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  • Crítica | A Grande Ilusão (Minissérie)

    Adaptação do livro de Harlan Coben tem saldo positivo e surpreende com desfecho Foto: Divulgação "Todas as histórias de amor terminam em tragédia... Ou o amor acaba ou, no caso dos que têm mais sorte, um vive o bastante para ver o outro morrer.” Lançada na primeira semana de 2024, a minissérie A Grande Ilusão está figurando entre os lançamentos mais assistidos na Netflix até então. Baseada na obra de Harlan Coben, é a décima terceira adaptação do autor, a oitava somente na Netflix. Seguindo a mesma linha narrativa dos livros, todas seguem um mesmo padrão: história investigativa, repleta de reviravoltas, com ação e uma pitada de suspense. Não que isso seja um problema. No caso de A Grande Ilusão conhecemos Maya Stern, uma ex-piloto de operações especiais que voltou recentemente da guerra, que perdeu o marido e a irmã com pouco tempo de diferença entre as mortes brutais. Porém, um dia, ela vê uma imagem impensável capturada pela câmera escondida em sua casa: a filha de 2 anos brincando com Joe, seu falecido marido. Questionando sua própria sanidade, Maya começa a investigar, mas todas as descobertas só levantam mais dúvidas. Conforme os dias passam, ela percebe que não sabe mais em quem confiar e para encontrar a resposta, Maya precisará lidar com os segredos profundos e as mentiras de seu passado antes de encarar a inacreditável verdade sobre tudo que aconteceu. Foto: Divulgação A minissérie com oito capítulos é uma daquelas que consegue prender o espectador, seja pela curiosidade do desfecho ou pelas reviravoltas presentes no final de cada episódio. Como falei anteriormente, a narrativa de A Grande Ilusão não se difere em muita coisa das outras séries baseadas na obra do autor. Alguma tragédia acontece e o protagonista determinado, ao tentar buscar respostas ao ocorrido, se depara com uma série de reviravoltas sobre a sua vida e tudo que ele conhece. É uma narrativa de praxe dentro das séries e livros de ação policial e que, para funcionar, precisa ir além dos seus próprios clichês. A Grande Ilusão, de fato, acerta bem na escolha do seu elenco e Michelle Keegan segura bem as pontas desta turbulenta protagonista. Isso, sem dúvidas, é um ponto extremamente positivo, já que toda a minissérie funciona ao seu entorno. Tecnicamente, A Grande Ilusão segue os mesmos moldes das outras minisséries baseadas na obra de Coben com um padrão imagético muito parecido entre elas. Ainda sim, é um bom entretenimento para quem é fã do gênero e realmente consegue surpreender com o seu series finale bastante corajoso. A Grande Ilusão não é uma obra-prima, mas tem seus méritos e dentre o catálogo recente da Netflix consegue se destacar de forma positiva. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Chama a Bebel

    Filme infantil brasileiro abusa do didatismo para contar história inspirada em Greta Thumberg Foto: Divulgação Nesta quinta-feira, 11, o longa brasileiro Chama a Bebel estreia nos cinemas de todo o país. Na história, Giulia Benite interpreta Bebel, uma jovem cadeirante que mora com sua mãe e o avô nas margens de uma rodovia no interior do Rio Grande do Sul que vê sua rotina mudar drasticamente quando se muda para a cidade grande para poder estudar em uma nova escola. Bebel então entra em uma jornada de amadurecimento entre baixos e altos, onde enfrenta muitos desafios para tentar se adaptar a uma nova cidade, incluindo sua tia, que não parece gostar muito dela, estudantes populares do colégio e até um inimigo poderoso – um empresário da cidade que faz testes laboratoriais em animais. Inspirada na ativista ambiental Greta Thunberg, Bebel se torna uma líder na escola e seus projetos, mas algumas pessoas serão capazes de qualquer coisa para impedir a garota e seus aliados. Dirigido e roteirizado por Paulo Nascimento, Chama a Bebel é a aposta da Paris Filmes deste mês de janeiro para atrair o público infantil aos cinemas. E, com uma história muito simples, a impressão que eu tive é que o roteiro abusa de um didatismo desnecessário ao tentar passar determinadas mensagens para os mais jovens. Por mais que traga temáticas importantes, essa enxurrada de informações torna a história maçante e repetitiva em alguns momentos. Foto: Divulgação No tocante da parte mais técnica do longa, Giulia Benite (que interpreta a Mônica nos filmes de Daniel Resende) prova que é uma atriz muito talentosa, assim como os atores mais velhos. Mas, o talento de Benite não segura sozinha as cenas com os outros mais jovens, que não foram tão bem dirigidos e que entregam uma performance muito abaixo da sua protagonista. Um problema muito mais de direção de elenco do que de talento individual. Chama a Bebel insere bem a questão PCD no filme sem estereotipar ou reduzir a sua protagonista a deficiência, o que é algo muito positivo para sua história. Porém, o reducionismo simplista ao seu próprio roteiro não ajuda ao longa, que mesmo com uma lição bonita no final, ao mostrar que a história se inspirou em alguns casos reais em escolas brasileiras, o saldo não é tão positivo e você termina o filme com a impressão de que assistiu um capítulo da novela Carrossel, por exemplo. Ainda assim, talvez a história ressoe melhor no seu público-alvo. Sigo na esperança. Nota: 2/5

