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  • Crítica | Oppenheimer

    A escultura cinematográfica sobre um homem e seu império de devastação Foto: Divulgação O clarão silente prefigura o estrondo. O único som que se ouve é o da voz, em tom autoconsciente, a consentir seu destino: “Agora torno-me a Morte, destruidora de mundos”. Depois, o estampido massivo e avassalador preenche violentamente cada canto da sala. Há fascínio e terror nos olhos dos personagens diante da representação, e nos olhos dos espectadores, presenciando a reprodução da explosão atômica na tela do cinema. Poucas vezes presenciei tamanha sinergia entre o real e a arte. À essa altura já estou convicta de que este é sem dúvidas o maior trabalho de Christopher Nolan: desde a escala da obra, os grandes planos, até o grande elenco – em relevância e em número – e, claro, a ambiciosa reprodução da Experiência Trinity, que revela o ponto alto do filme e a megalomania do diretor de Inception. Mas ainda que seja um filme de suntuosas demonstrações do poderio que o nome de Christopher Nolan já carrega, seja pelo tamanho e peso dos rolos do filme, ou no uso pioneiro da filmagem em preto-e-branco no formato IMAX, ou até na recriação da bomba com efeitos práticos (ele não usou uma bomba de verdade); a narrativa concentra-se essencialmente em escoltar a pessoa de J. Robert Oppenheimer, desde seus primeiros desejos juvenis pelo (re)conhecimento e a paixão pela Física, suas ligações com movimentos de Esquerda, seus amores conflituosos, a sisudez e a personalidade labiríntica de motivações um tanto incompreensíveis, a ambiguidade entre a busca pela glória e o arrependimento pela concepção das ogivas que assolaram Hiroshima e Nagasaki. Nolan entalha fendas no tempo fílmico, e nas curvas temporais que cria para fluir entre os acontecimentos cronológicos, pinta na cinematografia, com a ajuda do diretor de fotografia Hoyte van Hoytema – com quem já trabalhou no sci-fi pop Interstellar (2014), Dunkirk (2017) e no repetitivo e exagerado Tenet (2020) – a complementaridade narrativa. Nos planos-detalhe explorando ângulos, olhares e expressões de Cillian Murphy, que está completamente excepcional e entregue – será que finalmente a Academia o recompensará desta vez? –. Os flashbacks/forwards e elipses narrativas, impressão digital do Estilo Nolan, à exemplo dos diálogos mantidos em segredo como presentes ao que perseverar até o fim (como em Inception) das 3 horas, que demandam do público atenção e disponibilidade, mas que facilmente envolvem a audiência com beleza. É um filme bonito e provocativo. A nitidez na experiência IMAX traz, de fato, um diferencial específico. Porém, é válido deixar o aviso aos mais sensíveis audivelmente, como eu: a intensidade e volume do áudio vão oprimir – e não há ingenuidade aqui ao compreender que esta é a intenção. Foto: Divulgação Há uma infinidade de pontos a destacar num longa – obrigada, Semântica – de 180 minutos. Mas certamente o plongée x contra-plongée [que em bom português quer dizer mergulho, ou aquela inclinação do ângulo muito frequentemente usada em cenas que demonstram a soberania ou a grandeza de uma pessoa em detrimento de outra(s)] na interação entre Oppenheimer e Isidor Rabi (David Krumholtz) é um ponto alto, e como a movimentação é estabelecida puramente pela câmera, ilustrando o teor da relação íntima e cúmplice de ambos. Por outro lado, há pontos negativos a destacar e um deles é o mesmo erro que Christopher comete há tempos: o tratamento pífio de suas personagens femininas, que já não são muitas. Emily Blunt interpretando Kitty Oppenheimer, esposa de Robert, está fenomenal porque é Emily Blunt. Florence Pugh é Jean Tatlock, a psiquiatra e affair do Físico, tem sua conturbada participação pouco aproveitada, e divide opiniões numa cena polêmica, ainda que sirva para demonstrar, alegoricamente, a grave exposição emocional do casal Kitty e Robert durante um inquérito forjado por vendetta. Outro destaque é Robert Downey Jr. interpretando Lewis Strauss neste que será reconhecido, provavelmente, como um dos papéis mais significativos de sua carreira. Apesar da não-linearidade no caráter do personagem não oferecer tanta surpresa, é a execução elegante do ator que garante a grandeza de sua participação. Kudos também ao coadjuvante de luxo, Alden Ehrenreich, pela conexão estabelecida, gerando ótimas interações com Downey Jr. Christopher Nolan ergue sua escultura cinematográfica baseando-se na obra vencedora do Pulitzer (o “Golden Globes” dos literatos e jornalistas) American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer (tradução livre: Prometeus Americano: o triunfo e a tragédia de J. Robert Oppenheimer) de Kai Bird e Martin J. Sherwin, que enxergaram na imagem do titã Prometeu o caminho e destino do físico americano. Prometeus roubou dos deuses o fogo e o entregou aos homens. O resultado de sua cega lealdade foi a exposição e o sofrimento perene na forma do cruel castigo divino: Zeus, em sua fúria destemperada, o mantém cativo e envia, todas as noites, uma águia que impiedosamente dilacera o fígado do titã, que é novamente regenerado durante o dia, para que a ave retorne e o suplício nunca termine. Assim como sobreveio ao Arjuna, no Bhagavad Gita, texto sagrado hindu que possui a célebre frase dita duas vezes no filme (uma delas de modo leviano, eu diria), o temor mortal ao encontrar-se com a real face de Vishnu, ou Prometeus, trazido da morte à vida diariamente pelo preço de suas escolhas, ambos provaram do maravilhamento da descoberta e do terror lancinante da consequência. Oppenheimer mostra o homem que seguiu o mesmo caminho dos mitos e construiu, com suas próprias mãos, um império de devastação. Nota: 5/5

  • Crítica | Entre Estranhos (Minissérie)

