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  • Crítica | Ferrari

    Michael Mann mostra como se faz uma cinebiografia de verdade Foto: Divulgação O cinema de Michael Mann é composto por homens movidos por seus princípios, conflitos e paixões; ou como li mais cedo num ótimo texto de um colega crítico, homens que defendem sua moral a unhas e dentes não importa de que lado estejam. Estes homens são também definidos pelo que há de mais trágico na masculinidade tóxica, seja na incapacidade de constituírem relações afetivas ou na maneira como são tragados por sua própria moral mesmo quando o mundo não funciona moralmente. À primeira vista, Ferrari não parece um típico filme do diretor, pelo menos não na visão daqueles que os conheceram através de obras como Fogo Contra Fogo, Colateral e Miami Vice. Mas não apenas biografias são comuns na filmografia do diretor – vide O Informante e Ali – como em apenas alguns minutos do seu novo longa já vemos o suficiente de Enzo Ferrari (Adam Driver), bem como de seu poder, suas contradições e dilemas, para compreender como o personagem se junta à galeria de protagonistas masculinos dessa filmografia. E para dar vida a esse homem e suas contradições, Mann adota uma abordagem que (graças a Deus) foge à cartilha e os lugares-comuns que superabundam nas cinebiografias contemporâneas. No lugar de filmar um roteiro que tenta condensar em pouco mais de duas horas um artigo da Wikipédia sobre Enzo e não se aprofunda em nada sobre ele, o filme segue um momento específico da sua vida – o ano de 1957 – para nos dizer tudo que se precisa saber a seu respeito: o poder que ele emana sobre outras pessoas ao seu redor; o quão diminuto se vê diante da enlutada e amargurada esposa Laura (Penélope Cruz); o luto que também sofre pela perda do filho, um ano antes; quão relaxado se vê quando está com a sua “outra” família (Shailene Woodley e Giuseppe Festinese); as lutas que enfrenta para conciliar a vida profissional e pessoal; e tanto mais. Foto: Divulgação Assim, ao optar por um recorte que nos dá o devido aprofundamento neste personagem e o que o cerca, Mann evita a verborragia didática e os saltos temporais mal-formulados que tanto têm acometido o gênero conforme ele é produzido à exaustão em Hollywood. Mas o diretor vai além: em Ferrari ele incorpora até mesmo elementos do melodrama, seja na composição da personagem de Cruz (que, como em outra crítica que vi, conduz um retrato próximo das matronas italianas de clássicos do país), na trilha sonora operática de Daniel Pemberton, nos sotaques “macarrônicos” dos personagens e até mesmo nas surpreendentes inserções de humor. Diante dessas escolhas pouco usuais (embora nada surpreendentes para quem acompanhe sua filmografia), é fácil entender porque o filme passou despercebido na temporada de premiações. O que é uma pena, visto que o filme entrega alguns dos melhores trabalhos do ano passado em departamentos técnicos como o som. Claro, é algo esperado sendo um filme que envolva carros e corridas, mas a maneira como Mann constrói uma imersão sonora (e também visual, junto ao diretor de fotografia Erik Messerschmidt) nos coloca diretamente junto a Ferrari e os homens que dirigem para ele, como Alfonso De Portago (Gabriel Leone, tendo um ótimo tempo de tela), Peter Collins (Jack O’Connell) e Piero Taruffi (Patrick Dempsey). São homens movidos pelas pulsões de vida e morte, e o filme não se faz de rogado em mostrar o quanto a morte os cerca – não apenas no luto de Enzo e Laura, mas também em trágicas sequências de acidentes, sendo que aquela que ocorre no clímax é tão brutal e chocante que toda a sala de cinema onde assisti o filme se viu imersa num silêncio sepulcral. Ainda que não chegue a administrar tão equilibradamente os lados pessoal e profissional do seu protagonista (e o CGI pode ter uma razão em incomodar, embora sirva muito bem aos propósitos do filme), Ferrari se ajusta perfeitamente ao que Michael Mann vem trabalhando em sua carreira desde os anos 1980, temática ou formalmente. Não importa se seus personagens são homens do mundo do crime, policiais ou poderosos empresários do ramo automobilístico, os homens “Mannescos” são retratos impressionantemente acurados dos efeitos nocivos e complexos da masculinidade tóxica, muitas vezes quebrados por dentro enquanto impõem a aparência do poder e controle. Portanto, é mais um acerto de um diretor que considero um dos meus favoritos. Nota: 4/5

