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  • Crítica | Armadilha

    M. Night Shyamalan ri dos seus próprios absurdos... mas só até certo ponto Foto: Divulgação Ame-o ou odeie-o, M. Night Shyamalan é plenamente consciente do tipo de cinema que faz, o que, por si só, já é um tipo de mérito, visto o quanto é rara tamanha autoralidade (por mais divisiva que seja) num cenário escasso de ideias originais como a Hollywood mainstream contemporânea. Da minha parte, não vi tantos filmes dele para me posicionar como um defensor ou detrator seu, mas considerando o que já assisti da sua filmografia, pode se dizer que Armadilha sintetiza bem as virtudes e defeitos do seu cinema. Aqui, temos Cooper (Josh Hartnett), um pai atencioso e amoroso que leva sua filha Riley (Ariel Donoghue) ao show da sua artista favorita, Lady Raven (Saleka Night Shyamalan, também conhecida como filha do diretor). Porém, a excessiva força policial na arena onde o show está sendo realizado logo desperta a atenção de Cooper, que descobre que o concerto é uma armadilha (ba dum tss) para capturar o serial killer conhecido como Açougueiro. O problema? Cooper é o Açougueiro. Antes que você me xingue pelo spoiler, essa revelação não só é feita com menos de 10 minutos de filme, como foi ostentada em todo o material promocional do filme. Sei que em se tratando de Shyamalan, plot twists são quase sinônimos dos seus filmes, mas não é o caso aqui, pois importa muito mais saber como Cooper vai conseguir escapar do que o fato dele ser um serial killer. E nisso o longa se sai muito bem, construindo uma atmosfera primorosa de dúvida e tensão conforme acompanhamos o ponto de vista do protagonista e seus esforços mentais para não ser pego ao mesmo tempo em que tenta ocultar a verdade de sua preciosa filha. A decisão de manter o longa quase sempre do ponto de vista de Cooper (ao menos na primeira hora — mais sobre isso à frente) é um toque de mestre de Shyamalan, que brinca com as expectativas dos espectadores quanto a saídas, objetos, obstáculos e tudo mais que pode ajudar ou atrapalhar o personagem a escapar. Diga o que quiser do homem, mas ele é um diretor como poucos: o nível de subjetividade alcançado través da câmera e da encenação nos torna quase cúmplices de Cooper — e certamente muitos moralistas vão chiar, achando que o filme “passa pano” para as ações do personagem. Mas ao adotar um tom deliberadamente cômico, a direção de Shyamalan converte a tragédia e o suspense em farsa e espetáculo, abraçando o absurdo e a autoconsciência com um esmero que, imagino eu, vai ser duramente criticado por muitos, mas é onde reside a força do filme. Foto: Divulgação É justamente por isso que quando Armadilha se afasta da perspectiva de Cooper (e, não coincidentemente, do tom farsesco e cômico), ele enfraquece nitidamente. O roteiro de Shyamalan resvala nas muitas conveniências; não que elas não existissem antes, mas eram amparadas justamente pelo absurdo autoconsciente — como quando o próprio diretor aparece em cena em uma das suas costumeiras participações especiais, dando um novo sentido à expressão deus ex machina. Ao longo da sua segunda metade, porém, vê-se uma obra que tenta cada vez mais se levar a sério, sofrendo pelas já referidas conveniências e também de uma condução anticlimática, onde temos entre três a quatro finais possíveis, como se o filme não soubesse quando parar. Não ajuda que as tendências nepotistas de Shyamalan o façam colocar Saleka como uma co-protagonista nessa segunda metade do filme. Nada contra nepobabies (o cinema sempre esteve repleto deles(as), afinal de contas), mas como atriz Saleka é uma ótima cantora, e sua atuação já fraca empalidece ainda mais quando contracena com Hartnett. Ela é muito melhor aproveitada quando filmada à distância no concerto, e inclusive adoraria que as músicas tocadas no show (as quais foram compostas para o filme, inclusive) fossem disponibilizadas. Além do mais, a cena dela apelando para uma live no Instagram com seus seguidores é um dos raros momentos inspirados dessa segunda metade, junto com as duas cenas finais que resgatam um pouco do absurdo da primeira hora. Felizmente, o próprio Hartnett se mantém constante ao longo do filme, sendo seu maior trunfo. Se na década passada tivemos a “McConaissance” de Matthew McConaughey, nada mais justo termos agora a “Hartnettsance”, já que o ator, que passou alguns anos longe dos holofotes em papéis menores, parece agora superar sua persona de galã da década de 2000 para assumir papéis mais desafiadores, dos quais Armadilha pode vir a ser o mais emblemático. O cinema está recheado de psicopatas carismáticos, como Norman Bates e Patrick Bateman, e Cooper vem para se juntar a esse panteão. Ainda que beba diretamente desses dois, Hartnett dá sua própria essência ao personagem, transitando com uma facilidade assustadora entre a personalidade “pai de menina” e “serial killer aterrorizante”. A maneira como uma breve inflexão, um leve contrair de músculos, um simples olhar, uma reação demorada e tantos outros detalhes o fazem alternar entre esse lado mais carismático e humanizado e aquele mais psicopata é um demonstrativo da excelência do ator, que nunca nos deixa esquecer o perigo que seu personagem representa mesmo em meio ao tom farsesco da obra. Apesar dos percalços, Armadilha certamente entrega seus méritos, mostrando que Shyamalan sempre tem muito a oferecer mesmo que não acerte 100%. Dificilmente vai trazer novos convertidos ao seu tipo de cinema, mas reflete muito pelo qual ele é amado (e também odiado), ancorando-se na performance magnética de Hartnett e no uso do humor para contrastar com o suspense, resultando num dos longas mais acessíveis de sua carreira — e certamente o mais divertido. Nota: 3/5