    Nova série do Apple TV+ tem boas intenções, mas subestima o seu próprio telespectador Foto: Divulgação Para construir um bom mistério, é necessário alguns critérios importantes – ambientação detalhada, personagens cativantes, um enredo que trafegue bem entre o enigmático e o satisfatório e, obviamente, uma reviravolta eficaz. Porém, preencher esses requisitos não é sinônimo de dever cumprido, visto que o pote de ouro está na maneira em que a história é contada. E é justamente neste último ponto que a nova série do Apple TV+, Entre Estranhos, erra de forma brusca, desperdiçando um bom elenco e, pior, uma boa ideia. Entre Estranhos conta a história de Danny Sullivan (Tom Holland), um jovem misterioso que acaba sendo preso após iniciar um tiroteio em plena luz do dia, no Rockefeller Center, em uma Nova York da década de 70. A razão por trás do crime parece ser uma incógnita para os policiais do caso, que logo buscam o auxílio da professora Rya Goodwin (Amanda Seyfried), especialista em transtornos da mente humana. Durante suas sessões, Rya tenta encontrar fagulhas do passado de Danny que possam vir a justificar os seus últimos atos violentos e os achados peculiares em sua residência. Essa dinâmica traz constantes retrospectivas temporais, conforme o diálogo dos dois personagens vai progredindo e tornando-se mais denso. Ariana (Sasha Lane), Yitzak (Lior Raz) e Jonny (Levon Hawke) também são alguns personagens que fazem parte dos sucessivos eventos que levaram Danny até o fatídico tiroteio. É importante frisar também que Entre Estranhos foi baseada no livro As Mentes de Billy Milligan, escrito por Daniel Keys. A obra conta a história real do próprio Billy Milligan, um homem atormentado por vinte e quatro personalidades diferentes e acusado de crimes como estupro, sequestro e roubo. Por mais que a série tenha sido construída a partir do julgamento de Milligan, a trama, e o próprio Danny, seguem linhas distintas do caso criminal legítimo. Em seus dez episódios, a série busca criar uma atmosfera de suspense, ao passo que também traz uma carga dramática intensa para a narrativa. Daí, somos apresentados à adolescência de Danny, aos conflitos entre sua mãe e seu padrasto e, mais à frente, aos seus traumas de infância. Foto: Divulgação Dito isso, por mais que Entre Estranhos possua uma premissa interessante e sedutora, sua montagem, edição e duração não fazem nada para tornar a experiência do telespectador agradável. Tudo soa prolongado demais e pedante demais, o que até acaba prejudicando a exemplar atuação de Tom Holland. O seu personagem paga pela forma cansada em que sequências são montadas e conjugadas entre si – é sempre o mesmo movimento de retornar ao passado e trazer um Danny mais confuso no presente. Quando a série opta por fugir da sua estratégia de salto temporal ao passado, a história torna-se mais dinâmica e atraente. Um exemplo disso é o episódio 6, intitulado Rya, que tem o seu foco mirado na personagem de Seyfried e em seus desafios pessoais e profissionais acerca do caso. Para fazer justiça à totalidade de Entre Estranhos, percebe-se que há um cuidado diante da conversação sobre saúde mental e como certos abusos podem afetar a mente humana de formas inimagináveis. Nesse âmbito, o roteiro de Akiva Goldsman (Uma Mente Brilhante) consegue refletir sobre a importância que o eixo temático merece, especialmente porque estamos falando de uma série baseada em acontecimentos reais, numa época de pouca compreensão sobre o adoecimento psicológico. Entretanto, Entre Estranhos resolve tomar uma das piores decisões criativas para o desenrolar de um suspense – esconder informações nas quais o público já conseguiu entender de cara. O resultado dessa escolha é um grand finale enfezado. É muito difícil manter o telespectador atento quando o material acaba ficando para trás, sugerindo pistas para um plot óbvio e escancarado. Talvez se o roteiro fosse mais honesto em suas decisões, a produção poderia debruçar de uma maneira ainda mais incisiva e menos clichê sobre as circunstâncias em que Danny se encontra. Para um bom entendedor, meia palavra basta, e infelizmente a série Entre Estranhos não consegue entender que o seu público é um observador astuto. Em sentido amplo, a série parece ignorar notas singelas que são essenciais para tornar um enredo interessante. Muitas coisas poderiam ter sido diferentes se ao menos a obra usasse os seus longos episódios para dissecar seus personagens sem pudor, e sem antecipar a chegada de uma grande revelação que já foi decifrada. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Clonaram Tyrone!

    Comédia revisita blaxploitation com acidez e muito subtexto Divulgação: Netflix Clonaram Tyrone! é uma comédia de ficção científica onde um trio improvável investiga uma série de eventos suspeitos, que os leva para uma conspiração nefasta bem abaixo de seus narizes. Fontaine (John Boyega), traficante de drogas do bairro, é morto a tiros pelo rival Isaac (J. Alphonse Nicholson) e fica muito chocado ao acordar ileso em sua cama na manhã seguinte. Ele, Slick Charles (Jamie Foxx) e Yo-Yo (Teyonah Parris) começam a investigar o incidente, e sua busca eventualmente os guia até vasto complexo subterrâneo onde um laboratório apoiado pelo governo está realizando experimentos absurdos em sua comunidade. Apesar da pouca experiência na direção de longas-metragens o diretor Juel Taylor mostra que tem boas referências e estilo ao trazer uma produção inspirada nos blaxploitation, mas cheia de identidade própria. O subgênero foi consolidado nos anos 70 e apresentava, na maioria das vezes, histórias de investigação e crime que giravam em torno de personagens negros estereotipados e apresentavam um tipo de humor descompromissado. Taylor, que também roteirizou o longa com Tony Rettenmaier, usa dos mesmos estereótipos para subvertê-los na sátira, no humor afiado. As referências também estão no uso de granulação na imagem, na trilha sonora infundada em muito contrabaixo e instrumentos de sopro e nas ambientações. Ainda falando de referências é quase impossível não se lembrar dos roteiros de humor negro dos irmãos Coen, marcados pelas comédias de erros e pelo uso do absurdo como motivação e não como um recurso preguiçoso para tapar buracos do texto. Esse é um filme esperto e cheio de detalhes que se o espectador estiver atento vai deixar o clima de mistério ainda mais instigante – a primeira cena em especial –, mas que se também passar batido não vai comprometer o andamento. A mescla de gêneros é também muito bem executada e equilibrada. O gênero principal aqui é comédia, mas na medida em que a história vai se desdobrando ela vai se encorpando e ficando mais densa, sem nunca perder o viés cômico. O subterrâneo não é uma alegoria nova para o misterioso e para o inesperado no cinema. Entre outros tantos que surpreendem com criaturas e seres desconhecidos em subsolos, porões e metrôs, mas outra referência que se materializou durante o passar do filme foi Nós (2019), de Jordan Peele, que também abordou clones undergrounds. E mesmo falando nessas referências indiretas a comédia não se apropria de qualquer elemento desses nomes já citados, afinal de contas ele possui um cardápio de referências diretas que faz questão de citar sempre que pode como Nancy Drew e Foxy Brown. O trio protagonista é espirituoso, divertido e brilha igualmente em diferentes momentos. John Boyega mesmo tendo o personagem mais sóbrio, consegue apresentar seu lado cômico e mais leve que poucas vezes teve oportunidade de mostrar no cinema até então. Jamie Foxx – que também é produtor – é mais familiarizado com papéis escrachados, que desempenha muito bem diga-se de passagem, e está bastante confortável no seu personagem à lá Dolemite. Mas se é possível dizer que um deles rouba a cena, é com certeza Teyonah Parris. A atriz exibe um repertório suficiente para exceder as expectativas de um papel pensado para ser sencundário. A comédia se apresenta, se estrutura e se desenvolve tão bem que o ponto de inflexão para a conclusão parece se resolver sem a criatividade que conduziu o roteiro até ali, mas ainda assim não tira os méritos do filme. Esse ano eu falei sobre afrosurrealismo na crítica da espetacular série Sou de Virgem, de Boots Riley, e pouco menos de um mês o subgênero reaparece em Hollywood com outra obra bastante sagaz. Eugenia, racismo, capitalismo, controle de massa, status quo, gueto, apartheid... assim como Riley Taylor pincelou temáticas sociais suficiente para compor um enredo perspicaz, e sem querer dar palestra. Nota: 4/5