  • Crítica | Os Rejeitados

    A previsibilidade como força num caloroso estudo de personagens e suas solidões Foto: Divulgação Não há armadilhas ou surpresas em Os Rejeitados. Diria, aliás, que parte da força do filme reside justamente em nos contar uma história tão velha quanto o próprio cinema: o encontro de almas solitárias que desenvolvem afinidades e conexões que perdurarão para toda a vida, mesmo que seus caminhos não mais se encontrem. E o cinema não é mais sobre como se diz do que o que se diz, no fim das contas? É justamente por entender que não vai revolucionar uma premissa tão básica que Alexander Payne pega o roteiro de David Hemingson e o transforma num dos grandes filmes do ano passado. Payne nos leva a um internato na Nova Inglaterra em 1970, onde o professor Paul Hunham (Paul Giamatti) recebe a infeliz tarefa de monitorar os alunos que precisarão passar o recesso de Natal e Ano-Novo na escola, incluindo dentre eles o arredio e rebelde Angus Tully (Dominic Sessa). Eventualmente, restam na escola apenas os dois e a cozinheira Mary Lamb (Da’Vine Joy Randolph), que vive o luto após a perda do filho na Guerra do Vietnã. Não é nenhum spoiler dizer o que acontecerá a seguir. É óbvio que duas figuras tão contrastantes como Paul e Angus logo descobrirão que tem mais em comum do que imaginam e a relação tempestuosa dos dois se transformará. Mas acredite, contar isso não estraga nem um pouco da experiência deliciosa que é Os Rejeitados. Mesmo em meio ao frio e à neve do fim de ano estadunidense, Payne entre um longa caloroso e cheio de sensibilidade e intimidade, conforme mergulha em suas três figuras centrais. Mesmo que o filme nos mostre outros personagens (o primeiro ato parece até uma espécie de Clube dos Cinco antes que uma divertida reviravolta aconteça), são Paul, Angus e Mary – e, é claro, seus intérpretes – quem sustentam e dão vida à obra. É admirável a maneira como o diretor não se limita apenas à ambientação e recorte temporal, mas a integra organicamente à narrativa, fazendo um filme que se porta como uma legítima obra setentista – especialmente através da fotografia de Eigil Byrd, que confere uma textura deliciosamente retrô à imagem da obra, além de transições de cenas e enquadramentos dos personagens que nos aproximam ainda mais das produções da época. Justamente por nos situar nesse período, o longa parece evitar um certo cinismo que rodeia o cinema contemporâneo, optando por uma genuína apresentação dos sentimentos que permeiam esses personagens, mesmo quando são os mais duros e erráticos possíveis. Foto: Divulgação Sim, porque Paul e Angus não são personagens fáceis, e à primeira vista as tensões entre os dois explodem por uma série de razões. Mas é fascinante observar a maneira como o filme os desnuda, provocando uma dinâmica repleta de conexões à medida em que se aproximam. Paul Giamatti e Dominic Sessa (este um estreante, o que é ainda mais notável) eficazmente dão vida a essas figuras complexas e falhas, nos convencendo a cada minuto da gradual relação de mentor-protegido que se forma entre os dois. E o melhor de tudo é ver a naturalidade com a qual essa relação se constrói, sem arroubos sentimentalistas e melodramáticos típicos de obras do gênero, que preferem tomar atalhos a realmente desenvolver seus personagens. É uma pena que esse mesmo espaço não seja reservado a Mary, que parece sempre tangenciar a relação dos dois homens como uma figura periférica, mesmo que em tese tenha sua própria história. Não há dúvidas do quanto Da’Vine Joy Randolph está maravilhosa e comprometida com o papel, especialmente por conferir à personagem uma abordagem do seu luto que também foge dos clichês, mesmo que sua dor seja palpável. Mas me parece que em alguns momentos o filme não sabe o que fazer com ela, como se esta não fosse a história dos três, mas sim de dois onde ela ocasionalmente toma parte. Esse, porém, é um pequeno contratempo num longa que se sobressai por uma série de razões. Afinal de contas, mesmo que trilhe caminhos óbvios na sua narrativa (mas não necessariamente na sua execução), Os Rejeitados nos relembra que a solidão é tão atemporal quanto as conexões humanas. Descobrir o prazer de se entranhar com o outro e forjar laços que nos marcam por toda a vida é uma experiência única, e que satisfação ver um filme que entende a beleza que há nesse processo, conferindo esse mesmo prazer em sua forma cinematográfica para nós, espectadores. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Duna: Parte Dois

    Um espetáculo cinematográfico que nos alerta para os perigos do fanatismo Foto: Divulgação A jornada para se adaptar Duna (1965) para as telas foi árdua e repleta de contratempos. Do filme inacabado de Alejandro Jodorowsky nos anos 1970, passando pela criticada adaptação de David Lynch em 1984 e a minissérie do canal Sci-Fi em 2000, parecia que o livro jamais receberia a versão que merecia. Eis que Denis Villeneuve, consolidado na ficção científica após A Chegada e Blade Runner 2049, recebeu a incumbência de levar a obra mais uma vez ao cinema, dessa vez em duas partes. Se a habitual esterilidade e frieza do diretor foram alvos de algumas críticas, certamente não impediram que o primeiro Duna (2021) fosse um sucesso notável no período pandêmico e ainda ganhasse 6 Óscares, garantindo sem problemas a produção de sua sequência. Contudo, é curioso notar que, mesmo que seja uma continuação direta do primeiro filme, Duna: Parte Dois se revele distinto em tantos aspectos. Não é que Villeneuve abra mão do seu estilo ou faça concessões aos seus detratores, mas é perceptível aqui como o diretor refina mais certos pontos (em especial as lutas corpo a corpo) e integra mais da estranheza do universo de Duna (que só foi potencializada nos romances subsequentes) para criar um blockbuster que é uma verdadeira anomalia, provando como os arrasa-quarteirões ainda merecem seu espaço no cinema sem precisar se render à produção fordista de estúdios como a Marvel. Afinal de contas, Duna sempre foi sobre colonialismo, fanatismo religioso e ecologia, nunca escondendo sua crítica feroz ao tropo do salvador branco (e isso já nos anos 1960!). Aqui, Villeneuve intensifica ainda mais sua crítica, trabalhando habilmente a ambiguidade que cerca o protagonista Paul Atreides (Timothée Chalamet) conforme ele e sua mãe Jessica (Rebecca Ferguson) se juntam aos Fremen, o povo nativo do planeta Arrakis/Duna para enfrentar seus inimigos históricos, os Harkonnen, bem como o próprio imperador (Christopher Walken). Retrabalhando as dinâmicas entre os personagens – em especial a relação de Paul com Chani (Zendaya) – e até as aprofundando em certos pontos, o diretor nos mostra o perigo de um messias fabricado que, mesmo que até chegue a lutar contra esse papel, inevitavelmente se mostra mais perigoso do que seus próprios algozes, conforme seu papel messiânico é abraçado pelos fervorosos nativos (mesmo que ele seja, no fim das contas, um estrangeiro). Em certa medida, a Parte Dois toma o caminho inverso da Parte Um: se esta parecia perder o brilho aos poucos após o ataque dos Harkonnen aos Atreides, culminando num final duramente criticado por seu anticlímax – mesmo que fizesse sentido para a jornada de Paul –, aqui Villeneuve apenas vai intensificando o tom da obra sem perder a mão. O senso de escala descomunal desse universo permanece firme e forte (e não à toa duas das melhores cenas do filme envolvem os monstruosos vermes da areia), mas é na maneira como o filme trabalha o arco do protagonista que ele realmente brilha. Foto: Divulgação Nesse sentido, Timothée Chalamet crava de uma vez por todas que é um dos maiores, senão o maior ator de sua geração. Sempre considerei muitas das críticas ao ator e sua suposta “cara de bunda” bastante infundadas, e tendo reassistido o primeiro filme recentemente ficou claro a maneira como ele progressivamente desenvolve as nuances do personagem. Aqui, porém, Chalamet se supera em diversos aspectos, abraçando a dualidade do seu personagem e a maneira como ele constrói uma presença magnética que não apenas conquista os Fremen, mas também a nós espectadores. Em particular, a última hora do filme é talvez o melhor momento da carreira do ator, já que ele assume uma gravidade e poder devidamente assombrosos. A relação entre ele e Chani é fundamental para que que a história assuma um fundo mais trágico, e um dos melhores acertos do filme é expandir a personagem de Zendaya de um mero interesse amoroso para uma figura com uma agência própria, que serve de consciência e contraponto às decisões de Paul. Diria até que há um quê de Michael e Kay Corleone, de O Poderoso Chefão, na relação dos dois, o que é mais evidente pela forma como Chani encara o homem que ama ao final. Além de Chalamet e Zendaya, o grande destaque do filme fica por conta de Ferguson, que confere um caráter absolutamente maquiavélico à sua Jessica, na maneira como ela tem um papel essencial de difundir a figura messiânica do filho entre os Fremen, como uma espécie de Lady Macbeth sussurrando manipulações aos ouvidos do protagonista e de todos à sua volta, mesmo com as melhores intenções em mente. O restante do elenco, ainda que não chegue a ter o mesmo peso em tela, certamente abrilhanta: Javier Bardem rouba cada cena com seu fanatismo divertido (até não ser mais divertido); Josh Brolin tem uma reintrodução tardia demais para o meu gosto, mas serve como um importante elo do passado de Paul que guia o personagem em direção ao seu futuro sombrio; e Austin Butler, ainda que possua um bloco de introdução que se estende mais do que precisava, também é outro ladrão de cena que interpreta uma figura psicopata que não poderia estar mais distante do seu Elvis Presley (embora apresente um trabalho de voz tão afetado quanto). Ainda assim, é perceptível que alguns nomes do elenco estão ali mais para serem introduzidos em vista de possíveis sequências, como é o caso de Florence Pugh, Léa Seidoux e Anya Taylor-Joy. Não é exatamente um problema, mas também não deixa de ser uma certa subutilização de três atrizes talentosas. Duna: Parte Dois traz de volta tudo que funcionou tão bem no primeiro filme – a direção de arte grandiosa, a trilha sonora poderosa de Hans Zimmer, a fotografia de Greig Frasier que revela tanto da magnitude desse mundo. Contudo, incorpora mais das bizarrices que fazem o universo de Duna ser tão único (seja um planeta em preto e branco ou bebidas lisérgicas feitas de sangue de vermes de areia), mostrando que Villeneuve estava disposto a expandir seu estilo para tornar esse blockbuster ainda mais distinto. Com um final que pode parecer triunfante, mas possui grandes contornos de tragédia, o diretor mostra que conseguiu o que parecia impossível: entregar uma adaptação que não apenas faz jus ao impacto que o livro original teve na ficção científica (e até o supera em certos pontos), mas também entregar o seu equivalente no cinema, um espetáculo fílmico que não esconde de nós os lados mais sombrios da humanidade. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Mestres do Ar (Minissérie)

