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  • Crítica | Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho

    A máfia com samba no pé Foto: Divulgação Não gosto muito de fazer comparações ou analogias nas minhas críticas. Primeiro porque cada obra é uma obra e segundo porque ninguém precisa ver A para entender B. Mas abro aqui uma exceção. Eu diria que é inevitável mencionar Poderoso Chefão (1972) e Família Soprano (1999-2007) para falar de Vale o Escrito. A própria série documental e seus entrevistados estabelecem tais referências diversas vezes. Então não, você não precisa ter visto filmes e séries de máfia para gostar de Vale o Escrito… mas se você gosta de filmes e séries de máfia, vai adorar Vale o Escrito. A produção, exibida em sete episódios pela Globoplay, traz tudo que um fã do gênero aprecia: personagens extravagantes, violência desproporcional, luxo indiscriminado, homens com sede de poder (muitas vezes manipulados por mulheres sagazes), código de ética próprio, linha de sucessão, corrupção institucional, escândalo midiático e, na cereja do bolo: envolvimento político com o próprio ex-presidente da república e seus filhos. Acredito que, como eu, o brasileiro médio tenha conhecimento do jogo do bicho principalmente como um esquema de apostas ilegal mas bastate ativo. Lembro de escutar o termo “bicheiro” vez ou outra durante o noticiário de algum crime hediondo no Rio de Janeiro. Mais que isso, não fazia ideia do que se passava. Acho que imaginava um submundo operado nas sombras por pessoas com disfarces e codinomes. Tamanha foi minha surpresa quando percebi que era precisamente o contrário. De submundo, o jogo do bicho não tem nada, uma vez que nunca tentou se esconder. Seu movimento, na verdade, sempre foi de divulgação: começa como uma inocente brincadeira de apostas no zoológico, ganha as ruas do rio e, quando se torna contravenção, a avenida – e não qualquer avenida, mas sim a Marquês de Sapucaí. É que os bicheiros buscaram validação social – e, claro, fama e mulheres – ao apadrinhar e presidir as mais famosas escolas de samba cariocas. Foto: Divulgação Não deveria surpreender, então, que muitos dos personagens dessa história (os que estão vivos, pelo menos) tenham aceitado ser entrevistados para o documentário. Mas não deixa de ser espantoso como eles conseguiram reunir tantas pessoas para, de forma tão serena, deixar registrado o seu lado da história – lados que muitas vezes se contradizem, tornando tudo ainda mais interessante. A única coisa em que podemos confiar é na impressionante e minuciosa pesquisa de arquivos realizada pela equipe da série, que levou três anos para ser realizada. Para contar essa história, roteirizada por Fellipe Awi e Ricardo Callil, brilhantemente dirigida por estes e por Gian Carlo Bellotti, com supervisão artística e narração de Pedro Bial, opta-se por tomar como fio condutor a vida de duas protagonistas literalmente dignas de novela: Shanna e Tamara Garcias, gêmeas que se auto comparam com as icônicas Ruth e Raquel. Até chegar a elas, somos apresentados às cinco famílias que comandam o jogo do bicho na cidade do Rio de Janeiro. A paz e a camaradagem são alcançadas graças à cúpula formada pelo alto escalão, que divide as áreas por bicheiro, como num tabuleiro de War. Porém a tranquilidade dura pouco e, quando novas gerações passam a entrar na disputa, assassinatos brutais começam a surgir. Uma das dessas vítimas é Maninho Garcia, pai das gêmeas, que deixa uma lacuna na linha de sucessão, impossibilitada de ser preenchida por mulheres. Daí para frente somos apresentados a uma série de disputas internas que fogem ao proporcional para qualquer cidadão comum, sempre comentadas por coadjuvantes que enriquecem ainda mais essa já muito opulenta narrativa. Vale o Escrito não é uma série qualquer. Ela não tem mocinhos nem heróis. Tem início mas ainda não sabemos o fim. E, certamente, não tem moral da história. Mas ainda assim, ou talvez por isso, entra imediatamente para o hall da fama de grandes produções documentais desse país. Nota: 5/5

  • Crítica | DNA do Crime (1ª temporada)

    Série se perde nos clichês americanos na hora de contar história verdadeiramente brasileira Foto: Divulgação Após um assalto de proporções épicas a uma instalação de uma seguradora de valores no Paraguai, os policiais federais da delegacia de Foz do Iguaçu empreendem uma investigação complexa que envolve um grupo de crime organizado que atua em diversos estados e países da fronteira com o Brasil. Essa é a premissa básica de DNA do Crime, série brasileira lançada em novembro pela Netflix. Com a alcunha de ser a primeira série policial nacional do streaming, em sua semana de estreia, atingiu a posição número um do Top 10 Brasil e Global da Netflix, sendo reconhecida como a série de língua não-inglesa mais assistida no país e no mundo. O sucesso dos seus oito episódios se deve às boas cenas de ação da trama e da qualidade do seu elenco, que segura um roteiro emaranhado de clichês de forma surpreendente. No front desta investigação, temos três personagens que são o ponto propulsor da série. Do lado policial, conhecemos a agente Suellen (Maeve Jinkings), que está retornando após a sua licença maternidade, e Benício (Rômulo Braga), um agente repleto de problemas pessoais que está lidando com a perda do seu antigo parceiro após uma invasão à um presídio. Do outro lado, somos apresentados a Sem Alma (Thomás Aquino), um dos líderes da organização criminosa, que também esteve presente na invasão que vitimou o antigo parceiro de Benício. Foto: Divulgação DNA do Crime gira entre esses três personagens, tornando a história envolvente pela qualidade dos atores desses protagonistas. Eles são o ponto forte da narrativa pela profundidade que eles conseguem dar ao contar a história individual de cada um. Outro ponto positivo é a boa química entre eles, especialmente entre Jinkings e Braga interpretando essa dupla meio disfuncional nessa missão. A trama de DNA do Crime é baseada em uma ocorrência que de fato existiu. Em 2017, uma seguradora paraguaia foi assaltada por uma gangue brasileira, que embolsou oito milhões de dólares. O caso foi noticiado na época como “o maior assalto da história do Paraguai” e o seu ponto de virada acontece quando a Polícia Federal decide usar a análise de DNA para ajudar na investigação. Esse gancho da trama, que dá o nome da série, tem a sua importância destacada, mas, parece ficar em segundo plano na maior parte do tempo, dando foco aos dois policiais protagonistas, suas perseguições repletas de ação e dramas pessoais, do que de fato mostrando os pormenores dessa tecnologia revolucionária. Focar nisso, talvez, desse mais fôlego à narrativa, que parece se perder dentro dos clichês já propostos milhares de vezes por outras séries do gênero. Não me leve a mal, DNA do Crime tem seu mérito e é muito boa tecnicamente mas, talvez para se encaixar aos gostos de um público de massa, entregou um produto engessado, sem nenhum elemento que a diferencie das milhares de séries policiais do catálogo da Netflix. Ainda assim, é sempre bom ver mais produções brasileiras no streaming, e, com a confirmação da segunda temporada, resta torcer para que a série se aprofunde não só no tema dito como o principal da sua história, mas também busque uma identidade própria na hora de contar uma trama verdadeiramente brasileira. Nota: 3/5