  • Crítica | É Assim Que Acaba

    Adaptação de fenômeno literário é bem dirigida e manipula bem a expectativa do seu telespectador Foto: Divulgação A primeira vez que li É Assim que Acaba foi em 2016, alguns meses antes do livro ser lançado em português. Na época, Colleen Hoover já era uma autora famosa no universo dos livros romances new adults (gênero literário que retrata o jovem que inicia a vida adulta e passa por alguma adversidade mais complexa), porém ainda muito longe do sucesso que a autora conquistou nos dias de hoje. Foi na pandemia que os livros de Colleen chegaram ao ápice da fama, graças aos fãs da literatura no app Tik Tok. Por lá, a autora é uma das mais comentadas (seja por bem ou por mal) e conquistou uma legião de fãs, tornando É Assim que Acaba um dos livros mais populares do mundo na atualidade. E é claro que um dos livros mais comentados dos últimos anos não passaria imune do fenômeno das adaptações literárias para o cinema. Na última quinta-feira, 8, a versão cinematográfica de É Assim que Acaba chegou às telas com roteiro de Christy Hall (do ainda não lançado no Brasil Daddio) e dirigida pelo também ator Justin Baldoni. No elenco, além do próprio Baldoni, estrelam a produção Blake Lively, Brandon Sklenar e Jenny Slate. Como disse no início desse texto, sou uma leitora voraz de romances new adults desde bem mais jovem e acompanho os lançamentos e as novidades do gênero desde que me interesso pela temática. São livros de romance com temas mais complexos e cenas mais fortes do que eu encontrava em livros voltados para o público mais adolescente, por exemplo. Minha busca por esse tipo de literatura era sempre em momentos que eu queria desestressar, lendo histórias de outras pessoas e esquecendo um pouco da minha, sem esperar nenhuma obra-prima ou uma trama que me fizesse pensar muito e, sem dúvidas, os livros de Colleen me proporcionaram isso. Acho É Assim que Acaba realmente um dos seus livros mais completos. Ele cumpre o seu papel trazendo todos clichês do gênero e trata de uma situação complexa ao falar de violência doméstica de uma forma nada sutil e extremamente didática para um público que provavelmente não está tão acostumado com isso, especialmente lá em 2016. Na história, Lily Bloom (Blake Lively) é uma mulher que, após vivenciar eventos traumáticos na infância, decide começar uma vida nova em Boston e tentar abrir o próprio negócio. Como consequência dessa mudança de vida, Lily acredita que encontrou o amor verdadeiro em Ryle (Justin Baldoni), um charmoso neurocirurgião. Porém, à medida que o relacionamento se torna cada vez mais sério, também surgem lembranças de como era o relacionamento de seus pais. Até que, repentinamente, Atlas Corrigan (Brandon Sklenar), seu primeiro amor, retorna para a vida de Lily. As coisas se complicam ainda mais, quando um incidente doloroso desencadeia um trauma do passado, ameaçando tudo o que Lily construiu com Ryle. Foto: Divulgação O roteiro consegue se manter fiel à obra original, mas, adiciona novas camadas à história, tentando atingir um público ainda mais amplo. Com boas soluções para mesclar o que os fãs queriam ver e o que funcionava de fato nas telas, o filme mistura bem os flashbacks necessários para a trama sem torná-lo cansativo para quem o assiste. Indo dessa história de romance mamão com açúcar para um drama sobre violência, o longa também se fortalece com a boa direção de Baldoni, muito perspicaz também na montagem da trama que, caso não fosse bem feita, poderia parecer muito mais um dos péssimos filmes da Lifetime. O apelo do livro (e também da escrita da Colleen) é a manipulação das expectativas dos seus leitores e a direção de Baldoni é muito pontual ao tratar essas agressões de forma mais micro e dúbia, algo que acontece também com o telespectador que se pergunta durante o filme se “houve de fato uma agressão ali ou ela apenas tropeçou?” até a protagonista e o telespectador terem, juntos, o seu momento de clareza. É uma decisão interessante e bem construída pela direção do filme, que consegue manter a trama andando durante o seu tempo de projeção. Em contraponto, É Assim que Acaba é didático até demais e parte para uma narrativa que não me agrada tanto ao apontar o famoso “se a sua filha te contasse que fosse agredida, como você se sentiria?” para o agressor. Mas aqui cabe entender também que para o público geral, esse tipo de narrativa funciona e causa o impacto necessário para que discussões sobre violência doméstica sejam feitas, e, em um universo tão agressivo com as mulheres, ter um filme com essa temática (tratada de forma honesta) sendo consumido é algo extremamente válido, especialmente quando ele chega para mulheres fora de uma bolha liberal. Outro ponto que poderia tornar É Assim que Acaba um desastre são as atuações, mas aqui elas funcionam muito bem. Blake não entrega uma atuação espetacular, mas é competente nos momentos mais fortes da trama, assim como Brandon Sklenar como Atlas. Baldoni, pra mim, é o mais forte do trio, ancorado em um personagem complexo que vai do amor ao ódio do telespectador em poucos segundos. Outro bom destaque é Jenny Slate como Alyssa, um bom alívio cômico à trama dramática e aos intérpretes de Lily e Atlas mais jovens, com um destaque especial para a muito boa Isabela Ferrer, que incorpora os trejeitos de Blake Lively e passa uma emoção genuína em momentos-chave dos flashbacks. Com uma trilha sonora escolhida para agradar o público jovem adulto, acho que o saldo de É Assim que Acaba é mais positivo do que negativo, embora venha sendo bastante criticado por uma parcela do público. Como eu disse anteriormente, é importante que histórias que abordam a violência doméstica cheguem para um público que não costuma consumir esse tipo de trama. Obviamente não é o melhor retrato cinematográfico sobre violência contra mulheres, mas também não é o pior filme já feito sobre o tema. Ainda é uma experiência válida, em especial para quem gosta de histórias de romance mais complexas. Nota: 3/5

