinema russo com comediantes americanos e Madison, cada um trazendo um elemento diferente ao longa. O "sonho americano" do jovem russo não condiz com a realidade retratada nos outros filmes de Baker. Desta vez, assistimos ao completo oposto, com a história ocorrendo majoritariamente em Nova Iorque e Las Vegas. Baker consegue conduzir a narrativa de forma contínua, sabendo quando prolongar cenas e criando tensão através de um tom cômico. Foto: Divulgação Anora, ou como gosta de ser chamada, Ani, chegou para deixar sua marca. Por anos, veremos fantasias, estilos musicais e personalidades inteiras serem impactadas por este longa. Baker prova que o cinema independente pode ser grandioso e conquistar o grande público com poucos recursos, da mesma forma que Ani conquista o jovem russo. Nota: 5/5

  • Confira a programação da Maratona Nordeste Fantástico 2024

    Evento exibe produções de diferentes estados nordestinos voltadas para os subgêneros de fantasia, ficção científica, suspense e gêneros mistos Divulgação Entre os próximos dias 12 e 14 de setembro de 2024 – de quinta a sábado – acontecerá na Casa da Ribeira (Rua Frei Miguelinho, 52 – Ribeira) a Maratona Nordeste Fantástico. Com o objetivo de valorizar e difundir a produção de cinema de gênero realizado no nordeste brasileiro, de modo a proporcionar aos espectadores um maior conhecimento sobre as experimentações em termos de linguagem cinematográfica e do que foi e está sendo pensado e produzido a partir das realidades nordestinas, seus universos simbólicos e imagéticos. A direção da Maratona é do produtor cultural potiguar Rodolfo Holanda, e a curadoria é dos pesquisadores e críticos de cinema cearenses Beatriz Saldanha e Diego Benevides. Essa é a segunda edição da Maratona, a primeira aconteceu em janeiro, no Rio de Janeiro, e contou 11 obras de longas-metragens e 15 produções de curtas e médias-metragens, de diferentes estados do nordeste.A Maratona Nordeste Fantástico reúne obras que dialogam com a ‘identidade nordestina’, ressaltando as nuances dessa categoria hegemônica a partir do cinema de gênero. A curadoria evidencia processos constituintes de imaginários dissidentes, cuja representação de mundos humanos e mais-que-humanos questionam os limites entre tradição/modernidade e estimulam novos olhares sobre vida e arte nordestinas. "A pesquisa para a montagem da programação da Maratona Nordeste Fantástico destaca produções de todos os nove estados nordestinos, não os colocando como concorrentes em quantidade, muito menos em conformidade técnica, mas como uma união de propostas fílmicas que traduzem as possíveis identidades do cinema fantástico realizado nessa região", afirma Diego Benevides, curador. Estreia de Estranho Caminho em Natal com a presença de Guto Parente No dia 14/09 (sábado), a partir das 19h, a Maratona Nordeste Fantástico, em parceria com a distribuidora mineira Embaúba Filmes, exibe Estranho Caminho, o mais novo filme do diretor cearense Guto Parente. Em sua estreia mundial no Festival de Tribeca, a obra conquistou todos os prêmios da Competição Internacional, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro (Guto Parente), Melhor Fotografia (Linga Acácio) e Melhor Performance (Carlos Francisco). A obra também fora agraciada com Melhor Roteiro e Ator Coadjuvante no Festival do Rio (2023), além do prêmio de Melhor Filme (Prêmio Casa de Las Américas) no Festival de Cinema de Havana (2023). Na ocasião, o diretor fará um bate-papo com o público presente após a exibição. A conversa será mediada por Diego Benevides. A Maratona Nordeste Fantástico contará ainda com um programa de curtas para estudantes da rede pública de ensino, sessão com acessibilidade, além da Palestra Pílula de Sangue: panorama de curtas-metragens de horror realizados por mulheres, com a curadora Beatriz Saldanha, que acontecerá no dia 16/09 (segunda-feira), no auditório do Departamento de Comunicação da UFRN. A Maratona Nordeste Fantástico tem produção da Nuvem Nuvem Produções, parceria com Embaúba Filmes e apoio da Mostra Monstra. A realização é da Fundação José Augusto, Secretaria de Cultura do RN, Ministério da Cultura e Governo Federal através da Lei Complementar No 195, de 8 de julho de 2022 - Lei Paulo Gustavo, com recursos do Edital de Seleção de Projetos de Audiovisual da Lei Paulo Gustavo Rio Grande do Norte No 01/2023. Projeto suplementado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc 2024, através da seleção pública Nº 012/2024 - Fomento à Cultura do município de Natal/RN. PROGRAMAÇÃO DIA 12/09 - Quinta-feira 14h: SESSÃO MARATONINHA (65 min ao todo) Livre Autômato do Tempo (RN, 2018, 12 min) + Cordel da Vila: A Rainha Louca contra o Escandaloso (RN, 2021, 11 min) + Vislumbres (RN, 2016, 7 min) + Lagrimar (RN, 2024, 14 min) + O Vale do Vento Eterno (RN, 2021, 23 min) 19h: SESSÃO DE CURTAS-METRAGENS I (102 min ao todo) 16 anos Estalos (PI, 2023, 22 min) + O Verbo se Fez Carne (AL, 2019, 6 min) + Nebulosa (CE, 2020, 14 min) + Macho Carne (MA, 2021, 15 min) + Pataki (SE/BA/CUBA, 2018, 21) + Cavaram uma Cova no Meu Coração (AL, 2024, 24 min) DIA 13/09 - Sexta-feira 16h: SESSÃO ACESSIBILIDADE | (57 min ao todo) 16 anos Abjetas 288 (SE, 2021, 21 min) + O Verbo se Fez Carne (AL, 2019, 6 min) + Imã de Geladeira (SE, 2022, 19 min) + Castelo da Xelita (RN, 2022, 11min) 17h: BATE-PAPO com ANTHONY RODRIGUES Atividade com recurso de acessibilidade: intérprete de libras 18h30: SESSÃO DE CURTAS-METRAGENS II (75 min ao todo) 16 anos Encruzilhada Bar (RN, 2023, 11 min) + Pranto (PB, 2019, 12 min) + Castelo da Xelita (RN, 2022, 11 min) + Cabiluda (PE, 2022, 20 min) + Abjetas 288 (SE, 2021, 21 min) 20h: Cipriano e a Morte de Cipriano (PI, 2023, 79 min) 12 anos DIA 14/09 - Sábado 17h: Açucena (BA, 2021, 71 min) Livre 19h: SESSÃO COMENTADA: Estranho Caminho (CE, 2023, 83 min) Participação: GUTO PARENTE e DIEGO BENEVIDES NOGUEIRA ATIVIDADE ESPECIAL NO DECOM - UFRN DIA 16/09 - Segunda-feira 19h: MASTERCLASS: Pílulas de sangue - Panorama de curtas-metragens de horror realizadas por mulheres, com BEATRIZ SALDANHA SERVIÇO: [CINEMA] Maratona Nordeste Fantástico Entre 12 e 16 de setembro de 2024 Casa da Ribeira Rua Frei Miguelinho, 52 - Ribeira. DECOM/UFRN Campus Universitário Lagoa Nova. Programação completa no instagram: @maratonanordestefantastico. Mais informações através do e-mail: maratonanordestefantastico@gmail.com. PROGRAMAÇÃO GRATUITA