  • Crítica | O Convento

    Há perdão para um filme que peca por ser um terror esquecível? Foto: Divulgação A religião, em especial a cristã, sempre foi um terreno fértil para a exploração do terror. Do clássico controverso The Devils (1971) ao mais recente Saint Maud (2019), muitas obras exploraram as linhas tênues entre o conflito psicológico e sobrenatural, bem como os terrores da religião organizada. O Convento até tenta adentrar esse filão, mas no fim se sai como mais uma obra genérica do gênero, que falha em quase todos os requisitos para se firmar como um terror bom ou minimamente memorável. O filme segue Grace (Jena Malone), uma médica em Londres que recebe a notícia da morte do irmão num convento no interior da Escócia. Devido à incerteza se se tratou de um suicídio ou homicídio, ela viaja pessoalmente até o convento, onde se vê confrontada pela misteriosa Madre Superiora (Janet Suzman) e por visões que parecem revelar mais do seu passado e até mesmo do futuro, abalando seu ceticismo. O filme já se inicia com uma cena in media res que tenta nos provocar sobre porque as coisas chegarão àquele ponto, mas parece esvaziar qualquer tensão sobre o final da obra (até porque, ao ser repetida ao final, ela se mostra extremamente previsível). A primeira meia-hora do filme é protocolar, mas relativamente eficaz em nos indicar que há algo de estranho na rotina de Grace antes mesmo da notícia de que o irmão morreu. Malone faz o que pode: acostumada a fazer personagens complexas e irascíveis, ela é ótima em apresentar a raiva que borbulha na protagonista diante do fanatismo do convento, mas infelizmente o filme faz pouco por ela para que mostre seus talentos. Foto: Divulgação Há até um esforço inicial em nos apresentar à estranheza do local e das freiras que nele vivem, estranheza essa que é melhor simbolizada na figura da Madre Superiora. Suzman é quem consegue melhor capturar a atmosfera que o filme propõe, e por isso é uma pena que seja descartada tão facilmente no último ato. O restante dos personagens pouco têm a dizer, e não ajuda que o filme entregue uma cena tão expositiva na virada do primeiro para o segundo ato que praticamente estraga toda pretensão ao mistério e desconforto que vinha tentando fazer ao nos colocar na pele de Grace, além de expor a verdadeira faceta de personagens como a Madre Superiora ou o padre vivido por Danny Huston. O simples fato do longa continuar como se essa cena não existisse — e já não soubéssemos que há algo de muito errado no convento — mostra como ele não sabe o que quer fazer com suas ideias, pendendo cada vez mais para um desfecho previsível. No fim, O Convento podia até elevar sua premissa genérica caso se esforçasse em uma execução mais notável, que buscasse representar o horror e desconforto contidos nessa premissa, mas é o tipo de filme tão morno e apático que não nos inspira nada — nem mesmo raiva por assistir algo ruim. Jena Malone, Janet Suzman e Danny Huston até tentam, mas não são capazes de salvar um filme que está fadado ao esquecimento como tantos outros terrores que não souberam extrair o melhor do pior da religião organizada. Nota: 2/5

  • Análise | Vale a pena ver uma série teen de 20 anos atrás (ou mais)?

