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- Crítica | Assassinos da Lua das Flores
Scorsese traz para as telas história quase esquecida pelo tempo Foto: Divulgação Algumas personalidades do cinema mundial são tão lendárias que me deixam meio aflito de receber a missão de escrever algo sobre algum trabalho delas. Quando Painho (título carinhoso do OP para Meu Pai), com o incrível Anthony Hopkins, foi lançado e fiquei incumbido de trazer um texto sobre, passei um tempo ansioso e pensando: "o que um mero mortal como eu teria para falar de alguém tão grandioso?", mas depois de assistir três vezes eu consegui. Com Martin Scorsese o sentimento é o mesmo, mas aqui estou eu, pois Assassinos da Lua das Flores vinha me deixando na expectativa já há algum tempo, e após ter lido o livro e conhecido a história dos Osage, eu não queria perder a chance de apreciar esta obra e tentar agraciar com minhas singelas palavras. Partindo do princípio, o longa é baseado no livro homônimo, que é um levantamento histórico feito por David Grann sobre o período em que o povo Osage foi enxotado para o desértico Oklahoma. Lá então se descobriu que as terras eram ricas em petróleo, fazendo deles as pessoas com maior poder aquisito e também alvos dos ataques da ganância do homem branco. Se tratando da produção, ela é respeitosa com os fatos, mas, como uma adaptação, percorre alguns caminhos diferentes sem, no entanto, tirar a essência da trama. Apesar de retratar o povo Osage e todo o complô envolvendo assassinatos de vários deles, o enredo gira em torno principalmente de Mollie (Lily Gladstone) e sua família, que são o alvo de Bill Hale (Robert de Niro), por intermédio de seu sobrinho, Ernest (Leonardo DiCaprio). Com três horas e meia de duração, Scorsese nos guia de volta ao passado em território norte-americano, e acompanhamos um pouco a história no decorrer dos anos 1910/20/30. Aqui há um ponto em que pode gerar uma sensação no telespectador de estar perdido no tempo, pois a passagem cronológica não se dá de maneira clara em tela. No entanto, isso não se torna um agravante para a história geral, pois a abordagem e a condução fazem com que o público fique atento a cada evento ali mostrado. Foto: Divulgação Um dos pontos positivos da duração, é que ela nos proporciona performances mais duradouras, mesmo de quem é coadjuvante. Com três figuras mais recorrentes, Mollie (Gladstone), Bill (De Niro) e Ernest (DiCaprio), o roteiro e a direção nos dá a oportunidade de apreciar com calma o trabalho de cada um em tela para o desenvolvimento de seus personagens. Por mais que DiCaprio seja o protagonista de fato, Lily Gladstone é uma presença marcante na primeira parte do filme. Ela conduz sua personagem de forma que hipnotiza quem assiste, com uma força e uma leveza ao mesmo tempo, nos dando uma Mollie Burkhart fácil de se gostar e complexa de se compreender. O único ponto negativo é não termos mais tempo de tela para apreciá-la em cena, pois ela é realmente fenomenal. DiCaprio é por si só um grande ator, mas, com o ambíguo Ernest, seu trabalho parece se amplificar ainda mais, e ele faz parecer tão fácil e tão natural, que mesmo o personagem sendo o que é, a atenção fica presa ao seu desempenho e suas emoções. Bill Hale, é um velho branco arrogante e frio, que se mostra como um amigo salvador dos Osage quando, na verdade, só quer tomar tudo que eles têm e manipulá-los para que permaneça no pedestal em que se colocou, e a longevidade do longa também dá tempo para que De Niro se agigante próximo ao fim neste personagem. Das questões técnicas da produção não há do que reclamar, tudo se encaixa com perfeição, mas tiro um espaço para falar da trilha que é conduzida no decorrer do tempo. É uma trilha contínua que dá uma sensação de constante movimento mesmo quando a cena está parada em apenas um diálogo. Carregada de ação, suspense e um tom nostálgico do passado, ela dá o encaixe perfeito para a história continuar passando. Outro ponto é a direção de arte e o cuidado em retratar o povo Osage, suas vestimentas e seus costumes em situações como enterros e casamentos, a atenção com os detalhes nos faz imergir, mesmo que por pouco tempo, na forma de vida que eles levavam. Foto: Divulgação Quanto ao roteiro, é claro que uma adaptação não seria fiel à obra original, e é aqui que se nota a mão boa de quem escreveu o texto para o cinema, pois é nessa condução e nas escolhas feitas que vemos como tudo funciona, e Roth junto a Scorsese souberam como podar e modelar a história para as telas, por mais que algumas informações tenham faltado. Já em relação a Martin Scorsese na direção, não tenho o que falar se não que ele permanece o incrível diretor que já era, com o adendo de saber avançar no tempo e conseguir se aperfeiçoar e mostrar seu trabalho sempre da melhor forma possível. Por fim, também é bastante gratificante poder ainda ver em tela, mesmo que por pouco tempo, Brendan Fraser e Jesse Plemons, ambos chegando já na reta final, mas agregando mais peso ao filme. Apesar das qualidades, pode haver um certo cansaço pelo tempo total, mas nada que atrapalhe no entendimento da obra. Assassinos da Lua das Flores chega em 2023 já sendo um dos melhores do ano, e é sempre motivo de agradecimento poder assistir a um cineasta tão renomado e querido nas telas do cinema. Nota: 4,5/5
- Crítica | Reservation Dogs (3ª temporada)
Não era fácil, mas a série consegue se superar e termina com sua melhor temporada Foto: Divulgação Já tive algumas séries como “a melhor do ano” desde janeiro. Primeiro veio The Last of Us com sua ótima temporada de estreia. Depois chegou Succession com seu último ano e encerra com chave de ouro. Em seguida, a 2ª de O Urso chegou com o pé na porta com toda intensidade. Após ela, achei que ninguém tomaria seu posto ali no meu primeiro lugar, mas veio a 3ª e última temporada de Reservation Dogs, que me causou uma certa estranheza em seus dois primeiros episódios, mas uma estranheza boa, porque eu tinha confiança de que os roteiristas sabiam aonde queriam chegar. Pensei que mais uma vez iam separar os personagens, com Bear (D’Pharaoh Woon-A-Tai) convenientemente perdendo aquele ônibus. Não só contribui para jornada individual dele, como ainda nos apresenta outras importantes personas daquele mundo. No segundo episódio, conhecemos um indivíduo, digamos, peculiar, que mostraria a que veio em episódios futuros e que conversam perfeitamente com o que a temporada quer de fato manifestar: o senso de comunidade dos povos originários. No espetacular terceiro episódio, a série usa do surrealismo para contar mais um triste capítulo da história dos nativo-americanos através da figura mística da Deer Lady, aqui interpretada pela fantástica Kaniehtiio Horn. Bear a acompanha em um plano quando o