  • Crítica | Propriedade

    A obviedade de um discurso político salva pela força do suspense Foto: Divulgação O conflito de classes tem ganhado notável espaço no cinema nacional e internacional dos últimos anos, impulsionado especialmente após a vitória de Parasita (2019) no Oscar. No nosso cinema, tal temática já é trabalhada há décadas nas mais diferentes perspectivas: da luta anticolonial e popular do Cinema Novo, passando pelas “figuras do ressentimento” individualistas do cinema de Retomada e pelas tensões político-ideológicas emergidas nos primeiros governos Lula e acentuadas pela ascensão da extrema-direita bolsonarista. Propriedade, de Daniel Bandeira, se enquadra nesse último panorama, e seu mote político é potencializado pela sua espacialidade: a Zona da Mata pernambucana, com seu histórico de engenhos e usinas de açúcar, casas-grandes e senzalas e relações de classe que aparentemente pouco mudaram desde o período colonial. Nesse sentido, se aproxima tanto de O Som ao Redor (2013) e Açúcar (2017), para citar dois exemplos recentes: a diferença está na forma, em como Bandeira conduz a história pelo viés do suspense e da violência. Na trama, Tereza (Malu Galli) é uma estilista que vive cada vez mais reclusa após sofrer um assalto e sequestro que terminou com a violenta morte do bandido. Para oferecer-lhe um pouco de paz e tranquilidade, seu marido Roberto (Tavinho Teixeira) a leva para a fazenda de sua família na Zona da Mata no seu luxuoso novo carro, que mandou blindar. Paralelamente, os empregados da fazenda recebem a notícia de que ela irá fechar para dar lugar a um hotel e por isso serão demitidos, com pouca ou nenhuma chance de ressarcimento, o que gera um sentimento de revolta coletivo que não tarda a atingir o casal de patrões. Apesar da relativa curta duração de cerca de 100 minutos, Propriedade opera num ritmo cadenciado que vai aos poucos alavancando a tensão da história, especialmente ao nos apresentar primeiro o ponto de vista de Tereza e depois dos empregados. Se a revolta destes nos parece justa, pouco há para nos fazer empatizar pela protagonista além do seu trauma (que depois de certo ponto é convenientemente ignorado), cabendo à força da atuação de Malu Galli sustentá-la até o fim, especialmente nos momentos de maior desespero e terror. Além disso, o filme não deixa de cair no clichê de tratar as massas como, bem... massas, um amontoado de rostos pouco distinguíveis uns dos outros, salvo um ou outro personagem, como aqueles interpretados por Zuleika Ferreira e Edilson Silva. Foto: Divulgação Se por um lado esse tratamento coletivo dado aos empregados dificulta uma certa conexão com suas motivações, por outro lado cai bem a um filme que evita o potencial maniqueísmo do seu discurso, como ocorre a tantas outras obras nacionais e estrangeiras, especialmente no contexto sociopolítico dos últimos anos. Bandeira está mais interessado na ambiguidade, em seguir o caminho menos fácil e cômodo, de modo que ele tampouco pinta Tereza como a “sinhazinha” vilanesca ou transforma os empregados numa unidade, permitindo que aflorem conflitos internos entre eles que impulsionam a trama. Nesse sentido, o suspense é a arma ideal para nos levar a esse caminho ambíguo e tortuoso, seja no visível ou no sugerido. Bandeira muitas vezes evita exibir frontalmente a violência para focar nas reações de Tereza, como na cena em que um personagem atira contra o carro blindado, e sabe que as consequências dessa violência podem ser ainda mais aterradoras, como no plano que exibe uma mão presa à porta do carro. A mixagem sonora do filme é outro grande acerto nesse aspecto, especialmente a partir do momento em que Tereza se vê presa no carro para sobreviver. A incapacidade dela de ouvir os empregados do lado de fora, mesmo quando esses tentam negociar para que a situação não piore, é simbólica de uma elite que jamais se prestou a ouvir seus subalternos e representa uma irreconciliável relação de classes (e também de raça, visto que a maior parte dos empregados é negra), culminando num final que, sem dar maiores spoilers, não poderia ser outro. Propriedade, portanto, tem a proeza de se inscrever num lugar-comum do cinema contemporâneo sem se prender a certas armadilhas que a sua proposta poderia trazer. Nem sempre acerta no que propõe a respeito dos seus personagens e também dos espaços que trabalha (as situações envolvendo Tereza e o carro são muito menos exploradas do que o filme prometia), mas é um excelente exemplar do audiovisual brasileiro na medida em que relaciona as tensões e conflitos de classe com o cinema de gênero. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Crescendo Juntas

