top of page

Resultados de busca

Buscar neste site

1417 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Crítica | A Nova Vida De Toby (Minissérie)

    Fleishman está com problemas... mas quem não está? Foto: Divulgação Quando o assunto é divórcio, seja na TV ou no cinema, alguém sempre acaba tendo uma certa culpa. Felizmente, Fleishman Is In trouble, ou A Nova Vida de Toby – que acaba de chegar ao Star Plus, não cai na armadilha maniqueísta de criar heróis ou vilões. A minissérie tem início com Toby Fleishman (Jesse Eisenberg), que se divorciou recentemente de Rachel (Claire Danes). Toby é um médico em Nova York e está se aventurando pelos aplicativos de relacionamento que descobriu recentemente. Após o divórcio, ele aproveitou para se reconectar com seus antigos amigos da faculdade, Libby (Lizzy Caplan) e Seth (Adam Brody), com quem tem se encontrado para desabafar regularmente. Quando Rachel deixa os dois filhos do casal no apartamento de Toby um dia antes do planejado, ele, obviamente, não gosta da mudança de planos, mas consegue lidar com a situação. O que ele não consegue lidar, é o fato de Rachel não voltar no dia combinado e simplesmente desaparecer. O primeiro episódio pode até dar a impressão de que é uma comédia romântica com um mistério envolvido, mas não se enganem, ela vai muito além disso. Focando nesses quatro personagens principais, a narrativa não linear vai costurando os problemas que levaram Toby e Rachel a se separaram através de flashbacks. E se de início parece que ele é uma vítima na história, aos poucos os episódios vão nos mostrando que não há só uma versão dos fatos. A medida que o roteiro vai se aprofundando e se tornando cada vez mais complexo, o espaço é aberto para que se possa discutir diversos assuntos inerentes à vida adulta, como relacionamentos, sexo, amizade, dinheiro, privilégios e, no geral, seu espaço no mundo, como é inevitável se sentir perdido em algum ponto da vida e sentir saudade de quem já fomos um dia. Por isso é impossível não se identificar com os personagens, que são extremamente bem escritos, cheios de imperfeições, como qualquer um de nós, e brilhantemente interpretados por um elenco irretocável. Foto: Divulgação Pelo nome, já associamos que Toby seja o protagonista absoluto, mas ele é apenas a porta de entrada para que outras histórias possam ser contadas e ele não é o único Fleishman aqui, já que sua esposa Rachel ainda usa o nome, é válido ressaltar. Eisenberg está ótimo no papel desse homem que, conhecemos com uma certa inocência, mas com o tempo vamos percebendo sua arrogância e egoísmo. Claire Danes, a provável vencedora do Emmy de Melhor Atriz em Minissérie, faz coisas que poucas atrizes são capazes de fazer. Cheia de expressões marcantes, ela grita, chora, sem jamais cair no exagero. O fantástico sétimo episódio, focado em sua Rachel, não me deixa mentir. Rachel passou por traumas absurdos, conhecer mais dela, saber que ela vai muito além de ser a “esposa ambiciosa e insensível” que aparenta no início, um estereótipo comum em tramas do gênero, é essencial para a minissérie. Ela tem erros e tem acertos, como qualquer pessoa. Lizzy Caplan é a narradora dos episódios e faz isso com maestria, sempre no tom certo da cena, e além disso ela tem uma ótima personagem com sua Libby, uma mulher que está passando por uma crise no casamento e sente falta da sua jovialidade. Gosto como ela e Toby são amigos e nada além. É através da visão dela que vamos entendendo também vários pontos do que deu errado entre Rachel e Toby, no modo como ele trata a amiga e o quão egóico ele pode ser. Seth – que pouco tem a ver com o Seth de ´The O.C.’ – é o solteirão do grupo. Ainda que não tenha tanto destaque, seu personagem é o melhor de Adam Brody em um bom tempo, e representa mais um lado de um dos temas que a série trata: quando é a hora certa para fazer alguma coisa? Há uma hora certa? Baseada no romance de Taffy Brodesser-Akner, a minissérie também é adaptada por ela e nos questiona de várias maneiras possíveis com respostas que não virão facilmente. Fico feliz que assim seja, já que o modo como ela trata seus personagens era imprescindível para nossa percepção deles. Ter empatia e entender certas atitudes que pareciam imperdoáveis à primeira vista. Com oito episódios que eu assisti rapidamente, o ritmo me agradou bastante. Tratando de vários assuntos delicados sem se perder, escancarando verdades difíceis de serem ditas, é impossível não enxergar um certo pessimismo, até porque a vida não é sempre fácil seja você quem for. Mas, particularmente, eu adoro como a minissérie termina com um tom de esperança, que as coisas podem ser resolvidas. Algumas, pelo menos. Nota: 5/5