caminho dos dois se cruza por acaso. Entre belos diálogos, vamos acompanhando flashbacks da infância dela, presa nos internatos idealizados pelo governo nos séculos 19 e 20 para tentar apagar a cultura nativa de crianças indígenas nos EUA. É de uma crueldade tamanha, e o episódio tem uma certa delicadeza ao mostrar isso, mesmo que não esconda a brutalidade. Não vou adentrar em detalhes para não dar spoilers, mas saibam que é um dos melhores episódios que eu já vi na vida. Ao fim dele, Bear retorna a Okern para se reencontrar com sua mãe e os amigos. Os dois episódios seguintes são mais leves. No quarto, por exemplo, os Rez Dogs são punidos por terem ido à California sem autorização. É sempre uma delícia vê-los juntos e ressaltar a química desse elenco maravilhoso. As interações entre eles são sempre tão genuínas, graças ao texto brilhantemente escrito. No quinto, temos outra viagem ao passado, com uma clara homenagem ao clássico Jovens, Loucos e Rebeldes de Richard Linklater. Conhecemos as versões adolescentes de alguns anciões da comunidade, em pouco mais de 20 minutos que passam voando. Por mais que pareça de início, nada está desconectado na temporada e o formato mais episódico, funciona como peças de um quebra-cabeça maior. Particularmente, adoro essa estrutura e como ela foi honrada aqui. Foto: Divulgação Nos episódios seguintes, o foco é maior em alguns personagens mais específicos, como já vimos nos anos anteriores. No sexto, Cheese (Lane Factor) toma os holofotes com interessantes questionamentos sobre o amadurecimento e como ele pode estar se afastando dos amigos mesmo sem querer. No sétimo, Rita (Sarah Podemski), a mãe de Bear, vive um dilema sobre se mudar ou não e recebe a visita de Cookie (Janae Collins), a falecida mãe de Elora (Devery Jacobs). De início, não me apeteceu tanto, mas acabou se tornando um dos mais emocionantes da temporada e que trouxe alguns desfechos necessários. No excelente oitavo, a equipe tem um resgate a fazer e uma narrativa não linear oscila entre “depoimentos” prestados a Big (Zahn McClarnon) e o plano em si, deixando tudo ainda mais dinâmico. Engraçado e comovente, une tudo que Reservation Dogs faz de melhor, com grande contribuição de Willie Jack (Paulina Alexis) para isso. No penúltimo da série, que foi escrito pela própria Devery Jacobs, Elora finalmente conhece seu pai, interpretado por ninguém menos que Ethan Hawke. O contato inicial, claro, é esquisito, mas as barreiras vão sendo quebradas através da delicada escrita de Jacobs, e as performances irretocáveis dos dois, em mais um episódio de encher os olhos. Tentei ao máximo evitar spoilers, mesmo falando um pouco de cada episódio. Acho que algumas surpresas devem ser descobertas quando assistidas para uma experiência mais profunda, que se assemelhe com a minha. O final da série é poderoso, unindo tudo o que vimos até então, como é sintetizado na estupenda cena com a participação da sempre sensacional Lily Gladstone. Aliás, união é a palavra da temporada. O senso de comunidade que eu citei no começo, a certeza que a vida é um eterno ciclo, de idas, vidas, chegadas e partidas, o respeito pelos mais velhos e pelo o que eles têm a ensinar e passar de geração para geração, são temas que permearam a série inteira, e honrar isso em seu último ano foi a escolha mais certa da equipe de roteiristas liderada por Sterlin Harjo. A produção não teria a qualidade que tem se não fosse feita de indígenas por trás e na frente das câmeras. A visão de quem tem a vivência é o seu diferencial e maior trunfo. O elenco é um achado e eu só espero que eles tenham muito mais oportunidades, pois talento aqui não falta, seja no humor ou no drama. Vale exaltar também a arrasadora trilha sonora que marca os episódios e as escolhas das músicas, que casam perfeitamente com os momentos. Se Reservation Dogs tem algum defeito, eu não encontrei. O que eu achei que seria um, acabou contribuindo para deixar tudo ainda melhor. São três temporadas irretocáveis e imperdíveis, onde o riso frouxo dá lugar às lágrimas com facilidade sem jamais se perder no tom, com personagens carismáticos e muito bem desenvolvidos, em uma das melhores produções do século e que você não deveria deixar passar batido. Nota: 5/5
- Crítica | Elite (7ª temporada)
Mais uma temporada da Malhação espanhola com novas abordagens e velhos problemas Foto: Divulgação Começa mais um ano letivo em Las Ensinas com rostos conhecidos e novos rostos. Iván (André Lamoglia) está se recuperando do seu atropelamento e tendo que lidar com a suspeita de que seu ex-namorado que se mudou com as irmãs seja o principal suspeito pelo acontecido. Isadora (Valentina Zenere) se mostra disposta a deixar os dramas do passado para trás e assumir os negócios da família. Além de novos personagens e novos dramas que dessa vez não estão interligados por um grande único grande acidente ou crime. Cá estou (estamos?) pelo sexto ano consecutivo para mais uma temporada do drama adolescente de maior sucesso dos streamings. Seguindo a cadência da temporada anterior, a sétima temporada é mais sóbria do que as anteriores e traz com seus novos personagens problemas palpáveis e próximos da realidade como saúde mental, suicídio e dá continuidade a outros que deixaram ganchos na temporada anterior como violência à mulher e o uso de drogas. A falta de um cadáver ou de um grande suspense que ligasse todo o elenco deu mais espaço para os dramas individuais se desdobrarem, o que em alguns casos funcionou e outros não. Os personagens de Iván e Isadora, vividos pelo brasileiro André Lamoglia e pela argentina Valentina Zenere assumiram o protagonismo como acontece com todo o elenco mais veterano. Mas o arco de Iván não tem mais qualquer razão de existir, o roteiro tenta tirar leite de pedra para segurar o ator no elenco, e André se esforça para dar sentido ao personagem sem rumo. E falando em veteranos um dos pontos positivos da sétima temporada é o retorno de Omar, que agora é o único personagem remanescente do elenco original. Omar volta como estagiário do Las Ensinas que está desenvolvendo um aplicativo onde os alunos com problemas relacionados à saúde mental possam pedir ajuda anonimamente. Foto: Divulgação Outros destaques são os atores Gleb Abrosimov e Mirela Balić cujos personagens conseguem resgatar a intensidade das primeiras temporadas. Entre as aparições menores a presença de Maribel Verdú é um dos melhores. Quem também se destaca apesar de ter uma participação pequena, mas com relevância considerável no arco de alguns personagens, é a brasileira Anitta. Surpreendentemente sem se envolver com ninguém, ela se mostra à altura (e as vezes superior mesmo) do elenco principal e se sai bem melhor que seus últimos trabalhos como cantora. Nunca vou me conformar com o