    Espetáculo no céu, decepção na terra. Foto: Divulgação Produzida por Steven Spielberg, Tom Hanks e Gary Goetzman, os mesmos nomes por trás das aclamadas Irmãos de Guerra (Band of Brothers) (2001) e O Pacífico (The Pacific) (2010). Baseada no livro homônimo de Donald L. Miller, desta vez, o foco está nos aviadores do 100º Grupo de Bombardeiros, que arriscaram suas vidas durante a Segunda Guerra Mundial. Diferente das suas minisséries “irmãs” citadas acima, a HBO largou o projeto de Mestres do Ar em 2013, alegando o alto custo da produção. Os produtores então, encontraram uma nova casa no Apple Tv+, que arcou com os 250 milhões de dólares que custaram os nove episódios, segundo o The Hollywood Reporter. O gasto investido é notório em cada uma das nove partes, mas só isso não é o suficiente para se ter qualidade. Os showrunners John Orloff e John Shiban tentam guiar seus roteiros pelos ideais de irmandade, coragem, perdas e vitórias, mas da maneira mais rasa possível. Em destaque temos os personagens Major Gale “Buck” Cleven (Austin Butler), Major John “Bucky” Egan (Callum Turner), o Tenente Harry “Croz” Crosby (Anthony Boyle), o Tenente Curtis Biddick (Barry Keoghan) e o Major Robert “Rosie” Rosenthal (Nate Mann). Sim, temos dois homens que se chamam Buck e Bucky, inúmeras piadas – sem graça – com isso e um certo protagonismo pouco merecido. O principal problema aqui é a falta de desenvolvimento dos personagens e estes dois são a prova disso. Em diversos momentos é frisado como eles podem ser amigos se são tão diferentes. Bucky é mulherengo, enquanto Buck só pensa em voltar para sua amada. Bucky é um grande fã de beisebol e apaixonado pelos Yankees, enquanto Buck não liga para esportes. É basicamente isso. São múltiplas cenas de diálogos que parecem muito mais repetições do que evolução. Somente reafirmam o que já sabíamos, mas não aprofundam coisa alguma. Foto: Divulgação Cito os dois como exemplo, mas é uma dificuldade do texto como um todo. Um dos pontos altos de se ter uma narrativa de nove horas é justamente criar um vínculo entre o espectador e aquelas pessoas que estamos acompanhando semana a semana. Esta conexão intensifica nossas emoções, mas a minissérie não aproveita bem o seu tempo. Retrata a Segunda Grande Guerra, um dos eventos mais tristes do mundo, então naturalmente o olho enche d’água em um segmento ou outro, mas poderia ser muito mais, principalmente quando quer se vender como uma “irmã” de Irmãos de Guerra (Band of Brothers). Os personagens que chegam mais perto de oferecer alguma complexidade em seus arcos são Croz e Rosie, que trazem alguns questionamentos pertinentes em determinada altura. No entanto, não é nada que já não tenha sido feito antes e de uma maneira melhor no gênero. Boyle e Mann, se destacam também pelas atuações, assim como Turner, que mesmo tendo um Bucky superficial em mãos, possui o carisma necessário. Já Butler, ainda parecia estar na transição de Elvis, e está simplesmente apático. E Keoghan, vale dizer, também é capaz de fazer muito mais do que o que entrega aqui. Onde o roteiro peca, a direção se sobressai. Cary Joji Fukunaga dita o tom no comando dos quatro primeiros episódios e principalmente nas espetaculares sequências de batalha, onde o senso de urgência e a tensão latente são quase palpáveis. Muito do que é mostrado se passa dentro dos aviões, geralmente ocupados por cinco ou seis soldados e com muita coisa acontecendo tanto ali dentro, como nos céus ao redor, é impressionante como nada fica perdido na nossa visão e a experiência se torna ainda mais imersiva. Ryan Fleck e Anna Boden, Dee Rees e Tim Van Patten se dividem na direção das outras partes (como são intitulados os episódios aqui), seguindo com segurança a linha de Fukunaga. Auxiliados por uma fotografia hipnotizante e um design de produção que faz uma ambientação impecável dos cenários internos e externos, a minissérie é um alento para os olhos, assim como efeitos especiais quase imperceptíveis e uma maquiagem extremamente verossímil. A trilha sonora acompanha a grandiosidade pretendida, portanto nestes aspectos, não há defeitos. Infelizmente não é o bastante para televisão de qualidade. Na minha visão, há uma tentativa de ser cinematográfica. Não há nada de errado com isso, desde que não se esqueça de um dos pilares centrais de uma produção televisiva: os personagens. Então, se no ar eles são mestres, na terra nós mal sabemos quem são. Os episódios seguem uma fórmula redundante onde um sempre se assemelha ao outro e só é possível diferenciá-los quando os cenários mudam um pouco. E de novo se repetem. Nos quatro primeiros vamos sendo apresentados aqueles homens, sempre com as mesmas dinâmicas, na segunda metade destas quatro horas temos as belas cenas de ação. O artifício do “soldado perdido da frota” é usado de um jeito instigante de início, porém depois é empregado como uma possível reviravolta que pouco surpreende. Há uma mudança quando alguns personagens são presos em campos de concentração, entretanto são vários planos de fuga e pouca execução, até que seja conveniente, e de novo, tudo parece o mesmo episódio. A última hora é tomada por um datado senso de patriotismo norte-americano com músicas tristes e crianças emocionadas. Não há dúvidas que aqueles homens foram heróis, mas se o intuito da minissérie era dar voz a eles para que não fossem esquecidos, fez um trabalho pífio. Ainda passa longe de ser “inassistível”, mas para algo que queria ser lembrada como uma “parente” de Irmãos de Guerra (Band of Brothers), teria que comer muito arroz com feijão. Visualmente rica, mas emocionalmente vazia. Uma pena. Nota: 3/5