  • Crítica | Sharper - Uma Vida De Trapaças

    As muitas camadas de um golpe Foto: Divulgação Filmes sobre golpistas muitas vezes dependem do quão bem você é capaz de enganar seu público junto com os personagens a quem esses golpistas querem trapacear. Por isso, não raramente são obras calcadas em plot twists pelos quais vivem e morrem, visto que a aceitação desses plot twists por parte do público é que determinam se a obra será bem-sucedida ou não. Dito isso, Sharper - Uma Vida De Trapaças é uma produção inicialmente convincente pela estrutura que adota, sendo dividido em blocos que trabalham o ponto de vista de cada um dos quatro personagens principais e a intrincada teia de intrigas, golpes e traições que os unem. É até difícil detalhar como esses protagonistas - a saber: Tom (Justice Smith), Sandra (Brianna Middleton), Max (Sebastian Stan) e Madeline (Juliane Moore) - se relacionam, já que parte do charme do filme em seus dois primeiros atos é justamente entender as gradativas conexões que surgem entre eles, conforme cada bloco dedicado ao ponto de vista de um deles expõe novas informações necessárias à compreensão da trama. Para isso o filme adota uma estrutura ligeiramente não-linear que visa se pagar nos quarenta minutos finais, conforme as decisões tomadas por eles convergem para o clímax. Esse quarteto principal - mais John Lightgow, que vive um bilionário - tem cada um o seu momento de brilhar. Smith confere a ingenuidade e vulnerabilidade necessárias para seu personagem, que o colocam na base da pirâmide desse esquema, enquanto Middleton interpreta a personagem mais multifacetada e imprevisível. Mas são Stan e Moore quem brilham mais: ele parece cada vez mais confortável em papéis vilanescos e ela, é claro, rouba a cena como sempre. Os enquadramentos e usos de cores e sombras reforçam a ambiguidade dos personagens, enquanto a montagem permite que cada bloco flua naturalmente durante a primeira metade da obra. Foto: Divulgação Infelizmente, para um filme que pretende funcionar como uma boneca russa, Sharper - Uma Vida De Trapaças não demora a esgotar seus recursos, e isso fica ainda mais evidente a partir do bloco de Madeline (a despeito da ótima atuação de Moore). O ato final soa extremamente corrido conforme tenta resolver o emaranhado deixado pelos anteriores, e pior: tudo parece extremamente previsível, de modo que a grande reviravolta final pode ser telegrafada há quilômetros. Para um filme desse gênero, isso é imperdoável. No fim, Sharper - Uma Vida De Trapaças se beneficia do seu elenco, do ritmo cadenciado dos seus dois primeiros terços e da estrutura que nos permite aprender mais a cada personagem trazido como ponto de vista. Mas o resultado final, apesar da premissa interessante, é morno e previsível, de modo que não há muito aqui que possa se distinguir do que já vimos em tantas outras obras sobre golpistas. Nota: 3/5