  • Crítica | Greice

    Dramédia conquista pelo texto esperto, direção leve e elenco afiado Foto: Divulgação Greice (Amandyra) é uma jovem cearense que estuda na Universidade de Belas Artes de Lisboa. Ela se vira como pode para se sustentar na Europa, e em meio às suas malícias ela acaba se envolvendo com o português Afonso (Mauro Soares). Depois de uma festa de boas-vindas para os novos estudantes, o casal é acusado de um estranho acidente que ocorreu no evento. Greice precisa retornar a Fortaleza, sua cidade natal, para renovar a autorização de residência. Escondida em um hotel, enquanto evita que a mãe descubra os problemas em que se envolveu, Greice tenta encontrar um lugar de conforto no mundo. Em entrevista recente com o cineasta Guto Parente ele me falou sobre o nascimento de um “novo” humor cearense no cinema contemporâneo. E colocando em minhas palavras, um humor com uma estrutura menos física e com uma motivação mais elaborada. Mais sutil, menos caricato, mas não menos funcional. Uma comédia mais instintiva e menos maneirista. E embora esse humor – que por vezes chega a tocar o absurdo, mas que nunca tira os pés do chão – apareça como alívio cômico em produções com cargas dramáticas mais densas, em Greice ele é o alicerce do roteiro. Greice apresenta um recorte bastante específico de realidade, mas que no plano geral é alguém próximo do cotidiano de todo brasileiro. Para além de trambiqueira, ou do “jeitinho brasileiro”, Greice é o retrato geracional de pessoas que lidam com seus anseios da forma mais rápida, possível e viável, pessoas inconsequentes, mas que se colocam como prioridade após perceber que ninguém fará isso por elas. Foto: Divulgação O roteiro sagaz de Leonardo Mouramateus, que também dirige o longa, abre margens para que o desenvolvimento da personagem-título do filme seja ao mesmo tempo honesto e surpreendente desde o primeiro instante que Amandyra aparece em cena. No entanto essas margens abertas também permitem fechamentos e soluções precipitados que não convencem tanto quanto poderiam. Todo o percurso que a narrativa principal faz até a conclusão passa por diferentes questões que usa de maneira inteligente a narração e flashbacks para montar o quebra-cabeça principal, da trama e da personalidade de Greice. Leonardo apresenta uma direção fluida e cheia de artifícios que funcionam organicamente numa montagem precisa e bem amarrada. Amandyra constrói uma personagem complexa, autêntica e que encorpa bem todas as matizes desenhadas no texto. O elenco coadjuvante consegue marcar as situações distintas que circulam Greice com seus traços bem definidos, destaque para o ator e músico Dipas que consegue dividir a atenção do espectador com a protagonista exibindo graciosidade sempre que está em cena. Nota: 4/5

  • Entrevista | Diretora de "Filhos do Mangue" fala sobre como o Mangue é um cenário vivo e o ponto chave da trama

    A diretora Eliane Caffé conversou com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Foto: Divulgação O longa-metragem “Filhos do Mangue”, dirigido pela cineasta paulista Eliane Caffé (“Narradores de Javé”) fará parte da programação da 52ª edição do Festival de Gramado, um dos principais eventos de cinema do Brasil. Se destacando como única produção nordestina, filmado em Barra de Cunhaú no município de Canguaretama. A trama de Filhos do Mangue foca no pescador Pedro Chão, interpretado pelo ator Felipe Camargo. Pedro, um homem com um caráter questionável, surge ferido e sem memória em uma comunidade ribeirinha e é acusado de roubo. Durante um julgamento comunitário, revelam-se situações envolvendo violência doméstica, violência de gênero, tráfico de pessoas e desvio de recursos públicos. Em entrevista exclusiva ao Oxente, Pipoca? A diretora Eliane Caffé nos contou sobre o processo de criação do personagem principal interpretado pelo ator Felipe Camargo: “Ele foi uma versão que o escritor Sérgio Prado havia criado para seu livro, Capitão. Na versão atual que está no filme, a construção do personagem aconteceu junto com o trabalho de entrega potente do Felipe Camargo, sempre em fricção com os personagens reais da comunidade de Cunhaú”, relatou ela. O filme possui um grande elenco, e inclusive contou com a participação da população local da comunidade de Barra do Cunhaú em algumas cenas. Há uma cena em que Pedro Chão é amarrado em uma cadeira e inicia-se uma grande discussão entre os moradores. Para Eliane Caffé, é importante que essas discussões sejam filmadas de forma que o elenco embarque na situação: “As assembleias e reuniões coletivas na vida real são sempre momentos incendiários do convívio coletivo. A catarse energética de muitas mentes em choque e fusão. Na encenação, essa vontade coletiva de ganhar expressão contagia a todos que estão em cena. Uns apoiam os outros e a cena flui. Nós, a equipe, é que temos que correr atrás.”, diz ela. Foto: Divulgação Perguntamos também sobre o tom de denúncia à violência doméstica que está presente no filme, e de que forma reflete a realidade da comunidade retratada no filme: “Creio que reflete a realidade do país inteiro e em outro grau, do mundo todo. A violência contra a mulher está presente quase em todas as nações e culturas. É um paradigma crônico e temos muito a fazer pra mudar isso. A meu ver é uma questão que se alimenta do modelo econômico mais do que dos costumes. Muito difícil.”, explica Eliane. Para Eliane Caffé, o mangue é um personagem vivo da trama que vai muito além de uma escolha de cenário: “O Mangue é um multiuniverso que evoca metáforas infinitas com o arco dramático da vida humana. Não há como ele ser apenas cenário de fundo. Ele é a própria carne dos personagens em outra dimensão mais profunda. Ele começa em nosso silêncio. Como a natureza do que somos sem saber como.”, completa. Por fim, a diretora paulista também comentou sobre a importância de Filhos do Mangue ter sido filmado em Barra do Cunhaú (RN) que tem a produção da produtora nordestina Pé na Estrada Filmes: “A cultura nordestina é tão rica, múltipla, generosa que me pergunto o quanto nós, que operamos no cinema dos centros econômicos, precisamos da regionalidade nordestina pra revitalizar a linguagem do cinema como um todo.”, conclui a diretora Eliane Caffé.

  • Crítica | Filhos do Mangue (Festival de Gramado 2024)