    Sobre Deus e a universalidade do amadurecimento feminino Foto: Divulgação Acredito que poucos gêneros saibam tão bem transpor barreiras culturais, linguísticas e nacionais como o coming-of-age. É como se certos aspectos da vida – especialmente na infância e adolescência – fossem tão universais que é facilmente possível identificá-los mesmo em meio às especificidades e particularidades das nossas vivências. Dores, alegrias e mudanças com as quais nos conectamos aos personagens em tela, não importa quantos anos já tenham se passado. Crescendo Juntas olha pra essa universalidade dentro do âmbito feminino e a alia à figura do divino. Não que este seja um filme religioso – ele não é –, mas o Deus com quem a protagonista Margaret Simon (Abby Ryder Fortson) conversa é um veículo de escape para suas angústias, incertezas, alegrias e provações, com as quais tantas meninas e mulheres podem se identificar. A diretora Kelly Fremon Craig não é uma estranha ao coming-of-age, tendo dirigido um dos filmes mais bem-recebidos do gênero da década passada, Quase 18 (2016). Entretanto, aqui ela supera sua obra anterior ao nos fazer empatizar por cada situação vivida por Margaret, por mais simples (e ao mesmo tempo complexa) que pareça. Seja quando ela fala a Deus do desejo de mensturar pela primeira vez e seus peitos cresçam, ou quando tenta entender como seus avós maternos puderam rejeitar sua mãe Barbara (Rachel McAdams) por se casar com seu pai Herb (Benny Safdie), um homem judeu, há um interesse genuíno de Craig em filmar a obra e nos dar um olhar que confere a devida dimensão dos dilemas por quais a personagem passa e os aceitemos e até os sintamos. Foto: Divulgação Claro, esse olhar só funciona antes de tudo porque Abby Ryder Fortson entrega uma das performances mais cativantes que vi dentro do gênero. A maneira como ela é filmada, a sinceridade que confere a cada detalhe de Margaret, nos permite que criamos conexão com a protagonista, que rapidamente se tornou uma das minhas favoritas entre os filmes coming-of-age. Aliás, todo o elenco é um espetáculo, a começar pelas demais atrizes mirins que interpretam as novas amigas de Margaret (Elle Graham, Amari Alexis Price e Katherine Kupferer), todas potenciais talentos para ficar de olho nos próximos anos. No entanto, o grande destaque do filme junto a Fortson é Rachel McAdams como Barbara. A relação dela com a filha é pautada por uma beleza e ternura tocantes, ao passo em que o filme nos dá vislumbres dos seus dramas pessoais (é impossível não se emocionar com a cena em que ela finalmente explica a Margaret porque a menina nunca conheceu seus avós maternos). McAdams, uma atriz por quem sempre nutri enorme admiração nos mais diversos gêneros que explorou, entrega uma sinceridade e naturalidade que engrandecem sua personagem, e é um frescor que o filme saiba lhe entregar momentos próprios que não a definam apenas em torno da maternidade. Além disso, a presença de Kathy Bates como Sylvia, avó paterna de Margaret, faz com que o título nacional do filme ganhe completo sentido, mesmo destoando tanto do original. Não que ela chegue a receber o mesmo tempo de Fortson e McAdams, mas o roteiro (também assinado por Craig) consegue equilibrar as diferenças e semelhanças das vivências dessas três mulheres em diferentes fases da vida. Nesse sentido, é até possível perdoar o pouco espaço que Safdie tem no filme, visto que seu olhar é muito mais dirigido ao universo feminino e como ele é constituído dessa já citada universalidade (inclusive nas performances às quais as personagens precisam se submeter em nome da aceitação dos meninos/homens e também das outras meninas/mulheres), mas também dos detalhes que humanizam e singularizam essas meninas e mulheres. Dada a ressonância e atemporalidade dos temas que costuma trabalhar, o coming-of-age é o tipo de gênero cuja receita do bolo é fácil de se conhecer, já que em time que está ganhando não se mexe. Mas, ainda que não reinvente a roda (até por ser baseado em um dos livros pivotais do gênero), Crescendo Juntas é um dos melhores exemplares dos últimos anos, graças a essa condução sensível e honesta de Craig que se reflete no cuidado dado às personagens e às interpretações do elenco. Você pode até não se identificar com o drama da primeira menstruação ou de uma crise de fé, mas isso não é impeditivo para se apaixonar por esse filme. Nota: 4/5

  • Crítica | O Mundo Depois de Nós

    Sam Esmail busca trabalhar as relações humanas em meio ao apocalipse Foto: Divulgação Logo nos primeiros minutos de O Mundo Depois de Nós, Amanda Sandford (Julia Roberts) explica ao marido Clay (Ethan Hawke) porque decidiu alugar uma casa de campo longe de Nova York. Em resumo: ela odeia pessoas e quer distância delas. E isso fica ainda mais evidente quando as férias idílicas da família, composta também pelos filhos Archie (Charlie Evans) e Rose (Farrah Mackenzie), são interrompidas pela chegada do dono da casa, George “G.H.” Scott (Mahershala Ali) e sua filha Ruth (Myha’la), que foram para lá em decorrência de um apagão na cidade. A situação leva a uma convivência forçada e repleta de tensões entre as duas famílias, conforme eventos cada vez mais estranhos prenunciam o que pode vir a ser o fim do mundo. Contudo, o apocalipse parece secundário aos reais interesses do diretor e roteirista Sam Esmail, que aqui adapta o livro de mesmo nome de Rumaan Alam. Mais conhecido por seu aclamado trabalho com a série Mr. Robot (uma das minhas favoritas da vida), Esmail usa todo o arsenal da sua vasta e exuberante identidade visual – planos zenitais, planos-sequências, zoom-ins dramáticos, giros em 180° e 360° e mais – tanto para prenunciar que algo está errado quanto para trabalhar os desconfortos nas interações entre esses personagens. Nada é mais simbólico do que o plano que estabelece o primeiro contato de Amanda e Clay com G.H. e Ruth, onde ambos os pares são dramaticamente separados pela parede da casa antes que Clay convide pai e filha para entrarem, mesmo com a resistência da esposa. Ajuda muito a química do elenco, seja nos melhores ou piores momentos dos protagonistas. Os dois grandes destaques, para mim, são Roberts e Myha’la, cujas personagens não se batem desde o começo: Amanda se afirma como uma misantropa, mas mal esconde seu racismo diante da presença de G.H. e Ruth, e esta rebate a passivo-agressividade da mulher branca com deliciosas doses de sarcasmo próprias a alguém que já encarou muitas Amandas na vida e não partilha da cordialidade do pai. É a partir da oposição delas (e de Clay e G.H. como suas contrapartes) que Esmail apresenta sua tese: quando o mundo está acabando, vale mais a pena se unir para sobreviver a ele, a despeito de suas diferenças, ou “farinha pouca, meu pirão primeiro”? Foto: Divulgação É uma pena que a riqueza do estudo de personagens não se aplique em igual medida ao suspense. Não que este esteja ausente, dada a habilidade de Esmail em construir imagens memoráveis e assustadoras – seja um navio encalhando, aviões caindo ou carros Tesla se amontoando numa estrada –; isso para não falar da trilha sonora sufocante do talentoso Mac Quayle, habitual parceiro do diretor. Mas para alguém que já criou experiências assombrosas e imersivas em Mr. Robot (como suas elaboradas sequências de tiroteios ou o icônico episódio em plano-sequência), o que Esmail entrega aqui está aquém das suas habilidades e do potencial prometido pelo filme. Além disso, o clima de mistério e incerteza que permeia o longa se intensifica a cada um dos capítulos em que ele se divide, mas acaba sendo diluído na sua “explicação final” sobre o que está acontecendo. Não gosto de tentar definir um filme pelo que gostaria que ele fosse ao invés do que ele é, mas penso se não seria melhor levar essa incerteza e ambiguidade até o final ao invés de oferecer uma resposta que acaba ficando aquém do mistério que vinha sendo construído (embora a cena final das personagens de Roberts e Myha’la apresente por si só o impacto de que a explicação careceu). Apesar de sempre trabalhar com temas complexos e que miram na escuridão humana, Esmail me parece cada vez mais um otimista por natureza, mesmo que deixe para nós a interpretação sobre se no fim das contas essas duas famílias enfim se unirão frente ao apocalipse ou tomarão seus próprios rumos. A despeito da falta de ênfase no suspense e da diluição do seu mistério central, O Mundo Depois de Nós acerta na construção das dinâmicas entre seus personagens, o que é potencializado pela força de um ótimo elenco principal e a rica identidade visual de um diretor que nunca cansa de surpreender. Nota: 3,5/5

