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  • Crítica | Treta (1ª temporada)

    Criativa, impactante, profunda e uma das melhores estreias do ano Foto: Divulgação Em um dia que já não começa muito bem, Danny (Steven Yeun) tem um desentendimento com outro motorista no trânsito e acaba envolvido em uma perseguição pela cidade. O que ele não sabe, é que no outro carro há uma motorista chamada Amy (Ali Wong), que também não está no melhor dos seus dias. Querendo se vingar de alguma forma, Danny consegue localizar a moça, que também não o conhecia até então, e o que era uma simples treta de trânsito, toma rumos completamente inesperados. Esta vai ser uma crítica sem spoilers, porque quanto menos você souber, melhor será sua experiência. Já começo dizendo que é uma das melhores séries do ano e a melhor da Netflix em um bom tempo. Treta é esperta, criativa, cômica e dramática, e no mar de opções ofertadas pelo catálogo, ela se destaca de longe. Há muito de comédia aqui e tive algumas boas gargalhadas, mas é pela veia dramática, através do alto teor de complexidade do seus personagens, que a produção ganha substância. Danny é um empreiteiro com problemas financeiros e Amy uma empresária bem-sucedida, e com vidas tão distintas, eles são mais parecidos do que imaginam. Para entendermos a rusga principal da série, é necessário que entendamos quem são aquelas pessoas, o porquê delas agirem daquela forma, e é isso que o roteiro faz com maestria. Não dá pra defender certas atitudes, mas podemos, pelo menos, compreender suas falhas enquanto tentam acertar em alguns pontos das suas conturbadas vidas. Steven Yeun e Ali Wong estão irretocáveis. Os dois são ótimos atores e já haviam comprovado isso em trabalhos anteriores. Aqui eles mostram toda sua versatilidade, passeando com facilidade pelo drama e pela comédia. Se em um momento eles estão me fazendo rir com alguma discussão boba, com caras e bocas – que jamais soam caricatas – em outro momento me fazem chorar, principalmente quando tratam de suas relações familiares. Danny com seu irmão caçula e Amy com sua filha. São as pessoas mais importantes do mundo para eles, e é com eles que os protagonistas demonstram suas melhores personalidades, e ainda assim os machucam constantemente. Complexo? É mesmo. Mas é isso que faz a série ser tão boa e é aí que Yeun e Wong brilham. Com personagens difíceis, em algum momento conseguimos sentir empatia e nos identificar com eles, graças ao trabalho magistral dos dois, que é detalhado por traços faciais, olhares ou até na voz, tornando-os pessoas reais, como todos nós, que cometemos erros e acertos, não fazendo idéia de que uma pequena ação pode gerar uma tremenda reação. Foto: Divulgação São dez episódios de pouco mais de meia hora cada, dá pra assistir em uma maratona e ela não fica cansativa, mas como exige um pouco mais da sua mente, um intervalo entre um episódio ou outro é muito bem vindo. Alguns desses episódios, o quarto e o nono, em especial, são dos melhores que eu vi neste ano. Não vou entrar em detalhes porque não quero dar spoilers, como disse, mas a trama é tão bem construída, que os eventos, ainda que pareçam absurdos, acontecem organicamente. Como uma bola de neve, uma coisa vai levando a outra e escalonando de uma maneira impressionante, sem jamais se perder no tom ou deixando os personagens de lado em detrimento do choque. Eles estão ali e o que acontece com eles importa. A direção centraliza isso, e ainda que brinque com vários gêneros, percebemos que há um controle da situação, mas que cada diretor sabe deixar sua assinatura. Hikari dirige os cinco primeiros, Jake Schreier do sexto ao nono e o próprio criador da série, Lee Sung Jin, dirige o ótimo final da temporada. Jin, aliás, tem também um excelente time de roteiristas, que honram sua criação a cada episódio, com alguns destaques já citados, claro. É nesta junção de roteiro, direção, elenco, fotografia, direção de arte e uma belíssima trilha sonora que resultam em uma produção que merece sua atenção. A meu ver, o último episódio captura bem a essência da série, focando em seus dois protagonistas, e ainda que não haja tanta ação, há muito para se refletir ali através de maravilhosos diálogos. Se houver uma 2ª temporada, estarei assistindo com a esperança que a qualidade desta temporada de estreia seja mantida. Dinâmica, inovadora, cheia de humor ácido, momentos de emoção bastante genuínos e vários questionamentos e reflexões sobre a vida e como uma mínima situação que parecia a coisa mais boba do mundo pode desencadear inúmeros acontecimentos imprevisíveis. Não é tudo que atinge a perfeição, mas Treta chega muito perto. Nota: 5/5