    Um filme muito aquém das possibilidades do cinema de Eliane Caffé Foto: Divulgação Em seu livro Nordestino: a invenção do falo, o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. trata a respeito da construção do ideário do homem “cabra macho” nordestino, uma figura viril, reacionária e violenta criada em resposta à crise da masculinidade que assolou o Nordeste a partir dos anos 1920. Via-se a sobrevalorização do patriarcado, de modo que houvesse uma afirmação do sexo masculino para que este ocupasse uma posição crucial dentro da organização política. Enquanto a mulher era relegada aos afazeres domésticos e ao cuidado com as crianças, o homem carregava consigo uma enorme reserva de agressividade e energia para descarregar, o que seria feito no espaço público. Nos primeiros minutos de Filhos do Mangue, após ser encontrado desmemoriado na praia da comunidade onde vive, o protagonista Pedro Chão (Felipe Camargo) é levado para uma espécie de galpão e amarrado a uma cadeira, para então ser submetido por um julgamento público pelos demais moradores, que o acusam de ter roubado um dinheiro que lhes pertencia, além de forçá-lo a relembrar de diversas de suas ações criminosas e violentas. Esse homem confuso e perdido do presente é contrastado ao bruto do passado, que não se acanhava em explorar os corpos alheios para turistas na região, roubar dos outros moradores e até mesmo bater em sua mulher. Mesmo depois de livre, ele se vê confrontado pelos demônios do passado, ainda que não se lembre deles. No papel, é uma ótima oportunidade da diretora Eliane Caffé explorar as noções de masculinidade e violência de gênero, enquanto há acenos para o turismo exploratório e a ameaça às tradições de lugares como as comunidades ribeirinhas. A diretora, notória pelo seu cinema docuficcional e atenção a personagens e grupos marginalizados — como visto em Narradores de Javé (2003) e Era o Hotel Cambridge (2016), este um dos meus filmes nacionais favoritos — tem um rico material em mãos para abordar através da sua já consolidada estética. Foto: Divulgação É uma pena, portanto, que Filhos do Mangue nunca atinja esse potencial. Embora os elementos docuficcionais estejam lá, eles passam longe de ter o mesmo impacto dos longas anteriores da diretora. Veja o bloco das personagens femininas que se unem para protegerem umas às outras da violência perpetrada pelos homens da comunidade, como o próprio Pedro: ainda que seja louvável discutir tal tema, este parece deslocado dentre as várias sugestões narrativas que o filme dá a entender que irá tratar. Não ajuda que, diferente de Era o Hotel Cambridge, por exemplo, aqui há uma proposta mais nítida de se apresentar um fio narrativo através da figura de Pedro e o drama que o cerca, de modo que todo o resto da obra — sejam subtramas ou personagens —é tratado em segundo plano. Infelizmente, se o personagem nos é mostrado inicialmente como um papel em branco dada a sua perda de memória, o filme pouco se esforça para escrevê-lo, mesmo com a possibilidade de confrontá-lo sobre a violência que carregava consigo e ocasionalmente ainda aflora. Felipe Camargo até se esforça (exceto no sotaque nordestino, que é fraco e risível até para ser genérico), mas o ator e o personagem parecem à deriva no longa de uma maneira que não me parece ter sido intencional. Ainda assim, há elementos em Filhos do Mangue que nos lembram do quanto o cinema de Eliane Caffé é tão impactante. A intimidade com a qual a câmera mergulha pelos manguezais e praias, lança luz em determinados momentos para as vidas dos personagens e consegue extrair sua força de determinados blocos e atuações (como os atores mirins ou o personagem de Thiago Justino em seu monólogo) são instantes que nos mostram as possibilidades que o longa poderia ter abraçado em sua plenitude. A própria sequência inicial do julgamento público nos prepara para um filme muito diferente do que ele acaba por ser, nos desnorteando junto ao protagonista e apresentando uma tensão sufocante que, no entanto, nunca mais retorna. Infelizmente, porém, no saldo geral Filhos do Mangue é uma oferta muito inferior ao que o cinema de Eliane Caffé já entregou até aqui. Possui boas ideias e relances do melhor que a diretora costuma entregar em seus filmes, mas nunca abraça por completo sua premissa principal e tampouco desenvolve satisfatoriamente as secundárias, ficando assim preso em um lugar tépido e sem vida, que não poderia estar mais distante da exuberância dos manguezais e litorais nordestinos e suas populações. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Tipos de Gentileza

    Yorgos projeta estudo sobre crenças humanas, mas não vai muito além do rascunho Foto: Divulgação O filme que disputou a Palma de Ouro apresenta três histórias entrelaçadas que exploram os caminhos imprevisíveis da vida e os desafios pessoais de seus protagonistas. Em uma narrativa, um homem busca recuperar o controle de sua vida após se perder em um caminho incerto. Em outra, um policial tenta reconstruir seu relacionamento com a esposa, que retorna misteriosamente após um período desaparecida, transformada de maneiras que desafiam sua compreensão. Por fim, uma mulher determinada a se tornar líder espiritual se lança em busca de uma pessoa dotada de habilidades únicas, numa jornada que testará sua própria fé e convicções. Depois de passar por trabalhos mais pré-moldados o cineasta grego Yorgos Lanthimos volta a acenar para seus traços originais e, digamos, menos convencionais, retomando a parceria com o roteirista Efthymis Filippou. Mas até quem conheceu o trabalho de Yorgos no auge de sua autêntica esquisitice vai perceber que agora ele busca um diálogo maior com o comercial. A estrutura narrativa de antologia e a temática de mistério fantástico (?) fazem lembrança imediata a pioneira Além da Imaginação (The Twilight Zone). A série que até hoje influencia ideias e roteiros mundo à fora usava das mais variadas alegorias visuais e estilísticas para abordar os limites da natureza humana. E apesar de querer esbanjar um alto valor de entrelinhas e excentricidade, o texto e o título querem basicamente brincar com as perspectivas do poder da crença e das paixões humanas. Foto: Divulgação A primeira história indubitavelmente funciona melhor do que as duas seguintes pelo efeito surpresa que gradativamente vai perdendo a força nos capítulos 2 e 3. É uma ideia que funciona até literalmente se tornar irritante e entediante. A direção do cineasta segue taciturna e passadas duas horas a cadência das ações já não consegue atingir uma fluidez que se sustente mesmo sendo três enredos diferentes, mesmo tendo alívios cômicos com bastante ironia e sarcasmo e mesmo com os absurdos que o argumento usa para garantir que o espectador ainda esteja acordado. Um dos aspectos que mais me admira no cineasta grego Yorgos Lanthimos é sua confiança com o elenco. Ainda que nos mais tolos de seus filmes ele sempre coloca as atrizes e os atores em situações pouco ou jamais exploradas em seus currículos. Apesar de todo o elenco está visivelmente comprometido em transmitir o máximo de credibilidade nos inimagináveis contextos criados no filme, Jesse Plemons é a grande estrela e consegue puxar para si os melhores momentos. Ao final fica parecendo que o filme atira para tudo que é lado no desespero por passar mensagens ou lições de moral, mas a verdade é que ele acerta poucos alvos e não atinge tão distante quanto mirou. Nota: 3/5