  • Crítica | Magnatas do Crime (1ª temporada)

    Uma série divertida e satisfatória que é a cara de Guy Ritchie, para o bem e para o mal Foto: Divulgação Guy Ritchie virou mestre em contar histórias de criminosos ou, no mínimo, trambiqueiros, e eu, desde Snatch: Porcos e Diamantes, sempre vou conferir. Gosto muito do filme homônimo de 2019 com Matthew McConaughey, então já fiquei animado quando ouvi falar desta série mês passado. Desta vez, o foco está em Eddie Horniman (Theo James), um aristocrata inglês que acaba de herdar uma propriedade da família, para desespero de seu irmão mais velho, Freddy (Daniel Ings). Pouco depois, Eddie recebe a visita de Susan Glass (Kaya Scodelario), e é aí que seus problemas começam: há uma plantação ilegal de maconha em suas terras, que faz parte de uma sociedade entre o pai falecido de Eddie, e o milionário Bobby Glass (Ray Winstone), pai de Susan. Agora, Eddie precisa adentrar neste mundo do crime sem saber muito bem onde se encaixa, mas com a ajuda de Susan, as coisas parecem dar certo. No entanto, conhecendo Guy Ritchie e sua fórmula, nada dá certo por muito tempo. Portanto, é bacana pois deixa a trama mais ágil, mas ao mesmo tempo, fica um pouco cansativo nos três primeiros episódios porque o artifício usado é o mesmo: Freddy fez algo que não devia. É a única função do personagem, o que irrita bastante e não consegue trazer o humor que deveria. Não é culpa do ator, que faz o que pode com o texto que tem. É inegável que Ritchie carrega uma identidade própria e dita o tom dirigindo e escrevendo os dois episódios iniciais, atuando como showrunner, conseguindo deixar a série muito elegante e o nome não é à toa. Os personagens exalam a riqueza que têm através dos belíssimos figurinos, assim como a direção de arte, que não economiza nas luxuosas locações externas e internas. É a aristocracia inglesa sendo retratada ali, então não só tem que ser caro, como tem que parecer caro. Foto: Divulgação A produção se equilibra entre o formato tradicional da Netflix e o episódico. Em cada um dos oito episódios há uma, digamos, missão – ou complicação – para nossa dupla protagonista resolver, ou seja, uma trama com começo, meio e fim, porém são peças de um enredo maior. Nem todas as missões são tão interessantes assim, mas a dinâmica de Eddie e Susan deixa tudo mais palatável. Mesmo que nem sempre eles estejam juntos, os dois personagens são bem desenvolvidos durante a temporada para que possamos nos apegar a eles, inclusive porque não sabem se podem confiar um no outro. Theo James foi uma escolha de elenco muito acertada, ele tem uma elegância e imponência que Eddie necessita, e mesmo quando parece não saber sair de uma situação, ele consegue dar algum jeito. A princípio, a Susie de Kaya Scodelario parece ser mais fria e racional, sempre preocupada com a aparência impecável e com uma excelente aptidão para os negócios. Porém, aos poucos ela vai mostrando suas vulnerabilidades, principalmente no que concerne ao seu irmão. O elenco, no geral, é ótimo. Giancarlo Esposito (Breaking Bad/Better Call Saul) aparece menos do que eu gostaria, mas faz parte do enigma do seu Stan Johnston com T., e Joely Richardson é a mãe de Eddie e Freddy, e parece estar adorando cada segundo no papel, assim como Vinnie Jones, que faz Geoff, o fiel ajudante da família. As reviravoltas não são, exatamente, imprevisíveis, mas funcionam. É uma série que não vai mudar sua vida e nem tem essa pretensão. Assim como na maioria dos seus filmes, Guy Ritchie só quer entreter e aqui ele consegue fazer isso muito bem com seus planos mirabolantes e diálogos rápidos. O ritmo é dinâmico e mesmo que os dois primeiros episódios tenham mais de 1h de duração, os outros seis têm pouco mais de 40 minutos, deixando tudo ainda mais fluido. Ação e violência não faltam, embora apareça mais sangue do que mutilações gráficas, vale dizer, o que eu considero outra escolha certeira de Ritchie, já que o impacto é sentido, mas neste caso não precisou ser visto. Os protagonistas são carismáticos e a química é inegável. Se vai evoluir para um possível romance, o tempo dirá. E ainda que o episódio final resolva os vários dilemas principais da temporada, ainda sobra brechas há serem desenvolvidas, mostrando que há mais histórias a serem contadas, seja nos negócios ou no prazer, como bem afirma o próprio Eddie em determinada cena. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Kung Fu Panda 4