  • Crítica | Rustin

    Colman Domingo triunfa sobre o resultado genérico Foto: Divulgação A produção conta como o ativista Bayard Rustin (Colman Domingo), conselheiro de Martin Luther King Jr. (Aml Ameen), conseguiu organizar a maior marcha pacífica da história dos EUA na década de 60 em prol dos direitos dos negros e demais questões raciais. Rustin dedicou a sua vida aos direitos humanos e à democracia mundial e enfrentou autoridades e posicionamentos públicos para atingir seus objetivos. Por mais que seja uma história inspiradora, ainda bem socialmente relevante e sobre um acontecimento histórico, o filme não consegue imprimir um resultado à altura dessa grandiosidade. O diretor George C. Wolfe não se mostrou inspirado em muitos aspectos da direção ou pelo menos não deixou o fluxo orgânico e azeitado como aconteceu em seu último trabalho A Voz Suprema do Blues (2020). O acabamento parece ter sido feito de modo apressado e sem refino algum. Visualmente o resultado é, infelizmente, tão genérico quanto qualquer outra peça da linha de produção em série da Netflix. Entre os problemas mais incômodos estão a iluminação e a mesclagem ruins entre cenários digitais e personagens reais como nas cenas que se passam no Lincoln Memorial. O uso de efeitos visuais questionáveis em momentos chave como o grande protesto fica ainda mais claro quando o diretor resolve intercalar gravações originais com cenas gravadas para o filme. Foto: Divulgação O roteiro é todo focado na marcha e na vida de Rustin durante o período em que ele tentou fazer acontecer esse evento. Por ser um homem negro e assumidamente gay nos EUA dos anos 60 ele tinha tudo conspirando contra seu benefício, e o texto faz questão de enfatizar os grandes discursos para reforçar essas problemáticas. Ainda assim, o argumento não se demora tentando mostrar o passado de Rustin ou outras situações que fujam do foco principal, na verdade os curtos vislumbres em preto e branco funcionam como muito bem na proposta de contrapor e completar a narrativa. O texto também usa bastante do artifício de criar personagens inspirados por personalidades reais para sintetizar situações, facilitar exemplos e claro, evitar problemas. Colman Domingo é o corpo e a alma do longa-metragem. O ator conseguiu ler o personagem sem se apoiar em maneirismo e trejeitos, construindo uma atuação forte nas nuances das entonações. Entre os nomes do elenco coadjuvante que se destacam Gus Halper, que interpreta o também ativista Tom Kahn, e Johnny Ramey, que dá vida a Elias Taylor, um pastor que se envolve com Rustin e que não existiu, mas foi inspirado por pessoas próximas ao personagem-título. Por ser conduzido por uma atuação brilhante e por tornar conhecida uma história pouco lembrada (em comparação a outros e eventos e nomes da época), o filme merece reconhecimento. Mas fora isso ficou na casa do “feito é melhor do que perfeito”, o que limitou e desperdiçou as chances de ter um longa polido, bem desenhado e com mais personalidade. Nota: 3/5