  • Oxente Pipoca participa da coletiva de imprensa da nova temporada de True Detective com Jodie Foster

    Além da atriz, estiveram também presentes Kali Reis e a showrunner Issa Lopez Foto: Ali Karakas/HBO Max No dia 01 de dezembro, o Oxente, Pipoca? participou de forma online da coletiva de imprensa da nova temporada da série antológica True Detective (HBO), subintitulada Terra Noturna. Estrelada por Jodie Foster e Kali Reis, a temporada tem Issa López como showrunner, marcando a primeira vez em que Nic Pizzolatto não assume a função, embora ainda atue como produtor executivo. Na trama, as detetives Liz Danvers (Foster) e Evangeline Navarro (Reis) precisam unir forças e superar suas desavenças para investigar o desaparecimento de oito homens numa estação de pesquisa no Alasca. Tanto Foster quanto Reis e López estiveram presentes na coletiva, realizada de forma presencial em São Paulo e transmitida online aos portais credenciados. Indagada sobre a experiência de ter atuado na série e o impacto de estar em uma produção comandada e estrelada por mulheres, Foster relembrou do seu início de carreira, ainda nos anos 70, e como poucas mulheres trabalhavam no audiovisual estadunidense, especialmente na direção. Segundo ela, porém, hoje há uma quantidade maior de diretoras e novas e interessantes vozes femininas estão surgindo no ramo. Em relação às influências adotadas para Terra Noturna, López destacou os trabalhos de John Carpenter, bem como O Iluminado, além de referências gerais da série como os filmes Se7en - Os Sete Crimes Capitais e O Silêncio dos Inocentes, o qual deu a Foster seu segundo Oscar. A showrunner destacou que a série pode ser definida no geral em duas características principais: 1) dois personagens principais que investigam um crime sem entenderem que, na verdade, eles estão investigando suas próprias almas e segredos; 2) o lugar onde eles realizam essa investigação. Segundo ela, o grande desafio foi definir um elenco cuja química estivesse à altura das temporadas passadas, e Foster e Reis proporcionaram tal química. Foto: Ali Karakas/HBO Max Foster reforçou essa visão, comentando que as tramas da série servem muito para os personagens descobrirem a si mesmos, e que muitas vezes as caçadas aos assassinos são maneiras dos protagonistas se perdoarem por seus erros passados. Ela revelou que não estava tão animada para muitas das produções que fez após O Silêncio dos Inocentes como ficou para a temporada. Esse entusiasmo foi compartilhado por Reis, que afirmou ser uma grande fã da série, da sua imprevisibilidade e profundidade, bem como dos personagens e suas personalidades. Ela também pontuou a natureza volátil e imprevisível da relação de Danvers e Navarro na série, explicando que se trata de um relacionamento que não funciona de muitas maneiras, mas que quando funciona se torna excepcional e intrigante. Questionada sobre o que Terra Noturna traria de diferente em relação às temporadas anteriores de True Detective, López disse que, ao entrar numa série que já estava em andamento, precisou se habituar a algumas regras das temporadas anteriores (como as diferentes linhas temporais e os perfis dos personagens). Entretanto, ela garantiu que a HBO lhe deu total liberdade para contar a história e que, embora ela possa ser vista como familiar por conta da temática, são nos detalhes que residirão as diferenças.