  • Crítica | Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania

    A (falsa) segurança de um filme mediano em uma época de baixas expectativas Foto: Divulgação Não é segredo para ninguém que o MCU não está em sua melhor fase. Na verdade, a crise instaurada pelo fim da Saga do Infinito parece ter transformado o estúdio em uma verdadeira esteira de produção a la “Tempos Modernos”, do Chaplin (1936). Como resultado desse cenário, que engloba tanto filmes quanto as séries do Disney+, a perda de identidade – com exceção de algumas poucas produções – se mostra fugaz e sem rumo definido em um futuro próximo. Em meio a isso, Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania, terceiro filme da franquia protagonizada por Paul Rudd, chega como mais um expoente dessa leva de produtos altamente formulaicos da Marvel, com o suposto diferencial de apresentar o próximo grande vilão do universo cinematográfico; mas será que é o suficiente? Ambientado após os eventos de Ultimato, o longa acompanha a vida de Scott Lang (Paul Rudd) como um escritor de sucesso e pai de Cassie Lang (Kathryn Newton), agora uma adolescente ativista que se utiliza de tecnologia Pym para ajudar os mais necessitados. Na trama, os eventos são desencadeados por um experimento que dá errado e envia os protagonistas direto para o Reino Quântico, local em que Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer) ficou presa por 30 anos. Chegando lá, os personagens se deparam com a ameaça de Kang (Jonathan Majors), conquistador e viajante do multiverso que impera sobre o local. Em termos narrativos, o que temos é uma história simples e sem grandes surpresas. O filme segue quase religiosamente a já conhecida (e extremamente datada) “Fórmula Marvel”, que aqui aparece levemente modificada apenas para dar lugar à dinâmica entre Scott e sua filha. A química de Newton e Rudd é satisfatória e até entrega bons momentos; porém, ao mesmo tempo que se dá créditos a esse aspecto do longa, temos no restante das relações desenvolvidas entre os personagens uma ausência de substância que torna quase impossível criar qualquer correspondência com qualquer um deles. Foto: Divulgação Quanto a isso, o ponto mais gritante que revela essa falta de substância recai sobre Hope Van Dyne (Evangeline Lily), a qual, muito embora seja uma das protagonistas nominais, tem sua participação reduzida à de mera coadjuvante. Em seu encalço, Michael Douglas, apesar de ter uma presença maior na ação dessa terceira sequência, atua como mero artifício de roteiro em forma de um “Deus ex Machina” ambulante (aquela solução milagrosa que aparece quando tudo parece perdido). Em contrapartida, Michelle Pfeiffer e Jonathan Majors aparecem como os grandes trunfos do filme. Aqui, a veterana desempenha sua natural desenvoltura e imponência – ainda que longe de desempenhar toda sua capacidade artística –, roubando a cena com uma Janet misteriosa e extremamente familiar com o ambiente que a cerca, investindo na experiência que lhe recai enquanto desbravadora do Reino Quântico. Já Majors, estreando seu primeiro longa do MCU, explode no papel do conquistador multiversal, com uma performance que em muito supera sua rápida e apagada aparição no final da primeira temporada da série Loki. Foto: Divulgação Quando falamos de termos técnicos, o longa apresenta uma considerável melhora em relação aos seus predecessores diretos do estúdio. A finalização da computação gráfica se mostra melhorada em muitos aspectos, ainda que o longa tenha sido filmado quase que inteiramente na tela verde. Os visuais são ousados, coloridos e confortavelmente vibrantes, além de contar com bons designs de personagens e, mesmo no caso do caricato M.O.D.O.K., a dinâmica visual é coerente com a história e favorece a experiência no desenrolar das sequências. Mediano em quase todos os seus pontos, Quantumania entrega um produto regular, que pode ser até considerado satisfatório se comparado às más experiências que vínhamos tendo no decorrer desses 4 anos. É o típico filme morno e facilmente esquecível no emaranhado das quase 30 produções que vieram antes dele. Porém, para aqueles que ainda depositam confiança nas próximas empreitadas do estúdio (confesso que já a perdi há algum tempo), devo dizer que o longa representa uma (pequena) fagulha de esperança de que algo maior está por vir, ainda que toda a sua trajetória tenha sido imersa em uma perigosa mediocridade. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Daisy Jones & The Six (Minissérie)