  • Crítica | Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes

    Um espetáculo sujo e político sobre arrogância, traição e poder Foto: Divulgação Jogos Vorazes iniciou sua jornada na terra em 2008, quando o primeiro livro da trilogia foi lançado, e em 2012 ganhou sua adaptação para as telas do cinema pelas mãos de Gary Ross. A partir do segundo filme, a obra passou para as mãos de Francis Lawrence, que fez de Em Chamas a maior das adaptações tanto em aclamação do público quanto em bilheteria. E continuando em suas mãos a saga encerrou em 2015 com A Esperança Parte Final. Então em 2020, Suzanne Collins surge com um prequel de sua criação: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, contando sobre a ascensão de Coriolanus Snow, um adolescente de uma família falida que dentre mentiras e fingimentos tomou o caminho para se tornar o já conhecido Presidente Snow. Em sua décima edição, os jogos vinham “sofrendo” por não haver popularidade e atenção do público da Capital. Acontecendo em uma pequena arena e de maneira rápida, os organizadores precisavam com urgência remodelar aquilo para que atraísse audiência, e é aí que entra Snow. Sua turma estava se formando, e a organização do evento tomou a ação de fazer dos alunos os mentores dos tributos, e aquele que tivesse a melhor performance ganharia o prêmio Plinth, que deveria ser entregue ao aluno de melhores notas. Snow acaba ficando com Lucy Gray Baird, a jovem tributo do distrito 12, que fazia parte de um bando viajante de artistas. A Partir disso ele se vê obrigado a criar uma ligação com a garota do 12 para que consiga vencer a edição. Se tratando de Snow, é difícil não pensar nas ligações entre o fim e o início de sua jornada à frente dos jogos vorazes e em como o distrito 12 teve um papel importante nisso, e é interessante conhecê-lo quando ainda era um zé-ninguém. Por mais que a missão de interpretar um personagem que se tornou famoso na atuação de Donald Sutherland seja difícil, Tom Blyth faz o possível para entregar o que foi pedido naquela fase da vida de Coriolanus. O foco da história está em mostrar como Snow tinha a pretensão de se tornar uma figura importante, e o longa nos apresenta quatro personagens que tiveram participação nisso, são eles; Sejanus Plinth (Josh Andres Rivera), Lucy Gray Baird (Rachel Zegler), Dra. Volumnia Gaul (Viola Davis) e Casca Highbottom (Peter Dinklage). Sejanus, o então único amigo de Snow era filho de uma família que se tornou importante e rica na Capital, o relacionamento dos dois é um tanto complicado, pois, ao contrário do protagonista, Sejanus Plinth era inteiramente contra a existência dos jogos e das atitudes daquele governo. Isso cerca os dois durante todos os momentos de interação no filme, com Snow fazendo papel de menino bom e obediente sempre de olho nas rebeldias de seu companheiro. Rivera consegue passar a revolta de Sejanus Plinth e a fragilidade de seu medo e existência naquele meio. Foto: Divulgação Se tratando de Rachel Zegler temos um tópico sensível. Lucy Gray Baird era descrita como uma personagem carismática e astuta, e que conquistava as pessoas com facilidade, e sua escolha para o elenco trouxe certo descontentamento (incluindo este que escreve), mas, dando o braço a torcer, ela conseguiu se sair bem dentro do que foi pedido, apesar de em alguns momentos ser um tanto desconfortável de vê-la no papel, ela se destaca pelo canto e pela voz. Quanto à Dra Gaul, que tem uma interpretação despojada de Viola, é uma personagem um tanto caricata, mas provocante. Ela é a pessoa certa para estar à frente daquilo, pois ela vê os jogos como o espetáculo que deveria ser, e é de todos a mais importante na ascensão de Coriolanus. Casca Highbottom se torna relevante com o passar dos minutos, sendo ele o dono da ideia de criação dos Jogos Vorazes, demonstra ter bastante arrependimento embora não possa sair daquilo, e sendo o oposto de Gaul, ele tenta maneiras de conter Snow de se tornar algo. Toda a sua lamentação é passada em tela por Dinklage, que entrega uma interpretação contida, mas certeira. Apesar de não ter destaque, gostaria de mencionar Hunter Schafer e sua Tigris, que apesar de não ter um papel tão importante, é bastante confortante de se ver em cena. O roteiro se esforça para repassar uma história de três atos em menos de três horas, e consegue ser satisfatório em quase todos, mas assim como no livro, parece haver um declínio maior na terceira parte, que dado o seu teor, deveria ser a parte mais instigante. A direção de Francis Lawrence se mantém dentro do esperado e daquilo que ele já entregou antes, sabe trabalhar bem as reações e emoções dos personagens e transita de forma coesa pelas cenas de ação e tensão. As duas coisas em conjunto dão o tom certo para como tudo aquilo deve ser visto; um jogo cruel e político que condena seu povo à subserviência aos desejos e delírios da Capital. Além disso, a trilha traz um complemento para a trama junto à direção de arte, e ambas nos levam para dentro daquele ambiente violento e hostil. Como adaptação, é bastante fiel, o que diferente do caso de Em Chamas não penso que tenha sido uma boa decisão, havia margem para melhora sem que se alterasse a trama, o que agregaria mais qualidade ao universo. Ficar preso às páginas do livro e ao emocional da saga acabou por deixar algumas escolhas nada orgânicas, utilizando o termo chulo, um “fanservice”, contudo, continua sendo uma boa produção que vale a pena ser assistida. A saga tem uma história interessante de se abordar pelo seu inescrupuloso e como governos autoritários não se prendem a qualquer tipo de consciência para permanecer no poder, afinal, para que servem os jogos vorazes? Nota: 3,5/5

  • Crítica | Goosebumps (1ª temporada)

    Série retoma universo de terror juvenil com boa atualização da história, mas se perde em reta final Foto: Divulgação Para alguns, a paixão pelo gênero do terror cresce depois de conhecer clássicos como O Massacre da Serra Elétrica, Sexta-Feira 13, O Exorcista ou Pânico, porém, na minha história pessoal, o que despertou o meu interesse pelo gênero foi a série veiculada no falecido canal Jetix chamada Goosebumps. Baseada em uma série de livros voltados para o público juvenil, a série foi ao ar produzida entre 1995 e 1998 e foi ao ar diversas vezes durante os anos 2000. Na história inspirada nos livros de R. L. Stine, as temporadas traziam antologia de histórias sobre pré-adolescentes e adolescentes que se encontram em situações assustadoras e incomuns, normalmente envolvendo elementos sobrenaturais. Depois de também ler os livros, devo dizer que Goosebumps sempre se tornou uma obra que trazia uma sensação de muita nostalgia e carinho. Mais recentemente, os filmes Goosebumps - Monstros E Arrepios (2015) e Goosebumps 2 - Halloween Assombrado (2018) com Jack Black, reapresentaram alguns dos clássicos personagens a um público mais infantil, puxando mais para a comédia do que de fato para o terror. Porém, neste ano, o Disney+ em parceria com o Hulu, desenvolveu uma nova roupagem aos livros clássicos com uma série que abandona as antologias e desenvolve um grupo de cinco estudantes dentro das histórias criadas por R. L. Stine. Neste novo cenário, conhecemos Isaiah, Margot, James, Isabella e Lucas, jovens que estudam na mesma escola e que acabam embarcando em uma jornada para entender um fato trágico que aconteceu lá nos anos 90: a morte de um adolescente chamado Harold Biddle e que pode ter haver também com o passado dos seus pais. Com dez episódios com a média de 42 minutos cada, Goosebumps inicialmente desenvolve bem cada personagem e suas nuances com plots individuais (seguindo a linha dos livros) até interligá-los para um cenário maior, que envolve muito mais que os problemas pessoais de cada um. Foto: Divulgação E é um início promissor. Os episódios pegam referências clássicas dos livros e atualizam o material de uma forma muito necessária. É muito bom rever plots dos livros como ‘Sorria e Morra’, ‘Fique Longe do Porão’, ‘Um Dia no Parque do Terror’ e ‘O Mistério do Boneco’ com essa nova roupagem. Óbvio que retornar com um personagem bastante usado na mitologia da trama tem os seus riscos, mas, a série mostra um Slappy muito próximo do que eu imaginava nos livros quando criança, por exemplo. Um ponto muito positivo na série foi a presença de Justin Long. O ator dá vida ao professor recém-chegado Nathan Bratt e sua longa experiência em filmes que misturam comédia com horror é fundamental para a criação de um ótimo personagem, super bem interpretado por ele. Os pais dos protagonistas também mandam bem em cenas mais tensas, assim como os seus intérpretes em flashbacks quando mais jovens. Os cinco protagonistas às vezes não convencem, mas possuem uma ótima química entre si e um certo carisma durante momentos mais cômicos. Porém, a primeira temporada de Goosebumps se perde nos seus episódios finais com a inserção de um arco desnecessário. Se finalizada, por exemplo, no episódio oito no lugar do dez, o resultado final da temporada seria bem mais satisfatório. Ao trazer uma nova ameaça, a série desenvolve mal esse vilão e também as motivações dos personagens na sua reta final e tudo fica muito corrido. Mesmo assim, ainda é válido assistir a série pelo conjunto da obra, principalmente se você também curtia as histórias de R.L. Stine quando mais jovem. Mas, se você não conhece o autor e nunca ouviu falar de Goosebumps, essa versão de 2023 é um bom jeito de entrar neste mundo. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Nyad