    Uma ode aos fenômenos adolescentes que marcaram a TV, mas que hoje podem ser vistos com outros olhos Foto: O.C.: Um Estranho no Paraíso/FOX Eu sou fã confesso do gênero, mas não lembro exatamente qual foi a primeira delas que vi. Provavelmente Malhação, que eu lembro de acompanhar. Porém, das norte-americanas, sei que O.C.: Um Estranho no Paraíso foi uma das, em uma manhã de domingo junto com One Tree Hill (Lances da Vida) ou Veronica Mars. No dia 5 de agosto, a série dos jovens ricos de Orange County completa 20 anos de sua estreia na FOX dos Estados Unidos, e na terça-feira, a HBO Max finalmente disponibilizou as 4 temporadas do seriado na íntegra. No entanto, com tantas opções, será que ainda vale a pena dedicar seu tempo a 4 temporadas, com 3 delas passando dos 24 episódios? Será que não envelheceu mal? São questionamentos comuns e pertinentes. É óbvio que uma série contemporânea é fruto da época em que se passa, seja na moda, tecnologia ou costumes e não à toa marcam gerações. A série adolescente mais antiga que eu vi foi The Wonder Years (Anos Incríveis). Estreou na rede ABC em 1988 e durante seis temporadas, abordava a vida de Kevin Arnold (Matthew Broderick), um garoto de 12 anos, sua família e seus amigos. Situada no final da década de 1960, e apesar da Guerra do Vietnã ser um tema recorrente, exalava inocência, pelo menos até as duas últimas temporadas onde Kevin já é um adolescente no colegial e começa a ter pensamentos mais avançados, digamos assim. É uma das melhores do gênero e sua importância é inegável, abordando temáticas importantes concernentes à idade de uma maneira sensível, embora peque pela falta de diversidade, um problema comum por muito mais tempo do que deveria. Em 1990, a FOX estreou Beverly Hills, 90210, popularmente conhecida como Barrados no Baile por aqui, virou uma febre que durou dez temporadas e sua influência é sentida até hoje. Muitos dos clichês que permeiam essas tramas, como os triângulos amorosos – como esquecer Brenda (Shannen Doherty), Dylan (Luke Perry) e Kelly (Jennie Garth)? –, o conflito de classes, paixões proibidas, problemas com álcool e drogas, virgindade e tantos outros que passaram do cinema para a televisão, com mais espaço para o desenvolvimento. Com 293 episódios, não faltaram tópicos trazidos à tona, mas de novo, refletem a época que foram ao ar, e é vendo ou revendo hoje que podemos analisar com um olhar mais crítico. Como por exemplo, em um determinado episódio, Kelly sofre uma tentativa de estupro em uma festa de Halloween e seus amigos a culpam pela fantasia sexy que usava. Com o olhar de hoje, sabemos que a culpa jamais será da roupa ou da vítima, mas o episódio deixa a impressão que a mensagem é “meninas, não usem uma roupa muito curta, veja só o que pode acontecer”. É fácil problematizar a série, mas prefiro analisar com a ótica corrente e só constatar que os personagens estavam errados. Esse é só um exemplo em meio a tantos. Há também séries que foram vítimas de seu tempo por serem à frente demais dele, como My So-Called Life, de 1994 e Freaks & Geeks, de 1999. Aclamadas pela crítica especializada, mas amargando baixa audiência, ambas foram canceladas em suas primeiras temporadas. MSCL era mais tradicional, mas tratava os assuntos de uma forma mais madura e com uma maior profundidade, além de trazer um personagem negro e gay com destaque, na pele de Rickie (Wilson Cruz). Já Freaks & Geeks trazia um humor mais crítico e um texto sarcástico sobre os questões da adolescência, com personagens cheios de carisma. Mesmo com uma vida curta, logo seus protagonistas viraram estrelas, Claire Danes, Jared Leto, Linda Cardellini, James Franco, Seth Rogen, Busy Philips e Jason Segel e as séries são cultuadas até hoje, por uma parcela do público, pelo menos. Em 1997 apareceu Buffy, A Caça Vampiros, baseada em um filme de pouco sucesso de 1992, brincava com o estereótipo da adolescente loira líder de torcida, que geralmente era a primeira a morrer em filmes de terror. Estudante de dia e caçadora de vampiros à noite, a personagem de Sarah Michelle Geller não hesitava quando o assunto era derrotar os seres do mal, porém na parte adolescente a história era outra. E é nesse equilíbrio entre os gêneros que o sucesso foi certeiro e sua influência se expandiu. Os efeitos especiais são datados, todavia o incômodo é somente no início. A trama vai se tornando cada vez mais envolvente e não é gratuito afirmar que Buffy, A Caça Vampiros é referência. Seja na parte do terror, como na dramática, os temas são universais. Cito como exemplo “The Body”, um episódio sobre o luto que é o melhor da televisão sobre o assunto. Os efeitos especiais aqui são o de menos. No ano seguinte, 1998, surge Dawson’s Creek, sem o elemento sobrenatural (com exceção de alguns especiais), focando em adolescentes questionadores e suas rotinas em uma cidadezinha. Famosa por seus textos longos e que possivelmente não seriam ditos por jovens, de início, tem uma boa 1ª temporada, mas deixa sua marca quando aborda a homossexualidade de Jack (Kerr Smith) e a bipolaridade de Andie (Meredith Monroe) no ano seguinte, temas até então pouco trabalhados no gênero. Foi a primeira série a exibir um beijo entre dois homens na televisão americana e não dá para ser lembrada só pelo triângulo amoroso de Dawson (James Van der Beek, Joey (Katie Holmes) e Pacey (Joshua Jackson). Como dizem os jovens, quebrou tabus. Claro, se vista hoje, há problematizações em certas vertentes, mas há de se louvar quem abriu algumas portas. Finalmente chegamos aos anos 2000, e há 20 anos estreava O.C.: Um Estranho No Paraíso. Dosando muito bem o humor e o drama, com um texto esperto e cheio de referências à cultura pop, mergulhávamos na vida de uma restrita comunidade riquíssima. Ryan (Ben Mackenzie), um pobre forasteiro adotado por uma família de lá, era nossos olhos e o estranho no paraíso (como dizia o título dado pelo SBT). Apesar do tom leve, questões mais pesadas tinham relevância como o abuso de álcool na juventude ou o problemático irmão de Ryan. Ousada para a época, hoje poderia ser vista como datada, mas não por este que vos fala. Ainda em 2003, pouco mais de um mês depois, estreava One Tree Hill (Lances da Vida). Comparada à Dawson’s Creek por se passar em uma pequena cidade, a série focava na relação conturbada dos meio-irmãos Nathan (James Lafferty) e Lucas (Chad Michael Murray) e na paixão dos dois pelo basquete. A problemática maior era como os bastidores refletiam na trama, principalmente no tratamento fetichista das personagens femininas dado pelo criador do programa, que anos depois foi denunciado por assédio pelas atrizes do elenco. Temos como exemplo Brooke (Sophia Bush), que sempre foi uma das mais queridas, mas de início era a típica vilã de uma nota só, que só falava em sexo, festas e bebidas. Conforme o tempo passa, ela ganha mais nuance e cai nas graças do público. É uma das minhas séries favoritas, e é sempre um prazer revê-la, mas é importante notar essas questões sabendo do que ocorria por trás das câmeras. Em 2004 chegava Veronica Mars, que mesclava o teen com uma investigação mais sombria. Também se passando em uma comunidade rica praiana, Veronica (Kristen Bell) é excluída quando algo acontece (sem spoilers) e agora investiga o assassinato de sua melhor amiga. Sarcástica e com diálogos ágeis, a série coloca mais uma protagonista forte e decidida, que, assim como Buffy, A Caça Vampiros, poderia ser lida como frágil por ser mais uma “loirinha”. O equilíbrio entre os gêneros funcionou perfeitamente, e mesmo com os típicos clichês, conseguiu surpreender em boa parte de suas três temporadas (com uma 4ª em 2018). Trazendo o futebol americano quase como um personagem, em 2006 estreava Friday Night Lights (Tudo Pela Vitória). Com um foco maior nos personagens masculinos, membros do time, colocou o racismo em discussão com Smash (Gaius Charles) e o fez de uma forma jamais apelativa, muito bem escrita e atuada, mesmo com um elenco majoritariamente branco. Em suas cinco temporadas retratou outras diversas temáticas importantes, e sempre muito bem, na maioria dos casos. Assim como os roteiristas, a gente finge que a 2ª temporada nunca existiu e aquela trama do assassinato, muito menos. Em 2007, baseada em uma série literária e co-adaptada pelo criador de The O.C., surgia Gossip Girl, mas dessa vez a vida dos jovens ricos era apresentada no Upper East Side, em Nova York, e narrada por uma fofoqueira anônima. Não falta o que problematizar na série, dos relacionamentos tóxicos, ao constante bullying proporcionado por Blair (Leighton Meester), Chuck (Ed Westick) e cia, mas não significa que são comportamentos a serem replicados. As intrigas que aconteciam o tempo todo e o texto cheio de acidez norteavam os episódios. É uma fuga da realidade, quase como uma fantasia, e esse é um dos motivos para que ela tenha ido parar no TOP 10 da Netflix assim que voltou para o catálogo. Todas as séries supracitadas sofriam com a falta de representatividade, seja de pessoas de cor ou pessoas LGBTQIAPN+ e as abordagens eram rasas, com algumas raras exceções que eu já mencionei acima. Por não gostar de musical, Glee nunca me apeteceu, mesmo eu tendo tentado até a metade de sua 1ª temporada. Porém, sua relevância no ponto de dar voz (com o perdão do trocadilho) à personagens que geralmente ficavam à margem, é inegável. Isso quer dizer que essas outras séries antigas não devem ser mais assistidas? De maneira alguma. O gênero está em constante mutação e adaptação e por isso eu fui trazendo exemplos desde 1988, porque uma influencia a outra, e assim como nossos pensamentos, elas também vão mudando. Por exemplo, em 2009 estreia The Vampire Diaries, que mesmo sendo baseada em livros, bebe muito da fonte de Buffy, A Caça Vampiros, assim como Teen Wolf também bebe de ambas. Há ótimas séries teens no ar, algumas mais aclamadas como Reservation Dogs, Sex Education, Heartstopper, Eu Nunca… ou até outros sucessos como Euphoria, Outer Banks e Elite, e foram influenciadas pelas que eu citei, seja em maior ou menor grau, mas estas atuais têm uma diversidade muito maior e que não estão lá apenas para cumprir tabela. Dito isto, não é preciso soltar o velho para abraçar o novo, porque a arte não tem idade e todos podem andar de mãos dadas, tendo ciência que alguns pensamentos não são aceitáveis hoje em dia, mas algumas situações que adolescentes passam são as mesmas, quer seja em 1988 ou 2023, e com isso é impossível não se identificar. Então assista, por nostalgia, por escapismo, ou até pela manifestação mais legítima de todas: a vontade.