quão mal aproveitada é a personagem Rocío, interpretada pela belíssima e talentosa Ana Bokesa. Desde a temporada passada ela não possui um arco próprio e bem consolidado, servindo apenas de suporte para outros cujos enredos ficam sendo requentados para render pouco desenvolvimento. A Netflix aplicou uma intertextualidade com Sangue e Água, série teen sul-africana que está indo para sua quarta temporada. A personagem Fikile (Khosi Ngema) foi para a Espanha num intercâmbio de minutos que motivou a futura de participação de Iván na temporada vindoura da série africana. No mais, é incrível a constância que o programa mantém desde seu início, é o mesmo estilo na técnica e na estética: montagem confusa cortes em profusão. O que se repete também são as soluções rápidas e bem genéricas para resolver problemas que duram por mais de uma temporada. São grandes gestos usado como catarses gritantes. Elite já foi confirmada para sua oitava e última temporada. Bem ou mal, essa é uma das séries mais influentes da Netflix mundialmente falando, e sustentou seu público até aqui fazendo o arroz com feijão que todos esperavam, algumas vezes com mais tempero do que outras, mas que satisfez o imaginário jovem por anos. Estamos falando de uma série que chegou a ter mais uma temporada no mesmo ano. No entanto não há como fazer vista grossa pro desagaste que a repetição e os excessos causaram pra própria narrativa unificada do programa. De novo, você não vai numa churrascaria querendo comer pizza, então para quem segue acompanhando a novela essa talvez seja uma das temporadas que abordou melhor alguns temas importantes e se mostrou madura (isso falando desde a terceira temporada que foi quando houve a maior mudança no elenco original e no texto base). O resto é o de sempre. Nota: 2,5/5
- Crítica | A Queda da Casa de Usher (Minissérie)
Mike Flanagan se despede da Netflix com história de horror em seu mais alto nível Foto: Divulgação Finalizando um ciclo quase que perfeito das suas produções na Netflix, Mike Flanagan lançou, neste mês de outubro, sua última minissérie produzida pelo streaming. A Queda da Casa de Usher é uma de suas obras mais peculiares, interessantes e fecha com chave de ouro uma história de sucesso que rendeu muitas boas histórias para os amantes de terror. Agora, Mike nos apresenta a família Usher, uma dinastia de bilionários da indústria farmacêutica, que está passando por um momento de crise: conforme o governo americano, liderado pelo promotor Auguste Dupin, tenta finalmente responsabilizar a família pelas milhares de mortes causadas pelo analgésico altamente viciante vendido por sua empresa, os herdeiros do magnata Roderick Usher começam a morrer, um a um, em circunstâncias violentas e misteriosas. Em oito episódios, adentramos na história desta família, onde exceto o seu primeiro e o seu último capítulo (que introduz e finaliza a história), vemos cada um dos seis filhos protagonizando o restante dos seis episódios, com foco maior em suas particularidades e insanidades, em uma mistura poderosa de um terror psicológico com momentos que remetem a um terror mais gore e menos interpretativo. Foto: Divulgação A Queda da Casa de Usher reconstrói em sua trama elementos das obras do escritor Edgar Allan Poe na trama criada, roteirizada (sete dos oito episódios) e dirigida (quatro episódios) por Flanagan. As histórias de Poe contribuem com diversas referências, costuradas no roteiro de uma forma muito inteligente, sem perder a sua originalidade, criando sua própria identidade dentro de uma mitologia já bem estabelecida. O drama familiar de Rodrick e de sua irmã Madeline começa muito antes da ruína da empresa dos dois e conhecer o passado ao mesmo tempo em que entendemos o presente na medida em que a série vai avançando é um dos méritos de como Flanagan amarra bem suas histórias. A dinastia é assombrada há décadas e Roderick relembra sua história abrindo, aos poucos, alguns mistérios ao espectador e ao detetive Dupin: algo sinistro aconteceu com sua mãe na sua infância, uma reviravolta no Ano Novo de 1980, e, hoje, uma espécie de maldição que recai sobre cada um de seus filhos. Filhos esses que são desenvolvidos, cada, em cima de um problemático invólucro pessoal e muito bem interpretados pelos atores do Flanaverse. Prospero é o jovem bastardo e inconsequente, Leo é o maníaco obcecado, Camille é a controladora e viciada em trabalho, Victorine é a que quer resolver todos os problemas do mundo, passando por cima do que for necessário, Tamerlane só pensa no poder e no dinheiro e Frederick é cruel e não possui nenhum tipo de compaixão com o próximo. Essa combinação entre os seis, seus círculos familiares e a história maligna que os circula torna A Queda da Casa de Usher uma minissérie intrigante, inteligente e forte para o seu espectador. Nessa Succession sobrenatural, o dinheiro e o poder se sobressaem acima de qualquer coisa e Mike Flanagan prova que contar histórias de terror em minisséries é o seu maior trunfo como cineasta. Resta torcer que suas futuras obras sigam o mesmo alto padrão que ele impôs para si mesmo nos últimos anos. Nota: 5/5
- Crítica | Nyad
Biografia esportiva sobre uma atleta que não é exatamente esportiva e nem só sobre a atleta Foto: Divulgação Nyad é uma força da natureza. Literalmente. O nome remete às ninfas aquáticas da mitologia grega e quando registrado como sobrenome de Diana, vira uma profecia. A personagem que dá nome ao filme fez das águas sua casa, como mostra na impressionante montagem inicial, que exibe imagens de registro das primeiras conquistas da verdadeira Diana. A Diana que acompanharemos, porém, é trinta anos mais velha e interpretada por Annette Bening, que retrata a carismaticamente irritante – ou irritantemente carismática – nadadora aposentada, atual comentadora esportiva em busca de um novo desafio. A resposta parece óbvia para ela – e só para ela: do alto dos seus 60 anos, sem treinar ou se exercitar a décadas, Nyad decide completar a prova que, mais de 30 anos atrás não conseguiu: estabelecer o recorde em águas abertas ao nadar de Havana, Cuba, até Key West, EUA. O desejo logo vira uma obsessão, um sinal claro de alguém com um passado não resolvido, seja na prova fracassada, seja com o abandono de seu pai, seja com sua relação com o técnico e, em consequência, todo o esporte. Não sei se seria considerado spoiler indicar como esse enredo termina. Afinal, apesar de todos os louros, não deixa de ser um filme biográfico esportivo e, se virou filme biográfico esportivo, é porque algo de inacreditável aconteceu. E a obra encontrou os nomes certos para contar essa história: a dupla Elizabeth Chai Vasarhelyi and Jimmy Chin, conhecidos pelos documentários sobre pessoas que se levam ao limite dos seus físicos contra a natureza (Free Solo, The Rescue), agora na primeira vez na direção de uma ficção; o ciematografista Claudio Miranda, responsável por um dos mais icônicos visuais de oceano do cinema moderno, A Vida de Pi; e Julia Cox na assinatura de um roteiro que consegue surpreender esse gênero tão sem surpresas. Foto: Divulgação Isso porque a narrativa central de Nyad não é sua jornada até o recorde. Vasarhelyi e Chin nos lembram que por mais determinado que um indivíduo seja em atingir o impossível, nada vai ser tão intenso e bonito quanto dois indivíduos. E é assim que a lendária Nyad vira coadjuvante, e o filme passa a ser sobre as amigas Diana e Bonnie, esta última vivida por Jodie Foster. Se Diana tem que enfrentar águas-vivas e hipotermias, Bonnie parece ter um desafio ainda maior ao enfrentar – e aguentar – sua teimosa amiga/ex-namorada. O ponto de virada do filme não são as tentativas falhas de Nyad, mas sim os confrontos entre técnica e atleta, afinal, de nada valeria o recorde sem Bonnie para dar o abraço final. Um dia eu serei professora de cinema e isso me fez desenvolver uma mania de escolher obras para passar nas aulas imaginárias que planejo na minha cabeça. Nyad seria a obra perfeita para passar na aula sobre química entre atores. Lógico que estamos falando de duas atrizes indiscutivelmente talentosas, mas as já excelentes atuações de cada uma nas cenas individuais fica para trás quando elas estão contracenando. A dinâmica entre Bening e Foster é uma masterclass, quase dá para ver faíscas saindo da tela e, sem dúvidas, é o que segura o filme. Por mais cativante que seja a história e a própria Nyad em si, e o roteiro aborda todas as várias complexidades de ambas, algumas escolhas estilísticas – principalmente nas cenas de flash back e nos efeitos especiais dos momentos de delírio em alto mar – dão um ar… cafona para um filme que, infelizmente, tinha tudo para ser muito mais que um Oscar-bait, mas, ao contrário de Nyad, não tentou o suficiente. Nota: 3/5
- Crítica | Dezesseis Facadas
Quando referências divertidas não bastam para fazer um bom filme Foto: Divulgação O sucesso da franquia Pânico levou a uma crescente abordagem metalinguística dentro do terror, especialmente no subgênero do slasher. São filmes marcados por alusões conscientes às obras anteriores do gênero, muitas vezes numa abordagem satírica e que desconstrói os tropos habituais dessas obras. Mais de 25 anos depois, a própria franquia surge como uma obra que é aludida e referenciada nos novos slashers, como é o caso do recém-lançado Dezesseis Facadas, de Nahnatcha Khan. Aqui, temos Jamie Hughes (Kiernan Shipka), que enfrenta uma relação difícil com a mãe Pam (Julie Bowen), devido ao caráter superprotetor desta em razão do trauma adquirido após a morte de suas colegas adolescentes nos anos 80 pelas mãos de um serial killer, conhecido como o “Assassino das Dezesseis Facadas”. Quando Pam é morta pelo assassino, Julie se vê na mira dele, mas consegue viajar no tempo justamente para o período em que os primeiros assassinatos ocorreram, destinando-se a tentar proteger a versão adolescente da mãe (Olivia Holt) e suas colegas antes que elas sejam mortas. Desde o seu início, Dezesseis Facadas não esconde suas referências a franquias do terror como Pânico ou Sexta-Feira 13, bem como a clássicos oitentistas como De Volta para o Futuro e os filmes de John Hughes, como Clube dos Cinco. Essa linguagem referencial e autoconsciente (onde Jamie usa seus conhecimentos dos filmes de gênero para tentar antecipar os passos dos assassinos) cai como uma luva em meio à onda de nostalgia pelos anos 80, e é difícil não apreciar várias das piscadelas que o filme faz. É só uma pena que isso por si só não o sustente. Foto: Divulgação O principal problema aqui reside na direção de Nahnatcha Khan, ineficaz em sustentar qualquer tensão ou susto cabíveis a uma obra que se afirma ser terror. A pobreza da plasticidade do filme é quase chocante, como se estivéssemos assistindo a um piloto de uma série de TV de baixo orçamento (e a bem da verdade, não faltam exemplos de séries muito mais criativas e ricas visualmente hoje em dia). Khan também não consegue fazer milagre com o roteiro de David Matalon, Sasha Perl-River e Jen D’Angelo, que mal se esforça em nos fazer torcer e simpatizar pelos personagens. Entendo que há a proposta de que o grupinho de amigos de Pam seja concebido para representar os estereótipos adolescentes da época, mas o filme pesa tanto a mão nesse aspecto que não nos resta outra opção senão torcer para o assassino matá-los. Mesmo Shipka, uma atriz que admiro desde Mad Men, parece no modo automático aqui, embora desponte nas sequências de teor mais cômico. Aliás, se o filme falha como terror, certamente se sai mais bem-sucedido no campo da comédia, seja pelas já citadas alusões quanto pelo abraço aos exageros do gênero e do período retratado. A própria inserção dos elementos da viagem no tempo, se a princípio parecem uma decisão forçada, logo se integram organicamente à trama, especialmente quando as ações de Jamie no passado repercutem no presente. Infelizmente, Dezesseis Facadas é desequilibrado em sua execução, apesar de promissor na teoria. Em meio à safra de slashers meta-cinemáticos e “espertinhos”, o filme se revela uma das ofertas mais irregulares e fracas, que até convence como comédia, mas nunca como terror. Nota: 2,5/5
- Crítica | O Continental: Do Mundo de John Wick (Minissérie)
Spin-off até tenta, mas não consegue atingir os níveis dos filmes de John Wick Foto: Divulgação Em minha crítica de John Wick 4, comentei sobre como era impressionante a evolução da franquia de uma simples história de vingança para uma uma das mitologias mais sólidas e impressionantes de Hollywood. O atrativo dessa mitologia era retroalimentado pela qualidade irretocável das sequências de ação, com setpieces cada vez mais elaboradas e deslumbrantes a cada filme, bem como um cuidado em sua coreografia e filmagem que as distinguia do padrão genérico de ação então corrente. Mesmo com o aparentemente fechamento da história do personagem-título no quarto longa, as portas estavam abertas para novas histórias serem contadas, e O Continental vem como a primeira empreitada deste universo para além dos filmes. Na minissérie de três capítulos, somos transportados para a Nova York do final dos anos 70, para acompanharmos como Winston Scott (vivido por Ian McShane nos filmes e aqui por Colin Woodell) se tornou o gerente do Hotel Continental, lar novaiorquino dos assassinos que servem À Alta Cúpula. Tudo começa quando seu irmão Frankie (Ben Robson) rouba um objeto valioso do atual gerente, Cormac O’Connor (Mel Gibson), que vai atrás de Winston para forçá-lo resolver a situação. O que se segue a partir daí é uma jornada de vingança que