    Adaptação eleva a história do livro e aborda as nuances das relações humanas Foto: Divulgação É quase impossível ter acompanhado o universo literário nos últimos anos e não ter ouvido falar de Daisy Jones & The Six. A obra de Taylor Jenkins Reid foi publicada em 2019 no Brasil e conquistou uma legião de fãs em todo mundo e, seguindo a tendência atual de Hollywood, não demorou muito para a produtora Hello Sunshine (da atriz Reese Witherspoon) comprar os direitos do livro e anunciar uma adaptação em formato de minissérie pela Amazon Prime Video. Depois de muita espera e adiamentos por conta da pandemia, Daisy Jones & The Six chega ao streaming a partir do dia 3 de março. Com seus três primeiros episódios sendo lançados de primeira e os dois últimos lançados no dia 24 de março, o público acompanhará a história da banda fictícia que, nos anos setenta, dominava as paradas de sucesso, fazia shows para plateias lotadas e conquistava milhões de fãs. Porém, no dia 12 de julho de 1979, no último show da turnê ‘Aurora’, eles se separaram e ninguém nunca soube por quê. É com esse gancho narrativo do mistério que separou a banda mais popular da época que começamos a embarcar nessa história. Seguindo um formato de um falso documentário que mescla os flashbacks da década de setenta com entrevistas, nos anos 90, com membros da banda, familiares, produtores e jornalistas da época que discorrem sobre a história e o surgimento da banda e evidenciam o grande fenômeno que ela se tornou, se tornando quase uma figura mítica dentro da história do rock. Foto: Divulgação Nesses primeiros três episódios, Daisy Jones & The Six faz um excelente trabalho em introduzir seus personagens. Conhecemos Daisy e infância problemática, seu primeiro encantamento pelo mundo glorioso de Hollywood e entendemos o que fez ela se apaixonar pela música. Daisy é uma personagem muito complexa e repleta de nuances e vislumbrá-la desde o começo é fundamental para entender suas escolhas durante o resto da série. Também vemos os primeiros passos dos “Dune Brothers” e o processo para virarem o “The Six”. Adaptada para a televisão por Michael H. Weber e Scott Neustadter, a minissérie consegue, ao mesmo tempo, seguir fielmente o material original e trazer um frescor de originalidade à história. Narrativamente, Daisy Jones & The Six faz boas escolhas criativas, fazendo com que as mudanças necessárias de uma adaptação não atrapalhem a jornada individual de cada personagem. A minissérie se aprofunda mais em algumas histórias de personagens coadjuvantes, por exemplo, dando um contexto ainda melhor para entendermos o mundo de sexo, drogas e rock’n’roll da década de setenta. Um dos principais trunfos da produção é, sem dúvidas, as escolhas de elenco. Sam Claflin, um veterano de adaptações literárias para o público jovem, é um Billy Dune que luta constantemente com seus demônios internos e Sam consegue refletir isso muito bem nas telas com charme e uma sedução que só astros do rock poderiam ter (e ele também surpreende com uma voz incrível). Já Riley Keough, intérprete de Daisy Jones, vive o papel de sua vida. A personagem principal era descrita nos livros de uma maneira apoteótica, quase mística, tornando- se algo muito difícil de ser transposto para as telas, mas ela consegue de maneira brilhante. Também vale mencionar e destacar as ótimas performances de Camila Morrone, Suki Waterhouse e da brasileira Nabiyah Be. Foto: Divulgação Musicalmente, Daisy Jones & The Six tem um trunfo nas mãos. Todas as músicas cantadas na série, incluindo o álbum “Aurora”, também serão lançadas nas plataformas digitais. Com canções produzidas por músicos como Phoebe Bridgers, Madison Cunningham, Marcus Mumford, Jackson Browne e Blake Mills, a trilha sonora da série tem tudo para ser popular nas paradas de sucesso da vida real. É incrível perceber como as letras conversam bem com os acontecimentos da série e que esses momentos musicais exalam originalidade e veracidade. É difícil assistir e não ficar se perguntando se Daisy Jones & The Six realmente existiu de verdade. Algo que contribui para isso é a excelente ambientação da série, que consegue nos transportar para a Los Angeles e Estados Unidos dos anos 70 de uma forma muito natural. Com uma fotografia muito atraente, a minissérie também é um deleite técnico com boas direções e roteiros episódicos muito consistentes. Com dez episódios, Daisy Jones & The Six é uma história que tem todos os fatores necessários para se tornar o mais novo fenômeno nos próximos meses. A narrativa é envolvente, os personagens são cativantes, as músicas são viciantes e a junção desses elementos forma uma minissérie imperdível tanto para os fãs dos livros quanto para aqueles que não fazem ideia sobre a história da maior banda fictícia de todos os tempos. E no fim das contas, a minissérie é realmente muito mais que contar o que aconteceu na formação, estrelato e separação da banda. Daisy Jones & The Six é uma história sobre relações humanas, sobre os altos e baixos da vida, sobre relações familiares e sobre o amor. E isso também é rock’n’roll. Nota: 5/5