  • Crítica | O Espaço Infinito

    Filme usa as estrelas como guia em meio à dissociação Foto: Divulgação Nina (Gabrielle Lopes) é uma astrofísica que busca provar a existência de uma estrela da mesma forma que busca se manter sã em meio a uma dissociação misturada com uma crise de identidade. Ela precisa lidar com lembranças do passado que em longo prazo afetaram na sua maneira de lidar com a realidade e com alguns vínculos no presente. O primeiro longa-metragem do diretor Leo Bello funciona muito bem no quesito estético. O cinema é, sobretudo, uma experiência visual, e demanda que esse visual atraia (pelo menos) tanto quanto sua narrativa, e Bello soube se expressar puramente através do visual. A plasticidade dessa produção é caprichada e caprichosa. Os devaneios da protagonista perduram todo o filme enquanto conhecemos sua mente e seu passado, e mesmo assim Leo Bello conseguiu demarcar com cuidado os territórios que cada cena está mapeando. Boa iluminação, uso de elementos geométricos, sobreposição de quadros e quadros muito bem emoldurados fazem do trabalho da direção de arte e fotografia os pontos mais altos. Foto: Divulgação A atriz Gabrielle Lopes conduz o espectador com olhar expressivo. A história se desdobra em torno de uma mulher neurodivergente numa busca por propósito, e ela sabe como dar base às diversas camadas de sua personagem. Além disso, a direção usa de sensibilidade e de um tom lírico para abordar neurodiversidade no ambiente de um hospital psiquiátrico. Outro componente importante na construção da atmosfera do filme é a trilha sonora e o design de som que se aplicam muito bem especialmente nas cenas com elementos naturais. E a natureza é outro ponto recorrente na narrativa. A água como símbolo de fluidez e de leveza, e a terra como símbolo de organicidade e finalidade. Mas O Espaço Infinito se perde quase que completamente ao tentar intercalar a astronomia ao esoterismo – além de, como já dito, ter os estratos de uma personagem complexa. A mescla de astros enquanto objetos de estudo científico com a astrologia e a constelação familiar fica instável e, como resolução, fica ao mesmo tempo simplória e confusa. Talvez para o roteirista (que também é o diretor) essas construções façam sentido, mas para que está do lado de cá desse misticismo quântico falta convencimento. Ainda assim, o uso do espaço sideral não foi reduzido a contemplação vazia do “nada”, ele é o recurso de ligação intrínseco nas entrelinhas, mas que ao final não sabe bem como amarrar seus vieses de raciocínio. Nota: 3/5

  • Crítica | Gatos no Museu

    Animação russa foca na simplicidade com história baseada em fatos Foto: Divulgação Com estreia prevista para o dia 10 de agosto nos cinemas do Brasil, o longa infantil Gatos no Museu se baseia em uma história real de gatinhos que moram nas dependências do Museu Hermitage, na Rússia, e foram responsáveis por salvar obras de arte caçando roedores que viviam nas dependências do prédio. O filme é dirigido por Vasiliy Rovenskiy, que também assina o roteiro ao lado de Elvira Bushtets e Fyodor Derevyanskiy. Na história, um jovem gato chamado Vincent, na companhia do rato Maurice, escapa de uma enchente e é recolhido por marinheiros. Enviados a São Petersburgo, Vincent e Maurice vão para o Museu Hermitage e conhecem um esquadrão felino de elite, que protege as obras de arte de ratos e outras pragas há séculos. Vincent, que sonha em encontrar uma família felina, se vê na missão de proteger Maurice, que salvou a sua vida. Porém, Maurice adora roer obras-primas da pintura e a situação se complica ainda mais quando uma das maiores pinturas da humanidade, a Mona Lisa, chega ao Museu, e é o sonho de todos os ratos roê-la. Mas nem Vincent, nem Maurice, nem os gatos do Museu Hermitage suspeitam que a pintura será roubada. Foto: Divulgação Com uma história simples, Gatos no Museu possui uma trama de fácil entendimento com alto foco no público infantil. O roteiro, muito similar ao de séries do Discovery Kids, é uma boa opção de distração para os mais jovens e também deve agradar pais que buscam um entretenimento de classificação livre para os pequenos. O interessante de Gatos no Museu é, sem dúvidas, seu contexto histórico que se baseia em fatos reais. Além disso, o longa também se preocupa em apresentar grandes obras conhecidas mundialmente para o público, tornando-se bastante diferente da maioria de filmes e séries infantis, que não se preocupam com uma fidelidade realística para o período que representa. A animação do filme é bem simples, similar a de desenhos do Youtube e não possui nada de muito novo, porém, explora bem as cores e a versatilidade dos felinos para chamar atenção dos telespectadores. Gatos no Museu é uma boa distração e um bom longa para levar as crianças pequenas apaixonadas por gatos e interessadas por artes e histórias de aventuras. 2,5/5