    Biografia esportiva sobre uma atleta que não é exatamente esportiva e nem só sobre a atleta Foto: Divulgação Nyad é uma força da natureza. Literalmente. O nome remete às ninfas aquáticas da mitologia grega e quando registrado como sobrenome de Diana, vira uma profecia. A personagem que dá nome ao filme fez das águas sua casa, como mostra na impressionante montagem inicial, que exibe imagens de registro das primeiras conquistas da verdadeira Diana. A Diana que acompanharemos, porém, é trinta anos mais velha e interpretada por Annette Bening, que retrata a carismaticamente irritante – ou irritantemente carismática – nadadora aposentada, atual comentadora esportiva em busca de um novo desafio. A resposta parece óbvia para ela – e só para ela: do alto dos seus 60 anos, sem treinar ou se exercitar a décadas, Nyad decide completar a prova que, mais de 30 anos atrás não conseguiu: estabelecer o recorde em águas abertas ao nadar de Havana, Cuba, até Key West, EUA. O desejo logo vira uma obsessão, um sinal claro de alguém com um passado não resolvido, seja na prova fracassada, seja com o abandono de seu pai, seja com sua relação com o técnico e, em consequência, todo o esporte. Não sei se seria considerado spoiler indicar como esse enredo termina. Afinal, apesar de todos os louros, não deixa de ser um filme biográfico esportivo e, se virou filme biográfico esportivo, é porque algo de inacreditável aconteceu. E a obra encontrou os nomes certos para contar essa história: a dupla Elizabeth Chai Vasarhelyi and Jimmy Chin, conhecidos pelos documentários sobre pessoas que se levam ao limite dos seus físicos contra a natureza (Free Solo, The Rescue), agora na primeira vez na direção de uma ficção; o ciematografista Claudio Miranda, responsável por um dos mais icônicos visuais de oceano do cinema moderno, A Vida de Pi; e Julia Cox na assinatura de um roteiro que consegue surpreender esse gênero tão sem surpresas. Foto: Divulgação Isso porque a narrativa central de Nyad não é sua jornada até o recorde. Vasarhelyi e Chin nos lembram que por mais determinado que um indivíduo seja em atingir o impossível, nada vai ser tão intenso e bonito quanto dois indivíduos. E é assim que a lendária Nyad vira coadjuvante, e o filme passa a ser sobre as amigas Diana e Bonnie, esta última vivida por Jodie Foster. Se Diana tem que enfrentar águas-vivas e hipotermias, Bonnie parece ter um desafio ainda maior ao enfrentar – e aguentar – sua teimosa amiga/ex-namorada. O ponto de virada do filme não são as tentativas falhas de Nyad, mas sim os confrontos entre técnica e atleta, afinal, de nada valeria o recorde sem Bonnie para dar o abraço final. Um dia eu serei professora de cinema e isso me fez desenvolver uma mania de escolher obras para passar nas aulas imaginárias que planejo na minha cabeça. Nyad seria a obra perfeita para passar na aula sobre química entre atores. Lógico que estamos falando de duas atrizes indiscutivelmente talentosas, mas as já excelentes atuações de cada uma nas cenas individuais fica para trás quando elas estão contracenando. A dinâmica entre Bening e Foster é uma masterclass, quase dá para ver faíscas saindo da tela e, sem dúvidas, é o que segura o filme. Por mais cativante que seja a história e a própria Nyad em si, e o roteiro aborda todas as várias complexidades de ambas, algumas escolhas estilísticas – principalmente nas cenas de flash back e nos efeitos especiais dos momentos de delírio em alto mar – dão um ar… cafona para um filme que, infelizmente, tinha tudo para ser muito mais que um Oscar-bait, mas, ao contrário de Nyad, não tentou o suficiente. Nota: 3/5

  • Crítica | Loki (2ª temporada)