envolve diversos grupos de assassinos e criminosos, culminando num audacioso plano para se tomar o Continental de O’Connor. A princípio, a escolha por situar a minissérie no final dos anos 70 é certeira e parece se casar perfeitamente com o universo da franquia. Curiosamente, embora haja ainda uma forte influência do neo-noir como havia nos filmes, há uma escolha deliberada de se distanciar da estética opulenta e limpa deles para abraçar a decadência e sujeira dessa Nova York setentista. Da mesma forma, embora haja a presença de sequências de ação (especialmente no último episódio), a série prefere a abordagem de um thriller criminal e escolhe enfatizar seus personagens. Pelo menos em tese. Digo “em tese” porque falta a esses personagens nos cativarem como os dos filmes faziam, a começar pelo seu protagonista. Nas mãos de McShane, Winston era um dos personagens mais intrigantes dos longas, servindo como mentor a John Wick e nunca deixando de ter sua própria agenda. Woodell até esboça para conferir à sua versão o ar calculista e misterioso da sua versão mais velha, mas suas motivações nunca parecem sólidas ou bem-fundamentadas o suficiente — e estamos falando de uma franquia que começou com um homem querendo vingar a morte de seu cachorro. Mesmo o início de sua relação com Charon (Ayomide Adegun) não recebe os devidos holofotes até o terceiro episódio, de forma que é difícil ver estabelecida a semente de uma das amizades mais bem-estabelecidas nesse universo. Foto: Divulgação A maioria dos núcleos e subtramas sofre de problemas semelhantes, sejam os irmãos Miles (Hubert Point-Du Jour) e Lou (Jessica Allain), a policial KD (Mishel Prada) e seu parceiro/amante Mayhey (Jeremy Bobb), bem como Yen (Nhung Kate), esposa de Frankie. A série tenta pincelar seus dramas particulares, mas a sensação constante que se tem é de que esses conflitos dramáticos tomam um tempo considerável nos episódios. Do lado dos antagonistas, a presença de Mel Gibson é inegavelmente desconfortável, para dizer o mínimo, dado o seu histórico antissemita, racista e homofóbico fora das telas. Seu vilão recebe diálogos constrangedores e tudo o que o ator consegue entregar é uma presença exagerada até para os padrões da franquia, não conseguindo se encaixar aqui. Apesar de um elenco em geral deficitário, há alguns nomes de destaque. O sempre ótimo Ray McKinnon brilha como Gene, um dos aliados de Winston, oferecendo a devida quantidade de humor sardônico de que a série precisa. Katie McGrath, mesmo aparecendo pouco, rouba a cena como a Juíza, sendo capaz de expressar através da personagem todo o brilhantismo da mitologia da franquia que o restante da série não consegue. E Mark Musashi e Marina Mazepa entram para o panteão dos assassinos mais memoráveis desse universo ao interpretarem uma dupla silenciosa e mortífera de gêmeos. Toda essa problemática de personagens tão desinteressantes poderia ser perdoada, porém, se os elementos formais da série se destacassem. Infelizmente, apesar da escolha consciente de se criar uma ambientação e estética novas para a franquia, elas são bastante prejudicadas por um trabalho de fotografia que nos joga em sequências tão escuras e mal iluminadas que é praticamente impossível ver os episódios de dia ou em um local muito claro. Já a montagem potencializa as irregularidades da série, parecendo estender as alongadas durações dos episódios (em torno dos 90 minutos) devido à escolha narrativa de priorizar os personagens e seus conflitos pouco atraentes. Por sua vez, a trilha sonora, repleta de artistas consagrados como Pink Floyd, The Who, Earth, Wind & Fire, Donna Summer, Yes, Chicago e outros, nos transporta eficazmente para aquela época, mas é usada de maneira tão excessiva que até eu, que sou grande fã das músicas dessa época, me senti saturado. Já no tocante às sequências de ação, elas aparecem de maneira moderada, mas geralmente com uma coreografia exemplar, tanto nos tiroteios quanto nas lutas corporais. Há duas lutas no último episódio, inclusive, que são talvez o ponto alto da série, especialmente pelos contextos envolvidos. Entretanto, Albert Hughes e Charlotte Brandstrom, que dirigem os episódios, nem de longe tem a finesse de Chad Stahelski nos filmes, percebendo-se às vezes uma montagem um pouco picotada e confusa que não poderia estar mais distante da linguagem imprimida pelos filmes e que mudou a história do gênero da ação em Hollywood. Ver um produto derivado recorrer a alguns dos pecados do gênero que os filmes rejeitaram é quase uma traição, independentemente de questões orçamentárias. No cinema, John Wick nos mostrou que não há problemas em se fazer o básico, contanto que se o faça bem-feito; a ação, afinal de contas, é uma das muitas formas de se contar uma história. É uma pena, portanto, que O Continental não abrace essa lição quando necessário, preferindo gastar muito do seu tempo com personagens e subtramas pouco empolgantes no lugar de investir na rica mitologia concebida nos filmes — inclusive ignorando-a quando conveniente. Há pontos fortes aqui que merecem a devida apreciação, e é louvável a decisão de adotar escolhas estéticas e narrativas que a possam distinguir em relação aos longas, mas na prática o que temos é uma minissérie que pouco consegue se destacar dentro da franquia tão brilhante da qual faz parte. Nota: 2,5/5
- Crítica | A Roda do Tempo (2ª temporada)
A Roda gira e certos problemas continuam no mesmo lugar Foto: Divulgação Lançada em 2021, a série A Roda do Tempo precisou lidar com as expectativas dos fãs da saga em que se baseia (que conta com nada menos do que 14 livros) e daqueles órfãos de obras de fantasia após o fim de Game of Thrones, além das comparações com O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder, também produzida pela Amazon Prime Video. Apesar dos tropeços, a temporada inaugural foi um grande sucesso para o streaming, que não apenas a renovou para uma segunda temporada, mas também para uma terceira. Em seu segundo ano, a série continua a destacar as maquinações e disputas na luta contra as forças das trevas. Mesmo agora sabendo que é o Dragão Renascido, o herói reencarnado que pode salvar ou destruir o mundo, Rand Al’Thor (Josha Stradowski) se nega a assumir esse papel, preferindo ocultar sua verdadeira identidade enquanto vive um caso com a sedutora Selene (Natasha O’Keefe). Enquanto isso, Moiraine Sedai (Rosamund Pike) amarga a perda de seus poderes, o que afeta sua relação com seu guardião al’Lan Mandragoran (Daniel Henney). Já Egwene (Madeleine Madden) e Nynaeve (Zoe Robbins) treinam na Torre Branca para serem futuras Aes Sedai, Mat (Dònal Finn) se vê como um prisioneiro e Perrin (Marcus Rutherford) segue numa busca pela lendária Trombeta de Valere, roubada pelos servos do vilanesco