  • Análise | Por Que 'Família Soprano' Ainda é a Melhor Série da História da Televisão Depois de 25 Anos?

    Uma carta de amor à obra prima máxima que revolucionou a TV Foto: Divulgação A HBO só começou a fazer séries dramáticas em 1997 e já chegou com o pé na porta: Oz, que narrava a vida de homens em uma prisão de segurança máxima. A audiência estava acostumada com os programas da TV aberta, onde o bandido era sempre o vilão que se dava mal no fim do episódio. Aqui não. O foco era naqueles personagens, violentos e amorais, mas com traços de humanidade, e pelo menos alguns, ainda se aproximavam mais do estereótipo do “mocinho” habitual, um personagem pelo qual o telespectador pudesse se identificar. O que já muda com a próxima aposta dramática do canal. A HBO abriu a porta para tramas mais complexas e notou que havia uma audiência para isso, então quando a CBS, ABC, NBC e FOX, negaram Família Soprano, David Chase enxergou na HBO uma bela oportunidade para contar sua história, e Chris Albrecht, o então CEO do canal, aprovou o roteiro do piloto com o apoio de sua executiva Carolyn Strauss e juntos aceitaram embarcar nesta jornada com Chase que mudaria o rumo da televisão para sempre, não só nos Estados Unidos. David Chase já trabalhava na TV aberta como roteirista, mas foi na HBO que encorajaram sua liberdade artística. Ele não esconde de ninguém que Livia Soprano, papel imortalizado por Nancy Marchand, a mãe de Tony, é inspirada pela sua própria mãe e os problemas que tinha com ela, assim como Nova Jersey, lugar onde a trama era ambientada, que foi onde ele cresceu com seus descendentes italianos e é essa pessoalidade que faz de Família Soprano tão brilhante. Ele escrevia o que conhecia, e incentivava seu time de roteiristas a fazer o mesmo. A série era diferente dos filmes clássicos de máfia como O Poderoso Chefão ou Os Bons Companheiros e havia dúvidas se o público “compraria” a história de um mafioso na terapia, mesmo que todos os envolvidos soubessem da qualidade da produção. O piloto teve uma audiência de 3,45 milhões de telespectadores, gigante para os padrões da HBO e o sucesso com a crítica também foi imediato. Mas ali, no 5º episódio, intitulado “College” houve a primeira rusga entre Chase e o canal. No episódio, Tony levava Meadow para uma visita na faculdade, quando encontra um homem que o traiu pelo caminho e não perde a oportunidade de matá-lo. Albrecht achou que o público rejeitaria um protagonista que matasse violentamente alguém à sangue frio e pediu que Chase não colocasse isso no episódio ou “amenizasse” de alguma forma. Chase não aceitou e disse que o público não respeitaria Tony se ele não fizesse aquilo. Depois de muita discussão, Albrecht aceitou a visão de Chase, viu que ele estava certo e nunca mais se meteu nas decisões criativas. David Simon, o criador de A Escuta, uma das percursoras de Família Soprano disse “o público sempre vai querer sorvete, mas é necessário comer vegetais também”. É isto o que David Chase vinha fazendo com sua obra. Desfiando os limites e deixando as pessoas desconfortáveis, dando a elas a oportunidade de pensar sobre aquilo, sem necessariamente dizer a elas como deviam se sentir em relação a determinado acontecimento. Muitos não eram fáceis de se assistir, a maioria, na verdade, mas eram necessários para o desenvolvimento daqueles personagens, e por mais violento que fosse, não soava gratuito. James Gandolfini foi diretamente afetado por Tony Soprano e todo o mar de complexidade que o envolvia. Um gênio que incorporou aquele homem tão violento, capaz das maiores atrocidades e capaz de ser um pai amoroso, mas ainda assim os fatos se misturavam, claro. Tony não se resumia a uma coisa ou outra, graças a escrita singular de David Chase e a performance irretocável de Gandolfini, temos o melhor personagem da história da televisão. Sem ele não existiriam Don Draper, Walter White e tantos outros anti-heróis que vieram depois. Família Soprano chegou quebrando barreiras e mostrando que havia uma audiência interessada em acompanhar protagonistas moralmente ambíguos, que o “mocinho” nem sempre precisava vencer no final, porque simplesmente não existem mocinhos aqui. Acompanhamos uma gama de pessoas que nem sempre vão escolher o caminho certo e isso é fascinante, porque absolutamente ninguém é bom o tempo todo, e uma hora você vai se identificar com algumas daquelas pessoas. Pode não se identificar com os crimes que elas cometem, mas elas são muito mais do que isso. De Paulie a Carmela, de Christopher a Janice, de Adriana a Dra. Melfi, os personagens guiam a trama e não o contrário. Eles são tão bem construídos, que há um fator de imprevisibilidade que deixa tudo mais incrível, como nas decisões que eles tomam, nós não sabemos qual será, mas fará sentido com o personagem. Como Melfi escolher não dizer a Tony sobre seu estuprador ou Christopher