    Ligeiramente acima do padrão atual da Marvel, mas não o suficiente Foto: Divulgação Falar da crise criativa da Marvel no cinema e na TV nos últimos anos é chover no molhado. Quanto mais seus filmes e séries são criticados e não obtêm os resultados financeiros esperados, mais fica claro que o pico da franquia se deu de fato em Vingadores: Ultimato e de lá para cá se observa uma nítida derrocada. Claro, ninguém diria que as coisas chegaram a tal ponto quando as primeiras produções televisivas saíram há dois anos, destacando-se entre elas a primeira temporada de Loki. Infelizmente, a segunda temporada, ainda que dotada de notáveis méritos, parece ser mais uma vítima da confusão que anda o MCU ultimamente. Partindo diretamente do final do seu primeiro ano, onde vimos Aquele Que Permanece (Jonathan Majors) ser morto por Sylvie (Sophia DeMartino) e Loki (Tom Hiddleston) ser jogado numa espécie de versão alternativa da AVT, a temporada já nos mostra de imediato que não se trata de uma versão alternativa da agência, mas sim algum momento do passado, visto que o protagonista agora sofre de “deslizes temporais”, que o fazem transitar entre passado, presente e futuro contra sua vontade. Sob a ameaça de destruição da AVT e das linhas temporais ramificadas que passaram a surgir por causa da morte de Aquele Que Permanece, Loki precisa reunir seus aliados para deter esse cataclisma antes que seja tarde demais. Apesar do senso de urgência, a temporada sofre de uma flagrante irregularidade que minimiza os riscos propostos pela narrativa quando lhe é conveniente, abrindo espaço para uma nova leva de personagens que pouco têm a acrescentar. Uma notável exceção é Ouroboros, que ganha uma interpretação simpática de Ke Huy Quan, mas que podia ser facilmente uma variante do seu personagem em Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo, servindo basicamente como um recurso didático para nos apresentar os conceitos pseudo-tecnológicos do universo (o famoso technobabble). Já Rafael Casal e Kate Dickie são introduzidos para nos dar uma perspectiva dos problemas da AVT, mas a série nem se esforça para compô-los adequadamente, o que fica mais nítido na forma como o personagem de Casal tem toda uma subtrama sugerida no segundo episódio que poderia amplificar as discussões da obra sobre determinismo e livre arbítrio, mas à qual não temos quase nenhum acesso. Aliás, o ritmo irregular da temporada parece indicar não apenas um amontado de ideias mal trabalhadas e saltos que poderiam render episódios inteiros, mas também uma espécie de corte de custos, já que elementos como essa subtrama de X-5 (Casal) ou nas ações de Dox (Dickie) contra as ramificações ao final do segundo episódio nem de longe recebem o peso que lhes foram prometidos. Felizmente, o ritmo melhora aos poucos no decorrer dos episódios, enquanto na parte técnica a série continua a se sobressair: a trilha sonora de Natalie Holt é um destaque sempre, assim como a direção de arte retrofuturista da AVt e a própria direção geral dos episódios, em especial da dupla Justin Benson & Aaron Moorhead, que incorpora naturalmente esse retrofuturismo da obra. Foto: Divulgação Ainda assim, a temporada parece sobrecarregada por um fardo desnecessário, especialmente quando, ao a cortarmos até a medula, vemos o quão simples ela é. E veja: não trato a simplicidade como algo negativo, mas é como se a temporada desse mais voltas do que o necessário para preencher os seis episódios, ao mesmo tempo em que tira espaço de subtramas e performances que mereciam muito mais destaque. Destaco aqui a subutilização criminosa de Sophia DeMartino, Wummi Mosaku e Gugu Mbatha-Raw, três atrizes excelentes que são nitidamente escanteadas, mesmo dando o seu melhor naquilo que lhes é dado. No que se refere aos demais coadjuvantes, Owen Wilson continua sendo um grande acerto ao fazer de seu Mobius uma figura tão carismática e fácil de torcer, mesmo que em determinados momentos sua química com Hiddleston seja danificada pelo panorama geral da temporada, enquanto Tara Strong, como Miss Minutes, consegue a proeza de transformar uma IA em forma de relógio no personagem mais perverso e odioso desse universo. Já no caso de Majors, seu retorno é comprometido tanto pela composição excessivamente caricatural do seu novo personagem (mesmo que exiba os seus talentos por ser tão diferente d’Aquele Que Permanece ou Kang) quanto pelos crimes por quais o ator vem sendo acusado fora das telas, que certamente criam uma sensação desconfortável ao vê-lo em tela, ainda mais quando se tem em mente o destaque que seu Kang viria a ter nessa nova fase do MCU. O próprio Hiddleston parece em muitos momentos deslocado, não por culpa do ator, mas sim por causa dessas escolhas narrativas que atiram em tantas direções sem desenvolver adequadamente nenhuma. Veja a diferença flagrante entre o espaço que ele possui nos três primeiros episódios e nos três últimos, em especial a finale, que confere uma espécie de encerramento glorioso não apenas para o personagem nessa nova versão que vimos após Ultimato, mas para a própria trajetória do ator nesses mais de 12 anos interpretando Loki nas telas. Hiddleston aproveita cada oportunidade em que a câmera lhe dá atenção para explorar as muitas facetas do personagem, ainda que seu arco geral não se modifique tanto ao que já vimos na primeira temporada. Sua sequência final é uma daquelas para ficar guardada na memória, fazendo mais jus por ele em alguns minutos do que boa parte da temporada não foi capaz de fazer. A segunda temporada de Loki acaba atolada sob um amontoado de ideias que geram resultados díspares. Ainda que se beneficie do seu relativo distanciamento em relação aos eventos gerais do MCU, ela perde um tanto do charme que a primeira temporada tinha por não saber direito que história está contando e fragmentá-la em atos que pouco conversam entre si. Ajuda que o elenco permaneça afiado — mesmo aqueles que não tem muito o que fazer — e os aspectos técnicos continuem a explorar uma centelha de criatividade e frescor que tanto falta a outras séries da Marvel, além de um belo final que se mostra coerente com a jornada do seu protagonista. No entanto, esses acertos não poupam a temporada de sofrer com a falta de foco e outros problemas que vêm assolando a franquia atualmente. Nota: 3/5