  • Crítica | Desejo Proibido

    Filme romantiza mais uma história problemática e já se torna um dos piores do ano Foto: Divulgação Chegando aos cinemas com sessões antecipadas neste fim de semana, o longa polonês Desejo Proibido tem sua estreia oficial em circuito nacional marcada para treze de abril. Com direção de Tomasz Mandes, da franquia 365 dias da Netflix, a história foca em Max (Simone Susinna) que depois de se envolver com a filha de Olga, começa a desenvolver um sentimento pela mesma (Magdalena Boczarska) e inicia um romance com ela sem saber da relação entre as duas. Os dois embarcam em um romance tórrido, até que a filha de Olga descobre e põe tudo a perder. Entrando nessa onda de sucesso de longas pseudo-eróticos, Desejo Proibido tenta engatar uma história que já entrega sua problemática através da sinopse. E assim como outros sucessos do gênero, o longa pretende alcançar um bom público dando ênfase nessas cenas mais quentes, porém, ele consegue falhar já nesse primeiro ponto e entrega um casal protagonista bem insosso, sem carisma e sem química. Comparando com 50 Tons de Cinza, por exemplo, trilogia responsável pelo boom de filmes eróticos, Desejo Proibido tem cenas de romance que são bonitas visualmente mas que não entregam absolutamente nenhum tipo de sentimento para o telespectador. Muito disso é culpa da direção. É possível enxergar em Tomasz Mandes uma tentativa falha de fazer uma direção parecida com a de Sam Taylor-Johnson em 50 Tons. Ela abusa de um bom jogo de câmera, com takes menos centralizados e explora uma paleta de cores em tons frios, e, mesmo não sendo um bom filme, Taylor-Johnson consegue convencer na direção usando esses artifícios. Em Desejo Proibido nós encontramos essas mesmas similaridades na condução da história, em falta com a originalidade, algo que também é visto em outros longas do diretor. Foto: Divulgação Dando foco agora a história, Desejo Proibido parece que tenta surpreender um telespectador que, em sua maioria, já sabe todos os grandes plot-twists desse gênero. E, quando foca no drama e na relação entre mãe e filha, o longa consegue acertar o seu tom, mérito principalmente das duas atrizes, que são bastante competentes e, sem dúvidas, entregam a melhor parte do filme. Já o mocinho é terrivelmente péssimo, carismático tal qual uma porta e com uma beleza extremamente artificial, daquelas que a gente vê em homens de catálogo de perfume de terceira categoria. Entre esses personagens, mal existe um diálogo e você não consegue entender como uma juíza em plena consciência das suas faculdades mentais se apaixona por uma criatura tão sem sal. No fim das contas, é difícil tirar um saldo positivo das longas duas horas de projeção de uma história que não parece decidir para onde quer ir e acaba falhando em absolutamente todas as tentativas. Quando você pensa que Desejo Proibido conseguiu encerrar, pelo menos, de uma maneira satisfatória, mais cinco minutos colocam tudo a perder com uma das resoluções mais absurdas e vergonhosas que você vai assistir. Claro, o homem se envolve com você e com sua filha, mas no final, o amor sempre vence né? Uma pena que histórias romantizam problemáticas tão absurdas ainda consigam espaço nas telas. Desejo Proibido não consegue ser nem um bom filme de drama, nem traz boas cenas eróticas e nem te faz rir tanto da vergonha alheia que ele se propõe. O meu desejo é que ele seja proibido mesmo. Nota: 0,5/5

  • Crítica | O Urso Do Pó Branco

    A lisérgica comédia-slasher de Elizabeth Banks diverte mais do que assusta Foto: Divulgação Imagine como seria trabalhoso seguir todos os passos de um grande narcotraficante nos anos 80 sem dispor dos mecanismos tecnológicos que hoje são parte do nosso dia a dia. Nada de nanochips, ou geolocalização simultânea, nem pensar em triangulação de sinais e esqueça os números de IP, ou IMEI, nada disto. Então você também consegue imaginar o tamanho do êxito que seria interceptar uma grande carga de cocaína nestes termos, correto? Exceto que, especificamente, esta interceptação se deu de modo mais… digestivo. E, não, você não entendeu errado. Pareceu absurdo ou fictício demais? Mas não é. O urso do pó branco existiu, só foi menos lisérgico e sangrento. Enquanto o urso da história real teve seu fim trágico horas ou dias, vai saber?, depois de ter se empanturrado de cocaína, a mamífero-protagonista de Elizabeth Banks — “Ela. A vagina dela está no meu ombro!” — começa sua jornada partindo do mesmo marco zero: A queda real do helicóptero em que o contrabandista Andrew Thornton morre, não ironicamente (valeu, twitter!) por ter tropeçado antes de abrir o paraquedas e batido com a cabeça. Já aterrissou em outro plano espiritual. Um casal super simpático com nome de personagem da Disney (Elsa e Olaf/Kristoff) é o primeiro alvo que a nossa macro-querida enxerga, numa cena inicial que arranca umas risadinhas até de quem ainda não está muito convencido pelo absurdo da ursa-cheiradora-de-pó. Foto: Divulgação O longa apresenta, progressivamente, os outros personagens como peças de um quebra-cabeças simples e que garantem uma boa diversão. Não são muitas as pessoas envolvidas, e o plano de fundo de suas histórias são compreensíveis, suas motivações são claras. Alguns têm subtemas maiores, como o filho do traficante Syd White, Eddie, interpretado por Alden Ehrenreich, cuja angústia cômica de não querer mais pertencer à vida criminosa, em meio ao luto de sua companheira, Joan, se envolve ao fio principal da trama: recuperar os 14 milhões de dólares em cocaína perdidos na floresta. Syd White este, que é fictício e interpretado pelo saudoso Ray Liotta em um de seus últimos trabalhos. Elizabeth Banks sempre traz em seus filmes figuras femininas fortes, e neste filme temos a mãe-herói Keri Russell que vai em busca de sua filha Dee Dee e encontra com o garotinho Henry (Christian Convery, o Gus de Sweet Tooth da Netflix), que, me permitam todos os clichês, roubam a cena com um carisma enorme e tom cômico como a gente gosta de ver: a autenticidade da criança sendo criança, achando que sabe de tudo e fazendo merda: 10/10. Uma participação bem-vinda foi a de Scott Seiss, que de nome você talvez não se lembre, mas o reconheça dos tik-toks do “Angry Retail Guy” que viralizaram. Foto: Divulgação A comédia-slasher-mais-comédia-do-que-slasher tem seus momentos sangrentos que acabam arrancando risadas também. Quando a história caminha para o ato final, que conclui a narrativa (aquele, no ponto central da cachoeira), pareceu uma resolução um tanto desconjuntada, mas que se recupera ao finalizar de modo afetuoso, deixando a dádiva da segunda chance para os personagens que permaneceram após o massacre. Desde antes da pandemia de COVID, minhas idas ao cinema rarearam por diversos fatores: a praticidade do streaming no conforto de casa, o valor acessível que faz frente aos preços impraticáveis dos ingressos, às vezes os filmes em cartaz não empolgam… A gama de — aviso que vale a redundância — justas justificativas é imensa. Sou adepta do streaming pelos motivos que listei. Mas é compreensível que se escute por aí que filmes foram feitos para serem experienciados no cinema. Há essa curiosa sensação de comunidade que se faz quando se compartilham risadas, silêncios e comentários. O urso do pó branco é um destes filmes que não são obra-prima, mas que garante a experiência da comunhão despretensiosa do cinema. E que bom que se pode ser assim. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Tetris