Ishamael (Fares Fares), que o coloca em rota de colisão com a nação estrangeira dos Seanchan, que pretende colonizar o continente. Como o parágrafo anterior demonstra, há diversas subtramas nessa segunda temporada, e aqui reside o grande problema dela. Se no ano anterior tínhamos os personagens em sua maioria seguindo suas jornadas juntas, aqui estão praticamente todos separados. Isso não é incomum para a fantasia — basta lembrar de O Senhor dos Anéis: As Duas Torres — mas como é o caso de obras que trazem abundância de subtramas, algumas se destacam mais do que outras e há um esforço hercúleo para costurá-las num todo coeso, o que nem sempre funciona. Foto: Divulgação Devo confessar que um dos motivos que me fez ser bastante crítico da primeira temporada foi a atuação do elenco jovem — mais especificamente Stradowski, Madden, Rutherford e Barney Harris, que interpretou Mat na primeira temporada. Nesta nova temporada, é nítida uma evolução para quase todos eles, em especial Madden, que tem talvez o melhor arco individual a partir da reta final dos episódios, culminando numa cena que só posso descrever como catártica para sua personagem. Já Dònal Finn tem a árdua tarefa de cair de paraquedas num elenco já estabelecido, mas ele não apenas supera Harris, como consegue entregar um Mat mais próximo da visão dos livros em suas complexidades, mesmo quando o roteiro da série parece não saber o que fazer com ele. Infelizmente, não consigo ver ainda Stradowski como à altura do peso que seu Rand traz, ainda que, justiça seja feita, o personagem nunca foi o mais interessante da saga, talvez justamente por não fugir muito ao estereótipo do herói de fantasia. Já Zoe Robbins sempre esteve um pouco acima dos colegas, mas sua Nynaeve é disparada uma das personagens mais maltratadas da temporada, que não sabe o que quer com ela até o final, mesmo com o terceiro episódio lhe proporcionando um arco significativo. O que fica evidente, mais uma vez, é que o elenco adulto continua a se sobressair, em especial Rosamund Pike e Daniel Henney, cuja dinâmica é abalada nessa temporada, mas continua única. Diria, porém, que os grandes destaques da temporada são: Sophie Okonedo como Siuan Sanche, líder das Aes Sedai e que incorpora toda a autoridade e nuances da personagem mesmo em pouco tempo de tela; Kate Fleetwood como Liandrin Sedai, uma personagem misteriosa e repleta de complexidades em suas intenções; e Natasha O’Keefe, cuja Selene é mais do que aparenta e nos cativa a cada instante que aparece com um misto de carisma, charme e perigo. É notável também que a temporada consegue corrigir alguns problemas nítidos do primeiro ano, especialmente na parte técnica. Ainda precisamos sofrer com o padrão terrível de algumas sequências de ação noturnas onde é impossível discernir algo (alô GOT, temos visitas), mas é perceptível que os efeitos visuais melhoraram e muito, quando anteriormente foram até motivo de piada pela qualidade risível. Infelizmente, essas melhorias não mudam o fato de que a temporada tem problemas flagrantes de ritmo, devido a uma montagem que não consegue balancear as múltiplas subtramas. O ritmo arrastado da primeira metade, mesmo com algumas sequências de ação pontuais (como o primeiro ataque dos Seanchan), é quase um convite aos que não puseram muitas esperanças na temporada anterior para largar a série de vez; vemos os personagens remoendo suas dores de maneira tão excessiva que parece que a temporada está andando em círculos. A partir do quinto episódio, porém, a série dá uma guinada extrema que revela um problema diametralmente oposto: há tanta coisa acontecendo que quase nenhuma delas recebe o desenvolvimento suficiente. É como ver um carro andando a 20 km/h durante tempo demais, até que ele resolve ir para 150 km/h do nada, e por muito pouco não temos um grave acidente. Apesar das convergências pouco orgânicas de todas essas subtramas no último episódio, este consegue se firmar como o melhor da série até o momento, deixando-nos ao menos curiosos para onde ela irá a partir de agora, e se consegue manter o nível desse episódio em questão ou se vai voltar à sua zona de conforto e a um padrão mediano. Ao fim do seu segundo ano, A Roda do Tempo efetivamente conseguiu se libertar do peso dos livros que adapta para poder contar sua própria história, e não resta dúvidas de que é uma boa diversão para os fãs de fantasia. No entanto, não foi dessa vez que a série conseguiu superar todos os seus problemas e atingir a grandeza do gênero, mesmo que seja possível ver nela a possibilidade de ser algo mais. Nota: 3/5
- Crítica | Ahsoka (Minissérie)
Ou a quinta temporada de Star Wars Rebels Foto: Divulgação A jornada de Star Wars no cânon da Disney tem sido... trôpega, para dizer o mínimo. Para cada The Last Jedi, Rogue One e Andor, há um A Ascenção Skywalker, O Livro de Boba Fett e Obi-Wan Kenobi. A minissérie de Ahsoka vem para dar continuidade aos eventos semeados em O Mandaloriano — que após duas ótimas primeiras temporadas, desandou um bocado em sua terceira. Trata-se de uma obra que se beneficia do papel ativo que seu criador, Dave Filoni, passou a ter dentro da franquia após suas amadas animações Clone Wars e Rebels, inclusive por ter criado a personagem-título, aqui vivida por Rosario Dawson. Por isso, não chega a ser uma surpresa que Ahsoka se porte como uma sequência dessas animações, embora oficialmente seja um spin-off de O Mandaloriano. A trama se centra na busca da protagonista por evidências que confirmem que o Almirante Thrawn (Lars Mikkelsen) — um dos maiores antagonistas de Star Wars, seja no Universo Expandido ou no atual da Disney — pode ser liberto do seu exílio e assim por a galáxia em risco. Para isso ela se une a duas das protagonistas de Rebels: Sabine Wren (Natasha Liu Bordizzo) e Hera Syndulla (Mary Elizabeth Winstead), com Sabine se envolvendo pessoalmente nessa missão para resgatar seu amigo Ezra Bridger (Eman Esfandi), que foi o responsável pelo exílio de Thrawn, mas desapareceu junto com ele. A adição dos personagens de Rebels em suas versões live-action é certamente um grande presente para os fãs. Em particular, Bordizzo e Esfandi se destacam em suas versões dos personagens, ainda que uma determinada atitude de Sabine na metade da série possa mudar e muito o olhar do público sobre ela (e não tenha suas consequências ainda devidamente trabalhadas). Ainda assim, a atriz sustenta a atitude impetuosa da personagem, e sua química fraternal com Esfandi (que irradia carisma) é um grande acerto. Infelizmente, Winstead, mesmo sendo um dos rostos mais conhecidos aqui, tem pouco a fazer com sua Hera além de dar um vislumbre das políticas da Nova República; contudo, assim como na última temporada de Mandaloriano, a abordagem de Filoni para o lado político