  • Festival de Toronto divulga os filmes selecionados para a edição 2023

    Next Goal Wins, Monster e Anatomy of a Fall são alguns dos títulos que estarão em exibição Foto: Divulgação Nesta segunda-feira (24), o Festival de Cinema de Toronto (TIFF) anunciou sua programação oficial das mostras Gala e Special Presentation, contando com estreias mundiais e também com grandes filmes que já estão trilhando o circuito de festivais. O evento, que é um dos principais termômetros para premiações como o Oscar, acontecerá na cidade canadense, entre os dias 7 e 17 de setembro. Vale destacar também que o sindicato dos atores (SAG-AFTRA) está em greve contra os estúdios vinculados à Aliança de Produtores de Cinema e Televisão (AMPTP), lutando por pagamentos justos e pela concessão de direitos trabalhistas. Então, ainda restam dúvidas sobre a presença de alguns atores e atrizes no TIFF, já que os membros do sindicato não irão promover séries e filmes desenvolvidos pelas corporações em questão. Dentre alguns dos diretores que levarão suas obras para o festival estão Taika Waititi, com Next Goal Wins, Richard Linklater com Hit Man, o japonês Hirokazu Kore-da, trazendo Monster, e a francesa Justine Triet, com o já premiado Anatomy of a Fall. Michael Keaton, Anna Kendrick e Chris Pine, mundialmente reconhecidos por seus trabalhos no ramo da atuação, são os respectivos diretores dos filmes Knox Goes Away, Woman of the Hour e Poolman. Os três longas serão apresentados no TIFF 2023. Foto: El Rapto (Daniela Goggi)/ Divulgação Confira abaixo os títulos que terão sua estreia mundial no Festival de Toronto e outros que também serão exibidos no evento, mas que já foram ou irão ser apresentados primeiramente em outras cerimônias. FILMES QUE TERÃO SUA ESTREIA MUNDIAL NO TIFF 2023: • Next Goal Wins (Taika Waititi) • Les Indésirables (Ladj Ly) • Seven Veils (Atom Egoyan) • Dumb Money (Craig Gillespie) • PUNJAB ‘95 (Honey Trehan) • Lee (Ellen Kuras) • Hate to Love: Nickelback (Leigh Brooks) • Solo (Sophie Dupuis) • The End We Start From (Mahalia Belo) • The Movie Emperor (Ning Hao) • A Normal Family (Hur Jin-ho) • American Fiction (Cord Jefferson) • Close to You (Dominic Savage) • Days of Happiness (Chloé Robichaud) • Ezra (Tony Goldwyn) • His Three Daughters (Azazel Jacobs) • In Restless Dreams: The Music of Paul Simon (Alex Gibney) • Knox Goes Away (Michael Keaton) • Mother Couch (Niclas Larsson) • North Star (Kristin Scott Thomas) • One Life (James Hawes) . • Pain Hustlers (David Yates) • Poolman (Chris Pine) • Reptile (Grant Singer) • Shoshana (Michael Winterbottom) • Sing Sing (Greg Kwedar) • Swan Song (Chelsea McMullan) • The Burial (Maggie Betts) • The Convert (Lee Tamahori) • The Critic (Anand Tucker) • The Dead Don’t Hurt (Viggo Mortensen) • The Peasants (DK Welchman, Hugh Welchman) • Together 99 (Lukas Moodysson) • Unicorns (Sally El Hosaini, James Krishna Floyd) • Uproar (Paul Middleditch, Hamish Bennett) • Wicked Little Letters (Thea Sharrock) • Woman of the Hour (Anna Kendrick) Foto: Rustin (George C. Wolfe) / Divulgação OUTROS FILMES QUE SERÃO EXIBIDOS NO TIFF 2023: • Concrete Utopia (Um Tae-Hwa) • Wildcat (Ethan Hawke) • The Zone of Interest (Jonathan Glazer) • The Holdovers (Alexander Payne) • The Beast (Bertrand Bonello) • Smugglers (Ryoo Seung-wan) • Rustin (George C. Wolfe) • Monster (Kore-eda Hirokazu) • Memory (Michel Franco) • Last Summer (Catherine Breillat) • La Chimera (Alice Rohrwacher) • Kidnapped (Marco Bellocchio) • Hit Man (Richard Linklater) • Four Daughters (Kaouther Ben Hania) • Fingernails (Christos Nikou) • El Rapto (Daniela Goggi) • Anatomy of a Fall (Justine Triet) • A Difficult Year (Éric Toledano, Olivier Nakache) • The New Boy (Warwick Thornton) • The Royal Hotel (Kitty Green) • NYAD (Elizabeth Chai Vasarhelyi, Jimmy Chin) • Flora and Son (John Carney) • Fair Play (Chloe Domont) Em breve, o Festival de Toronto 2023 anunciará os filmes selecionados para as outras mostras que também compõem o evento.

  • O Oxente, Pipoca? estará cobrindo novamente o Festival de Cinema de Toronto

    A edição de 2023 do evento acontecerá entre os dias 7 e 17 de setembro no Canadá O Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) já se encaminha para sua 48ª edição e continua a fazer história como um dos eventos mais significativos do mundo cinematográfico. A cerimônia acontecerá entre os dias 7 e 17 de setembro, na cidade de Toronto. O Oxente, Pipoca? estará presencialmente no Canadá, cobrindo o máximo de filmes possíveis. Até o momento, apenas dois filmes foram confirmados na seleção deste ano, Next Goal Wins, dirigido por Taika Waititi, e Les Indésirables, do cineasta francês Ladj Ly. Outras produções serão divulgadas durante o mês de julho. Next Goal Wins, com Michael Fassbender, Oscar Kightley e Kaimana no elenco, conta a história de uma infame equipe de futebol de Samoa Americana, que ficou famosa por uma terrível derrota de 31 a 0 em um jogo decisivo pelas Eliminatórias da Copa de 2002. Foto: Divulgação Após o sucesso de Les Misérables (2019), o diretor Ladj Ly retornará aos cinemas com a continuação Les Indésirables. A trama do novo filme gira em torno de Pierre, um jovem médico idealista, que é nomeado para substituir o presidente da câmara, recentemente falecido. Ele pretende dar continuidade à política do seu antecessor, que sonhava em reabilitar os bairros sociais. Porém, Haby, uma jovem de origem maliana que vive numa das torres dilapidadas, recusa-se a ver a sua família expulsa do bairro onde cresceu. Dentre os cinemas confirmados para o evento estão: TIFF Bell Lightbox, Roy Thomson Hall, Visa Screening Room no Princess of Wales Theatre, Cineplex’s Scotiabank Theatre Toronto, Glenn Gould Studio no Canadian Broadcast Centre e o Royal Alexandra Theatre. Outra informação divulgada até então é que o Festival de Toronto trocou o nome da seleção Contemporary World Cinema (CWC) para Centerpiece, o que em tradução livre pode significar um item importante à mostra. O festival afirma que a mudança de nome foi realizada para melhor refletir e ampliar todo o espectro do título em questão. “Centrepiece é uma vitrine para títulos aclamados de festivais ao redor do mundo, estreias altamente esperadas de talentos canadenses e internacionais e o trabalho mais recente de luminares influentes do cinema”, conta Robyn Citizen, diretor de programação e líder da plataforma. O TIFF é conhecido por ser um dos principais termômetros para o Oscar e outras premiações de grande valor na indústria. Nesse sentido, O Oxente, Pipoca?, aprovado como imprensa pelo Festival de Toronto 2023 pelo segundo ano seguido, estará na cidade canadense para realizar a cobertura do evento, além de comentar sobre os títulos exibidos e quais os possíveis destaques da temporada de premiações.