    Filme aposta no absurdo da realidade para se distinguir num mar de biografias semelhantes Foto: Divulgação De todas as abordagens que um filme sobre Tetris poderia ter, um thriller político certamente era uma das últimas que eu tinha em mente. A princípio, tal abordagem parece até uma escolha deliberada do longa para se distinguir da seara de obras biográficas cada vez mais idênticas entre si, com o trailer ainda nos dando a impressão de que assistiríamos uma sátira. Mas não: a despeito de liberdades típicas de quaisquer adaptações, a história real aqui trazida foi sim composta por disputas internacionais por direitos autorais, espionagem, corrupção política e econômica, titãs midiáticos britânicos e o decadente governo soviético nos últimos anos da URSS. Nosso fio condutor por uma trama surpreendentemente tão intrincada é Henk Rogers (Taron Egerton), um designer de jogos e empreendedor holandês-estadunidense que descobre o potencial do Tetris durante uma convenção em Las Vegas e busca então adquirir os direitos do jogo para a Nintendo no Japão, onde mora. Mas ele logo descobre que há um mar de negociações e cessões de direitos autorais que envolvem, dentre outras pessoas, o bilionário britânico Robert Maxwell (Roger Allam) e seu filho Kevin (Anthony Boyle), que logo se tornam seus adversários na busca por esses direitos. Isso faz com que Henk viaje até Moscou para tentar negociar diretamente com o criador do jogo, Alexey Pajitnov (Nikita Yefremov), mas não tarda para os dois homens se verem como alvos da KGB e de agentes e políticos corruptos do governo de Gorbachev. A despeito do tom de sátira que o material de divulgação passava, Tetris é um filme surpreendentemente sério e até tenso, conforme mergulha nos meandros dessa trama que se torna cada vez mais complexa. Há alguns momentos mais lúdicos que remetem ao próprio jogo, como as passagens de “fases” dentro do roteiro ou as transições de cenas e até mesmo uma perseguição em 8 bits. É uma pena que esses recursos não sejam mais explorados do que poderiam, de modo que suas inserções acabam sendo quebras na sobriedade que a trama tenta trazer — bem-vindas, mas causando um certo desbalanceamento. Foto: Divulgação Chega ser paradoxal, portanto, que o filme ainda assim consiga exalar tamanho absurdo mesmo quando sóbrio. A trama quase labiríntica, permeada por negociações e traições, pode fazer o espectador se perder em alguns momentos, mas isso não acontece por causa do calor que irradia da atuação de Egerton como Rogers. Ainda que o roteiro não chegue a explorar seu lado ambicioso e obsessivo afora uma única cena envolvendo sua família, o ator traz à tela um homem que deseja fazer a coisa certa mesmo no emaranhado conspiratório no qual se envolve. Contudo, ao focar seu protagonismo em Rogers, o filme acaba sacrificando um certo espaço que poderia ser dado a Alexey, de modo que demora para que compremos o vínculo deles dois. Aliás, é quase cômico que Rogers seja não um “white savior”, mas um “capitalist savior” que tem as melhores das intenções em fazer Alexey rico. Poucas vezes vi um filme tão descaradamente anticomunista, repetindo os mesmos chavões que já vimos em outras obras ambientadas na URSS ou que tragam os russos como antagonistas: a ausência de liberdades e direitos, a corrupção e degradação da máquina estatal soviética, os russos bonzinhos que só querem escapar da ditadura comunista, a fotografia cinzenta e opressiva, etc.. Nada sutil em meio ao cenário anti-Rússia que vivemos, e me pergunto se algum dia os EUA descobrirão que a Guerra Fria já acabou. Se o espectador for capaz de deixar esse olhar crítico para o anticomunismo exagerado, porém, encontrará uma obra surpreendentemente envolvente e tensa, mas também bastante divertida quando decide mergulhar no material-fonte do jogo, ou quando reconhece que a história adaptada é tão absurda que não se deve julgar quem achar que ela é fictícia. Embalado pela trilha sonora deliciosamente synth-pop de Lorne Balfe (com direito a versões em japonês de hits pop dos anos 80 como Holding Out For a Hero), Tetris é um daqueles casos onde a realidade supera tanto a ficção que o filme quase não lhe faz jus. Ainda assim, ele merece créditos por saber que dá para extrair dessa realidade material interessante o suficiente (e com uma execução atraente) para se distinguir em meio à produção fordista de biografias que domina Hollywood atualmente. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Você (2ª temporada, parte 2)