  • Crítica | Outer Banks (3ª temporada)

    Apesar de tentar, série não consegue manter o nível das temporadas anteriores Foto: Divulgação Com uma sólida primeira temporada, uma segunda irregular, mas com alguns bons momentos, Outer Banks chega com sua nova leva de episódios desesperada por reviravoltas, o que piora tudo, mas algumas coisas se salvam graças a química dos personagens. A temporada se inicia na Poguelândia, uma ilha deserta onde os Pogues passaram mais ou menos 1 mês. Em 20 minutos do primeiro episódio eles já são resgatados mostrando que agilidade não vai faltar, o que já não se pode falar do desenvolvimento da trama principal. Obviamente, o piloto que os resgata da ilha não é de confiança e depois de um pouso truculento, Kiara (Madison Bailey) é pega em mais uma conveniência do roteiro para separar o grupo e nos apresentar ao novo vilão: Carlos Singh (Andy McQueen). Quis fazer esse breve resumo para ressaltar a repetição da fórmula e quão enfadonha ela já está. Depois de muitas idas, vindas e reencontros no Caribe – muito mais do mesmo - todos os personagens voltam para Outer Banks. John B. (Chase Stokes) consegue encontrar seu “ressuscitado” pai, Big John (Charles Halford), e volta com ele, mas já estão em busca de um tesouro maior e mais lendário: El Dorado. Essa vai ser a trama que norteia a temporada e é onde ela mais falha. É uma trama megalomaníaca como a série vem se tornando e ela não faz o mínimo sentido. Além do ‘nonsense’ a trama não diverte ou empolga, utilizando elementos de fantasia como estátuas que brilham conforme a luz da lua. Sinceramente. Parece um jogo de videogame, só que não temos o controle, então só assistir esses personagens decifrarem enigmas bobos não tem a menor graça. O foco aqui também é a relação de John B. com o pai, que é um sujeito sem qualquer traço de carisma que me faça torcer por ele ou no mínimo me importar. Boa parte disso acontece durante o interminável episódio final que tem desnecessárias 1h20 de duração. Sarah (Madeline Clyne) faz companhia aos dois durante a busca final e o roteiro sempre deixa que ela decifre algum dos enigmas para que se mostre necessária ali e é ela quem vai a El Dorado com John B. Na luta final, o caricato vilão Singh que parece saído diretamente de um desenho animado, explode com uma dinamite – sim, isso mesmo que você leu. Quando todos os personagens que estavam correndo de um lado pro outro se reencontram, ainda há um capanga de Singh os ameaçando e é aí que morre Ward (Charles Esten), se sacrificando por Sarah, com quem passou a temporada tentando se redimir. Big John, já ferido, acaba morrendo pela segunda vez e vai sem dizer a que veio. Mas alguém morre de fato nessa série? Foto: Divulgação Há várias tramas desconexas pelo meio do caminho que não valem muita menção. A famosa cruz da família