  • Crítica | O Assassino

    Execução é tudo, tanto à frente quanto atrás das câmeras Foto: Divulgação O cinema de David Fincher é povoado de personagens obsessivos, sejam eles detetives, esposas rancorosas ou criadores de redes sociais. O assassino sem nome de Michael Fassbender vem se juntar a esse filão, num filme que dificilmente figurará entre os melhores do diretor, mas que o mostra em casa na maneira como conta uma história simples e objetiva. Dividido em seis capítulos e um epílogo, o filme nos mergulha na rotina do seu protagonista conforme o vemos em preparação a mais um de seus trabalhos. Se podemos contar nos dedos as vezes em que esse personagem diz algo no decorrer do longa, por outro lado o roteiro de Andrew Kevin Walker (que trabalhou com Fincher em Se7en - Os Sete Crimes Capitais) abre espaço para uma narração em off que nos dá acesso à sua mente intrigante. Pensamentos soltos, reflexões sobre a sociedade contemporânea e um quê de niilismo povoam o personagem, enquanto Fincher adota um rigor formal impressionante, com seus habituais planos estáticos e poucos cortes que nos habituam ao cotidiano “tedioso” desse assassino. E então... as coisas dão errado. De início, o formalismo do diretor nos faz pensar que o personagem é um daqueles tipos indefectíveis e de poucas palavras como o motorista de Ryan Gosling em Drive ou os bandidos de Alain Delon em filmes como Le Samouraï e O Círculo Vermelho. Mas ao quebrar esse formalismo após o Assassino falhar em sua missão — com uma rara câmera trêmula para os padrões de Fincher e uma tensão crescente potencializada pela montagem de Kirk Baxter e a trilha pulsante de Trent Reznor e Atticus Ross — nos desestabiliza tanto quanto o desestabiliza. Mesmo tendo seu metodismo evidenciado ao longo do filme, é nítido o gradual descontrole do protagonista no banho de sangue que se segue conforme ele dá cabo da vingança contra seus empregadores. Até seus pensamentos e reflexões, aos poucos, se dessincronizam das suas ações, especialmente quando ouvimos seu mantra (“stick to the plan... empathy is weakness...”) prenunciar imprevistos cada vez maiores. Foto: Divulgação A mixagem sonora é um importante recurso por nunca cessar a tensão e nos prender à mente do personagem, mesclando a trilha sonora com os sons ambientes e até mesmo as músicas do The Smiths que ele está sempre ouvindo, numa relação incomum de diegese/não-diegese. Alguns até poderão reclamar do ritmo lento, mas ele é de uma fluidez exuberante e serve perfeitamente à mentalidade e aos métodos desse Assassino — sendo justamente por isso que a única cena de ação do longa surge como uma ruptura tão flagrante, encenada com uma brutalidade e crueza notáveis. Da mesma forma, os defensores do roteiro como o elemento mais importante de uma obra certamente sairão decepcionados, mas a simplicidade e economia deste serve perfeitamente para que Fincher exiba e flexione suas melhores habilidades por trás da câmera ao nos guiar pela jornada violenta do protagonista e os recônditos da sua personalidade em conflito. Fassbender, que não estrelava um filme há quatro anos, brilha ao compor um personagem de mínimas reações, mas que ainda expressa tanto (frustração, surpresa, raiva, tristeza), não importa o que a voz da sua mente nos diga. O filme é seu tanto quanto de Fincher, e por isso não chega a ser uma surpresa que haja pouco espaço para o elenco coadjuvante (lamento, fãs de Sophie Charlotte), ainda que Tilda Swinton brilhe como de costume mesmo em uma pequena participação. O Assassino pode ser uma “obra menor” de Fincher, mas isso é mais mérito do restante da sua filmografia do que um demérito dele em si. Elegante em sua simplicidade, fascinante em nos imergir na psique do seu protagonista, o filme consegue atualizar esse arquétipo de personagem para o século XXI, servindo quase como um anti-John Wick na forma como desmistifica a ideia de um assassino para retratá-lo como um trabalhador ordinário preso às dinâmicas do capitalismo contemporâneo. Afinal de contas, como diria The Smiths: “I was looking for a job, and then I found a job, and heaven knows I'm miserable now” (Eu estava procurando por um emprego e então eu encontrei um emprego E os céus sabem que agora estou infeliz). Nota: 4/5

  • Crítica | Gen V (1ª temporada)

    A ‘The Boys’ adolescente é justamente o que se espera que ela seja. E isso é bom Foto: Divulgação Eu adoro o universo de The Boys e séries adolescentes, então quando anunciaram que haveria uma adaptação, já fiquei animado. Ambientada em Godolkin, a única faculdade de super-heróis dos Estados Unidos, os jovens competem o tempo inteiro pelo melhor lugar no ranking da universidade e ter uma chance de se juntar ao grupo dos Sete, a equipe de elite da Vought, que acompanhamos na “série-mãe”. Marie (Jaz Sinclair) acaba de chegar ao lugar com alguns traumas do passado - graças aos seus poderes - e ela é também a nossa porta de entrada. Através dela vamos conhecendo como funcionam as coisas e os outros personagens, como Emma (Lizzie Broadway), sua colega de quarto. Luke, ou Golden Boy (Patrick Schwarzenegger), que é o número 1 no ranking da faculdade e já está, praticamente, com uma vaga garantida nos Sete. Cate (Maddie Phillips), a namorada de Luke e Andre (Chance Perdomo), o melhor amigo. Jordan (Derek Luh/London Thor), também faz parte do grupo e tem um poder muito interessante, que abre brecha para várias discussões, mas como eu não quero dar spoilers, vou deixar que vocês tenham até as mínimas surpresas, se ainda não assistiram. E surpresas não faltam na série. Já nos primeiros episódios temos grandes reviravoltas que mudam totalmente o rumo das coisas. E durante o restante da temporada, isso é uma constante. A imprevisibilidade e ousadia são heranças de The Boys e muito bem aproveitadas aqui, porque denota que ninguém está a salvo e que não sabemos muito bem o que esperar de nenhum dos personagens, que ainda estão se descobrindo e aprendendo o verdadeiro alcance dos seus poderes. Eles estão ali próximos dos 20 anos, aquela fase onde todo mundo acha que tem certeza de tudo, mas não sabe de nada. A série explora bem suas inseguranças, seus medos e aflições, e aliados a histórias do passado que foram traumatizantes, e grandes poderes que eles ainda não sabem controlar totalmente, é a receita ideal para o caos. O elenco é bastante carismático, mas falta talento. Alguns até cumprem bem seus papéis, mas quando a cena exige um pouco mais de nuance, fica mais complicado de assistir, pelo menos nos jovens. Shelley Conn e Marco Pigossi estão ótimos, no entanto. Foto: Divulgação Desenvolvida por Evan Goldberg, Eric Kripke e Craig Rosenberg, é uma produção que não faz rodeios desnecessários. A duração de, em média, 40 minutos por episódio, é perfeita porque vai direto ao ponto. O ritmo é intenso, mas isso faz dela ágil, e não apressada, pois temos tempo de conhecer os personagens e a trama. Em meio a isto, temos a presença do humor perverso e infantilizado de The Boys, assim como a violência gráfica, que abre espaço para a criatividade. Mesmo elogiando a agilidade, devo fazer uma ressalva ao roteiro, que por diversas vezes se mostra muito conveniente e justamente para que tudo se desenvolva mais rápido. Um exemplo é que um personagem entra em uma sala, revoltado e embriagado, fazendo comentários sobre um plano, e onde mais dois personagens estavam escondidos ouvindo. Eu entendo e não atrapalha o resultado final do entretenimento, mas são detalhes que poderiam ser melhores cuidados. Porém, há bons diálogos, sempre espertos e cheios de referências atuais, assim como a ótima trilha sonora, sempre presente em momentos pontuais. Gen V é uma baita adição a este universo, e mesmo que você não seja fã de The Boys, há chances de curtir. Há participações especiais e que agregaram bastante ao final da temporada. Sempre lidando com essas personas amorais, a trama fica ainda mais instigante, então há uma personagem que merece todo o destaque que recebe. Ela começa quase como uma coadjuvante, então para preservar o fator surpresa, não vou citar o nome, mas ela promete ainda mais na eventual 2ª temporada e com uma ajuda grandiosa. É satisfatória uma série que nunca te deixa na zona de conforto e esse é um de seus maiores trunfos porque nunca sabemos o que esperar. Não li a HQ em que a série é baseada, então não sabia de nenhum acontecimento. Julgo a série pela série e não como adaptação. Então posso dizer que ela é divertida, impactante, tem ótimos efeitos especiais, cheia de ação e com poucas ressalvas a serem feitas, há muitos elementos que fizeram a fama de The Boys, não dava para fugir disso e isso é bom. Nota: 4/5