    Como confiar em um narrador não confiável? Foto: Divulgação Após o lançamento da primeira parte da quarta temporada de ‘Você’, a Netflix termina mais um capítulo da história de Joe Goldberg (Penn Badgley) com a adição de cinco episódios finais, repletos de reviravoltas cronológicas. Nesse âmbito, tentando surpreender o seu público e corrigir alguns erros de coerência narrativa, a produção explora um artifício divisor de opiniões – a estratégia do narrador não confiável. Com o fim da primeira parte, enfim descobrimos quem é o “eat-the-rich killer” e também stalker de Joe nas horas vagas. Essa revelação não causa alívio algum para Goldberg, visto que as ameaças e invasões soturnas ao seu apartamento continuam constantes. Ademais, o seu pedante romance com Kate (Charlotte Richie) teve de ser temporariamente interrompido diante do caos dos últimos acontecimentos da série. Um pouco mais tarde, recebemos uma informação que transforma a temporada por completo. Surpreendentemente, as sequências explicativas operam de forma positiva, conseguindo prender o seu espectador de uma forma que a primeira parte não estava conseguindo com muito sucesso. No entanto, me incomoda um pouco quando algum produto midiático priva a audiência de informações e, logo em seguida, traz uma reviravolta que não poderia ter sido antecipada. Esse tipo de dinâmica – a de restringir o acesso do público a cenas primordiais – quando feita sem cuidado, acaba soando caricata demais. Foto: Divulgação Ao longo da temporada, nós temos sim alguns mínimos indícios do que está realmente acontecendo. No entanto, depois de uma exaustiva sucessão de eventos bizarros, como desmembrar corpos em uma serraria (sem ser notado) e provocar explosões em milionárias casas de veraneio, acabamos um pouco exaustos do exagero. Elucidando também algumas qualidades, o rumo tomado pela série não é de todo mal. Alguns conflitos internos de Joe são abordados de maneira interessante, fazendo com que a audiência possa conhecer um pouco mais sobre como sua mente tenta decidir entre fugir do seu instinto assassino ou simplesmente abraçá-lo de uma vez. Outro aspecto positivo da série é a ótima atuação de Tati Gabrielle como Marianne. Tenho dito que grande parte do terror construído neste final de temporada se dá em função da brilhante performance da atriz. Em conclusão, ao fim do último episódio da quarta temporada, temos um Joe mais maníaco e violento do que nunca. Em meio a tantos voice overs e longos monólogos, a quinta e última temporada de ‘Você’ terá que enfrentar o desafio de encontrar um desfecho prático e racional para a história de Joe. De fato, acredito que essa é a única saída para que a série consiga dosar os seus absurdos e cansativos excessos. Nota: 3/5

  • Crítica | Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes

    Uma aventura descompromissada que honra o espírito de uma boa partida de RPG Foto: Divulgação Se você, como eu, é nerd confesso, então certamente já deve ter pelo menos ouvido falar de Dungeons & Dragons. Sendo o mais popular RPG do mundo, D&D é muito provavelmente a produção de fantasia mais relevante para o gênero, junto com O Senhor dos Anéis. Depois de tentativas malfadadas de adaptá-lo para o cinema (incluindo um filme com Jeremy Irons e Marlon Wayans que eu prefiro esquecer que existe), o jogo finalmente chama uma adaptação à sua altura. Embora não adapte uma obra específica do universo de D&D, Honra Entre Rebeldes consegue habilmente nos transportar para o sentimento de fazer parte deste universo, definindo uma clássica equipe de protagonistas: o bardo Edgin (Chris Pine), a bárbara Holga (Michelle Rodriguez), o feiticeiro Simon (Justice Smith) e a druida Doric (Sophia Lillis). A sinergia e química desse quarteto principal — que busca se vingar de um ex-parceiro, o ladino Forge (Hugh Grant), que os traiu e se aliou à uma maligna feiticeira (Daisy Head) — se mostra o coração e a alma do filme, já que não apenas somos levados numa missão que poderia ter saído diretamente de uma partida de RPG, mas também há espaço para a exploração e desenvolvimento de suas jornadas e dramas pessoais. Ao construir as diversas etapas desta missão, Honra Entre Rebeldes se revela uma obra dinâmica, mesmo na sua duração relativamente maior do que precisava. Cada setpiece, cada ambientação e pedaço deste mundo apresentado não são apenas deleites para os fãs de D&D, mas apresentam uma razão de ser, construindo e intensificando um senso de aventura constante que permeia toda a obra. Em particular, toda a sequência em um mundo subterrâneo, o Underdark, e o clímax na arena (este com direito a uma participação super especial) são os dois momentos nos quais o filme mais brilha, especialmente pela dinâmica do quarteto principal. No caso do Underdark, o filme cresce também pela presença de Regé-Jean Page como o paladino Xenk Yendar, com o ator roubando tanto a cena pela seriedade e gravidade que traz (e que contrapõe brilhantemente com os demais personagens) que é um pecado que sua participação seja tão curta. Foto: Divulgação Aliás, esse equilíbrio entre o humor e a seriedade é tanto uma força quanto uma fraqueza do filme. Levando em conta A Noite do Jogo, a produção anterior dos diretores Jonathan Goldstein e John Francis Daley, bem como a própria campanha de divulgação, eu esperava encontrar uma obra mais humorada e engraçada, mas há um tom surpreendentemente sério em determinados momentos (embora nunca demais). Parece até estranho pedir por mais humor para um blockbuster, sendo que já somos soterrados pelas piadas ruins dos filmes da Marvel, mas qualquer um que tenha assistido A Noite do Jogo sabe das habilidades de Goldstein e Daley para um timing cômico único e certeiro (e não é à toa este filme é uma das minhas comédias favoritas da década passada). Esse timing cômico é presente aqui — a sequência no cemitério é o ápice disso —, mas aquém do que a dupla pode entregar, sendo preterido em favor do já referido senso de aventura. Pode ser uma boa notícia para muitos, mas acaba tornando o filme um tanto “plano”, investido numa nota só do início ao fim — embora seja uma boa nota. Mesmo que não chegue a cumprir o que prometeu (e peque em alguns elementos como os efeitos visuais em algumas sequências), Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes é uma obra leve, descompromissada e que resgata uma certa ingenuidade que dificilmente se encontra na fantasia contemporânea, após o sucesso de obras mais adultas como Game of Thrones. Para os não-fãs de D&D, é um frescor num cenário onde a “fórmula Marvel” dá cada vez mais indícios de se esgotar. Para os fãs, é como ver aquela partida nostálgica e divertida de RPG que você jogou com seus amigos ganhar vida nas telonas, ainda que aqui e ali pudesse ser mais memorável. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Enxame (1ª temporada)