  • Crítica | The Beanie Bubble - O Fenômeno das Pelúcias

    Apesar de não ser inassistível, é um cansativo mais do mesmo Foto: Divulgação Ty (Zach Galifianakis) era um vendedor de brinquedos frustrado até que sua parceria com três mulheres transformou seus bichos de pelúcia, os Beanie Babies, em uma das maiores tendências dos anos 90. Essas mulheres eram Robbie (Elizabeth Banks), que trouxe diversas novas ideias para a empresa, Sheila (Sarah Snook), uma mãe solo de duas meninas com quem Ty se casou, e Maya (Geraldine Viswanathan), uma estagiária que alavancou o marketing do negócio. É mais uma história de ascensão e queda de uma empresa como temos visto tanto ultimamente. O diferencial aqui é que a narrativa é não linear, o quê na verdade só deixa a trama desnecessariamente confusa. Talvez seja uma tentativa de disfarçar a obviedade do enredo, onde cada virada é extremamente previsível e torna o filme ainda mais enfadonho, fazendo parecer que ele tem muito mais do que suas 1h50. Foto: Divulgação Os quatro personagens principais ficam presos no que se espera deles. Ty é, praticamente, o vilão. Galifianakis está bem no papel, mas o roteiro não dá uma maior dimensionalidade ao personagem. Desse mesmo mal sofre e Sheila de Snook, que sendo mãe de duas filhas e que têm uma determinada importância no final, poderia ser mais do que a esposa traída. A atriz, que é excelente em Succession, repete muitos trejeitos e expressões faciais de Shiv, e a todo momento nos remete à ela, o que não me agradou tanto no seu trabalho. Viswanathan tem bastante carisma e é a pessoa mais “gostável”, e faz o que pode com o texto que tem. Banks, no entanto, tem em mãos a personagem mais interessante, que tem ambição, mas que reage à atitudes de Ty e isso é bacana de ver. Acho que Banks exagera na performance em alguns pontos, mas no geral está ok e dá pra aproveitar algo ali. Não é um desperdício completo de tempo assistir ao filme, mas é inegável que ele também tem um problema de tom. Tenta ter uma leveza com uma pegada mais cômica, mas o humor nem sempre funciona. Arrisca notas mais sóbrias, porém é tudo tão raso que eu não poderia me importar menos, quanto mais esboçar uma emoção. Imagino que a intenção era que fosse uma comédia dramática, só que falta equilíbrio entre os gêneros em uma trama mais do mesmo onde sua principal falha é ser maçante. Nota: 2/5

  • Crítica | Sequestro no Ar (1ª temporada)

    Série do Apple TV+ com Idris Elba é uma sequência de ação de sete horas Foto: Divulgação Imagine a seguinte situação: Você está em um voltando para casa após um trabalho em um voo de Dubai para Londres que dura aproximadamente sete horas, e, logo após a partida um grupo de terroristas sequestram o avião em que você está. Bom, essa é a premissa de Sequestro no Ar, série semanal do Apple TV+, finalizada na primeira semana de agosto. Estrelada por Idris Elba, a série é contada em tempo real através das horas do voo com o total de sete episódios. Pela breve sinopse, percebemos que a história da série é um clássico clichê de muitos filmes de ação. Porém, isso não é demérito para Sequestro no Ar que consegue entregar uma trama muito instigante, repleta de reviravoltas, que deixa o telespectador cada vez mais ansioso para os próximos episódios. Com sua história dividida em dois eixos, no ar e na terra, seguimos primeiro Sam (Idris Elba), um homem que trabalha como negociador corporativo, ainda apaixonado pela sua ex-mulher e que quer reencontrá-la ao chegar em Londres. Além dele, também somos apresentados a outros passageiros do avião e também aos sequestradores, onde alguns acabam sendo mais aprofundados que outros, tudo de uma maneira bem interessante. Foto: Divulgação Já no solo, acompanhamos várias ‘fases’ da situação que vai se degringolando até se tornar um problema de estado para o Reino Unido. Desde controladores de voo de Dubai, Hungria e Turquia até os investigadores em Londres, vamos entendendo todos os pormenores da investigação para chegar na motivação do sequestro e aos seus mandantes. Sequestro no Ar tem ótimas atuações e uma boa direção de cena em momentos de ação durante a série. Outro mérito é a criação do suspense por meio de um roteiro que vai se engrandecendo ao longo dos episódios, chegando ao ápice da tensão em seu último episódio. A temporada, dividida em sete partes, possui o tempo certinho para contar a história, sem desgastar a ação de sua narrativa. Mesmo sendo repleta de clichês, Sequestro no Ar é uma prova de que histórias de ação conseguem ser recicladas da melhor forma e é a melhor pedida para quem busca uma boa história de suspense e tensão para uma maratona. Nota: 4/5

  • Análise | Missão: Impossível (1996 - )