  • Crítica | Elite (7ª temporada)

    Mais uma temporada da Malhação espanhola com novas abordagens e velhos problemas Foto: Divulgação Começa mais um ano letivo em Las Ensinas com rostos conhecidos e novos rostos. Iván (André Lamoglia) está se recuperando do seu atropelamento e tendo que lidar com a suspeita de que seu ex-namorado que se mudou com as irmãs seja o principal suspeito pelo acontecido. Isadora (Valentina Zenere) se mostra disposta a deixar os dramas do passado para trás e assumir os negócios da família. Além de novos personagens e novos dramas que dessa vez não estão interligados por um grande único grande acidente ou crime. Cá estou (estamos?) pelo sexto ano consecutivo para mais uma temporada do drama adolescente de maior sucesso dos streamings. Seguindo a cadência da temporada anterior, a sétima temporada é mais sóbria do que as anteriores e traz com seus novos personagens problemas palpáveis e próximos da realidade como saúde mental, suicídio e dá continuidade a outros que deixaram ganchos na temporada anterior como violência à mulher e o uso de drogas. A falta de um cadáver ou de um grande suspense que ligasse todo o elenco deu mais espaço para os dramas individuais se desdobrarem, o que em alguns casos funcionou e outros não. Os personagens de Iván e Isadora, vividos pelo brasileiro André Lamoglia e pela argentina Valentina Zenere assumiram o protagonismo como acontece com todo o elenco mais veterano. Mas o arco de Iván não tem mais qualquer razão de existir, o roteiro tenta tirar leite de pedra para segurar o ator no elenco, e André se esforça para dar sentido ao personagem sem rumo. E falando em veteranos um dos pontos positivos da sétima temporada é o retorno de Omar, que agora é o único personagem remanescente do elenco original. Omar volta como estagiário do Las Ensinas que está desenvolvendo um aplicativo onde os alunos com problemas relacionados à saúde mental possam pedir ajuda anonimamente. Foto: Divulgação Outros destaques são os atores Gleb Abrosimov e Mirela Balić cujos personagens conseguem resgatar a intensidade das primeiras temporadas. Entre as aparições menores a presença de Maribel Verdú é um dos melhores. Quem também se destaca apesar de ter uma participação pequena, mas com relevância considerável no arco de alguns personagens, é a brasileira Anitta. Surpreendentemente sem se envolver com ninguém, ela se mostra à altura (e as vezes superior mesmo) do elenco principal e se sai bem melhor que seus últimos trabalhos como cantora. Nunca vou me conformar com o quão mal aproveitada é a personagem Rocío, interpretada pela belíssima e talentosa Ana Bokesa. Desde a temporada passada ela não possui um arco próprio e bem consolidado, servindo apenas de suporte para outros cujos enredos ficam sendo requentados para render pouco desenvolvimento. A Netflix aplicou uma intertextualidade com Sangue e Água, série teen sul-africana que está indo para sua quarta temporada. A personagem Fikile (Khosi Ngema) foi para a Espanha num intercâmbio de minutos que motivou a futura de participação de Iván na temporada vindoura da série africana. No mais, é incrível a constância que o programa mantém desde seu início, é o mesmo estilo na técnica e na estética: montagem confusa cortes em profusão. O que se repete também são as soluções rápidas e bem genéricas para resolver problemas que duram por mais de uma temporada. São grandes gestos usado como catarses gritantes. Elite já foi confirmada para sua oitava e última temporada. Bem ou mal, essa é uma das séries mais influentes da Netflix mundialmente falando, e sustentou seu público até aqui fazendo o arroz com feijão que todos esperavam, algumas vezes com mais tempero do que outras, mas que satisfez o imaginário jovem por anos. Estamos falando de uma série que chegou a ter mais uma temporada no mesmo ano. No entanto não há como fazer vista grossa pro desagaste que a repetição e os excessos causaram pra própria narrativa unificada do programa. De novo, você não vai numa churrascaria querendo comer pizza, então para quem segue acompanhando a novela essa talvez seja uma das temporadas que abordou melhor alguns temas importantes e se mostrou madura (isso falando desde a terceira temporada que foi quando houve a maior mudança no elenco original e no texto base). O resto é o de sempre. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Five Nights at Freddy's - O Pesadelo Sem Fim