    Mesmo com ação e comédia ainda no ponto, o texto repete o passado Foto: Divulgação Depois de três aventuras arriscando a vida para derrotar os mais poderosos vilões, Po, o Dragão Guerreiro é escolhido para se tornar o Líder Espiritual do Vale da Paz. Escolha que é problemática por várias e óbvias razões. Primeiro, Po não sabe qualquer característica sobre liderança; além disso, ele precisa encontrar e treinar o mais rápido possível um novo Dragão Guerreiro antes de assumir sua nova imponente posição. Ademais, recentemente, foi vista no Vale da Paz uma feiticeira perversa e poderosa, a Camaleoa, um pequeno lagarto-fêmea que pode se transformar em qualquer criatura, grande ou pequena. Camaleoa está de olho no Cajado da Sabedoria de Po, que lhe daria o poder de trazer todos os vilões-mestres já derrotados por Po de volta do reino espiritual. O diretor Mike Mitchell tem em seu currículo uma grande mistura de filmes, em sua maioria animações. Digo mistura porque ele varia entre estilos e técnicas, mas mantém sempre um pé na comédia e outro no aventuresco. E é exatamente isso que Mike encontra na estrutura das narrativas de Kung Fu Panda, a comédia esperta na escrita e bem executada nas dublagens, e, como se espera de um filme com kung fu no título, bastante ação que as liberdades mecânicas da animação permitem grandes construções. Mesmo tendo um terceiro filme que destoa dos demais por apresentar um teor mais emocional ao roteiro, todos os três longas conseguem sustentar a mesma identidade. E essa é a bênção e maldição do quarto filme. Mesmo ainda tendo o carisma, o timing e a agilidade tanto da comédia – que tem piadas para todas as faixas etárias – quanto na ação – que abusa de ângulos e contracampos na criação do ritmo – ele não consegue sair disso. Foto: Divulgação O novo capítulo da franquia foi claramente criado como mote para introduzir uma personagem nova que, potencialmente, tocará filmes futuros ou pelo menos crie novos desdobramentos. Fora isso, parece não haver no roteiro um apelo que justifique o novo capítulo, falta também inovação na estética que repete recursos já utilizados anteriormente e não brinca com cores e texturas, o que eram pontos fortes das produções antecedentes. Considerando que é o primeiro longa sem o apoio dos Cinco Furiosos no enredo e que prepara a macronarrativa para possíveis grandes mudanças posteriores, esse é o mais catártico dos filmes até o momento, mas infelizmente a execução não acompanha a proposta e o resultado parece uma costura dos melhores momentos da saga até aqui (ainda mais quando se usa até mesmo os vilões já conhecidos), o que, convenhamos, não é algo propriamente ruim, mas também não faz jus os personagens e a capacidade argumentativa. Nota: 3/5

  • Crítica | Imaginário: Brinquedo Diabólico

    Difícil aceitar que não se trata de uma paródia Foto: Divulgação Na história, Jessica (DeWand Wise) se muda de volta para sua casa de infância com sua família. Lá, sua enteada mais nova Alice (Pyper Braun) desenvolve um estranho apego a um urso de pelúcia chamado Chauncey, que ela encontra no porão. Alice começa a brincar com Chauncey e os jogos se tornam cada vez mais perigosos. À medida que o comportamento de Alice se torna cada vez mais preocupante, Jessica percebe que Chauncey é muito mais do que apenas um ursinho de pelúcia ou um amigo imaginário. Os últimos dois anos têm visto uma modalidade nova de filmes terror que ao mesmo tempo que tenta assustar tenta ser um “filme-família”. Os resultados variam e transitam entre filmes bobos divertidos, bobos assustadores, bobos não intencionalmente engraçados e só bobos mesmo – e nenhum deles é realmente bom. São terrores higienizados, polidos e sem qualquer personalidade. Lembram os episódios da série antológica dos anos 90 Clube do Terror, com a diferença que o programa de televisão não se propunha ser algo a mais do que uma série para adolescentes, e assim se resolvia muito bem. Foto: Divulgação São tantos os problemas em Imaginário: Brinquedo Diabólico, que quando o longa acerta parece que foi sem querer. Primeiro que demora, mais precisamente até o terceiro ato, para o ele se assumir como um filme de fantasia, porque é isso que ele é. O roteiro tenta enganar por diversas vezes o espectador sobre a real intenção do texto, se é terror psicológico ou se é terror demoníaco, mas o terror fantástico é o que sustenta o enredo e quando isso é descoberto é literalmente tarde demais para querer que tudo que foi visto seja levado a sério. Se desde o começo do seu desenvolvimento o roteiro construísse uma narrativa à lá Coraline e o Mundo Secreto (2009) eram inúmeras as possibilidades de desdobramentos explorando esse espaço utópico. A história flerta com o humor em alguns trechos, e supreendentemente apenas nesses momentos é que o filme tem bons resultados, a maioria das vezes involuntariamente, ao ponto de lembrar os áureos Todo Mundo em Pânico tamanho o refinamento com os sustos e também com o humor. Nada funciona como deveria, os personagens não têm carisma (apesar do elenco que se esforça e mostra que está levando aquilo tudo a sério), e alguns personagens honestamente não tem função ou razão de existir, as resoluções não fazem sentido dentro da própria bobagem criada, e nem mercadologicamente o filme tem um mote que justifique a sua execução, nada é vendável ou marcante o suficiente para se impor. É uma ideia que deveria ter ficado apenas no imaginário. Nota: 1,5/5

  • Crítica | Percy Jackson e os Olimpianos (1ª temporada)