    Uma série que vai além de uma sátira da realidade Foto: Divulgação A que ponto você iria por um artista que você é fã? Esta é a grande pergunta que Enxame, um dos lançamentos recentes do Prime Video faz ao espectador durante os episódios do seriado. Com grande inspiração da cultura dos fandoms, uma nova perspectiva a idolatria a cantores e famosos é estabelecida na trama. Idealizada por Donald Glover e Janina Nabers (Atlanta), a trama acompanha Dre, uma das grandes fãs da cantora Ni’Jah. Ela mantém nas redes sociais um fã-clube denominado "O Enxame", onde compartilha vídeos e fotos da artista. Sua obsessão pela cantora chega a um nível preocupante quando um fato entre Dre e sua irmã, Marissa (Chloe Bailey) acontece, escalonando a trama a um nível inesperado. Esta obra é obviamente inspirada na carreira da cantora Beyoncé e no impacto que teve em seus fãs, já que ela é a maior cantora viva atualmente e representa muito a cultura negra. Como em qualquer fandom, existem pessoas que exageram ou que necessitam de uma atenção maior e encontram em seus ídolos aquilo que não tem por quem está ao seu redor. Foto: Divulgação Mas Enxame vai muito além do que ser uma sátira. Ela mergulha em questões profundas, principalmente sobre saúde mental e a toxidade das redes sociais de uma forma que poucas séries conseguem. Ela nos faz pensar em como tudo aquilo que é dito on-line pode atingir alguém, mesmo que seja postado sem um objetivo em mente. Dominique Fishback é, definitivamente, um nome a ficar atento para o Emmy 2023. Durante os sete episódios da série, a atriz nos leva em seus altos e baixos tornando Dre mais complexa do que podemos imaginar. A série não seria a mesma sem o seu talento e sua devoção a personagem. Ao mesmo tempo que torcemos para ela, somos contra algumas atitudes, e isso faz com que o espectador até se questione. Durante o trajeto da temporada, algumas histórias que foram abertas são resolvidas de forma rápida e superficial, tornando a experiência um pouco decepcionante do que poderia ser, mas ainda assim não compromete o desfecho da trama. E este desfecho, que é bastante subjetivo por sinal, abre portas para amplas discussões. Enxame é o tipo de série que prende o espectador, mesmo em momentos que tenha dificuldade de desenvolver sua trama. É a combinação perfeita de thriller, terror e comédia. Traz um grande olhar sobre a cultura pop e como ela impacta nossa sociedade, sem precisar se justificar ou julgar por isso. E sempre nos leva a mesma pergunta: A que ponto você iria por um artista que você é fã? Nota: 4/5

  • Crítica | Air: A História Por Trás Do Logo

    Novo longa de Ben Affleck brilha com ótimo elenco e execução carismática Foto: Divulgação Nenhuma alma viva consegue dizer não à febre dos anos 80. É aquela atmosfera que apela para a criança interior; a emoção, o suor, os fliperamas, as roupas legais, a boa música... Junte tudo isto ao fictício e extremamente atrativo american dream e pronto: está aí um excelente pano de fundo para construir qualquer tipo de filme. É meio caminho andado pra acertar. Nestes termos, é certo que o descontraído Air: A História Por Trás Do Logo, de Ben Affleck, garanta seus 50% de acertos já nos minutos iniciais do filme. Utilizando do célebre 1984, de George Orwell, para situar a temporalidade do filme, temos Jason Bateman (num shaggy hair que talvez ele devesse adotar por uns tempos, mas essa é só a minha opinião) como o realíssimo Rob Strasser, à época responsável pelo marketing da Nike, numa reunião com outros desestimulados executivos da empresa, já que ela amargava o terceiro lugar com 17% no mercado de basquete totalmente dominado pela Converse e Adidas, respectivamente. O forte da norte-americana eram os esportes olímpicos (a ex-atleta Caitlyn Jenner é citada como uma espécie de outdoor da marca), com tênis e trajes de corrida. A Nike não era a primeira escolha dos atletas de basquete. Ou a segunda. Ou a terceira. E o 13º trabalho de Hércules que no longa é Sonny Vaccaro, personagem que Matt Damon interpreta com uma facilidade que dá gosto, que é um tipo de “olheiro”, é garantir que alguns jovens de times de basquete, ainda no ensino médio, criem vínculos com a marca, ganhando um par de tênis da Nike. Hoje em dia é impensável não associar o swoosh (o nome daquele sinal característico que era pra ser um som) à cultura do basquete, do hip-hop, da cultura negra estadunidense em geral, mas em 1984 a divisão de basquete precisava de um milagre. Um não, alguns. Num momento de epifania, Sonny enxerga longe e vê que a salvação da companhia estaria nos pés do ainda rookie, mas já disputado pelas gigantes do ramo, Michael Jordan. O primeiro milagre seria fazê-lo querer usar um tênis da Nike, já que o jovem parecia ter horror à marca, que não tinha o drip. A escolha interessante do filme de não mostrar o rosto do jovem Jordan, e utilizar um dublê em cena, atrai a atenção ao invés de desviá-la. É o lendário Michael Jordan, quem não o conhece? E se, por acaso, houver alguém que entre à sala do cinema sem o conhecer, assim que sair, terá vontade de pesquisar sobre ele imediatamente. O rosto que não vemos está ali mais presente do que se de fato estivéssemos enxergando-o, de frente. Foto: Divulgação O outro milagre convencer o excêntrico coach bilionário budista-clichê e levemente ególatra Phil Knight, que Ben Affleck interpreta alternando entre a face emotiva e relacionável, e a face sarcástica e borderline impiedosa, com direito às perucas esquisitas, os óculos extravagantes, e os conjuntos nada esteticamente agradáveis, a liberar a verba que seria destinada ao patrocínio de pelo menos três jogadores para apenas um — e este um em questão que mudaria, e mudou a história da empresa. Assistir à progressão do tiro no escuro dado por Sonny, que apostou tudo (incluindo o emprego e a posição dos outros colegas) é um trajeto levemente (levemente mesmo) aflitivo, ainda que se saiba o final da história. O que torna o trajeto divertido são as atuações de Chris Tucker, em seu bom retorno à indústria após sete anos, como Howard White, que hoje é Vice-Presidente da marca Jordan na Nike. Ele é naturalmente engraçado, com um tipo de humor diferente do que o personagem de Ben Affleck explora. Enquanto Phil (Ben Affleck) desperta vergonha alheia, Howard (Chris Tucker) traz o tom da cena, seja ela inclinada à emoção - como na cena do telefonema - ou para momentos de descontração - na reunião com a família Jordan. Se os 50% de acertos são pela ambientação, os outros 50% estão garantidos com o elenco, e deixe-me dizer, eu sei que Matt Damon é o protagonista deste filme, e ele está confortável e leve como o afetuoso, solitário e leal Sonny, mas Chris Messina e Viola Davis são dois motivos suficientes para continuar caso nenhum dos outros que eu citei sejam suficientes para segurar sua atenção. O desbocado, ganancioso, visionário e extremamente charmoso (é, eu sei) Chris Messina apresentou o famoso, que por mim até então era desconhecido, agente esportivo David Falk da melhor forma possível. E eu nem sei como ele é, mas acredito definitivamente que ele é assim. O cara rouba a cena e as interações por telefone (!) com Sonny (Damon) têm uma química incrível e vão arrancar boas risadas. Já Viola Davis é a Viola Davis e mostra porquê. Em entrevista, a atriz confidenciou o desafio de interpretar Deloris Jordan, a mãe e “mulher que orquestrou a carreira do grande atleta”, em partes pela responsabilidade e pela diferença no temperamento dela e de Deloris: ela tende a ser mais explosiva, já a mãe do astro é mais comedida. Mas, as grandes atrizes provam porque são grandes em papéis que parecem mais simples aos olhos do grande público. Com um tom contido que lhe é natural e um cuidado e força imponentes à uma mãe de um jovem negro em ascenção nos Estados Unidos, ela desempenha com beleza e maestria seu papel — que foi exigência de Michael Jordan para a realização do filme. Uma cena marcante é quando ela diz, neste tom de cuidado e convicção, a frase que encapsula a essência do filme: “a shoe is just a shoe until my son steps into it”. Foto: Divulgação Outro destaque em atuação é Matthew Maher (de Our Flag Means Death, Hello Tomorrow) como Peter Moore, o idealizador gráfico e mente por detrás do Air Jordan 1 e da clássica imagem que está presente em toda a linha Jordan. A idealização, confecção, até a apresentação do tênis aos Jordan são sequências interessantes pelas contextualizações. Em um desses momentos durante o processo, ficamos sabendo que, na época, a NBA exigia das marcas que os tênis utilizados na quadra tivessem a predominância da cor branca medida por uma porcentagem específica: 51%, e qualquer que fosse a desobediência, a marca pagava uma multa diária de 5000 dólares. O Air Jordan 1 nasce “transgressor” por ter as cores do Bulls, time de Jordan, e por não respeitar o decreto da NBA. Os ‘pep talks’, aqueles discursos motivacionais, estão por aqui e por ali, mas isto não incomoda. O longa caminha bem, é carismático, e é a direção que conduz de modo satisfatório sem apelar. Uma bela cena, num formato que lembra o mockumentary, mescla o ar de descontração, realidade e apelo emocional numa conversa franca entre George Raveling, personagem interpretado por Marlon Wayans e Sonny Vaccaro. Até para os céticos ou desacreditados de Ben Affleck como diretor, este é um filme para carimbar a cadeira dele no hall da direção, quer alguns queiram, quer outros não. Air: A História Por Trás Do Logo é um universo de referências para os admiradores das marcas, para os fãs de basquete, para os viciados na 80’s fever, ou para quem quer passar um tempo legal e ver boas atuações na telona. Inesperado como inspirar-se no comentário de um assassino à beira da execução para cunhar o lema da empresa (just do it), Air é uma ótima surpresa. Como se diz aqui em Salvador, Ben Affleck acertou grandão, sem medo. Nota: 4/5