    Produção se esforça para se levar a sério, mas é pedir demais do público Foto: Divulgação No Freddy Fazbear's Pizza, robôs animados fizeram a festa das crianças por anos, hoje vivem no esquecimento e confinados nas ruínas do restaurante. E quando chega a noite, eles se transformam em assassinos violentos. O novo segurança noturno, Mike Schmidt (Josh Hutcherson), assume a função sem saber detalhes do passado e do presente do local abandonado, e aos poucos vai ter que descobrir o segredos por trás da história do estabelecimento e de seus personagens assustadores. Preciso começar confessando que só fui tomar conhecimento do longa-metragem alguns dias antes de entrar na sala de cinema. No entanto, não entrei em detalhes em minha busca. O que eu sabia: que era uma adaptação de um jogo e que envolvia robôs de um lugar abandonado. Não sabia o teor. Não sabia o enredo. Não sabia a abordagem do jogo ou do filme e todo o restante. Foi bom por um lado e ruim por outro. O lado ruim é que existem detalhes e referências que somente que é familiarizado com o material base vai conhecer e talvez isso facilite a deglutição da farofada que é o filme. O lado bom é que seu conhecesse qualquer informação a mais do que eu sabia provavelmente eu não teria ido assisti-lo. Não é uma história rasa, ela é cheia de camadas e os pontos são bem ligados, o que não signifique obrigatoriamente que faça algum sentido. Não sei o quão fiel é ao jogo e o quanto foi enxertado para ganhar tempo em cena, mas o detalhamento do arco onírico do protagonista Mike rouba um espaço que poderia ser mais aplicado com os robôs do que com seus fantasmas. O texto na verdade é uma grande patacoada e só funciona bem quando ele abraça suas contradições e falhas e se assume como a grande confusão que é, o que infelizmente só acontece na meia hora final. Na primeira parte o filme tenta caminhar entre o suspense psicológico, o terror e a comédia, porém consegue seus melhores momentos no humor. Foto: Divulgação Claramente a diretora Emma Tammi e os produtores “se preocuparam” em deixar o resultado mais limpo possível para alcançar uma faixa maior de público, afinal, pelo que entendi, crianças de uma certa faixa etária forma uma grande parcela do público do jogo. E embora não haja grandes problemas técnicos em cena, o tom café com leite impede o produto de ganhar personalidade por mais que se distanciasse da sua referência. Essa não é a primeira produção de Hollywood que aborda brinquedos vivos (e suas derivações) nem mesmo esse ano, e não fosse o apelo visual que os personagens possuem – e, claro o enorme número de fãs – talvez caísse no esquecimento facilmente. Tudo nos bonecos protagonistas do filme clama por desdobramentos de marketing e venda de produtos licenciados. E como toda boa farofa marqueteira, Five Nights at Freddy's tem muito potencial para virar franquia e também virar clássico cult num futuro não tão distante, onde será aclamado mais por seu meio do que propriamente por sua mensagem. Talvez o anacronismo seja mesmo o maior vilão do longa, tudo em sua estrutura imprime filmes vistos pelos millenials nas sessões vespertinas de televisão ou alugadas em grossas caixas de VHS, para hoje não vejo mais tendo muito espaço, afinal de contas é uma diversão descompromissada e até bem inofensiva. Espero estar errado. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Mussum, o Filmis

    Carisma do personagem e graciosidade do elenco se sobressaem às muitas imperfeições Foto: Divulgação O longa metragem narra a trajetória de Antônio Carlos Bernandes Gomes, que ficou famoso pelo apelido/nome artístico: Mussum. Um dos nomes mais populares do entretenimento brasileiro, o sambista, ator e humorista do Rio de Janeiro tem vários momentos de sua vida retratados, da infância pobre ao estrelato nos Trapalhões, programa de humor de maior sucesso da época. Esse claramente é um “primeiro filme” de um diretor e muitas das escolhas deixam isso bem claro. A falta de um recorte numa cinebiografia é – falei muito isso esse ano – um problema quando se tenta abordar toda a vida de uma pessoa em alguns poucos minutos. A direção estreante de Silvio Guindane tenta equilibrar o turbilhão que foi a vida do artista e às vezes se perde no meio das participações especiais, das referências e deixa passar alguns detalhes pessoais do Mussum que poderiam ter ganhado mais destaque, o que ajudaria na construção de momentos e situações e na materialização do texto. Mas o diretor prefere apelar para os recursos mais explícitos para criar sentimentalismo, o que poderia ser suavizado ou naturalizado em vez de intensificado com trechos de trilhas sonoras dramáticas e iluminação baixa. Porém, mesmo com as falhas, o tom da história é tão tocante de diversas formas que o resultado maquia os pontos baixos. Primeiramente no tocante ao humor. O roteiro consegue arrancar umas boas risadas, tanto nas reproduções de cenas icônicas dos Trapalhões quanto no que imprime a “vida real” de Antônio Carlos. E não é aquele humor escrachado e artificial que deixam algumas comédias forçadas e com um ímpeto nada orgânico, é um humor bem costurado nas falas, olhares e trejeitos do elenco. E aqui é a hora de saudar o elenco primoroso encabeçado pelo genial Ailton Graça. Não gosto de usar aquela velha expressão de que um ator nasceu para um papel porque acho que neutraliza o trabalho de pesquisa e estudo do personagem feito pelo profissional, mas bem, dentre os nomes mais conhecidos da dramaturgia brasileira hoje eu não conheço outro nome que talvez fizesse um Mussum melhor. Foto: Divulgação Entre os muitos nomes dos coadjuvantes que dividem o tempo de cena com o Ailton aposto meus centavos que os nomes de Neusa Borges e Cacau Protásio são unanimidade. As atrizes vivem a mãe de Mussum em diferentes fases da sua vida e entregam os momentos mais tenros e fortes do longa. E esse é o segundo tópico que dá vigor ao filme. A relação de Mussum com sua mãe é o retrato mais tradicional da mãe preta solteira que se doa por inteira para o bem estar do seu filho como foi visto também em Nosso Sonho. Mas voltando ao elenco, Larissa Luz, que interpreta Elza Soares por poucos minutos e Késia Estácio, que vive a primeira esposa do personagem, principal também estão brilhantes em cena. (Tanto Larissa quanto Késia já viveram Elza na poderosa peça musical sobre a cantora). Assim como finalizei o texto de Nosso Sonho, direi aqui também, se não por quaisquer dos motivos citados neste texto, o filme se valida pela reverência a um grande nome do entretenimento nacional que caminhou pela música, teatro, televisão e cinema com grande impacto. E acima de tudo um homem negro que conseguiu espaço na mídia num período onde o tom de sua pele e a sua verdade incomodavam incomparavelmente mais do que hoje. Nota: 3/5

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