entregar Adriana para a morte e ainda assim, não sabíamos se Tony perdoaria. Queríamos? Sim, mas faz muito mais sentido como aconteceu. Não oferecer saídas fáceis é um dos maiores trunfos da série porque a vida não é fácil. Quando eu comecei a assistir achava que seria algo mais tradicional da máfia, como nos filmes do gênero. Mas já no primeiro episódio fui pego de surpresa. Era sobre a máfia, mas eu não esperava a terapia. Obviamente eu tinha ouvido falar assim que adentrei no mundo das séries e eu sabia que tinha que assistir, mas só comecei ali por meados de 2012. Eu não tinha a cabeça que tenho hoje, mas tinha noção que estava vendo algo fora do comum. Mesmo já tendo começado assistido séries que exigiam mais mentalmente como Lost ou Breaking Bad, sabia que Família Soprano era um grau acima e agora eu estava entendendo como ela havia influenciado tudo que vinha depois. Quanto mais os episódios passavam, mais eu estava fisgado por aquele mundo tão fascinante criado por Chase. Tão honesto, violento, cru, ao mesmo tempo que tinha uma veia humorística tão forte. Conseguir fazer humor em momentos sombrios de uma maneira equilibrada e genuína é para poucos, mas Chase e seu brilhante time de roteiristas fizeram com maestria por seis temporadas. E é claro que aproveitei cada episódio, mas havia uma curiosidade gigante de como se encerraria a melhor série de todos os tempos? Não dá para ter um final fechado. Chase escolheu reverberar sua arte. A polêmica tela preta gera discussões até hoje, do que afinal aconteceu com Tony naquela lanchonete. Eu, óbvio, assim que vi já tirei minhas conclusões e sempre que alguém termina, conversas acaloradas tomam conta onde cada um compartilha sua visão. Se isso não é a força da arte e de uma história bem contada, eu não sei o que é. Família Soprano elevou a televisão como uma forma de arte. Se antes, apesar de algumas ótimas produções, a mídia ainda era diminuída, agora ela se igualava ao cinema como uma alternativa de contar histórias de uma forma mais longa e mais aprofundada. Ainda há quem queira diminuir a tv, o que pessoalmente eu acho uma tremenda imbecilidade. Depois de Família Soprano, já tivemos provas suficientes que o telespectador não deve ser subestimado e a TV não existiria como existe hoje sem ela, mesmo que nenhuma recente ainda chegue aos seus pés em termos de qualidade. Não que não tivemos excelentes produções há pouco tempo, mas é que há uma superioridade evidente. Mais do que assistir séries, eu amo também descobrir e estudar sobre o processo criativo delas, então o recém-lançado documentário “Um de Nós: David Chase e a Família Soprano” foi um verdadeiro presente para mim como fã. Mesmo eu já tendo livros sobre, é sempre bom saber mais, é inspirador ver como aquelas pessoas trabalharam duro para levar aquele produto às telas dando o melhor de si. Em dois episódios de pouco mais de 1h cada, se fala sobre tudo, dá uma sensação de completo, mas você ainda quer mais, porque a série também foi assim. Nunca vai ser demais falar sobre Família Soprano e seu legado, sempre há algo mais a ser dito. Quem me conhece pelo menos um pouco, sabe do meu amor por Lost e como eu sempre digo que é minha série favorita, por mexer comigo de uma forma diferente, por ter sido a primeira que acompanhei, enfim, inúmeras razões, mas hoje não é sobre Lost. Quando me perguntam a melhor série de todos os tempos, não penso duas vezes em afirmar que é Família Soprano. É uma distinção emocional, mas que se aproxima porque Tony e sua turma estão em segundo lugar no meu coração. Eu diria que envelheceu como o mais fino dos vinhos, mas eram comuns comentários de jovens que tiveram o primeiro contato com a série agora se chocar com as atitudes dos personagens, o texto e a acusavam de “machismo, racismo, etc.”. É evidente que isso está presente, como um chefe da máfia poderia ser um defensor dos direitos humanos ou do politicamente correto? Teria um mínimo de coerência? Isso não quer dizer que a série é, mas seus personagens são porque é o que faz sentido naquele universo em que eles vivem. Recentemente houve uma discussão sobre aviso de gatilhos em livros no Twitter/X, poucos dias antes do banimento da rede social do país. Há pontos de vistas válidos de ambos os lados, mas em séries, particularmente não me agradam. O intuito de algumas séries não é só chocar o público, mas deixar que eles lidem com aquele desconforto, com sensações que nem sempre são agradáveis, porque a vida não vai ser sempre um sorvete, como disse David Simon. Família Soprano é arte e arte pode ser desconfortável, desafiadora, gerar discussões e não dá para fazer História sem incomodar, por isso, mesmo com a absurda quantidade de séries hoje em dia e outras que vieram depois, com qualidades acima da média, também não conseguiram superar a maior de todos os tempos e eu duvido muito que alguma ainda vá.