  • Crítica | Wonka

    Prequel faz jus com história clássica mas cria sua própria narrativa encantada Foto: Divulgação “Todas as coisas boas deste mundo começaram com um sonho”. A frase, repetida várias vezes durante Wonka parece resumir bem, não só a trama do filme, mas também o sentimento do telespectador ao assisti-lo. Para você que não está acompanhando os lançamentos do cinema, o longa musical Wonka chegou aos cinemas na última quinta-feira sendo estabelecido como um prequel oficial do clássico de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Aqui, quando falamos de A Fantástica Fábrica de Chocolate nos referimos ao filme de 1971, adaptado do livro de 1964 do maravilhoso Roald Dahl (sim, por favor, esqueça a versão de 2005). Neste prequel, dirigido por Paul King e com Timothée Chalamet dando vida a um jovem Willy Wonka, acompanhamos o inesquecível personagem em busca de abrir a sua primeira loja de chocolates. Porém, ao tentar se inserir nesse mercado, Willy acaba precisando enfrentar uma organização criminosa chamada de “cartel do chocolate”, liderada pelos três produtores do doce na cidade. De fato, devo dizer que quando a produção do filme foi anunciada não senti muita empolgação e tive uma certa desconfiança do que poderia ser feito com uma obra tão consolidada. Afinal, Willy Wonka é um ícone da cultura pop reconhecido de jovens à idosos por meio das suas inúmeras representações. A minha desconfiança aumentou mais ainda, na época, com a escalação do Timothée Chalamet que não me parecia ser a escolha adequada, principalmente por ele ser colocado nessa caixinha de ‘novo galã hollywoodiano’. Ainda bem que eu estava muitíssimo errada. Foto: Divulgação Falando primeiro de Timothée, acho possível cravar que essa é sim sua melhor atuação até então. Desde os números musicais até as cenas mais dramáticas, ele consegue passar uma doçura e ingenuidade que compõem o personagem muito bem. Afinal, Willy está ali, em busca de um sonho, tentando sentir sua mãe já falecida cada vez mais perto por conta do chocolate. Mesmo sendo um personagem muito carismático e engraçado, toda carga emocional está bem forte no filme e ele consegue lidar bem demais com essa dualidade. Porém, Timothée não é o único ator que está muito bem no filme. A fofíssima e talentosa Calah Lane é um dos trunfos de Wonka como Noodle, se tornando uma dupla perfeita em cena com Timothée. Além dos dois, o longa conta com atores consolidados (e maravilhosos em cena) como Olivia Colman, Sally Hawkins, Keegan-Michael Key e Rowan Atkinson. Outro destaque do filme é, sem dúvidas, Hugh Grant como um Oompa-Loompa, entregando as cenas mais divertidas da projeção. Tecnicamente, Wonka é impecável. Sua fotografia consegue transmitir a magia de uma história tão maluca diante da realidade em que vivemos. Chocolates que fazem voar? Doces feitos com leite de girafa? Tudo parte de uma premissa completamente fantasiosa e ganha vida com cores e formas encantadoras. Bem dirigido e com um roteiro simples (mas muito eficaz para sua proposta), Wonka também acerta na trilha sonora e nos seus atos musicais, que são divertidos, animados e cativantes, tudo na medida certa. O saldo de assistir Wonka nos cinemas é mais do que positivo. Mais que todos os pontos já citados acima acerca da sua qualidade cinematográfica, o longa nos coloca em um lugar como telespectador que poucos filmes conseguem. Obviamente, Wonka não é o melhor filme do ano ou o mais bem executado. Mas, o encantamento e mundo mágico que ele nos leva a visitar é único. É quase como sonhar acordado. E, em um lugar onde todas as coisas boas do mundo começaram com um sonho, ver e imaginar esse universo quase parece um. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Twisted Metal (1ª temporada)

    Adaptação traz história caótica com resultado surpreendentemente positivo Foto: Divulgação Antes de começar essa crítica, devo dizer que sou totalmente desfamiliarizada com a obra do videogame e meu primeiro contato com a série Twisted Metal aconteceu por acaso, acompanhando os lançamentos semanais da HBO Max. Twisted Metal chama atenção de cara pelos seus dois rostos principais: Anthony Mackie (o Falcão, dos filmes da Marvel) e Stephanie Beatriz (Rosa Diaz, de Brooklyn Nine-Nine). E, com dez episódios de mais ou menos 30 minutos cada, foi fácil dar uma chance para a trama. E ela parece loucura desde o começo. Na história, John Doe (Mackie) é só mais um pobre coitado tentando sobreviver no pós-apocalipse. Ele é um leiteiro, responsável por fazer entregas entre as pseudocidades existentes após o mundo que conhecemos colapsar. É em um desses trabalhos, que John recebe a proposta de fazer uma entrega muito valiosa do outro lado do país para, em troca, receber asilo em uma das cidades protegidas. A premissa simples e clichê em tramas nesse cenário é bem executada e as peculiaridades da série acerca dessa realidade introduzem histórias que vão desde palhaços psicopatas até comunidades que escravizam pessoas mais pobres em meio ao apocalipse. É tudo muito extremo e meio maluco, mas, compreensível dentro da sua proposta e mesmo sem um tom óbvio de crítica, é possível perceber nas entrelinhas o que Twisted Metal também pretende passar. Foto: Divulgação Com um baixo orçamento (a série é desenvolvida pela Peacock e apenas distribuída no Brasil pela HBO Max), os efeitos especiais são práticos e dão um ar trash que combina bastante com a história, mas nada que atrapalhe a experiência de assisti-la, por exemplo. O que é o seu maior diferencial é a excelente atuação do seu casal protagonista, que com bastante química, consegue envolver o telespectador dentro dos seus próprios dramas particulares. Mérito, é claro, dos maravilhosos Anthony Mackie e da Stephanie Beatriz. Ela, em particular, tem momentos muito bons que se alternam em uma personagem durona e lutadora para uma jovem lidando com uma enorme perda. Como eu disse antes, não tive contato com o videogame e não posso julgar Twisted Metal como adaptação, mas, dado ao conjunto da obra, é uma série estranha e curiosamente divertida de ser assistida. Com a segunda temporada já confirmada, tenho a impressão que ela, provavelmente, não será considerada uma das melhores séries do ano pelo seu público, mas, ainda sim, vale a pena ser assistida pelo conjunto da sua obra. Nota: 3/5