  • Crítica | Super Mario Bros. - O Filme

    Uma montanha-russa de cores e emoções para todos os públicos Foto: Divulgação Pode respirar fundo e agradecer: este não é um live-action sofrido como o de 1993, que você não lembra ou não sabe da existência, e graças a deus por ambos, com homens adultos ou cenários realistas. Super Mario Bros. - O Filme é uma montanha-russa vertiginosa e interdimensional de cores vibrantes, comédia, ótima trilha sonora (No sleep till Brooklyn do Beastie Boys tocou meu coração) e muito fanservice. E guarde logo a info: são duas as cenas pós-créditos, e pela segunda você terá de esperar um pouquinho mais. Obrigada, de nada. Aviso, de antemão, que não sou fã do game apesar de já tê-lo jogado em alguns momentos da minha infância. Digo isto porque vez ou outra foi difícil lembrar quem eram tais personagens ou o porquê dos gritos numa cena, ou se deveríamos temer alguém em outra cena, mas isto, no geral, não impossibilitou a experiência. Isto porque os encanadores mais queridos da cultura pop são apresentados numa historinha de origem tocante e divertida, que aliás é o tom do filme. O vínculo de irmandade entre Mario e Luigi é muito bonito, e já é uma boa lição para a criançada que com certeza invadirá as sessões dos cinemas Em suma, a história se organiza da seguinte forma: Mario, após abandonar o emprego, e ir em busca do sonho de ser encanador, abre a empresa com seu irmão Luigi, e depois de falharem com o primeiro cliente, veem a oportunidade de cumprir o propósito quando um cano no sistema de esgoto do Brooklyn se rompe, alagando o bairro, provocando muitos transtornos. Os irmãos, então, seguem em sua incursão até a parte subterrânea da cidade procurando sanar o problema na tubulação, até que são magicamente sugados pela passagem interdimensional espiralar, colorida e brilhante que os leva diretamente às dimensões que conhecemos nos jogos. Mario cai no Reino Cogumelo, domínio da Princesa Peach (que não é mais uma donzela em perigo), enquanto o pobre do Luigi aterriza no Reino das Sombras, lar do terrível Bowser, o rei dos Koopas. Daí em diante, a saga é a de recuperar Luigi do Reino das Sombras, impedir que Bowser destrua o Reino Cogumelo e, claro, depois de tudo, voltar para casa Foto: Divulgação A todo instante o conto-de-fadas cutuca nossas memórias, reproduzindo cenas que ocorriam nos jogos, como um gameplay. Alguns personagens memoráveis estão por aqui, como o happy virus Toad, que arranca gargalhadas em seu papel de sidekick. Outros passam ao longe, num possível aceno à expansão desse universo cinematográfico. Os potencializadores do jogo: cogumelos, estrelas, flores, também foram inseridos no filme. Os atos do longa são demarcados por cenários dos jogos clássicos de Mario, e você perceberá isso durante o desenrolar da história. A duração é de 1h30, e a sensação é de que o grande desafio do roteiro de Matthew Fogel (Minions 2: A Origem de Gru, Uma Aventura Lego) aqui foi o de fazer caber tantos anos de referências icônicas num curto espaço de tempo. No popular, de não deixar a peteca cair. Outro ponto importantíssimo e é nosso dever e responsabilidade enfatizar: a dublagem brasileira é, sem dúvidas, a melhor do mundo. O trabalho de tradução, contextualização e sincronização é minucioso e saudamos o trabalho de Raphael Rossatto (Mario), Manolo Rey (Luigi), Marcio Dondi (Bowser) e Carina Eiras (Princesa Peach), que trouxeram originalidade e identificação, sem que os traços clássicos destes personagens se perdessem. Sempre falando a língua do nosso dia-a-dia (“Barraqueira…”), aproximando quem ouve e quem fala. A dublagem brasileira é massa, e posso ousar dizer que 70% do trabalho de manter o filme interessante e engraçado em nossa fala, pertence à ela. Super Mario Bros. - O Filme é uma gostosa e nostálgica viagem ao tempo dos cartuchos antigos — para quem é de cartucho, e também é uma deliciosa jornada para introduzir um novo e mais jovem público ao universo do bigodudo mais famoso do mundo. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Falando A Real (1ª temporada)