de Pope (Jonathan Daviss) que foi o objeto de tanta na luta na temporada passada é derretida por Rafe (Drew Starkey). Isso depois dos Pogues tentarem roubar um trem (!) em movimento para tentar pegá-la de volta. A ação mirabolante tenta disfarçar que a série tem pouco a dizer e somente quer encher linguiça. Topper (Austin North) está de volta e leva Sarah a ter saudade da sua vida Kook. É mais uma trama com potencial bacana, mas que acaba apelando para o exagero com um enciumado e rejeitado Topper queimando o Castelo com todos personagens principais dentro. Há alguma consequência disso? Não, pois no momento que o outro episódio começa já vemos os personagens sãos e salvos apenas com algumas escoriações e supondo o que poderia ter acontecido. É mais um exemplo de choque gratuito. JJ (Rudy Pankow) e Kiara, o casal “vai não vai” da série, têm uma ótima química e compartilham momentos genuinamente bacanas, que desenvolvem bem os dois personagens não só como casal, mas também individualmente – ele mais do que ela. Até que, mais uma vez, na tentativa de trazer grandiosidade para algo que poderia ser muito mais simples e intimista, a série força toda uma situação para que o primeiro beijo do casal seja um grande momento. Kiara é mandada para um tipo de acampamento de reabilitação por seus pais e somente JJ se dispõe a ir resgatá-la quando o grupo está de partida para a Venezuela em busca de El Dorado. É mais um empecilho criado pelo roteiro que sabemos que será contornado. É desnecessário e o tão aguardado beijo funcionaria de uma forma muito melhor em um dos inúmeros reencontros do grupo que o roteiro insiste tanto em separar. Sem falar que, de novo, não faz o menor sentido por toda a situação envolvida. É comum que séries queiram evoluir à medida que avançam as temporadas, mas também é preciso colocar o pé no chão e saber o tipo de história que quer contar. Outer Banks nunca foi um poço de verossimilhança, mas a apelação fantasiosa beirou o ridículo nos novos episódios. No mínimo deveria entreter ou investir mais no desenvolvimento dos personagens que têm uma ótima química e um elenco competente, em sua maioria. O gancho para a próxima temporada é o navio do Barba Negra, e eu já não imagino que venha qualquer coerência daí. Em uma eventual 5ª temporada, não duvido que o destino seja Atlântida. São vários personagens interessantes, mas renega-los a segundo plano para focar em uma trama absurda não é a melhor das ideias. São dez episódios com bastante ação, uma bela trilha sonora e muito filtro amarelo, mas sem qualquer aprofundamento fica a sensação de vazio, de que o que eu acabei de assistir é completamente esquecível e não vale meu tempo. Se continuar assim, o tesouro mais difícil de encontrar vai ser qualidade da série. Nota: 2/5

  • Crítica | A Menina Silenciosa (An Cailín Ciúin)