  • Análise | A Qualidade das Séries Atuais Vale o Longo Tempo de Espera Entre as Temporadas?

    O que antigamente era uma exceção, hoje virou uma regra, e parece não haver mudança no horizonte Foto: O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (Prime Video)/ Only Murders In The Building (Hulu)/ Slow Horses (Apple TV+)/ Hacks (Max)/ Abbott Elementary (ABC)/ The Boys (Prime Video)/ Stranger Things ( Netflix)/ A Casa do Dragão (HBO) É claro que existem séries boas hoje em dia, mas é inegável que são exceções em um mar de mediocridade. Com a quantidade de streamings, a oferta aumentou muito e quase toda semana surge algo “imperdível” que ninguém lembra na semana seguinte. Se fizer algum sucesso, pode ser renovada, mas os novos episódios só chegarão em prováveis dois anos. Não é um fato novo, mas o problema é que virou a regra. Nos Estados Unidos, o que predominava até os anos 2010 era a chamada “Fall Season”, que começava em setembro e ia até maio do ano seguinte. A grande maioria das séries que você conhece por terem seus 20 e tantos episódios, eram exibidas neste período. Ainda é assim que a tv aberta norte-americana funciona, mas com o advento da TV a cabo já em meados dos anos 2000 e do streaming nos anos 2010, ela foi perdendo cada vez mais espaço. Com o fim de This is Us, hoje somente Abbott Elementary ganha destaque nas premiações. Ainda há Grey’s Anatomy e Lei & Ordem: Unidade de Vítimas Especiais no ar, séries outrora aclamadas, mas são procedurais e é o que não falta na tv aberta. As emissoras abertas não arriscam mais em aprovar roteiros inovadores e que demandem muita atenção. Algo como Lost, que foi exibida na ABC de 2004 a 2010, jamais estrearia no canal agora. Iria para algum streaming, com temporadas de oito episódios a cada dois anos. Felizmente estreou na época certa. A tv a cabo, com Família Soprano, na HBO, já se utilizou desta “janela” de dois anos, sendo o maior tempo entra a 5ª temporada, que estreou em 07 de março de 2004 e a parte um da 6ª e última em 12 de março de 2006. A Escuta também passou por isso com um espaço maior entre as temporadas 3, 4 e 5. Mas percebam que estamos falando de duas das séries mais aclamadas da televisão, com roteiros super trabalhados em nuance e camadas de personagens e histórias extremamente complexas. Eram exceções, mas hoje, até algo como Minha Vida com a Família Walter, série adolescente da Netflix, que parece ter o orçamento de uma coxinha e um guaraná, também passa dois anos ou mais entre uma temporada e outra. Há de se mencionar que a pandemia e as recentes greves de atores e roteiristas afetaram dezenas de produções, mas ainda assim, as gravações da 2ª temporada começaram há algumas semanas. Tanto tempo para escrever dez episódios de uma trama de triângulo amoroso em uma cidadezinha com todos os clichês possíveis? A WB e CW produziam umas 10 ou mais com 20 e tantos episódios por ano. Com essa “moda”, as grandes produções, que precisam de efeitos especiais e um tempo maior de pós-produção, como A Casa do Dragão, Stranger Things, O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder ou The Boys realmente fazem um trabalho visual mais apurado, mas parece que é a única preocupação. A televisão é famosa por ter orçamentos menores e caprichar nos roteiros, mas com essas citadas, o caso é o contrário. Orçamentos estratosféricos nos levam a espetáculos visuais vazios, onde o desenvolvimento do enredo ou dos personagens ficam em segundo plano, prezando apenas pelo próximo grande acontecimento que será comentado nas redes sociais por uma semana ou pouco mais que isso, já que gera o choque, mas não o impacto. Stranger Things começou quietinha até virar o fenômeno que virou, mas tinha um roteiro que se importava com seus personagens e isso era evidente porque fazia com que nos importássemos com eles. A melhor trama da mais “recente” – que estreou há dois anos – temporada é a focada nos personagens que estão em Hawkings e a cena em que Max (Sadie Sink) foge do Vecna ao som de “Running Up That Hill” é marcante e lembrada até hoje, justamente por anteriormente haver uma construção dela, foi estabelecida uma conexão personagem-telespectador. Alguém lembra de outra cena? Pois é, eu também não. Lembro de episódios excessivamente e desnecessariamente longos. A demora faz a audiência perder o foco e o desejo pela trama, ainda mais quando o que vemos em tela é decepcionante depois de tanta espera. Uma das melhores coisas das séries de 20 e tantos episódios por ano, era passar tanto tempo com aquelas pessoas, ou até com os 13 habituais das produções da TV a cabo, que pelo menos eram anuais, existia um compromisso e respeito com o espectador que em retorno dava fidelidade. Hoje, oito episódios medianos a cada dois anos ou até mais, a gente mal lembra quem é quem e pelo quê ou contra quem estão lutando. Geralmente, acontecia alguma coisa nos bastidores para que houvesse o atraso, mas hoje, acontece a renovação e o aviso é de que teremos que esperar mais dois anos. Ninguém fica órfão porque é tanta coisa para assistir, mas qualidade e quantidade nem sempre andam de mãos dadas. É esse o intuito então? Apresentar coisas medíocres para que ninguém fique ansioso por esperar tanto? O problema é que quando voltam, o sentimento é quase de indiferença. Quem muito se ausenta, uma hora deixa de fazer falta. É bom saber que O Urso, Slow Horses e Only Murders in the Building têm esse compromisso com quem as assiste e ainda vale mencionar Hacks e Entrevista com o Vampiro, que já estão com novas temporadas em produção e a expectativa é que estreiem ano que vem também. Obviamente que não é escolha dos roteiristas demorar tanto, e sim dos estúdios. Se com prazos apertados no passado tínhamos temporadas brilhantes, por que hoje com tanto tempo, recebemos coisas tão básicas? Não me parece uma conta justa, principalmente em séries iniciantes que mal formam um vínculo com o telespectador. Me importaria de esperar dois anos por Família Soprano por amar a série e ter a confiança de quem me entregariam o melhor que pudessem quando voltasse. Mas hoje, com séries que eu apenas gosto? Se parece que eles não se importam, por que eu deveria? Não é à toa que a procura por séries antigas e já finalizadas é enorme. Lost chegou há duas semanas à Netflix e desde então estava no TOP 10 da plataforma. O mesmo pode ser dito de Prison Break, que está no TOP 5 da Netflix dos EUA e acabou de chegar na filial brasileira. São produções perfeitas? Não, principalmente Prison Break, que decai drasticamente em relação ao começo, mas pelo menos as pessoas vão assistir sabendo que existe um começo, meio e fim ali à disposição. É uma alternativa e a melhor coisa que o streaming pode nos proporcionar: acesso mais fácil a produções do passado, enquanto nos distraímos com a demora pelos “fenômenos” atuais. Vale a pena? Aconselho a manter as expectativas baixas.