  • Entrevista | Ninguém Sai Vivo Daqui

    André Ristum e Fernanda Marques conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Foto: Divulgação Lançado nesta quinta-feira, 11, em diversos cinemas de todo o país, o filme Ninguém Sai Vivo Daqui traz para as telas uma história ficcional baseada nos fatos reais que aconteceram no Hospital Colônia em Barbacena. No longa, que se passa na década de 70, conhecemos Elisa (Fernanda Marques), uma jovem enviada para o Colônia após seu pai descobrir uma gravidez antes do casamento. Ninguém Sai Vivo Daqui é uma versão condensada e com algumas cenas inéditas da série Colônia, exibida pela TV Brasil em 2021. Em entrevista exclusiva ao Oxente, Pipoca? , o diretor André Ristum e a protagonista Fernanda Marques conversaram sobre as peculiaridades de adaptar uma obra baseada em fatos reais, inspirada levemente no livro “Holocausto Brasileiro” da Daniela Arbex. “Eu sempre fui um diretor muito focado em trabalhos ficcionais, e, quando eu tive contato com essa história, já havia um documentário importantíssimo, o “Em Nome da Razão” feito pelo Helvécio Ratton e um documentário produzido pela própria Daniela, o caminho ficcional não havia sido explorado ainda. E quando você lê o livro você já sente ali, pelo jeito dela escrever, essa narrativa mais cinematográfica. São tantas histórias, tanta potência ali que eu inicialmente já pensei na produção tanto da série, quanto do filme”, explica André. A ideia da adaptação ficcional nasceu através dos personagens contados por Daniele em seu livro, mas também se baseiam em pesquisas e relatos encontrados pelo diretor e a ideia era retratá-los tanto para o público da série, quanto para o público do cinema de forma similar. De acordo com André, a produção foi gravada com especificidades narrativas para ser adaptada para os cinemas, com gravações de momentos específicos e um roteiro também exclusivo para a sua versão em filme. Foto: Divulgação “Tiveram coisas da história da Elisa que nós precisamos suprimir no processo de edição, mas, são histórias bem amplas e mais aprofundadas dos outros personagens, afinal, no filme temos cerca 1h25 minutos de tela e na série, juntando todos os episódios temos mais ou menos umas três horas e meia. Conceitualmente, inclusive, a série e o filme possuem conceitos sonoros diferentes e uma finalização diferente. É super possível acompanhar e assistir as duas obras, lá temos histórias maravilhosas que não entraram no resultado final do filme, todas essas histórias merecem ser conhecidas”, reflete. Ao decorrer da sua história Ninguém Sai Vivo Daqui trata de temáticas bastante violentas e pesadas, refletindo todo um passado de histórico de violência contra pessoas que tinham algum tipo de doença mental. Para Fernanda Marques, o projeto a colocou, primeiramente, em um lugar de empatia com as pessoas e as situações vividas no Hospital Colônia. “Eu não tinha conhecimento sobre essa história, descobri sobre tudo que aconteceu em Barbacena quando fui fazer o teste. Fiquei muito horrorizada e impactada, inclusive chorei com a cena que eu fiz o teste. Já o processo de preparação foi fundamental para imergir na história, tivemos duas semanas, uma particular com o preparador de elenco e uma segunda semana com o elenco inteiro, onde fizemos várias dinâmicas juntos”, relata Fernanda. A atriz completa que o momento do set de gravação foi de suma importância para uma maior imersão na personagem. “Gravamos em um convento antigo, então era uma arquitetura que nos ajudava a acessar vários lugares da nossa mente para o momento das gravações e nós também gravamos no inverno. Essa junção do espaço, do tempo junto da nossa união como elenco, virando uma grande trupe, fez com que tudo ocorresse de forma muito natural e verdadeira”. Foto: Divulgação Com Andreia Horta, Augusto Madeira, Naruna Costa, Samuel de Assis, Rejane Faria e grande elenco, o diretor de Ninguém Sai Vivo Daqui, buscou encontrar atores que se encaixavam com os personagens e que transmitissem emoções genuínas em tela. “A personagem da Rejane, por exemplo, apesar de todo o peso que carrega por tudo que sofreu, traz uma leveza para a história. Ela tem esse contraponto que é super importante para o processo de criação da personagem. Foi lindíssimo como a gente encontrou e de como esse papel, de fato, chegou na mão da Rejane. Ela veio de Belo Horizonte de ônibus, fez o teste presencial conosco e, durante as gravações, ela descobriu que a avó havia sido internada no Colônia. Parecia algo cármico, de tão verdadeiro que foi a sua entrega à personagem”, explica André. Exibido em alguns festivais ao redor do mundo antes da sua estreia oficial no Brasil, André Ristum relata que a recepção do filme foi extremamente positiva por onde ele passou, trazendo luz a uma temática poucas vezes falada no audiovisual. “O público se conecta independente da sua nacionalidade. Mesmo contando uma história que aconteceu no Brasil, trazemos um tema que fala sobre as questões humanas, questões de injustiça, de saúde mental. Vemos a importância de falar sobre isso quando lembramos que no governo anterior a este chegou a ser discutido a reabertura de instituições como eram o Colônia. Então, é a nossa função como realizadores, escritores, jornalistas, produtores de teatro, enfim, falar e contar essas histórias, para criar pontes de conexão com o público e evitar que exista um retrocesso”. Para André Ristum, o cinema nacional é o que representa a conexão dessas histórias esquecidas com o povo. “Um país sem cultura é um país sem alma e nossas histórias são a alma do nosso povo. Sabemos que o mercado é dominado por uma indústria hegemônica no mundo inteiro e que em alguns países ele domina mais e em outros menos, depende muito da época. O Brasil já passou por momentos melhores, onde a cota de tela nos ajudou bastante a conquistar uma fatia importante do mercado, chegamos a ter mais de 20% de ocupação de salas e da venda de ingressos com o cinema nacional, mas, a coisa decaiu muito após o último governo. Mas temos sim uma alta demanda por produto nacional e isso se deve a construir um desejo, um gosto, de ter contato com as nossas histórias. Então, chegar aos cinemas com um filme como esse é muito importante. Nós precisamos valorizar as nossas histórias”, completa. “Precisamos valorizar nossa cultura e valorizar as produções nacionais. Infelizmente, aparecem cada vez menos oportunidades e menos espaço. Por isso, acho importante essa valorização das nossas histórias, especialmente as que trazem histórias como a que mostramos no filme, para que essas atrocidades nunca mais se repitam”, conclui a atriz Fernanda Marques.