    As mil palavras que existem no silêncio de uma criança Foto: Divulgação Durante o período da infância, nos deparamos com uma busca avassaladora por explicações acerca de tudo que existe. Infelizmente, diante de tantas coisas que nós, enquanto crianças, conseguimos entender, nem sempre uma delas é o discernimento de que a culpa não é sempre nossa. Em A Menina Silenciosa, filme indicado ao Oscar 2023 na categoria de Melhor Filme Internacional, percebemos como a exteriorização do afeto é fundamental na construção de quem somos, mesmo que esse tal afeto não seja verbalizado. Roteirizado e dirigido por Colm Bairéad, o longa de origem irlandesa conta a história de Cáit (Catherine Clinch), uma garotinha de nove anos, cuja família está prestes a ganhar mais um integrante. É exposto, já na primeira meia hora de filme, que Cáit possui uma personalidade quieta e introspectiva, potencialmente resultante da postura fria de seus pais e da ausência de empatia por parte de suas irmãs mais velhas. Em uma Irlanda rural, com o desafio de sustentar uma família numerosa, os pais da pequena protagonista decidem mandá-la para a casa de parentes distantes no período das férias escolares, com o intuito de aliviar as despesas domésticas até a chegada do novo bebê. Na trama, Cáit traça uma jornada de zelo em sua estadia na fazenda do casal Eibhlín (Carrie Crowley) e Seán (Andrew Bennett), experimentando, talvez pela primeira vez, o afago do amor. Foto: Divulgação Eibhlín é, desde o princípio, uma figura sólida e transparentemente materna. Seu carinho é expresso através de atos concretos de cuidado e afeição. Por outro lado, Seán é um homem mais recluso e fechado, até o momento em que as graças da convivência conseguem quebrar suas defesas. A narrativa desses personagens consegue presentear a audiência com uma visão das diversas formas em que processamos certos sentimentos, especialmente a culpa, a dor e o luto. Certamente, A Menina Silenciosa possui fotografia e roteiro extremamente claros em seus objetivos. Enquanto seu primeiro ato é frio, cinza e monossilábico, o segundo e terceiro ganham cor e brilho, mas nunca sem perder a sutileza – a característica mais marcante do filme. É dessa maneira que a bagagem de informações de Cáit sobre carinho familiar, antes tão escassa, é alimentada diariamente com doces trivialidades. É válido pontuar que A Menina Silenciosa é uma adaptação do livro, também irlandês, Foster, publicado pela autora Claire Keegan. No momento em que o espectador termina de assistir o filme e descobre que se trata de uma obra com base literária, uma vontade quase incontrolável de devorar o livro é iniciada. Isso acontece em razão do cuidado milimétrico aos detalhes que circundam essa pequena garota. Cáit parece querer entender tudo sobre o mundo, esperando que o mundo possa compreendê-la também. Em cena, a belíssima atuação de Catherine Clinch realmente transforma gestos, expressões e jeitos em completos monólogos. Desde o começo, já sabemos que o tempo de Cáit na casa de Eihblín e Seán é passageiro. Entretanto, o filme nos prende tanto no enredo daqueles três personagens, que esquecemos da finitude do verão. Ao seu fim, o filme incorpora uma finalização corajosa e emocionante, honrando a sua merecida indicação ao Oscar. Em síntese, o longa é um verdadeiro exemplo de como uma história simples e silenciosa pode transmitir uma imensidão de significados. Nota: 4/5