  • Crítica | O Jogo que Mudou a História (1ª temporada)

    A brutalidade da desumanidade mais humana possível de uma das melhores séries do ano Foto: Divulgação/ Globoplay Já no primeiro episódio, o capricho da produção é notório, bem como a violência que a guia. Uma série inspirada por fatos, que retrata o surgimento das facções de narcotráfico no Rio de Janeiro nos anos 70, não poderia ser diferente. A trama começa com a chegada de Egídio (Ravel Andrade) e Jesus (Raphael Logam) ao Presídio de Ilha Grande. O primeiro como prisioneiro e o segundo como carcereiro. Lados opostos que são nossos olhos iniciantes para conhecer como funciona aquele sistema e quem é quem naquele ambiente. Eles não fazem ideia do que os aguardam e muito menos nós telespectadores. Além do núcleo da prisão, que é dividido em dois grupos rivais: “Jacaré” e a “Turma do Fundão”, este último composto por assaltantes de banco e presos políticos da ditadura, o conflito entre eles reverbera também para fora de Ilha de Grande, nas fictícias comunidades de Padre Nosso e Parada Geral, rivais também no futebol. Isso é apenas uma sinopse básica para tanta coisa que ainda acontece no desenrolar da série criada por José Júnior e escrita por ele em colaboração com Gabriel Maria, Clara Meirelles, Bruno Passeri, Manaíra Carneiro e Bruno Paes Manso. O texto é muito bem escrito, é construído com naturalidade e os principais eventos ganham um impacto maior com esse cuidado narrativo necessário em qualquer formato audiovisual, principalmente no seriado. Matias Mariani e Claudio Borrelli dirigem, com direção geral de Heitor Dhalia. Eles estão em harmonia com os roteiristas e não economizam em mostrar a violência naquele meio. É o cotidiano ali, e maquiar ou diminuir não ia combinar com a história que está sendo contada. Não dá para minimizar o impacto sem chocar visualmente o telespectador. É uma série que não se direciona apenas por grandes acontecimentos, mas desenvolve bem seus personagens para que tenhamos empatia por quem acompanhamos. É um dos pontos positivos de não trazer nomes reais para a série, porque são apenas personagens ali e não há comparações com a vida real por mais que haja inspiração. Foto: Divulgação/ Globoplay Não é novidade em séries de tv existir a empatia por criminosos. Desde Oz, série norte-americana da HBO que estreou em 1997 também focada no sistema prisional, que acompanhamos aquelas pessoas ambíguas, complexas, que ficam em áreas cinzas, e extremamente humanas, o que ganhou ainda mais substância com a estreia de Família Soprano, no mesmo canal, em 1999. Assim como as citadas, O Jogo que Mudou a História não oferece saídas fáceis e muito menos maniqueístas e jamais aqueles homens podem ser colocados em caixinhas de mocinhos e vilões. É muito básico e não é a proposta de uma produção como esta. São muitos personagens, mas alguns merecem destaque, como Chico da Cavanha, um assaltante de banco, feito como tanta humanidade por Rômulo Braga, que deixa impossível não torcer por ele. Gilsinho, do poço de carisma e talento chamado Jonathan Azevedo, que consegue transitar com facilidade entre a crueldade e o humor. Mestre, interpretado por Mukassa Kabengele, um pai de família que parece sempre ser atraído para aquele mundo, não importa o quanto tente fugir dele. Amarildo, o líder da Associação de Moradores de Padre Nosso e que tenta resolver as coisas sempre pacificamente, feito com uma naturalidade absurda por Pedro Wagner. Já Belmiro, seu irmão, não é tão pacífico assim e esse contraste entre eles é um dos destaques aqui, também graças a performance sutil, mas intensa de Jailson Silva. Os supracitados Raphael Logam e Ravel Andrade também têm seus momentos de brilhar – alguns bem emocionantes, principalmente de Andrade –, mas vão perdendo um pouco de espaço no decorrer da temporada. No ponto de vista feminino, o principal é o de Irmã Emily, uma freira dos Estados Unidos que está na cadeia para se certificar que os direitos humanos estejam sendo respeitados. Spoiler: não estão, mas sua trama consegue ir além. As outras mulheres presentes não aparecem tanto, e são mais coadjuvantes, como esposas, mães, amigas etc. e não há tanta nuance como poderia, mesmo que exista cenas que ressaltem o talento das atrizes. Em um elenco tão grande é difícil que todos os personagens sejam bem desenvolvidos e é normal colocar um foco maior somente em alguns, mas a série também escolhe isso, assim como algumas subtramas que são pouco aprofundadas. Por exemplo, um dos presos políticos é interpretado por Otávio Muller, um dos nomes mais conhecidos ali, porém, a trama da ditadura em si contextualiza muito mais a época em que o enredo se passa e dá motivação para que alguns personagens ajam no começo, mas no mais é pouco explorada. Tudo bem, porque há um estudo mais rico em outros aspectos e as qualidades se sobressaem muito mais do que os pequenos defeitos. São dez episódios nesta 1ª temporada – espero que não seja a única – e há uma visceralidade crua neles que te transposta para dentro da tela, mas não soa gratuita. Os episódios 8 e 9 são dos melhores que vi este ano, atingindo o clímax em dois dos arcos mais importantes. É uma série que mesmo mostrando pessoas capazes das maiores brutalidades, elas também são capazes de amar, de serem humanas de fato, porque foi assim que foram criadas e mesmo que tentem escapar, às vezes simplesmente não tem escapatória, seja da prisão ou daquela vida. O Jogo que Mudou a História sabe ir direto ao ponto, mas ainda deixa brecha para mais. Espero que haja. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (1ª temporada)