da franquia é rasa e redutora, especialmente depois de tudo o que vimos em Andor no ano passado. Foto: Divulgação Felizmente, se há algo em que a série acerta é nos seus antagonistas, mantendo a tradição da franquia em entregar vilões memoráveis. Como Thrawn, Lars Mikkelsen (que já havia dublado o personagem em Rebels) entrega um prenúncio da astúcia e perigo do personagem, justificando-o como um dos maiores adversários da história de Star Wars. Mas quem rouba a cena é Ray Stevenson como Baylan Skoll, um ex-jedi envolvido nos planos da libertação do vilão e que serve de oposto à Ahsoka, especialmente por fugir do maniqueísmo habitual da franquia. A visão dada pela série ao personagem é tão interessante — e potencializada pela atuação magnética de Stevenson — que só posso lamentar ainda mais pela morte repentina do ator em maio deste ano, especialmente diante do final deixado para Baylan, que nos prometia grandes coisas para ele. Bom, mas e sobre Ahsoka, a protagonista? É aqui que pode se identificar alguns dos principais problemas da série. Não por culpa de Dawson, que consegue entregar maravilhosamente bem uma versão mais velha daquela personagem imatura e impetuosa de Clone Wars, e sustenta uma deliciosa dinâmica com o droide Huyang, dublado por David Tennant. Entretanto, pelo menos em sua primeira metade, Ahsoka parece se esquecer de que ela é a protagonista, tomando muito do seu espaço e tempo para dar a outras subtramas. Isso muda a partir do quinto episódio, onde temos o retorno de Hayden Christensen como Anakin Skywalker/Darth Vader e uma abordagem incrível da relação de mestre e aprendiz dele com Ahsoka; contudo, até o último episódio fica a impressão de que dar à série o nome da personagem foi injusto, já que o que temos aqui é mais uma nova temporada de Rebels do que uma série propriamente dita dela. Claro, Filoni e os diretores escolhidos sabem compensar isso com uma identidade visual marcante e que honra os aspectos mais fortes de Star Wars, inclusive nos duelos de sabre de luz, que prestam a devida homenagem aos filmes de samurai que tanto influenciaram a franquia. Além disso, há uma abertura aqui para adições à mitologia desse universo que me deixaram bem animado, como bruxas e zumbis (!), mostrando que há sempre espaço para o novo. Entretanto, o final aberto trai mais uma vez a proposta da série, que foi vendida como uma minissérie. Fica a sensação, cada vez mais recorrente nas produções de Star Wars nas mãos da Disney, de que tudo aponta para um “vem aí”, para a próxima produção, além da overdose de fan-services para mascarar problemas maiores. É a herança maldita dos filmes da Marvel, e que nos impede de apreciar e até analisar uma série como essa por si mesma. Até a decisão de enfocar na continuidade em relação a Clone Wars e Rebels já parece um esforço de limitar o público que aproveitará 100% a série, como se ela fosse pensada para um nicho específico dentro dos fãs da franquia. Como alguém que só assistiu a primeira temporada de Clone Wars, foi nítido como certos elementos e fan-services da série me passaram despercebidos, embora a evolução da trama tenha me permitido admirá-la como um todo sem tanto conhecimento prévio. Não há dúvidas de que Dave Filoni sabe como ninguém trazer muito da identidade que George Lucas construiu para Star Wars, e isso é evidente aqui em Ahsoka. Mesmo com seus problemas de foco, a série se firma como uma das experiências mais positivas dentro do que tem sido feito da franquia para a televisão. Entretanto, antes de embarcar nela é preciso um ajuste de expectativas, já que temos um bocado da togruta imortalizada nas animações e consolidada na performance de Dawson, mas talvez não o bastante para dizer que essa série pertence a ela. Nota: 3,5/5
- Crítica | Flora e Filho - Música em Família
John Carney entrega mais uma obra reconfortante, embora com algumas falhas mais notáveis Foto: divulgação O cinema do irlandês John Carney parece ancorado em duas temáticas: o poder transformador e catalisador da música e as delícias e dores do amor. Do seu longa Once à sua série Modern Love, passando por Mesmo se Nada Der Certo e Sing Street, o diretor sempre consegue uma forma de entrelaçar esses temas em abordagens distintas, mas nunca perdendo de vista o calor e o conforto que suas obras são capazes de trazer. Flora e Filho segue essa mesma cartilha, nos apresentando à sua protagonista-título (Eve Hewson) primeiro numa boate, até nos fazendo pensar sobre o quão jovem é a personagem, antes de nos revelar que ela tem um filho de 14 anos, Max (Óren Kinlan). As sequências iniciais já conseguem nos mostrar que, mentalmente falando, Flora não é tão mais velha que seu filho, algo acentuado pela rudeza das suas interações. É só quando, ao achar um violão e dá-lo a Max (que o recusa), ela decide aprender a tocar o instrumento, passando a ter aulas online com o estadunidense Jeff (Joseph Gordon-Levitt). Carney emprega aqui uma abordagem mais crua e visceral em relação aos seus longas anteriores, o que chega a surpreender aqueles que esperavam uma abordagem mais leve. Ainda assim, ele não deixa de lado o interesse em explorar o melhor dos seus personagens, especialmente através da relação com a música. Flora é rude, briguenta e tão imatura quanto o filho, mas o filme nunca nos faz esquecer que ela o teve muito nova e nunca contou com o suporte necessário para criar, visto que o pai, Ian (Jack Reynor, repetindo a dobradinha com Carney de Sing Street e Modern Love), é um tremendo babaca. Ajuda que Eve Hewson consiga nos cativar tão rápido, mesmo quando exibe os piores lados da personagem. Já tinha admiração pela atriz desde que a vi em Bad Sisters (e o fato dela ser filha de Bono Vox também ajuda um pouco), mas aqui ela tem a chance de exibir todo o seu talento ao criar uma personagem que à primeira vista parece difícil de torcer, especialmente pelo quanto falha com Max, mas em quem logo investimos e por quem desejamos que cresça na vida. Suas interações com Jeff, mesmo limitadas pela distância física, desfrutam da enorme química de Hewson e Gordon-Levitt, ainda que a construção do sentimento entre ambos pareça um pouco trôpega no início. Foto: divulgação Contudo, é nítida aqui uma tensão no filme, como se ele não soubesse se quer priorizar o relacionamento de Flora e Jeff ou as questões maternais dela com Max. Este não parece sair muito do estereótipo do adolescente chato, mesmo que a sua ligação com a música ajude a melhorar e muito sua ligação com a mãe. Porém, o filme vive nessa incerteza sobre qual desses relacionamentos quer melhor explorar (a despeito do título), e acaba parecendo ter duas metades não tão bem desenvolvidas. Essa incerteza ainda se estende à forma como Ian é usado dentro da trama, apesar de Reynor