  • Crítica | Assassinato no Fim do Mundo (Minissérie)

    Quando Agatha Christie encontra a alta tecnologia Foto: Divulgação Todo mundo já está familiarizado com os artifícios da famosa escritora de mistério e como eles são usados em diversas produções, boas ou não. Felizmente aqui, Brit Marling e Zal Batmanglij conseguem contar a história de uma detetive amadora da Geração Z de uma maneira muito instigante, se utilizando bastante da contemporaneidade e trazendo uma identidade própria para a minissérie. Darby Hart (Emma Corrin) é o Poirot da vez, que é também uma hacker, e a trama começa quando a moça e mais oito pessoas são convidadas por um bilionário recluso para participar de um retiro em um local remoto e deslumbrante. Quando um dos convidados é encontrado morto, Darby tenta usar todas as suas habilidades para provar que foi um assassinato, enfrentando uma maré de interesses conflitantes, e antes que o assassino tire outra vida. Uma sinopse um pouco adaptada da que está disponível no Star+, para evitar spoilers. A narrativa não-linear se alterna entre o presente e o passado de Darby, enquanto ela investigava um caso com Bill (Harris Dickinson), seu parceiro de trabalho e amor da sua vida, mesmo que naquele momento ela ainda não saiba disso. Os flashbacks importam mais pelo desenvolvimento dos personagens como indivíduos e como casal do que pelos crimes que estão tentando desvendar ali. As paisagens gélidas da atualidade contrastam perfeitamente com as cores quentes de quando a narrativa se transporta ao passado, e não é à toa que ali Darby e Bill estavam em seus momentos mais apaixonados, enquanto as cores frias predominam no presente, assim como a solidão e o luto que Darby sente, já que a pessoa que morreu é alguém importante para a moça. Ela e Bill não estão mais juntos e aos poucos vamos entendendo o porquê, mas essa conexão com a belíssima fotografia é crucial para acompanhar essa história de amor e mistério, que ainda é embalada por uma trilha sonora incrível. A minissérie possui um grande elenco, além de Corrin e Dickinson e sua intensa química, ainda estrelam Clive Owen, como o bilionário Andy Ronson, a própria Brit Marling, como Lee Andersen, uma grande hacker e esposa de Andy, e claro, minha querida Alice Braga, em um ótimo papel que não ressalta estereótipos brasileiros e apenas exalta o seu talento. Além deles ainda temos mais seis convidados e os funcionários do retiro e nem todos ganham tantos holofotes, o que é justificável, já que não é o ponto da produção. No entanto, o destaque maior vai para Corrin e sua Darby, que é uma baita protagonista. Tímida, mas não é introvertida, ela tem uma inquietude desesperada para descobrir a verdade, isso enquanto lida com sentimentos conflitantes, o que faz com que ela meta os pés pelas mãos vez ou outra, e isso só a torna mais humana e é onde Corrin brilha com sua delicadeza e sutileza, e quando a cena pede uma exaltação maior, jamais foge do tom, mostrando seu profissionalismo de primeira. Foto: Divulgação São sete episódios no total e eles são o suficiente para que a trama não faça rodeios desnecessários. A exibição semanal é sempre meu modelo favorito e os excelentes ganchos deixados a cada fim de capítulo me deixavam ainda mais ansioso para o que viria a seguir. A princípio, parece que no panorama geral há algo maior que interliga os assassinatos e critica a dependência da tecnologia, do capitalismo e como os super ricos se beneficiam disso. De fato, o roteiro faz isso, mas no fim é o lado humano que importa. Mesmo que as revelações não sejam exatamente surpreendentes, elas são cabíveis e honestas diante de todo o contexto que foi construído até então. No último episódio, nada mais Agatha Christie do que reunir todos os personagens que sobraram em um único ambiente, onde eles são confrontados por seus segredos, até que o assassino seja revelado. O texto da cena é expositivo e é necessário muito equilíbrio entre atuações e direção para que a linha tênue do cafona não seja ultrapassada – como foi, em uma sequência que envolve uma destruição de um aparato tecnológico, devo dizer –. O saldo final é extremamente positivo e eu gosto como a minissérie traz os elementos clássicos de um “quem matou?” e mistura com toda essa modernidade que vivemos hoje, mesmo que nós, reles mortais, não tenhamos acesso a uma Inteligência Artificial como Ray, por exemplo. Não sei se foi o trauma de ‘The OA’ ter sido cancelada sem um devido final, mas a dupla Brit Marling e Zal Batmanglij não quiseram deixar nem um i sem pingo dessa vez. Pessoalmente, eu preferiria que algumas coisas tivessem sido deixadas em aberto, mas isso não é um grande incômodo e em nada atrapalha a experiência de assistir a esta minissérie que chegou nos 45 do segundo tempo e ainda conseguiu ser uma das melhores do ano. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Maestro