  • Crítica | Maxxxine

    Uma viagem aos anos 80 e a consolidação de uma estrela Foto: Divulgação “In this business, until you’re known as a monster, you’re not a star”.* Provavelmente a frase será repetida à exaustão por diversas pessoas que forem escrever sobre o filme, já que, ela sintetiza o teor da história que será vista logo após as palavras de Bette Davis sumirem da tela e a jornada de Maxine Minx iniciar. Uma trilogia que iniciou como um slasher despretensioso com X - A Marca da Morte, e partiu para um terror mais psicológico com Pearl, finalmente ganha seu capítulo final em um clima maior de suspense carregado de referências com Maxxxine. Com Ti West na direção e tomando o comando sozinho do roteiro, o filme dá um bom encerramento para o universo criado, mas, escorrega um pouco para validar o seu próprio fim. Indo por partes, Mia Goth continua sendo o grande destaque. Abandonando toda aquela aura sonhadora e delirante de Pearl, ela agora incorpora a ambição e o poder que Maxine transmite. Sem que precise ainda provar algo, Mia mesmo assim mostra durante todo o filme o porquê de merecer estar no protagonismo, ela tem uma força quase hipnótica, que prende a sua atenção a qualquer coisa que seja feita em tela. Sua interpretação nesta personagem, que é o total oposto da protagonista do filme anterior, só deixa ainda mais evidente todo o seu talento e carisma. Goth segura a trama nas mãos mesmo quando parece que ela está para afundar, e faz de Maxine a monstruosa estrela que ela deveria ser. Há uma gama de nomes bastante conhecidos fazendo participação, Halsey, Lily Collins, Bobby Cannavale e Elizabeth Debicki. Contudo, quem se sobressai é Kevin Bacon e Giancarlo Esposito. Não que todos não sejam lembrados, Debicki com sua Liz autoritária e impaciente se sai muito bem, mas em comparação, Bacon puxa para si o papel de coadjuvante sem fazer quase esforço algum, seu personagem sorrateiro é um dos pontos positivos do filme. Esposito tem um papel menor e ainda assim marcante, como sempre. Quando ele surge, já se espera que seja um personagem sem escrúpulos e venha aquele olhar característico, mas, de início, parece ser alguém comum, e isso que faz com que ele tenha seu brilho próprio, há na sua interpretação uma maestria muito singular que é muito boa de assistir. Foto: Divulgação Minha parte favorita de toda a produção é, sem pestanejar, a direção de arte e a trilha. Ambientado nos anos 80, há uma verdadeira imersão àquela década, quase como uma máquina do tempo que viaja para o passado e transmite através das câmeras tudo que está imortalizado na história. O figurino bem pensado e os cenários, literalmente, hollywoodianos ajudam ainda mais a fazer essa viagem. Além disso, a trilha que também parece congelada naquele espaço de tempo colabora para que haja essa conexão com a história. A direção de Ti West se mantém bem, mas seu roteiro aqui parece se perder um pouco. É uma história que prende a atenção, com certeza, mas há uma sensação de insipidez quando deveria ser o seu clímax. Todo o início e o desenrolar vai bem até pouco mais da metade, parece haver sentido no caminho que segue, todos os pontos vão sendo entregue e levando a crer que haverá um encerramento apoteótico, só que essa apoteose não chega. Apesar de saber se encerrar, há uma falha nas resoluções dos problemas criados e nos mistérios movidos, e não é nem uma questão de expectativa, é realmente uma mornidão que se agiganta sobre o seu ato final. O uso do conservadorismo agravante em relação a Hollywood parece uma boa ideia a ser usada, no entanto, mal aproveitada. Maxxxine pode até não ser o melhor da trilogia, mas está longe de ser um filme ruim. Desapontante, talvez, mas com méritos. Nos serve uma protagonista inegavelmente marcante, uma história que apesar das falhas é boa de acompanhar, além, é claro, de mortes e mais mortes, como já é esperado. Pode não ser o que se esperava para encerrar a trilogia que ganhou o coração de muitos, mas ele ajuda a consolidar ainda mais Mia Goth como uma verdadeira estrela. Além de valer muito para o entretenimento, o que seria de um filme sem pelo menos esse poder, não é? Nota: 3,5/5 *"Nesta indústria, até que você seja visto como um monstro, não é uma estrela."

  • Crítica | Twisters

    Com ação mais encorpada, filme repete erros e acertos da primeira versão Foto: Divulgação Kate Cooper (Daisy Edgar-Jones) é uma ex-caçadora de tempestades assombrada por um encontro devastador com um tornado durante seus anos de faculdade e que agora estuda padrões de tempestades nas telas em segurança na cidade de Nova York. Ela é atraída de volta às planícies por seu amigo, Javi (Anthony Ramos), para testar um novo sistema revolucionário de rastreamento. Lá, ela cruza seu caminho com Tyler Owens (Glen Powell), o carismático e imprudente ícone das redes sociais que se diverte postando suas aventuras de caça a tempestades com sua equipe barulhenta. À medida que a temporada de tempestades se intensifica, fenômenos aterrorizantes nunca vistos são desencadeados e Kate, Tyler e suas equipes concorrentes se encontram diretamente no caminho de múltiplos sistemas de tempestades convergindo sobre o centro de Oklahoma na luta de suas vidas. Twisters é uma continuação da cultuada produção de 1996 e que não demanda ter assistido ao primeiro para se consolidar, afinal de contas o tornado, Oklahoma e um equipamento chamado “Dorothy” são os únicos pontos que existem de forma exatamente igual em ambos os filmes. Dito isto, a versão de 2024 expõe uma estrutura narrativa quase que idêntica ao original. São dois grupos formados por incontáveis personagens coadjuvantes no interior de Oklahoma competindo para quem consegue chegar mais perto do tornado e, em meio a isso, um conflitante casal de protagonistas. No entanto, as motivações são diferentes e nesse quesito o novo filme consegue apresentar um texto mais elaborado e que permite desdobramentos mais criativos e reviravoltas mais bem arquitetadas. A presença do personagem Javi, por exemplo, torna a dinâmica do casal branco executável apenas a partir do final do segundo ato, embora honestamente todo o público já saiba desde o momento inicial que eles irão, de alguma forma, terminar juntos. E a ideia de um casal entre os protagonistas, romanticamente falando, enquanto no filme dos anos 90 é o combustível do enredo, nesse não chega nem a sair do plano das ideias, mas consegue construir bons momentos cafonas, melosos e engraçados. Foto: Divulgação E isso se dá ao trio de protagonistas que transbordam carisma. O galã Glen Powell é um dos queridinhos do momento em Hollywood, mas não é só por ser intimidantemente bonito, ele já provou em seus trabalhos recentes que tem um rico repertório e consegue fazer muito com pouquíssimo que recebe as vezes. Aqui ele faz o que faz de melhor, passeia entre o cafajeste e o bom moço e agrada todo mundo. Não menos talentoso é o ator e cantor Anthony Ramos que divide facilmente o domínio das cenas com a estrela do filme: Daisy Edgar-Jones. A simpática atriz britânica está presente em quase todas as cenas e entrega uma atuação magnética que se soma a um trabalho de corpo espetacular. Os efeitos funcionam muito bem e não passam do ponto onde o absurdo começa a se despregar do real. Todas as sequências de ação sofrem com as mesmas intercalações que o original, mas o ritmo é mais encorpado e conciso. E a trilha sonora repleta de country ajuda a construir a atmosfera rural que o argumento precisa para consolidar a ambientação. Assim como o primeiro, é farofa, sabe que é farofa, mas gostaria que tivesse (ainda) mais destruição e menos camadas nos personagens com todo respeito ao ótimo elenco e ao roteirista esforçado, afinal de contas, quem vai ver um filme sobre desastres ambientais quer mesmo é ver, no mínimo, tornados pegando fogo (na falta de vacas voando). Nota: 3,5/5