    As nuances bem-humoradas entre dor, amor e luto Foto: Divulgação A união da comédia ao drama já é uma técnica centenária utilizada por diversas formas de arte. O objetivo da chamada “dramédia” é proporcionar ao seu público aquele velho sorriso de canto, mesmo quando a vida não contribui com esse processo. É com essa noção em mente que a nova série do Apple TV+, Falando a Real, consegue prender a atenção do seu público e entregar uma sequência de episódios leves e divertidos, mesmo quando o seu tema central gira em torno de um medo unânime – perder quem nós mais amamos. A série conta a história de Jimmy (Jason Segel), um psicólogo que está enfrentando um luto profundo após a morte repentina de sua esposa. Sobrecarregado e buscando uma forma de escapismo através de álcool e drogas, Jimmy também não está sendo o pai mais presente para Alice (Lukita Maxwell), sua filha adolescente, o que acaba provocando um afastamento brusco entre os dois. Enquanto realiza um dos seus atendimentos, Jimmy simplesmente foge das regras e resolve “falar a real” para os seus pacientes, adotando algumas formas nada convencionais, ou profissionais, de orientar o processo terapêutico. Foto: Divulgação Talvez o que seja o grande diferencial de ‘Falando a Real’ é a sua autenticidade ao trazer os dilemas de Jimmy acompanhados dos vários conflitos que os seus pacientes estão enfrentando. O cuidado que os criadores Bill Lawrence, o próprio Jason Segel e Brett Goldstein tiveram ao construir um seriado melancólico, porém esperançoso, foi essencial para trazer o tom mais adequado para a obra. Ao passo que a série traz a sensação de nostalgia de algumas sitcoms mais antigas, o seu roteiro é tão atual e provocativo que o telespectador não pode evitar a sensação de estar vendo algo novo. No mais, dentre as coisas que chamam atenção na produção, a química do ciclo principal de personagens é a mais relevante delas. A dinâmica de Jimmy com Gaby (Jessica Williams) e Paul (Harrison Ford), respectivamente sua colega de trabalho e seu superior, possui um timing cômico rápido e, muitas vezes, até elegante. Além disso, o arquétipo mentor-pupilo funciona muito bem entre Ford e Segel – é irresistível acompanhar o crescimento pessoal dos dois ao longo da temporada. Concluindo, Falando a Real é um acalento para tempos difíceis. De fato, escrever uma comédia sobre perda é uma tarefa complicada, visto que há uma linha tênue entre o olhar otimista e o irrealista. Mas, é com um certo prazer que recomendo Falando a Real como uma série que cumpre com os seus objetivos – nos divertir, emocionar e, acima de tudo, acreditar que há uma luz no fim do túnel. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Shazam: Fúria dos Deuses

    Genérico e superficial, filme falha ao apostar na mesma fórmula do seu antecessor Foto: Divulgação É mais do que notório que as sequências são algo que Hollywood aposta desde o início dos blockbusters. Se fez sucesso, as chances são altíssimas de um filme virar franquia, principalmente se for o caso de um universo compartilhado, como é (ou era) o DCEU. Mas, será que valeu a pena trazer Shazam: Fúria dos Deuses à vida? Neste filme, acompanhamos os eventos após o primeiro longa. Billy Batson (Asher Angel) e seus irmãos ainda estão aprendendo a conciliar a vida adolescente com os alter egos de super-heróis adultos. Quando um trio vingativo de deusas antigas chega à Terra em busca da magia roubada delas há muito tempo, Shazam (Zachary Levi) e seus aliados são lançados em uma batalha por seus superpoderes, suas vidas e o destino do mundo. O roteiro aqui tentou reproduzir exatamente a mesma fórmula do primeiro filme: um humor “pastelão”, mas que consegue agradar algumas pessoas de certa forma, além de uma jornada de redenção do protagonista que não se sente digno de ter o poder que recebeu. Mas, por trazem novos personagens para a trama, a história permanece superficial, deixando de lado alguns aspectos que poderiam ajudar a fazer tudo ter mais sentido. Foto: Divulgação Apesar disso, o elenco, que é muito bom por sinal, tenta trabalhar com o que tem em mãos. Zachary Levi nunca foi conhecido por uma boa atuação, mas ele consegue entregar alguns momentos que tocam o espectador. Porém, toda a emoção construída no terceiro ato vai por água baixo quando a história é simplesmente resolvida com a aparição de uma super-heroína muito conhecida. A impressão que se dá é que não houve muito esforço em entregar algo original ou relevante para os fãs que acompanham o universo da DC. Diferente do primeiro, que foi um respiro em meio a tantos outros filmes que batiam na mesma história, este aqui não consegue sair da sua própria fórmula. Shazam: Fúria dos Deuses é uma oportunidade perdida da DC em se reinventar e pensar fora da caixa. Mesmo com cenários interessantes, um CGI não tão duvidoso, o filme se perde dentro de si mesmo e não final traz uma história confusa, que pode até agradar alguns, mas que não traz nenhuma mudança significativa para o DCEU de hoje. É um filme divertido, mas só isso. Nota: 2,5/5