    Ciente de sua própria grandiosidade, a produção entra para a história da televisão Foto: Divulgação Adaptada do romance de James Clavell, a minissérie é ambientada no Japão de 1600, em meio a uma guerra civil, onde o Senhor Toranaga (Hiroyuki Sanada) luta por sua vida enquanto seus inimigos no Conselho dos Regentes arquitetam contra ele. Quando um navio europeu é encontrado próximo ao vilarejo, seu piloto, o inglês John Blackthorne (Cosmo Jarvis) pode se transformar em uma poderosa arma para Toranaga, mas o rapaz tem sua própria agenda contra o avanço dos jesuítas portugueses no país e não sabe qualquer palavra em japonês. Para isto, Toda Mariko (Anna Sawai), uma nobre católica, é solicitada como tradutora e ajudará nos diálogos com Toranaga, e inevitavelmente criará uma conexão com Blackthorne que pode colocar tudo em risco. O primeiro episódio já deixa evidente a grandiosidade da minissérie. Enormes cenários, vários figurantes, um espetáculo visual, mas parece que é história demais para um episódio dar conta. O segundo, que foi disponibilizado junto e não à toa, centraliza mais a trama e as peças do jogo, deixando o primeiro ainda melhor. Um fato louvável é que os japoneses falam japonês, o que não é tão comum ainda em produções estadunidenses. Porém, os portugueses falam inglês, enquanto afirmam que estão falando português. Esta foi a questão que mais me incomodou nestes episódios iniciais, porque depois eles só falam inglês mesmo sem mencionar a língua portuguesa. É a maior falha da série, devo dizer. No entanto, conforme a narrativa se desenvolve e se torna cada vez mais envolvente, eu relevei este ponto. Me lembrou muito os tempos áureos de Game of Thrones, onde intrigas e jogos de poder dominavam a tela. Há batalhas e há violência, muito bem filmadas, principalmente nas lutas corpo a corpo com espadas, brilhantemente coreografadas, hipnotizantes de se assistir. Mas, é nos bastidores dos castelos que o verdadeiro poder de Xógum: A Gloriosa Saga do Japão está. Nas discussões políticas e religiosas, onde tudo se orquestra para um plano maior e mais surpreendente, à medida que os personagens vão sendo extremamente bem desenvolvidos. Foto: Divulgação O cuidado que o roteiro tem com seus protagonistas é um dos maiores trunfos da série. A primeira adaptação, uma minissérie de 1980 produzida pelo canal NBC, é muito lembrada pela questão do “white savior”, onde Blackthorne é o protagonista absoluto. Nesta versão do FX, o foco é divido entre três pessoas em mais uma decisão acertada de Rachel Kondo e Justin Marks, os showrunners. Hiroyuki Sanada tem uma imponência enorme como Toranaga sua presença é sentida mesmo quando não está em tela. É uma performance elegante, que exala a segurança de um ator veterano, que sabe o que a cena exige dele, porque é na mentalidade que Toranaga se sobressai, mesmo sendo um exímio guerreiro. Anna Sawai é o maior destaque. Sua atuação contida é quase um grito silencioso e suas expressões faciais carregam toda a dor e a força de Mariko, seja nos seus conflitos com sua fé ou no casamento. Cosmo Jarvis é o elo mais fraco do trio. O ator peca pelo excesso e cai na canastrice, principalmente no começo. Com o passar dos episódios, conforme o personagem se adapta, melhora um pouco e eu me acostumei com o lado bobalhão, meio perdido. O que ajuda ainda mais, é a química de Jarvis e Sawai. O romance proibido, a tensão sexual, tudo contribui para para uma épica história de amor que enriquece ainda mais a trama. Os coadjuvantes também chamam atenção, como Yabushige, interpretado por Tadanobu Asano, que parece estar adorando cada segundo do personagem. Ele funciona como alívio cômico e é aquele homem que ninguém sabe se deve confiar, é uma ambiguidade divertidíssima, até certo ponto. A jovem Fuji, que sofreu perdas inimagináveis, é dona de um carisma enorme e a performance de Moeka Hoshi faz ser quase impossível não torcer por ela. Outra que deixa qualquer um vidrado quando aparece é Fumi Nikaido com sua Ochiba No Kata, a mãe do herdeiro, que é uma peça chave do enredo e a frieza na sua interpretação chega a assustar. Aliás, é admirável o cuidado que o roteiro tem com as mulheres aqui, em um período restritivo em que elas mal tinham voz, elas florescem na trama. Em dez episódios, a minissérie é um mergulho na cultura japonesa, o senso de honra e dever faz tudo ser mais crível e funciona dramaticamente dada sua devida importância. É esperado que muitos chamem o final de anticlimático, eu chamarei de ousado e corajoso. Dizem que é fiel ao livro, que eu não li, então não julgo por ai, mas como adaptação se basta. Brinca com nossas expectativas assim como Toranaga joga com as dos seus inimigos e respeita acima de tudo o personagem e sua inteligência, sua visão de enxergar além do básico, do que é esperado, mostra que dever, honra e sacrifício não são apenas palavras. Aqui, elas realmente significam algo e comprovam que a grandiosidade de uma boa produção televisiva vai além do espetáculo visual. Nota: 5/5

  • Crítica | O Casal Perfeito (Minissérie)

    Apesar dos defeitos evidentes, não se levar tão a sério é um dos principais trunfos desta produção completamente viciante Foto: Divulgação/ Netflix Quando Nicole Kidman começou a fazer televisão com a espetacular – até então – minissérie Big Little Lies em 2017, ela ganhou um Emmy por sua irretocável performance como Celeste e tomou gosto pela mídia. No entanto, sua presença não virou sinônimo de qualidade graças a fraca The Undoing e a terrível Nove Desconhecidos. Neste ano, a ótima Expatriadas já tirou um pouco do estigma negativo, então fui conferir O Casal Perfeito com alguma expectativa, mas felizmente controlada. Tramas de brancos, ricos e problemáticos com um mistério como pano de fundo não são exatamente novidade na televisão, vide The White Lotus e a própria Big Little Lies, por exemplo. Porém, esta aqui lembra muito mais Revenge, não só pelo cenário praiano, mas pelo tom mais folhetinesco que o texto adota. Kidman é Greer Winbury, a matriarca da família e uma famosa escritora. O drama começa no dia do luxuoso jantar de ensaio de casamento de Benji (Billy Howle), um dos filhos de Greer, com Amelia (Eve Hewson), porém a cerimônia dá uma virada trágica quando um corpo de um dos convidados é encontrado boiando no mar. Embora Kidman esteja bem na pele da mãe controladora, algo nem sempre funciona nas suas expressões faciais. Independente disso, o elenco é um dos principais pontos positivos, porque além dos citados ainda temos Liev Shcreiber no papel de Tag, o marido meio babaca de Greer, e ele está ótimo no papel. Thomas (Jack Reynor) e Will (Sam Nivola) são os outros dois filhos do casal e Abby (Dakota Fanning) é esposa grávida de Thomas. Fanning é o maior destaque com sua personagem venenosa e a atriz parece estar adorando cada segundo no papel. Meghann Fahy é Merritt, uma influencer festeira amiga de Amelia, que será sua dama de honra no casamento. Ela chega com Shooter (Ishaan Khattar), que será o padrinho de Benji e é amigo da família há tempos, assim como Isabel (Isabelle Adjani), que parece saber até demais por conhecer os Winbury há mais tempo. No papel dos investigadores temos Michael Beach, como o policial Dan Carter, e Donna Lynne Champlin como a detetive Nikki Henry. Um baita elenco que consegue aproveitar bem os clichês do texto e se divertir com os diálogos quando não estão se levando a sério, o que não é sempre, infelizmente. A minissérie adota um humor proposital que é um dos seus melhores aspectos para disfarçar as reviravoltas infundadas que surgem ao longo dos seis episódios. O ritmo é muito ágil, mas há um problema que vai além dos clichês e sua previsibilidade. Na intenção de te fazer dar o play em seguida, sempre que o episódio acaba com um grande gancho, no começo do próximo aquilo já se transforma em uma tremenda bobagem sem qualquer relevância. E esta é a construção do mistério que sempre aguarda algum momento conveniente para trazer alguma nova reviravolta, revelando coisas que sequer importam para o mistério em si. A resolução para o “quem matou” da vez não é lá tão interessante, e surpreende mais do que faz sentido, mas eu adoro como o episódio final é engraçado. Susanne Bier, a diretora, e Jenna Lamia, a showrunner que adaptou o livro homônimo de Elin Hilderbrand, conseguem dar esse tom humorado que contorna as coisas sem pé nem cabeça e os atores acompanham muito bem, mesmo que os diálogos, às vezes, sejam bem expositivos e queiram responder perguntas que ninguém estava fazendo. É difícil falar sem spoilers e não poder adentrar em alguns outros aspectos, mas o entretenimento é garantido apesar dos vários pesares. Nota: 3/5