  • Entrevista | Diretores de “A Flor do Buriti” falam da temática indígena no longa e de Cannes

    Renée Nader Messora e João Salaviza conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Foto: Divulgação Chegou aos cinemas na última quinta-feira (04) o filme A Flor do Buriti , codirigido por Renée Nader Messora e João Salaviza. Filmado durante um período de 15 meses, o longa narra a luta do povo indígena Krahô pela sua terra no norte do Tocantins ao longo de três épocas — 1940, 1969 e o presente — que se entrecruzam. Exibido em diversos festivais internacionais, o filme conquistou o prêmio de Melhor Elenco na Mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, em 2023. Em entrevista exclusiva ao Oxente, Pipoca? , os diretores falaram um pouco mais sobre a escolha de levar às telas a história dos krahô e o processo de construção do filme. Para Renée, a relação com o povo começou ainda em 2010, quando ela participou de uma equipe que gravou uma das festividades krahô na aldeia. O momento permitiu que ela conhecesse jovens indígenas interessados no ofício cinematográfico, e daí nasceram oficinas audiovisuais voltadas para edição, fotografia e outros tópicos. O trabalho com as oficinas eventualmente instigou o desejo de trabalhar na produção de um longa-metragem, mas para Renée isso significava pensar um novo fazer cinematográfico. “Trabalhar com essa comunidade obrigou a gente a desaprender tudo que tínhamos aprendido na escola de cinema. Então a gente teve que inventar um modelo de produção que se adaptasse àquele contexto, àquelas pessoas, porque eu acho que ainda era um filme que estava muito preso numa certa forma de narrar que é clássica, onde a gente vai acompanhar o percurso de um herói, apesar de tratar de uma subjetividade indígena”, relatou ela. Foto: Divulgação Renée considera que a espinha dorsal de A Flor do Buriti é a relação dos krahô com a terra, relação esta atravessada historicamente pela violência. Ela destaca inclusive a vontade da comunidade em falar a respeito de um massacre realizado na década de 1940 contra a população krahô por latifundiários. Tal massacre quase poderia ter resultado na extinção deste povo, já que muitas das vítimas foram mulheres grávidas e crianças. No que se refere à vitória de A Flor do Buriti na Mostra Un Certain Regard em Cannes, João considera de tremenda importância o fato do maior festival de cinema do mundo ter exibido um longa-metragem cujo idioma principal é falado por cerca de apenas 4000 pessoas atualmente — um número que já foi significativamente menor, inclusive. “Esse lugar é incrível porque numa mesma sala pôde ser exibido o novo filme de [Martin] Scorsese e um filme como este, que foi feito por uma microequipe de cinco pessoas numa comunidade indígena, foi feito de forma antagônica ao que os editais exigem, sem essa estrutura corporativista do cinema”, destacou ele. O diretor afirma que isso só aconteceu porque os krahô não apenas tiveram uma presença muito intensa na construção do filme, mas se apropriaram das possibilidades dele para saírem pelo mundo e utilizá-lo como uma arma de denúncia e resistência. Para ele, ver o longa ser exibido em outros países como França, Suíça, Equador, Argentina e também na Ásia mostra a capacidade deste povo de levarem sua história pelo mundo e se fazerem serem vistos e ouvidos, evidenciando o potencial do cinema para se construir outras narrativas que vão de encontro à historiografia hegemônica no Brasil.

  • Sergipe representa o Nordeste na competição de documentários do Festival de Gramado 2024

    O filme dirigido por Caco Souza narra a resistência e a cultura dos Xokó Foto: Divulgação O sergipano Velho Chico, a Alma do Povo Xokó é o único representante do Nordeste na mostra de Longas-Metragens Documentais no Festival de Gramado 2024. Dirigido por Caco Souza, o filme conta a história de um rio e de um povo. Os Xokó são a última tribo indígena existente no estado de Sergipe e o rio São Francisco é a sua razão de existir. Escravizados em suas próprias terras, espoliados, obrigados a renegar sua cultura, alijados de seus rituais e tradições, os Xokó resistiram com a força de Opará (rio-mar). Retomaram seu território, aprenderam a conviver com a civilização e se utilizam das maravilhas da modernidade, entretanto, ainda pintam seus corpos, dançam o toré, reverenciam a natureza e preservam suas tradições ancestrais. O longa mostra que o índio não deixa de ser índio quando frequenta uma escola ou usa um celular e que são índios sempre que se voltam às suas origens e às suas tradições. Caco Souza fez sua estreia no audiovisual com o longa-metragem “400 contra 1 – Uma História do Crime Organizado”, estrelado por Daniel de Oliveira, Daniela Escobar, Fabrício Boliveira, Jonathan Azevedo e Branca Messina. Velho Chico, a Alma do Povo Xokó foi produzido pela WG Produções e Publicidade com roteiro de Lelê Teles e produção de Michele Amorim Becker. Com produção executiva de Cacilda de Jesus e direção de fotografia por Maila Louback Gonçalves e Marcus Vinicius de Melo Soares, o filme teve como responsáveis, na direção de arte, Jorge Oliveira, no desenho de som, Marcelinho Porto e na trilha musical, Ricardo Vieira. A tribo Xocó é a única comunidade indígena de Sergipe legalmente reconhecida. Desde 9 de setembro de 1979, os indígenas voltaram a ocupar a Ilha de São Pedro, território do qual haviam sido expulsos pelos jesuítas séculos atrás. Apenas nos anos de 1990, a Funai homologou a Caiçara, território que eles também reivindicavam, como parte das terras indígenas de etnia Xocó. A aldeia abriga mais de 600 índios em um território de aproximadamente 4.500 hectares e seu território localiza-se na região do semiárido, município de Porto da Folha, margem direita do Rio São Francisco (155 km de Aracaju). Além de Velho Chico, a Alma do Povo Xokó, competirão na categoria de Longas-Metragens Documentais do Festival de Gramado 2024, Mestras de Roberta Carvalho (PA), Clarice Niskier, Teatro dos Pés à Cabeça de Renata Paschoal (RJ), Poemaria de Davi Kinski (SP) e Toquinho Maravilhoso de Alejandro Berger Parrado (SP). A Mostra Competitiva de Documentários terá exibição exclusiva pela grade linear do Canal Brasil, de 12 a 16 de agosto, às 20h20. O 52º Festival de Cinema de Gramado ocorre entre os dias 9 e 17 de agosto, em Gramado, no Rio Grande do Sul.