    Um filme sobre dois grandes condutores: Bernstein, na orquestra, e Cooper, na direção Foto: Divulgação Quando Nasce uma Estrela (2018), filme bastante aclamado pela crítica e pela audiência, não rendeu a Bradley Cooper uma indicação de Melhor Diretor no Oscar, ele não fez questão de disfarçar sua decepção. Em qualquer entrevista na qual o tópico fosse levantado, ele mencionava a importância da nomeação por seus pares. Agora em seu segundo longa, Maestro, disponível 20 de dezembro na Netflix, ele também não nega que está atrás de ter seu nome na categoria. Ao recuperar a vida e a carreira do músico Leonard Bernstein – Lenny para os íntimos –, Cooper, que além de dirigir também protagoniza e co-escreve o roteiro, este ao lado de Josh Singer, mira nas estrelas. Ele se arrisca desde o primeiro momento, ao tentar o cargo de diretor. Ninguém menos que Steven Spielberg (que, depois de dirigir Amor, Sublime Amor (2021), musical de composição de Bernstein, se interessa e ganha direitos sobre a biografia do maestro) estava certo de ser diretor. O contato deste com Cooper veio apenas para oferecer o papel. Mas o (até então apenas) ator o convidou para uma sessão do seu primeiro longa ainda não finalizado para tentar roubar-lhe o cargo. E deu certo: antes mesmo da metade do filme Spielberg já tinha lhe passado a tocha, se resumindo na produção, ao lado de outro gênio da sétima arte, Scorsese. Com esse time de gigantes o supervisionando, Cooper toma a liberdade para experimentar com as ferramentas que tem. Seja na dicotomia entre preto e branco e cores, na brincadeira com a proporção da tela, nos ambiciosos e lúdicos planos de plongée absoluto (câmera de cima para baixo, num ângulo de 90º) e nas rápidas passagens de tempo, fica claro a paixão do diretor pela história contada e, sobretudo, pelo cinema. Mas nem só de amor e boas ideias vive um filme. É preciso saber o que está sendo contado, o que não parece ser o caso de Maestro. Apesar de todos os seus muitos méritos técnicos – destaco aqui a fotografia e, evidentemente, a trilha sonora –, não fica claro sobre o que é o filme. Foto: Divulgação Na primeira cena tomamos ciência do amor de Lenny por Felicia. Na segunda, que o músico se relaciona com homens. Logo depois, em uma rápida sequência, o jovem se torna pela primeira vez ser o maestro regente da Orquestra Filarmônica de Nova York, é bem-sucedido na missão e ganha destaque no ramo. Esse início já dá o tom do vai-e-vem temático que será estabelecido nas próximas duas horas. Uma ajuda nesse quesito está no fato de Felicia ser interpretada por uma Carey Mulligan no auge de sua atuação, engolindo qualquer um que está em cena com ela, incluindo o próprio Cooper. Assim, ela faz parecer que o filme é tão sobre ela quanto sobre ele. Mas como poderia, se não sabemos o suficiente sobre ela? A todo tempo vemos Felicia, uma famosa atriz de seu tempo, à mercê do marido, ou das consequências de tê-lo escolhido como tal. Não sabemos quem ela é além desse casal – que mais parece uma dupla de parceria, uma vez que ela se mostra ciente das traições do amado e opta por ignorá-los, prezando pela imagem, carreira e família de ambos. Mas o filme também não poderia ser sobre o Leonard maestro, visto que em boa parte das sequências a profissão é deixada em segundo plano, dando lugar aos seus conflitos pessoais, que o levam a uma “melancolia” que ele mesmo tem dificuldade de explicar. Seria então o filme sobre seus confrontos internos? Não exatamente, pois seu psicológico também não encontra espaço suficiente dentre os vários conflitos da trama e sua sexualidade é tratada com um pudor um tanto questionável. Não é como se a confusão fosse totalmente infundada. Bernstein é profissionalmente ambicioso, tem uma sexualidade aflorada (especialmente para homens) e ama incondicionalmente Montealegre e a família que constroem juntos. Todos esses pontos são verdadeiros e deixados bem claros no filme. Mas, durante as rápidas transições de tempo, não sabemos bem a qual desses pontos devemos dar mais importância, de modo que, a certa altura, todos se tornam mornos e nenhum ganha a profundidade que merece. O que temos onipresente é o olhar à intimidade de alguém que ganhou fama ao dar as costas ao público e conduzir. Leonard Bernstein deixa de ser um artista renomado e passa a ser um homem complexo, imperfeito, sexual, egoísta, amoroso e genial. Já Bradley Cooper, que, ao contrário, conquistou a fama ao servir seu rosto como galã das telonas, agora revela sua intimidade ao ficar atrás delas, conduzindo sua arte com seriedade, criatividade e paixão. E por esses dois, apesar do desarranjo narrativo, o filme certamente vale a audiência. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho

    A máfia com samba no pé Foto: Divulgação Não gosto muito de fazer comparações ou analogias nas minhas críticas. Primeiro porque cada obra é uma obra e segundo porque ninguém precisa ver A para entender B. Mas abro aqui uma exceção. Eu diria que é inevitável mencionar Poderoso Chefão (1972) e Família Soprano (1999-2007) para falar de Vale o Escrito. A própria série documental e seus entrevistados estabelecem tais referências diversas vezes. Então não, você não precisa ter visto filmes e séries de máfia para gostar de Vale o Escrito… mas se você gosta de filmes e séries de máfia, vai adorar Vale o Escrito. A produção, exibida em sete episódios pela Globoplay, traz tudo que um fã do gênero aprecia: personagens extravagantes, violência desproporcional, luxo indiscriminado, homens com sede de poder (muitas vezes manipulados por mulheres sagazes), código de ética próprio, linha de sucessão, corrupção institucional, escândalo midiático e, na cereja do bolo: envolvimento político com o próprio ex-presidente da república e seus filhos. Acredito que, como eu, o brasileiro médio tenha conhecimento do jogo do bicho principalmente como um esquema de apostas ilegal mas bastate ativo. Lembro de escutar o termo “bicheiro” vez ou outra durante o noticiário de algum crime hediondo no Rio de Janeiro. Mais que isso, não fazia ideia do que se passava. Acho que imaginava um submundo operado nas sombras por pessoas com disfarces e codinomes. Tamanha foi minha surpresa quando percebi que era precisamente o contrário. De submundo, o jogo do bicho não tem nada, uma vez que nunca tentou se esconder. Seu movimento, na verdade, sempre foi de divulgação: começa como uma inocente brincadeira de apostas no zoológico, ganha as ruas do rio e, quando se torna contravenção, a avenida – e não qualquer avenida, mas sim a Marquês de Sapucaí. É que os bicheiros buscaram validação social – e, claro, fama e mulheres – ao apadrinhar e presidir as mais famosas escolas de samba cariocas. Foto: Divulgação Não deveria surpreender, então, que muitos dos personagens dessa história (os que estão vivos, pelo menos) tenham aceitado ser entrevistados para o documentário. Mas não deixa de ser espantoso como eles conseguiram reunir tantas pessoas para, de forma tão serena, deixar registrado o seu lado da história – lados que muitas vezes se contradizem, tornando tudo ainda mais interessante. A única coisa em que podemos confiar é na impressionante e minuciosa pesquisa de arquivos realizada pela equipe da série, que levou três anos para ser realizada. Para contar essa história, roteirizada por Fellipe Awi e Ricardo Callil, brilhantemente dirigida por estes e por Gian Carlo Bellotti, com supervisão artística e narração de Pedro Bial, opta-se por tomar como fio condutor a vida de duas protagonistas literalmente dignas de novela: Shanna e Tamara Garcias, gêmeas que se auto comparam com as icônicas Ruth e Raquel. Até chegar a elas, somos apresentados às cinco famílias que comandam o jogo do bicho na cidade do Rio de Janeiro. A paz e a camaradagem são alcançadas graças à cúpula formada pelo alto escalão, que divide as áreas por bicheiro, como num tabuleiro de War. Porém a tranquilidade dura pouco e, quando novas gerações passam a entrar na disputa, assassinatos brutais começam a surgir. Uma das dessas vítimas é Maninho Garcia, pai das gêmeas, que deixa uma lacuna na linha de sucessão, impossibilitada de ser preenchida por mulheres. Daí para frente somos apresentados a uma série de disputas internas que fogem ao proporcional para qualquer cidadão comum, sempre comentadas por coadjuvantes que enriquecem ainda mais essa já muito opulenta narrativa. Vale o Escrito não é uma série qualquer. Ela não tem mocinhos nem heróis. Tem início mas ainda não sabemos o fim. E, certamente, não tem moral da história. Mas ainda assim, ou talvez por isso, entra imediatamente para o hall da fama de grandes produções documentais desse país. Nota: 5/5

  • Crítica | DNA do Crime (1ª temporada)

    Série se perde nos clichês americanos na hora de contar história verdadeiramente brasileira Foto: Divulgação Após um assalto de proporções épicas a uma instalação de uma seguradora de valores no Paraguai, os policiais federais da delegacia de Foz do Iguaçu empreendem uma investigação complexa que envolve um grupo de crime organizado que atua em diversos estados e países da fronteira com o Brasil. Essa é a premissa básica de DNA do Crime, série brasileira lançada em novembro pela Netflix. Com a alcunha de ser a primeira série policial nacional do streaming, em sua semana de estreia, atingiu a posição número um do Top 10 Brasil e Global da Netflix, sendo reconhecida como a série de língua não-inglesa mais assistida no país e no mundo. O sucesso dos seus oito episódios se deve às boas cenas de ação da trama e da qualidade do seu elenco, que segura um roteiro emaranhado de clichês de forma surpreendente. No front desta investigação, temos três personagens que são o ponto propulsor da série. Do lado policial, conhecemos a agente Suellen (Maeve Jinkings), que está retornando após a sua licença maternidade, e Benício (Rômulo Braga), um agente repleto de problemas pessoais que está lidando com a perda do seu antigo parceiro após uma invasão à um presídio. Do outro lado, somos apresentados a Sem Alma (Thomás Aquino), um dos líderes da organização criminosa, que também esteve presente na invasão que vitimou o antigo parceiro de Benício. Foto: Divulgação DNA do Crime gira entre esses três personagens, tornando a história envolvente pela qualidade dos atores desses protagonistas. Eles são o ponto forte da narrativa pela profundidade que eles conseguem dar ao contar a história individual de cada um. Outro ponto positivo é a boa química entre eles, especialmente entre Jinkings e Braga interpretando essa dupla meio disfuncional nessa missão. A trama de DNA do Crime é baseada em uma ocorrência que de fato existiu. Em 2017, uma seguradora paraguaia foi assaltada por uma gangue brasileira, que embolsou oito milhões de dólares. O caso foi noticiado na época como “o maior assalto da história do Paraguai” e o seu ponto de virada acontece quando a Polícia Federal decide usar a análise de DNA para ajudar na investigação. Esse gancho da trama, que dá o nome da série, tem a sua importância destacada, mas, parece ficar em segundo plano na maior parte do tempo, dando foco aos dois policiais protagonistas, suas perseguições repletas de ação e dramas pessoais, do que de fato mostrando os pormenores dessa tecnologia revolucionária. Focar nisso, talvez, desse mais fôlego à narrativa, que parece se perder dentro dos clichês já propostos milhares de vezes por outras séries do gênero. Não me leve a mal, DNA do Crime tem seu mérito e é muito boa tecnicamente mas, talvez para se encaixar aos gostos de um público de massa, entregou um produto engessado, sem nenhum elemento que a diferencie das milhares de séries policiais do catálogo da Netflix. Ainda assim, é sempre bom ver mais produções brasileiras no streaming, e, com a confirmação da segunda temporada, resta torcer para que a série se aprofunde não só no tema dito como o principal da sua história, mas também busque uma identidade própria na hora de contar uma trama verdadeiramente brasileira. Nota: 3/5

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