  • Os indicados ao Asian Film Awards 2023

    Prêmio que reconhece as melhores produções asiáticas anunciou seus indicados há algumas semanas. Divulgação: Asian Film Awards Academy Em sua 16ª edição, o Asian Film Awards retorna indicando filmes de mais de 22 países e regiões asiáticos, além de ter grandes cineastas dentre seus indicados, como Park Chan-Wook, Hirokazu Kore-eda e Ryusuke Hamaguchi. Decisão de Partir, que acumulou indicações ao BAFTA e premiações estadunidenses, lidera as indicações com 10 menções, vindo seguido do filme vencedor do Oscar Drive My Car, que possui 8 indicações. A cerimônia dos vencedores acontecerá no dia 12 de março em Hong Kong. Melhor Filme - Decision to Leave (Coréia do Sul) - Drive My Car (Japão) - Ponniyin Selvan: I (Índia) - Poet (Cazaquistão) - When the Waves Are Gone (Filipinas) Melhor Direção - Darezhan Ombirbaev (Poet) - Davy Chou (Return to Seoul) - Hirokazu Kore-eda (Broker) - Ryusuke Hamaguchi (Drive My Car) - Park Chan-Wook (Decision To Leave) Melhor Atriz - Chieko Baisho (Plan 75) - Happy Salma (Before, Now & Then) - Karena Lam (American Girl) - Sylvia Chang (A Light Never Goes Out) - Tang Wei (Decision To Leave) Melhor Ator - Hidetoshi Nishijima (Drive My Car) - Mohsen Tanabandeh (World War III) - Park Hae-il (Decision To Leave) - Ryohei Suzuk (Egoists) - Tony Leung Chiu-wai (Where the Wind Blows) - Zhang Yi (Where the Wind Blows) Melhor Ator Coadjuvante - Hio Miyazawa (Egoists) - Im Si-wan (Emergency Declaration) - Masaki Okada (Drive My Car) - Michael Hui (Where the Wind Blows) - Oh Kwang-rok (Return to Seoul) Melhor Atriz Coadjuvante - Kim So-jin (Emergency Declaration) - Laura Basuki (Before, Now & Then) - Sakura Andor (A Man) - Yin Tao (Home Coming) - Yuumi Kawai (Plan 75) Melhor Diretor Estreante - Chie Hayakawa (Plan 75) - Jigme Trinley (One and Four) - Kim Se-in (The Apatment with Two Women) - Mkabul Mubarak (Autobiography) - Saim Sadiq (Joyland) Melhor Atuação Revelação - Lee Ji-eun (Broker) - Louise Wong (Anita) - Mak Pui Tung (The Sparring Partner) - Park Ji-min (Return to Seoul) - Yang En You (Lighting Up the Stars) Melhor Roteiro - Jhung Seo-kyung e Park Chan-wook (Decisão de Partir) - Lav Diaz (When the Waves Are Gone) - Liu Jiangjiang e Yu Min (Lighting Up the Stars) - Mkabul Mubarak (Autobiography) - Ryusuke Hamaguchi e OE Takamasa (Drive My Car) Melhor Montagem - Decisão de Partir (Kim Sang-bum) - Drive My Car (Azusa Yamakazi) - Lighting Up the Stars (Zhu Lin, Wei Yong e Gao Qiongjiali ) - Ponniyin Selvan: I (A. Sreekar Prasad) - Return to Seoul (Dounia Sichov) Melhor Trilha Sonora - Decisão de Partir (Jo Yeoung-wook) - Drive My Car (Eiko Ishibashi) - Ponniyin Selvan: I (A. R. Rahman) - Return to Seoul (Jérémie Arcache e Christophe Musset) - The Four Walls (Bahman Ghobadi e Vedat Yildirim) Melhor Fotografia - Before, Now & Then (Batara Goempar) - Decisão de Partir (Kim Ji-Yong) - One and Four (Lu Songye) - Plan 75 (Hideho Urata) - Ponniyin Selvan: I (Ravi Varman) Melhor Figurino - Alienoid (Ryu Hyun-min e Oh Jung-geun) - Anita (Karen Yip, Dora NG) - Before, Now & Then (Retno Ratih Damayanti) - Egoists (Shinozuka Nami) - Ponniyin Selvan: I (Eka Lakhani) Melhor Direção de Arte - Before, Now & Then (Vida Sylvia Theresia) - Decisão de Partir (Ryu Seong-hie) - Home Coming (Li Miao) - Ponniyin Selvan: I (Thota Tharani) - Where the Wind Blows (Bill Lui e Andrew Wong) Melhor Efeitos Especiais - Alienoid (Jung Seung-oh) - Moon Man (Zhang Fan) - RRR (V. Srinivas Mohan) - Shin Ultraman (Atsuko Sato) - Warrios of Future (Chas Chau, Leung Wai Kit, Kwok Tai) Melhor Som - Anita (Tu Duu-Chih) - Decisão de Partir (Kim Suk-won) - Drive My Car (Nomura Miki e Obo Tatsuya) - Return to Seoul (Vincent Villa) - RRR (Ashwin Rajaskehar)

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