    Semideuses, finalmente estamos em casa! Infelizmente não fomos tão bem recebidos assim Foto: Divulgação/ Disney+ Quando eu soube lá em 2020 que a Disney estava desenvolvendo uma série live-action de Percy Jackson e os Olimpianos e que o autor dos livros originais, Rick Riordan – Tio Rick para os íntimos – estaria diretamente envolvido na produção e, principalmente, que estaria junto à equipe responsável pelo roteiro em alguns episódios, meu primeiro pensamento foi: “Não tem como esse projeto dar errado, a chance de isso acontecer é nula, vai ser perfeito. Os fãs merecem algo bom depois daqueles filmes que são adaptações horrorosas”. E foi assim, com as expectativas nas alturas, com uma sensação de alívio achando que eu iria assistir a melhor adaptação já feita e que veríamos uma aventura tão boa quanto a dos livros, que eu quebrei a cara e me decepcionei ainda mais com a série. É muito difícil explicar para alguém que não cresceu lendo Percy Jackson a importância que esses livros têm, e quão marcante eles foram na formação de tantas crianças e pré-adolescentes. Ler não fazia parte da minha rotina e eu achava a leitura um passatempo bem chato antes de conhecer e mergulhar nesse universo repleto de Olimpianos. Se você leu esses livros quando ainda era criança conhece muito bem esse sentimento sobre o qual estou falando; aquela sensação poderosa de descobrir e se encantar com um universo totalmente diferente e fantástico pela primeira vez, grandiosamente rico e repleto de aventuras e personagens encantadores. Percy, Annabeth e Grover não era somente um trio de amigos, por muito tempo eles foram meus melhores amigos e estiveram lado a lado comigo durante meu crescimento e amadurecimento. Acho que já deu para perceber que Percy Jackson tem um lugar especial no meu coração, e por isso, muitas vezes enquanto eu lia ou relia cada livro ficava imaginando quão maravilhoso seria ver tudo aquilo em uma nova mídia, na forma de filme ou série; ver ganhar vida e ser “real” tudo aquilo que por muito tempo só existiu na minha imaginação seria um sonho. O dito sonho se realizou – ou não – pela primeira vez em 2010 com a estreia do longa “O Ladrão de Raios” nos cinemas. Lembro claramente de ter gostado de algumas coisinhas no filme e odiado muito mais, de ter ficado com aquele gosto amargo e pensado que Percy Jackson merecia mais, aquilo não fazia jus ao sentimento que os livros transmitiam; infelizmente eu não sabia o que viria pela frente. Foi em 2013 quando tentaram mais uma adaptação nas telonas, com “O Mar de Monstros”, que eu parei de esperar algo bom vindo de uma adaptação de PJO. Tenho claro na minha memória a dor física que eu senti no cinema vendo esse filme tenebroso, era deprimente e revoltante não conseguirem fazer uma boa adaptação de Percy Jackson. Resolvi acreditar mais uma vez e colocar fé na Disney porquê dessa vez a adaptação seria fantástica, afinal o autor estaria totalmente envolvido. Logo no primeiro episódio quando ouvi a frase "olha, eu não queria ser um meio-sangue" arrepiei até a alma, era isso que eu estava esperando por muito tempo. Finalmente iríamos mergulhar nesse universo e esquecer tudo ao redor, viver aventuras, vibrar, ter medo e sentir tudo isso junto com o nosso trio de protagonistas. Contudo, com o passar dos episódios essa energia e essa faísca foram sumindo, dando lugar a trechos desconexos recortados do livro, que na série se tornaram apenas fragmentos vazios da história, sem emoção, sem sabor, sem coração e sem empolgação graças, principalmente, às escolhas narrativas e o modo como tudo foi colocado na tela. Foto: Divulgação/ Disney+ Há quem diga que infantilizaram demais a série e isso a tornou ruim. O problema não foi esse, longe disso; ao meu ver esse é um argumento que não faz muito sentido, já que que os livros são feitos para o público infanto-juvenil e a série do Disney+ tentou manter essa mesma pegada para atingir esse público alvo. O modo como escolheram contar a história, esse sim foi um dos grandes culpados, pois foi o responsável por deixar tudo muito apressado, cheio de lutas anticlimáticas, e com episódios curtos que não davam tempo de desenvolver a história, que até tentavam seguir o livro à risca em vários momentos, com uma adaptação bem literal e fiel, mas que mais conseguiram atrapalhar do que funcionar nessa nova mídia – um problema já típico de escritores que querem ser roteiristas de suas próprias obras. Inúmeras decisões anticlimáticas que eram tomadas ao decorrer dos episódios me irritavam profundamente, entre elas, o maldito corte seco para uma tela preta no meio de alguma cena. Quanto mais eu assistia mais ficava evidente a falta que faz uma boa direção, pois aqui quase tudo era feito no automático, sem preocupação, sem o cuidado necessário cena a cena e com uma execução extremamente bagunçada. Desde cortes ruins, posicionamentos de câmera vergonhosos até a falta de ritmo no andamento da história; sempre parecia que se tratava do mesmo tom, inexpressivo e medíocre, independente se fosse uma cena de ação, de comédia ou de tensão, tudo transmitia a mesma coisa e acabava tirando a dinamicidade da aventura. Acredito que mesmo com todos os problemas de ritmo e direção se a série contasse com um trio de protagonistas excelente, que a carregasse nas costas, ela provavelmente receberia mais crédito e se tornaria mais cativante e menos esquecível, infelizmente não foi o que aconteceu. A dinâmica entre os três, Percy (Walker Scobbell), Annabeth (Leah Jeffries) e Grover (Aryan Simhadri) é boa e não me irritou, porém, notei os atores muitas vezes apáticos, sem vontade e sem transmitir a acidez que cada personagem dos livros exala, principalmente o Percy. Nesse quesito arrisco dizer que os filmes horríveis de 2010 e 2013, mesmo com todos os problemas, conseguiram deixar como herança três protagonistas que foram memoráveis no papel. Por fim, é muito triste ver o que eles conseguiram nos mostrar tendo um material base tão rico e tão bom, mais uma vez a adaptação de Percy Jackson deixou a desejar e não alcançou a grandiosidade da qual era capaz. Não me alegro em dizer que a cada episódio que passava eu ficava mais desanimada para assistir, e só pensava em como a direção poderia ter sido melhor usada para construir tensão nos momentos certos e desenvolver adequadamente a história, talvez com episódios mais longos. Quanto mais eu penso na série, mais sinto que quem não leu os livros não conseguirá se conectar ou mesmo entender bem os personagens e suas motivações. A primeira temporada da tão aguardada adaptação de Percy Jackson e os Olimpianos infelizmente é esquecível, tediosa e não consegue trazer à tona a essência dos livros: divertir. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Sr. e Sra. Smith (1ª temporada)