ser ótimo como sempre. Essa tensão mal resolvida é expressa até na forma como a música é usada dentro do filme. Se por um lado temos ótimas sequências como aquela em que Flora é profundamente tocada por "Both Sides Now" de Joni Mitchell ou nas suas interações com Jeff, as músicas originais do filme carecem do frescor que as de outros filmes do diretor, como as de Sing Street ou “Falling Slowly”, pela qual Once ganhou o Oscar de Melhor Canção Original. Além disso, a maneira rasa com a qual o roteiro trata a tentativa de Max conquistar uma garota através de suas composições parece uma recauchutagem da trama principal de Sing Street, mas sem o mesmo ímpeto. Assim, Flora e Filho continua a exibir várias das mesmas qualidades da filmografia e John Carney e dos temas que lhe são tão caros, mas infelizmente sem a mesma força de suas obras anteriores. Contudo, é graças ao carisma e talento de Eve Hewson que o filme se encontra, trazendo uma protagonista complicada, mas ainda assim inegavelmente amável e que, como tantos de nós, tem sua vida transformada pela música e pelo amor. Nota: 3.5/5
- Crítica | O Exorcista - O Devoto
David Gordon Green entrega um terror sem apelo, sem lógica e sem vontade Foto: Divulgação O Exorcista – O Devoto conta a história de Victor Fielding (Leslie Odom Jr.), pai que criou sozinha sua filha Angela (Lidya Jewett, série Good Girls). A vida da família é alterada para sempre quando Angela e sua amiga Katherine (Olivia O'Neill) desaparecem na floresta e retornam três dias depois, sem memória do que aconteceu com elas, e logo uma série de eventos aterrorizantes são desencadeados. Esse longa é uma sequência de erros, más ideias e execuções piores ainda. Duas meninas vão passear na floresta, passam dias sumidas e voltam possuídas. O que houve? Onde elas foram? Como passaram os 3 dias? Eu também estou querendo saber, mas por algum motivo as pessoas envolvidas no texto base do filme acharam que não eram questões importantes. As cenas iniciais são uma introdução ao nascimento de uma das crianças protagonistas e até parecem dar algum embasamento para o que está por vir. Já a outra criança está ali com o mero propósito de fazer volume, sem qualquer causa, mas cheia de consequências. O enredo é péssimo, não existe qualquer motivação para a sequência de fatos que decorrem desde o início da possessão que é quando o longa começa a ter um pouco de ação, porque durante os quarenta primeiros minutos não acontece absolutamente nada que impulsione o argumento para frente. Os debates sobre fé são rasos, sem novas perspectivas, sem interesse. O texto ainda tenta pregar um ecumenismo genérico para pregar uma mensagem que “toda fé importa”, mas é cafona como uma tradicional propaganda de igreja branca americana. Foto: Divulgação Uma das melhores escolhas no Exorcista original é a forma como ele não prepara o espectador pra densidade do que está por vir, o filme inteiro é guiado por um mesmo tom noir-misterioso que constrói uma tensão padrão e duradoura do início ao fim. Mas esse segue a fórmula atual do terror comercial de sempre criar aquela atmosfera pré-susto que entrega boa parte das “surpresas” vindouras. E sim, ele consegue ter seus sustinhos, afinal é somente pra isso que ele foi feito, mas não valida o restante da bobagem que se tem que aturar. São inúmeros personagens mal aproveitados que, assim como todo o restante, parecem ser apenas para ganhar tempo, é inclusive vergonhoso o resgate (e o desfecho) insustentável da personagem Chris MacNeil (Ellen Burstyn) que se soma ao monte de outras ideias vazias se espremendo para ter algum significado. E, ok, absurdamente deixemos de lado o roteiro e vamos focar na plasticidade. É tudo repetido, não tem qualquer elemento visualmente marcante que cause vislumbre – para o bem ou para o mal – e dê alguma identidade à produção. Fazia muito tempo que eu não assistia a um terror com tanto enchimento de linguiça da pior qualidade. É um amontoado de propostas mal recicladas onde nem a forma nem a função conseguem convencer. Não tem exorcista, não tem exorcismo e não tem a menor condição de ter mais duas continuações. Nota: 1/5
- Crítica | Anatomia de uma Queda (TIFF 2023)
O ganhador da Palma de Ouro é um prato cheio para os fãs de dramas de corte Foto: divulgação Após a extraordinária experiência com Saint Omer, somos agora convidados a adentrar novamente nos corredores dos tribunais franceses, desta vez para testemunhar um intrigante caso de homicídio. Anatomia de uma Queda, que surpreendeu o Festival de Cannes, nos transporta para a história de Sandra, uma mulher acusada de ser a responsável pela morte de seu próprio marido. O filme apresenta diversas qualidades, com destaque para a brilhante atuação de Sandra Hüller no papel principal, uma interpretação que praticamente sustenta toda a produção. Além de proporcionar entretenimento intenso que mantém o espectador à beira de seu assento, o longa também o convida a assumir um papel ativo como membro do júri virtual. No entanto, é importante notar que, apesar de suas virtudes, o filme não inova no gênero e, em alguns momentos, se afasta do universo que construiu. Como mencionado anteriormente, se há uma razão para assistir Anatomia de uma Queda, essa é a atuação de Hüller. Ela consegue dar vida à sua personagem de forma sensível e realista, demonstrando uma capacidade de se tornar intensa quando necessário. Um exemplo notável é um monólogo que se destaca pela excepcional performance e direção, habilmente selecionando o que apresentar ao público. Esse momento não apenas realça sua atuação, mas também enriquece a narrativa do filme. Foto: divulgação Os demais membros do elenco também desempenham seus papéis com competência, porém, nenhum deles se equipara à protagonista. No entanto, uma das questões que me incomodou no filme foi o personagem de Milo Machado Graner, o filho de Sandra. Embora ele tenha realizado uma atuação notável, especialmente considerando sua idade, algumas das ações de seu personagem parecem não condizer com a faixa etária que representa. O longa possui uma montagem habilidosa que equilibra efetivamente o ritmo entre os eventos no tribunal e os aspectos pessoais da protagonista e sua família. Mas, lamentavelmente, há um ponto na trama em que os argumentos começam a se tornar um tanto exaustivos, especialmente após o impressionante monólogo de Hüller. Felizmente, ele recupera o ímpeto ao introduzir um novo clímax que conduz a história até sua conclusão de forma satisfatória. Anatomia de uma Queda é um filme incrível para todos os amantes de dramas judiciais, embora não traga inovações ao gênero. A produção conta com uma escalação de elenco perfeita, embora apresente algumas incoerências em relação ao universo da história. Nota: 4/5