  • Crítica | Vidas Bandidas (Minissérie)

    Quando nem o crime e nem a produção compensam Foto: Divulgação/ Star-Disney+ De uns dois anos para cá tomei a iniciativa pessoal de assistir, ou pelo menos tentar, todas as séries nacionais lançadas pelos streamings. Algumas não consegui levar para frente após achar o piloto muito desempolgante, mas cerca de 90% das que me propus, eu vi até o fim pelo menos da temporada inicial, por mais que eu tenha achado fraca por alguma razão. Outra coisa que me propus a fazer por volta de 2020, foi não ler mais sinopse ou ver trailers antes de assistir algum produto novo, na maioria das vezes é algo recompensador, pois, torna a experiência incrível, mas, o risco de se viver perigosamente, é que nem sempre dá sorte, e acabo topando em algo como Vidas Bandidas. A minissérie estreou em 21 de agosto no Disney+ como um Star Original, com direção geral de Gustavo Bonafé e roteiro assinado pelo mesmo em parceria com Rubens Marinelli, Walter Daguerre e Gabrielle Siqueira, baseada na ideia original veio de Mariano Cohn e Gastón Duprat, dois cineastas argentinos que foram diretores de criação de Desejos S.A., outra série Star lançada em 2024. No elenco temos nomes muito conhecidos, como Juliana Paes, Tomás Aquino, Tatsu Carvalho, Rodrigo Simas, Otávio Müller e Maria Bopp, conta também com Larissa Nunes, Larissa Bocchino, Larissa Bracher e Murilo Sampaio. Para não partir para as agressões sem antes dar o contexto; a história gira em torno de três personagens: Raimundo, Serginho e Bruna, todos envolvidos em bandidagem, como o título já declara. Raimundo (Tomás Aquino) e Serginho (Rodrigo Simas) são uma dupla de ladrões que tentam a sorte grande numa festa em alto-mar gerida por Bruna (Juliana Paes), que é uma chefona criminosa. Tudo dá errado e a partir daí se inicia uma corrida de ódio e vingança entre essas três figuras. Enquanto escrevia pensei em iniciar com “o grande problema é...”, só que ela não tem um grande problema apenas, ela inteira é O grande problema. Contando com apenas 4 episódios, essa foi a produção mais corrida e apressada que já assisti, e não apenas pela pouca quantidade de capítulos, mas pela falta de desenvolvimento em sua trama. Cada episódio parece um grande resumo de si próprio, como se fosse um trailer gigante preparando o telespectador para o que está por vir, só que aquilo já é o porvir. O seu início atropela diversas informações importantes com tanta pressa que, quando se nota, o piloto já acabou. Foto: Divulgação/ Star-Disney+ Não costumo e nem gosto de desvalidar a existência das produções como chegam até o público, no entanto, essa em específico dá uma sensação muito presente de que aquela história foi gerada como um filme, e por alguma razão foi picotada e transformada em minissérie. Caso ela tenha sido planejada desde o início já como algo episódico aí o problema fica ainda maior. Ela tem uma premissa interessante, e a personagem Bruna tinha um potencial muito bacana para se usar com calma e dar uma desenvoltura bem orquestrada. Contudo, o que acontece é que não há tempo para o telespectador se conectar com nenhuma daquelas pessoas que são apresentadas, não há um bom desenvolvimento para nenhum dos personagens, é só um grande jogo de informações que são lançadas uma após a outra. Não dá tempo de absorver a história, não há uma trama bem detalhada que traga empolgação, e por mais que as atuações não sejam ruins em boa parte do tempo, elas jamais conseguiriam salvar algo que aparentemente já foi concebido para ser um fracasso. Além do pouco tempo para contar o drama daqueles três, ainda há o problema da montagem, que encaixa cenas que ficam completamente deslocadas do restante da história, tentativas de gracinhas e levezas que não cabem ali naquele tempo. Alguns momentos em que há uma intenção de trazer emoção à tela, mas que sucumbe violentamente ante à terrível decisão de não elaborar melhor o seu roteiro raso e sua direção que deixa a desejar. A trilha sonora passa despercebida e a direção de fotografia parece ter sido feita só pela necessidade de haver uma. No fim de tudo, a sensação que toma conta é a de que você estava diante de um prato repleto de comida, mas quando se aproximou, era, na verdade, aqueles enfeites de cera das casas dos nossos avós. É uma minissérie vazia e sem qualquer profundidade, sem preocupação em entregar qualidade ou de levar seu público a sério. O ponto alto é somente o seu elenco que tenta, mas não consegue salvar o que não tem salvação. É uma pena. Nota: 1,5/5