    Maya Erskine e Donald Glover esbanjam talento, carisma e química em uma das melhores séries estreantes do ano. Foto: Divulgação / Prime Video Sempre que um novo reboot, revival ou remake é anunciado, a minha virada de olho é iminente, o que não aconteceu quando noticiaram uma série de Sr. & Sra. Smith. Eu adoro o filme de 2005 estrelado por Angelina Jolie e Brad Pitt, e quando soube que Donald Glover e, na época, Phoebe Waller-Bridge estariam por trás e na frente das câmeras trabalhando juntos, fiquei animado. Com a saída de Phoebe do projeto, Maya Erskine herdou o papel principal feminino, e como fã da atriz por causa da espetacular Pen15, imaginava que coisa boa viria por aí. Acertei, e nesta nova versão, John (Glover) e Jane (Erskine) ainda são dois desconhecidos, que abriram mão de suas vidas e identidades para se tornarem parceiros, na espionagem e no casamento, porque foram selecionados pela organização secreta para a qual trabalham e sabem pouquíssimo. A cena inicial da série já nos mostra que existem vários Johns e Janes, e nesta sequência eles são interpretados por Alexander Skarsgard e Eiza González. É um fato interessante que já apresenta a releitura que Glover e Francesca Sloane, co-criadora, pretendem fazer nos oito episódios que compõem esta temporada de estreia. No primeiro episódio, ainda que eu tenha gostado bastante, senti que faltou um certo dinamismo e por isso a duração de 59 minutos pesou um pouco contra, mas já no episódio seguinte, tudo estava no tom certo e minhas expectativas já estavam sendo atendidas. O formato episódico, onde cada um conta com uma missão, enquanto a relação dos personagens evolui e eles são desenvolvidos também individualmente, foi uma escolha acertadíssima do time criativo. Minha teoria é que ela foi concebida para ser exibida no modelo semanal e funcionaria ainda mais assim, até pelas passagens de tempo que existem entre um episódio e outro e como elas não são tão sentidas por quem assiste em maratona. No entanto, graças ao ótimo ritmo e a narrativa viciante, é fácil assistir um seguido do outro sem cansar. O gostinho de “quero mais” é permanente. Foto: Divulgação/ Prime Video A escalação do elenco foi outro grande acerto. Donald Glover e Maya Erskine têm talento, carisma e química de sobra para nos convencer que essas duas pessoas estranhas e solitárias, cada uma a seu modo, podem construir uma vida juntas com base em uma mentira. A cada episódio, o grau de envolvimento do casal aumenta e vamos conhecendo mais de ambos, seus pontos fortes, suas vulnerabilidades, seus medos e ambições. E claro, se apaixonando ainda mais e vendo como um se importa com o outro, mesmo com tantas diferenças nas personalidades. O timing cômico dos dois não é uma surpresa para quem já viu Community, Atlanta ou Pen15, e aqui, ainda que o drama predomine, há um belo equilíbrio para quebrar a tensão. Tudo opera tão bem nesse quesito que é fascinante assisti-los discutindo a relação de uma forma muito intensa ou falando mal de outras pessoas ferindo alguns direitos humanos, como um casal normal no cotidiano, respeitando o fato de que eles são espiões altamente treinados. Com o brilhante texto de Francesca Sloane, Stephen Glover, Donald Glover e sua equipe formidável de roteiristas, não é difícil ficar preso à tela, amparados pela direção sempre precisa e inspirada de Hiro Murai, Karena Evans, Christian Sprenger, Amy Seimetz e do próprio Glover que dirige o final da temporada. As sequências de ação são sempre empolgantes e as lutas corpo a corpo muito bem coreografadas, com agilidade e espontaneidade. A temporada inteira é um grande “Fishes” de O Urso, no que concerne às participações especiais. Todo episódio vários rostos conhecidos aparecem, indo dos já citados Skarsgard e González, até Wagner Moura, Parker Posey, John Turturro, Sharon Horgan, Billy Campbell, Michaela Coel, Ron Perlman, Sarah Paulson, Úrsula Corberó e Paul Dano. Todos com ótimos papéis e nos fazendo imaginar diversas possibilidades. Mas, com ou sem “clubismo”, preciso destacar Wagner Moura que está excelente, e o quarto episódio em que ele aparece junto com a sempre fantástica Parker Posey, é um dos melhores da temporada. Não ter expectativas para algo e ser surpreendido positivamente é muito bom, porém quando as expectativas já existem e elas são superadas, é melhor ainda. Sr. & Sra. Smith encerra sua temporada com um baita gancho e espero muito que haja logo uma confirmação de uma 2ª. No decorrer, imaginei que poderia funcionar como uma antologia e contar a história de outros Johns e Janes em eventuais anos vindouros, mas penso que a intenção é continuar com Erskine e Glover e em time que está ganhando, não se deve mexer. Já é a minha série estreante favorita de 2024 e aposto que se você der uma chance, se tornará uma das suas também. Nota: 4,5/5

  • Crítica | A Cor Púrpura

    Um espetáculo de excelência negra para uma história que merece ser recontada Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures Brasil Produzido por Oprah Winfrey, Steven Spielberg, Scott Sanders e Quincy Jones, A Cor Púrpura é uma nova e ousada versão da clássica história de amor e resiliência, adaptada do adorado romance e do premiado musical da Broadway. Separada da irmã e dos filhos, Celie (Fantasia Barrino) é uma jovem negra nos EUA no início dos anos 1900 que enfrenta muitas dificuldades em sua vida, mas encontra força na extraordinária fraternidade de três mulheres que compartilham um vínculo indissolúvel. Discutir adaptação é uma conversa para dias à fio. Em seu livro A Literatura Através do Cinema: Realismo, Magia e a Arte da Adaptação o professor e pesquisador afirma que o simples fato da mudança de um meio faz com que nenhuma adaptação seja completamente fiel à obra-base, e isso vale inclusive para traduções. E, portanto, fidelidade ao produto original não obrigatoriamente qualifica uma adaptação, isso vai dos parâmetros e das limitações de cada consumidor. Mas também não quero e nem vou transformar esse texto num artigo acadêmico com citações, referências e definições de adaptação, transmídia e derivados, mas também achei importante abrir com essa discussão para tentar construir um texto com o mínimo de comparações possível. Falo isso como alguém que leu o romance fazendo comparações entre o inglês e o português, assistiu à versão de Steven Spielberg e já viu algumas versões da peça de teatro musical. Essa é, de fato, uma adaptação que traz em sua essência as outras versões, então, acredite, é um filme que mesmo assim consegue se impor como novo, afinal, a abordagem da peça e desse filme pesam de forma diferente do que o material original. E é importante que haja um mínimo esforço para separar as adaptações, afinal o fluxo livro-filme-teatro musical-filme vem se mostrando tendência, aconteceu também em 2022 com Matilda, e 2024 com Meninas Malvadas e Wicked. Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures Brasil E na perspectiva dessa produção o enredo se torna mais leve e encorajador com a inserção de momentos imagéticos que abrandam e, porque não, enfeitam um texto que é denso por natureza. No cinema, o diretor Bob Fosse popularizou essa ferramenta de usar esse espaço exterior ao real como o lugar para os números musicais. Não há o que dizer dos quesitos técnicos que estruturam o longa. A produção é toda deslumbrante, mas nada brilha tanto quanto o elenco. Fantasia – ganhadora da terceira edição do American Idol – já viveu Celie numa das primeiras montagens da peça. E neste filme ela justifica o porquê, mesmo tendo passado duas décadas, ainda é a escolha ideal para o papel. Fantasia atua com uma verdade no olhar e canta com uma lágrima na voz de quem já teve sua cota de sofrimento na vida. Danielle Brooks, que também já interpretou sua personagem Sofia no teatro, devora os momentos em que aparece e converge a toda a atenção para ela. Da mesma forma, Taraji P. Henson também não desaparece em meio às duas já conhecidas do roteiro da peça. Os coadjuvantes masculinos Colman Domingo e Corey Hawkins também estão no tom ideal para seus personagens que, no sentido mais literal, são apenas pontos de apoio para as mulheres em cena. Existe, porém, algumas pedras no sapato da fluidez do filme que são: o excesso de cortes não só nos números musicais como também em cenas mais estáticas de diálogos simples; a mistura de tonalidades e propostas nos mais diversos momentos; e a cadência da filmagem que parece começar bem energética e compassada, e nos instantes finais precisa apressar para ter fôlego para os importantes instantes finais. E dá pra entender e quase sentir a urgência e o entusiasmo do diretor ganês Blitz Bazawule em filmar essa história. Esse é apenas o segundo longa-metragem do talentoso – que tem no currículo a codireção do musical Black is King da cantora Beyoncé – mas ele já apresenta que sabe conduzir visualmente uma narrativa antes de qualquer outra coisa (assistiam ao poético O Enterro de Kojo). Mas sinceramente a mensagem é tão poderosa que perpassa e suaviza qualquer excesso e falha do meio. Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures Brasil Hollywood sabe montar um espetáculo como ninguém, doa a quem doer. E ver negros à frente das câmeras (e também por trás delas) conduzindo um espetáculo desse porte, brilhando e contando uma história poderosa, e que impressiona através do canto, da dança, de matizes, de sombras, de texturas e de várias camadas transforma A Cor Púrpura em um filme obrigatório. É daqueles onde sentimento perpassa a técnica. É coisa de pele. É coisa da cor. Nota: 4/5