  • Crítica | Acima de Qualquer Suspeita (1ª Temporada)

    David E. Kelley mostra que ainda sabe contar boas histórias de tribunal em uma das séries mais eletrizantes do ano Foto: Divulgação/ Apple TV+ Produtor e roteirista conceituado, David E. Kelley criou alguns dos maiores dramas jurídicos da televisão norte-americana como The Practice, sua derivada Boston Legal, Ally McBeal, que também brincava de ser comédia e, talvez, o que seja sua obra mais conceituada, a excelente primeira temporada de Big Little Lies. No entanto, a segunda temporada dela se mostrou desnecessária e não disse a que veio. Sua outra minissérie, também para a HBO e repetindo a parceria com Nicole Kidman, The Undoing, começou bem e foi piorando a cada episódio que passava, resultando em um final desastroso e novelesco, no pior sentido da palavra. Love & Death, estrelada por Elizabeth Olsen e que teve como base um terrível caso real, não foi ruim, mas definitivamente esquecível. Então, comecei a assistir com um pé atrás, mas felizmente ele mostrou de novo o porquê de merecer o respeito e a confiança do público. Adaptada do livro homônimo de Scott Turow, que também já ganhou sua chance nas telonas em um filme estrelado por Harrison Ford e dirigido por Alan J. Pakula em 1990, a série conta a história do promotor Rusty Sabich (Jake Gyllenhaal), que se torna o principal suspeito de um assassinato hediondo que deixa o escritório da Promotoria de Chicago de cabeça para baixo. Rusty tinha um caso com a vítima, a também promotora Carolyn Polhemus (Renate Reinsve), e além da acusação, precisa fazer de tudo para manter sua família unida com tantos segredos revelados. Diferente do cinema, um seriado de tv dá mais espaço para os personagens serem desenvolvidos e um dos meus medos era que a trama se perdesse em tramas paralelas, mas foi um ledo engano. A narrativa é construída focando no caso e na família, mas respeitando aquelas pessoas em tela, sem deixar que somente o julgamento seja o foco principal, porém que também não se perca dele. É impossível você não se envolver ali com tanta coisa em jogo. Foto: Divulgação/ Apple TV+ O elenco é um espetáculo e eleva um roteiro que pode não ser visto como inovador, afinal dramas jurídicos e investigativos não são novidades em qualquer mídia. Jake Gyllenhaal está em um de seus melhores papeis. Rusty é um homem controverso e egóico, que trai, mente e sempre te deixa com a pulga atrás da orelha se ele é culpado ou não, mas ainda assim não restam dúvidas que ele amava Carolyn, assim como Barbara (Ruth Negga) e seus dois filhos. E falando em Ruth Negga, ela é o maior destaque. Em um papel que poderia ser o mais coadjuvante, ela brilha e toma as rédeas, como uma mulher traída que tem um enorme dilema: ama o marido, mas sente a dor de ser lembrada a todo instante de uma traição exposta para o país inteiro, já que o caso é televisionado. Peter Sarsgaard, no papel de Tommy Molto, o promotor encarregado do caso, é outro grande nome. Na mão de outro ator, o personagem poderia ser lido como um vilão qualquer. Claro que há mérito no texto, mas Sarsgaard dá mais nuance ao papel, trabalha olhares sutis e um tom de voz baixo que é de um controle fascinante e não me faz odiar um homem tão odiável. E voz é o que mais chama atenção na performance de O-T Fagbenle, excelente como Nico Della Guardia, o Procurador Geral, que causa bastante raiva, devo confessar. Renate Reinsve sempre ótima, e eu, por ser fã do que ela faz no espetacular A Pior Pessoa do Mundo, queria ver mais dela, mas entendo seu pouco tempo de tela. Era mais sobre quem ficou do que quem se foi. Não posso deixar de mencionar o sempre instenso Bill Camp também, que faz o advogado de defesa e melhor amigo de Rusty, Raymond. A princípio anunciada como uma minissérie, a Apple renovou a série para uma 2ª temporada e informou que haverá um novo caso a ser trabalhado. Fico muito feliz porque este excelente final não precisa de continuação. Foram oito episódios e até o sexto, com idas e vindas que agregavam ao enredo seja no núcleo familiar ou jurídico, a trama estava em crescente. No entanto, em decorrência de uma reviravolta desnecessária, um desvio que se mostra um tanto fajuto é feito no sétimo episódio. É uma tentativa de deixar o julgamento mais imprevisível, só que a impressão que fica é de um episódio que não precisava existir. Todavia, a última hora traz a série de volta aos trilhos e se o veredito não é exatamente surpreendente, é o que mais faz sentido diante do exposto – com o perdão do trocadilho. A sequência final, a revelação do “quem matou?”, a construção da tensão pela direção de Anne Sewitsky e o texto de Kelley, Sharr White e Miki Jonhson que te ajudam a montar o quebra-cabeça em harmonia, são fantásticos, isso sem falar nas atuações dos envolvidos na cena. A última montagem deixa o ar macabro, mas extremamente satisfatório de uma das melhores séries do ano. Nota: 4/5

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