    Como a franquia capitaneada por Tom Cruise se consolidou como uma das melhores da história de Hollywood Foto: Missão: Impossível/Paramount Começo esse texto fazendo um pequeno exercício com você, leitor(a). Se, assim como eu, sua infância e adolescência foram marcadas pelos filmes que viu na TV aberta, então consegue imaginar um filme que tivesse a cara de Sessão da Tarde, de Tela Quente, Temperatura Máxima, Sessão de Sábado e outros. Particularmente, posso listar vários que se enquadrem em cada uma dessas programações, e entre eles estão os dois primeiros Missão Impossível. O primeiro tem cara e cheiro de Sessão de Sábado, enquanto o segundo me remete imediatamente à Temperatura Máxima. Por que estou falando disso? Para ilustrar como essa franquia está presente em minha vida há muito, muito tempo. Para ilustrar o meu amor por ela, ainda tão forte quanto naqueles dias da minha infância — talvez ainda mais forte do que antigamente, visto que Missão Impossível seguiu na contramão do habitual das franquias hollywoodianas e envelheceu como um bom vinho, melhorando com o tempo. O segredo para esse sucesso vem de três pilares: 1) a busca por uma consistência, mesmo com as diferentes identidades que a franquia assumiu através dos anos nas mãos de cada diretor que trabalhou nela; 2) um senso de seriedade e comprometimento com o que se faz, mas sem perder de vista o entretenimento e o espetáculo; e 3) o compromisso de Tom Cruise em tornar esse espetáculo possível. O ator vem se firmando nos últimos anos como talvez a Última Grande Estrela do Cinema, aquele que é capaz de mover público e milhões de dólares apenas para vê-lo em tela, em meio a tempos onde o padrão são franquias baseadas em propriedade intelectual. Suas façanhas para arriscar a própria vida em nome do entretenimento são cada vez mais notórias, mas elas não são apenas manifestações do ego gigantesco do ator: elas os tornam maior que a própria vida, e por extensão fazem o mesmo por esses filmes, justificando que há quase 30 anos sigamos os assistindo com o mesmo deslumbre vez após vez. Chega ser curioso olhar para o primeiro filme, datado de 1996, e ver o quanto a franquia se tornou cada vez mais grandiosa e ambiciosa com o passar dos anos. Porém, ao contrário de outras sagas de ação como Velozes e Furiosos, que inchou e cresceu de tal forma que se tornou uma paródia de si mesma, Missão Impossível sempre soube reter o melhor de cada um de seus longas mesmo a cada direção nova que tomasse. Essa percepção ficou ainda mais evidente ao rever os seis filmes anteriores antes da estreia do novo, Acerto de Contas pt. 1, lançado na última semana. É possível dividir a franquia em dois momentos diferentes: o primeiro compreende os três primeiros filmes, lançados entre 1996 e 2006 e cada um dirigido por um diretor diferente; e o segundo compreendendo os quatro filmes restantes lançados a partir de 2011 e que foram conduzidos por apenas dois diretores, sendo que um deles, Christopher McQuarrie, é o único diretor desde o quinto filme, Nação Secreta. Alguns até poderão reformular essa divisão para por o quarto filme, Protocolo Fantasma, como uma “transição” entre essas duas fases, mas isso pouco importa, pois essa revisão da franquia me fez ver como, mesmo que os primeiros filmes se constituam experiências individuais bastante distintas entre si, carregam consigo elementos fundamentais para as demais sequências, que obtiveram ainda mais sucesso ao apostarem em uma maior coesão de identidade e ideias. O primeiro filme, capitaneado por ninguém menos que Brian DePalma, foi um produto do seu tempo (e à frente dele), usando as bases da série de TV original para subvertê-la, visto que passados eram os dias maniqueístas da Guerra Fria e uma nova ordem mundial, mais amoral, cínica e dúbia, estava em voga. Por isso o filme leva a dança de lealdades, o jogo dos disfarces e as traições ao último limite, tudo sob o olhar voyeurístico e psicossexual tão próprio de DePalma. E, embora seja uma obra muito mais calcada na espionagem do que os posteriores, ainda prenuncia o foco na ação que as sequências adotariam com seu icônico terceiro ato situado num trem sob o Canal da Mancha. Se o Ethan Hunt de Tom Cruise neste primeiro filme é um espião à frente de tudo e de todos, no segundo filme ele se converte numa figura quase semidivina, um herói de ação acima de nós, meros mortais. Talvez o filme mais destoante de todos — ainda que o tempo lhe tenha feito justiça — Missão Impossível 2 deixa o foco na espionagem de lado para se render à ação, e que nome melhor para promover essa mudança do que John Woo, um dos maiores diretores do gênero de todos os tempos? E ainda assim, embora foque na simplicidade e objetividade narrativa em contraste com seu antecessor, também há a boa e velha duplicidade, seja no uso deliberadamente exagerado das máscaras (uma das marcas da franquia) ou nas alusões à Interlúdio, de Hitchcock — uma referência que me saltou aos olhos, especialmente levando em conta que tivemos DePalma, o seu grande sucessor, no filme anterior. Mas o que também me salta aos olhos nesse segundo filme é como ele planta a semente de um Ethan que, mesmo desafiando a morte, se importa com a vida daqueles ao seu redor. Essa ideia será melhor desenvolvida em Missão Impossível 3, um filme que apresenta a pior direção da franquia (sair do cinema de autor de DePalma e Woo para a falta de identidade de JJ Abrams é de fato um choque), claramente tentando emular a marca que a franquia Bourne deixou na época, sem o mesmo nível de sucesso. Entretanto, essa falha é compensada com um olhar mais humano para seu protagonista e suas relações, seja com a esposa Julia (Michelle Monaghan) — que será um importante mote futuro, mesmo na sua ausência — ou seus colegas, plantando também as sementes da valorização da equipe que acompanha Ethan em suas aventuras. Além disso, o filme supre quase sozinho uma das grandes faltas da franquia: um vilão marcante, aqui interpretado pelo saudoso Philip Seymour Hoffman, o qual aparece pouco, mas deixa uma marca indelével. Assim, percebem-se ao menos três elementos basilares para a franquia, cada um extraído de um dos filmes: a dubiedade e os elementos característicos da espionagem do primeiro; a ação muscular e frenética do segundo; e o foco na humanidade e moral dos personagens do terceiro. Todos esses elementos serão observados nos filmes seguintes, começando com Protocolo Fantasma, que, sob a batuta de Brad Bird, representa uma espécie de recomeço, e que recomeço! Além de unificar esses elementos em uma aventura sólida e redondinha, ainda consegue imprimir a marca de um equilíbrio entre ação, drama e humor, ao mesmo tempo em que se interessa pelos outros personagens além de Ethan e demonstra os primeiros sinais de uma coesão interna na franquia, não apenas estrutural como narrativamente. Além disso, as aventuras de Cruise sem dublê atingem um novo nível aqui, com a sequência do Burj Khalifa se firmando como uma das melhores do gênero. Se Bird elevou a franquia a um novo patamar, McQuarrie a aprimora, se provando o aliado ideal de Cruise nessa empreitada. Nação Secreta poderia ser um filme medíocre e já nos bastaria só pela introdução de Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), talvez a melhor personagem da franquia junto com o próprio Ethan. Felizmente, esse filme é tudo, menos medíocre: entre setpieces fascinantes como as sequências da ópera e de Casablanca, passando pelo melhor uso de duplicidades e surpresas na trama desde o primeiro filme, ou às insanidades de Tom Cruise se pendurando num avião ou nadando por minutos enquanto prende a respiração, aqui se elevou o patamar de tudo que foi feito antes. E nem é o melhor da franquia... ... porque esse título pertence a Efeito Fallout. Quantas sagas cinematográficas podem se gabar de terem seu sexto filme como o melhor? Não apenas isso, mas uma obra-prima do gênero de ação, que entrega as setpieces mais épicas da franquia (aquele salto de avião! Aquela perseguição de helicópteros!) e também examina como nenhum outro a compaixão e a moral de Ethan, pondo-a em xeque conforme ele se vê forçado a salvar os seus ou o mundo. É essa humanidade de Ethan, o fato de sacrificar tudo por aqueles que o ama, que o diferencia de outros protagonistas contemporâneos do gênero, e um dos fatores que torna Fallout tão grandioso e memorável. Seria compreensível que Acerto de Contas pt. 1 não atingisse o mesmo nível do seu antecessor, e de fato isso não acontece. O filme tem alguns problemas mais flagrantes em relação aos seus antecessores — o excesso de exposição nos diálogos e a forma como uma de suas personagens mais importantes é tratada —, mas ainda preserva a atenção ao espetáculo, ao discurso de Cruise que filmes como esses são para serem vistos no cinema. Junte a isso a introdução de uma nova personagem favorita, Grace (ah Hayley Atwell, estou fascinado por você), e uma discussão acurada sobre os perigos do uso discriminado da IA e temos um filme que consegue fazer algo que talvez não víssemos desde o primeiro: entregar o cinema-espetáculo enquanto se mantém relevante e consonante com a sociopolítica global. Ainda é difícil definir qual será o futuro de Missão Impossível. Sabemos que a parte 2 de Acerto de Contas virá no ano que vem e tudo aponta para uma passagem de manto de Cruise para Atwell. Se o próximo filme for de fato o último da era Cruise, então tem tudo para fechar com chave de ouro uma franquia que contrariou todas as possibilidades, justificando o “Impossível” do seu título. Sete filmes e quase 30 anos depois, não resta dúvidas de que Missão Impossível não apenas se consolidou como a melhor do seu gênero em Hollywood, mas como uma das melhores e mais sólidas do cinema hollywoodiano em sua história. Notas individuais dos filmes: 1) Missão: Impossível – 4/5 2) Missão: Impossível 2 – 4/5 3) Missão: Impossível 3 – 4/5 4) Missão: Impossível - Protocolo Fantasma – 4.5/5 5) Missão: Impossível - Nação Secreta – 4.5/5 6) Missão: Impossível - Efeito Fallout – 5/5 7) Missão: Impossível - Acerto de Contas pt. 1 – 4/5

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