  • I CINEDEIA, mostra dedicada exclusivamente à Diversidade, Inclusão e Acessibilidade, está com inscrições abertas

    Evento se realizará do dia 16 a 25 de fevereiro, no Ceará Até o próximo dia 05 de fevereiro estão abertas as inscrições para a I CINEDEIA - Mostra Cearense Internacional de Cinema de Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade. O evento é a primeira mostra cinematográfica do Brasil voltada exclusivamente para incentivar projetos culturais essencialmente inclusivos por natureza. Serão selecionadas produções audiovisuais cearenses, com foco prioritário em grupos de audiência e de realizadores no audiovisual que ainda representam baixa porcentagem de força profissional empregada nessa indústria, assim como os temas das produções: periféricos, quilombolas, pretos, indígenas, pessoas com deficiência (PCD), mulheres, LGBTQIAPN+, idosos e pessoas com variadas crenças religiosas. A 1ª edição da Mostra Cearense Internacional de Cinema de Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade acontece de 16 a 25 de fevereiro nas cidades cearenses de Fortaleza, Limoeiro do Norte e Icó, e terá uma programação totalmente gratuita, com a exibição de longas, curtas-metragens com libras e audiodescrição O projeto é idealizado pelo cearense Lucas Paz, premiado como melhor diretor no festival de cinema Toronto LGBTQ+ em 2023 com o curta Apaga-me/Erase me e acontece de 16 a 25 de fevereiro nas cidades cearenses de Fortaleza, Limoeiro do Norte e Icó. A mostra terá uma programação totalmente gratuita, com a exibição de longas, curtas-metragens com libras e audiodescrição, previamente selecionados e convidados, além de palestras e oficinas profissionalizantes acessibilizadas. Inscrições para o I CINEDEIA - Mostra Cearense Internacional de Cinema de Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade – somente até 5 de fevereiro Inscrições gratuitas no link: https://forms.gle/2JdLDzikLLwHLeku6

  • Crítica | Bob Marley: One Love

    História inspiradora e músicas famosas sozinhas não fazem um bom filme Foto: Divulgação A cinebiografia que tem Kingsley Ben-Adir no papel principal mostra pedaços de um dos cantores mais distintos que já se viu e procura explicar como ele se tornou o nome de referência para o reggae e para a cultura jamaicana, influenciando até mesmo na conturbada história política do país. Confesso que vai ser ainda mais difícil de enxergar uma cinebiografia com os mesmos olhos depois do brilhante Segredos de um Escândalo. Mas ainda assim fui de cheio de boas intenções assistir ao filme que tenta estar a de uma das figuras mais emblemáticas da história da música. E me deparei com um longa também cheio de boas intenções, mas que cedo entrega que não vai muito além das expectativas. São muitos os problemas que fazem de Bob Marley: One Love uma produção fraca, tanto de texto quanto de visual. O filme abre com uma cena do cantor ainda criança que dura poucos segundos, e é seguida de um letreiro apresentando o cantor e tentando contextualizar de onde o enredo de fato irá começar, e essa é uma das primeiras provas de que a direção parece não saber o que fazer com a narrativa, nem mesmo como introduzir. O diretor Reinaldo Marcus Green é o responsável por outra recente cinebiografia pra lá de açucarada, King Richard - Criando Campeãs (2021), e aqui mais uma vez provou que prefere se manter na zona de conforto do artificial do que ousar em propostas diferentes. Foto: Divulgação Com 15 minutos de cena já temos umas 3 músicas cantadas ou citadas sem adicionarem qualquer camada ou informação ao texto. E entre músicas, flashbacks da infância e contexto político o roteiro tenta abraçar o mundo com as pernas e esquece de criar introspecção e desenvolver a intimidade do personagem, e quando resolve fazer é nos minutos finais. O ator Kingsley Ben-Adir faz caras, bocas e gestos que tentam bastante se assemelhar a Marley, mas infelizmente poucas vezes consegue, na maior parte do tempo não tem como não pensar que é um cover ou uma paródia ruim. Ele convenceu com muito mais facilidade e menos esforço no papel de Malcolm X em Uma Noite em Miami (2020). O melhor do roteiro é sem dúvidas a relação entre Bob Marley e Rita Marley, interpretada pela brilhante Lashana Lynch. Rita é amiga de infância, confidente, esposa e mãe de alguns dos filhos do cantor, backing vocal, e é também a pessoa de confiança, quase como uma voz externa de sua consciência. A dinâmica do “casal” é o que se tem mais orgânico, a constante busca dele por um sucesso que deve se limitar a mensagem e a arte e esbarra nos luxos e excessos faz com que ele sempre recorra a Rita para ser sua âncora da realidade. Infelizmente o filme desperdiça a oportunidade de abordar um dos maiores representantes da cultura rastafári com audácia e resolve não ousar em qualquer aspecto estético, tudo é muito “no lugar” e nada parece natural e sim claramente encenado ou montado para funcionar naquele momento apenas. Fica uma recomendação, assistam ao documentário Marley (2012), de Kevin Macdonald, para uma experiência audiovisual que faça mais jus ao grandioso artista. Nota: 2,5/5

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