  • Crítica | Longlegs: Vínculo Mortal

    Terror em pele de suspense policial assusta bem mesmo tendo suas previsibilidades Foto: Divulgação A agente do FBI Lee Harker (Maika Monroe) é convocada para reabrir um caso arquivado de um serial killer. Conforme desvenda pistas, Harker se vê confrontada com uma conexão pessoal e sobrenatural inesperada com o assassino, lançando-a em uma corrida contra o tempo. As dores e as delícias de se assistir a um filme sem saber nada sobre ele. Como uma pessoa frequentemente online e inserido numa bolha cinéfila eu já tinha lido várias vezes o nome Longlegs, mas o que eu sabia ao adentrar a sala escura não ia mais muito além do título e de que o sempre inusitado Nicolas Cage estava no elenco. Pois bem, foram muitas surpresas, algumas boas e outras nem tanto. Vou começar logo com o que o filme tem de melhor: Cage! Para além da maquiagem pesada que o torna irreconhecível, o ator apresenta uma atuação apavorante que não se assemelha a nada que tenha feito até hoje (e olhe que se tem alguém que não tem o menor problema em arriscar é ele). Assustador e bem-humorado, as vezes as duas coisas juntas, o personagem desenvolvido pelo premiado ator é sem dúvidas um daqueles que vai ficar no imaginário popular, especialmente nos fãs de terror, por bastante tempo. Foto: Divulgação Mesmo tendo uma cena de abertura que aponta para o terror, o filme vai crescendo nos moldes dos suspenses policiais modernos à la Zodíaco (2007). Assassino em série, anos 70, pistas em papel e fotografias, delegacias, bares... todos os elementos que estruturam narrativas investigativas clássicas dão forma ao filme do início ao fim. É na verdade o estilo predominante, porque por mais que o roteiro vá pender para o sobrenatural de uma forma objetiva e não metafórica, é no thriller noir onde ele está enraizado. Mas mesmo que o tom do filme esteja precisamente entre o suspense e o terror ocultista, e consiga se equilibrar entre os dois de forma bastante estável, as reviravoltas e os elementos críticos de virada são até bem previsíveis. E isso se dá, paradoxalmente, também por conta de ser uma narrativa limpa e sem excessos, a tentativa de criar subtextos de idas e vindas com os poucos personagens que a trama apresenta limita as possibilidades de maiores surpresas. Para consolidar uma abordagem que foge do esperado, o diretor e roteirista Oz Perkins escolhe fugir de estratégias óbvias do gênero terror mais comercial e opta por planos mais longos, tensão contínua em vez de momentos chave e sustos “gratuitos”, mas acaba por cair em outras que mesmo que não intencionalmente coloca o longa em outras caixinhas do gênero, como uma explicação em flashback deixando bem claro todas as motivações do texto. De qualquer forma, Longlegs é um filme que faz de tudo para se valorizar e consegue se fazer relevante por acreditar tanto na história que está contando. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Conclave

    Berger consegue cativar mais uma vez com o seu complexo drama político Foto: Divulgação Em um ano em que o mundo vai parar para assistir à contagem dos votos das eleições americanas, Edward Berger (Nada de Novo no Front) traz seu novo longa-metragem, que explora outro processo de eleição, com o qual estamos familiarizados, mas do qual nunca fizemos parte. Conclave é o nome dado ao processo de eleição de um novo papa, no qual cardeais de todo o mundo são chamados a um retiro, de onde só podem sair após a maioria concordar com o novo Pontífice. O filme de Berger adapta o livro homônimo, apresentando um conclave fictício que aconteceria nos dias de hoje. Somos confinados junto aos cardeais e freiras, e durante as duas horas de duração, acompanhamos o processo político dessa eleição, onde tudo é válido para garantir que seus valores permaneçam no poder. O filme é estrelado por Ralph Fiennes e conta também com grandes nomes da indústria audiovisual, como Stanley Tucci, Isabella Rossellini e John Lithgow. Embora todos no elenco tenham seus momentos de destaque - com cenas que parecem até conter uma mensagem na tela que lembra ao espectador que este é o momento em que os atores querem ser lembrados para suas "Oscar Tapes" -, a verdadeira estrela é Fiennes. O ator britânico consegue carregar o filme nas costas, pois quase todo o filme é contado de sua perspectiva, além de trazer um lado investigativo que poderia não funcionar, mas que Fiennes incorpora de forma eficaz ao drama da eleição. Ainda me lembro da sensação ao assistir Nada de Novo no Front e ser impactado pelos sons e trilha que elevam a história. Estava preocupado que aqui Berger não tivesse uma premissa que lhe permitisse explorar esse grande aspecto de seus filmes. Para minha surpresa, mais uma vez ele trabalha a trilha de Volker Bertelmann perfeitamente, aumentando a tensão de todas as cenas, além de usar o som de maneira sutil, mas ainda assim impactante. Foto: Divulgação Outro ponto alto do filme é sua fotografia. Somos levados a lugares desconhecidos do Vaticano, com elementos de arquitetura clássica e moderna, afetando a forma como são mostradas. No entanto, as imagens que realmente ficam gravadas na mente do espectador mostram o contraste entre esses dois elementos. As sombras e elementos clássicos da religião católica criam imagens dinâmicas, e, mesmo estando confinados nos mesmos locais durante o longa, sempre há alguma surpresa ou nova perspectiva nos ambientes mostrados. A premissa do filme abre as portas de uma das reuniões mais secretas do mundo para o público do cinema, e em nenhum momento isso é tratado de forma glamourosa, ao ponto de transformar o longa em uma glorificação da igreja. O roteiro de Peter Straughan encontra um equilíbrio perfeito, onde, ao mesmo tempo em que nos sentimos incluídos na discussão, ele consegue mostrar como esse grupo de homens vive em uma realidade diferente do restante dos membros da igreja, criando grandes momentos cômicos. Infelizmente, há momentos no filme que parecem apressados, enquanto outros são prolongados sem necessidade. Sem sombra de dúvida, Conclave usa o título de "Oscar Bait" com orgulho, trazendo o melhor que o gênero tem a oferecer. O filme consegue ser lançado no momento perfeito para que as discussões se intensifiquem ainda mais, devido às eleições americanas e aos temas polêmicos que são abordados. Ainda vamos ouvir muito de grupos religiosos condenando o filme, mas isso é o que um grande filme faz. Trazendo elementos da realidade, o longa invoca a curiosidade do espectador sobre o Conclave e entretém com sua narrativa envolvente, mostrando como fazer um filme de forma exemplar. Nota: 4/5

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