  • Crítica | Sra. Harris Vai A Paris

    A Sra. Harris é a prova de como a solidariedade impulsiona a realização de sonhos Foto: Divulgação Ao longo da história, a palavra ‘elegância’ já foi atrelada a uma vasta coleção de significados. Pode-se dizer que esse termo era exclusivamente ligado a uma simbologia de status e poder, com o intuito de acentuar a diferenciação socioeconômica entre as classes. Ainda que essa relação se perpetue até os dias atuais, a modernidade trouxe um novo significado para o elegante – a ideia de atemporalidade. É assim que podemos caracterizar a essência da ilustre personagem principal do longa Sra. Harris Vai a Paris, uma comédia simples, bem-humorada e bem sucinta em seus objetivos. Dirigido por Anthony Fabian, o filme em questão, cujo título é bem autoexplicativo, conta a história de Ada Harris (Lesley Manville), uma empregada doméstica dos anos 50, viúva, com um coração de ouro e agora um novo sonho – ter um vestido Dior. Desde que, em uma de suas faxinas, o seu coração clamou por esse desejo, a Sra. Harris decide fazer tudo que está ao seu alcance para ir até Paris e lá, comprar o seu vestido tão sonhado. Felizmente, com muito esforço e algumas idas e vindas de sorte, nossa querida protagonista consegue embarcar para a capital francesa. No entanto, ao chegar lá, o ambiente da alta costura não se mostra disponível e acessível a Ada, que embora tenha trabalhado horrores para conseguir dinheiro o suficiente para comprar o seu vestido, a sua presença ali é inicialmente vista como estranha e inadequada. Há certa relutância por parte da gerente Madame Colbert (Isabelle Huppert) em acolher a Sra. Harris como uma cliente da maison Dior, pelas razões que todos nós já sabemos. Entretanto, é justamente nesta casa de moda que o rumo da protagonista cruza caminhos com o Marquês de Chassagne (Lambert Wilson), com a modelo Natasha (Alba Baptista) e também com o do diretor de finanças Andre (Lucas Bravo), peças fundamentais na estadia de Ada em Paris. Foto: Divulgação Esta já é a segunda adaptação cinematográfica do romance homônimo de Paul Gallico, e, o que o filme de Fabian possui como um grande triunfo diferencial tem nome e sobrenome: a atriz Lesley Manville, que com todo seu carisma, consegue nos apresentar uma Sra. Harris irresistivelmente autêntica. Desde os seus momentos com a melhor amiga, Vi (Ellen Thomas), até às pequenas doses de afeto para com o gentil Archie (Jason Isaacs), Manville consegue colocar a dose perfeita de encanto, sem nunca beirar o caricato. Portanto, logo começamos a perceber que estamos assistindo um conto de fadas disfarçado, que dedilha minimamente sobre questões trabalhistas em uma Paris suja e destoante. Em ‘Sra. Harris Vai a Paris, seus coadjuvantes também fazem um bom papel em dar suporte a história e movimentar a narrativa. Analisando de uma forma mais técnica, é muito curiosa a maneira com que o longa faz com que as mais absurdas coincidências parecerem aceitáveis e críveis, já que realmente estamos situados no pequeno conto de fadas de Ada. Seja pela fotografia inebriante ou pelo figurino impecável, e indicado ao Oscar 2023, diga-se de passagem, da esplêndida Jenny Beavan, tudo contribui para essa plena impressão que estamos vivendo no sonho da Sra. Harris. Em conclusão, Sra. Harris Vai a Paris é um deleite – tudo é extremamente simples, leve e moral. De fato, o destino não tem sido muito amigável para Ada Harris, porém, ela ousa desafiá-lo sendo o mais gentil e solicita possível. Com o filme, extraímos que a generosidade pode nem sempre nos trazer retornos imediatos, porém, demonstrar-se uma pessoa aberta para ajudar o próximo será sempre uma das formas mais nobres de conduzir a vida, mesmo quando ela mesma acaba levando tudo da gente (inclusive um certo vestido especial). Nota: 4/5

  • Crítica | Living

    Adaptação cativante prova que o carpe diem do Kurosawa segue atemporal e infalível Foto: Divulgação Williams (Bill Nighy) é um funcionário público veterano, e uma peça importante dentro da burocracia de Londres que luta para se reconstruir após a Segunda Guerra Mundial. Williams passa seus solitários dias soterrado em papeladas de seu trabalho, sem qualquer perspectiva de futuro, sem qualquer ânimo para viver e sem qualquer motivação para fazer outra coisa além da sua travada rotina. Após um diagnóstico médico que o faz pensar sobre seus dias restantes de vida, o velho homem busca novos horizontes e novas maneiras de aproveitar suas horas, e entre prazeres e obrigações ele descobre que o grande feito da sua vida ainda está por vir e esteve sempre bem próximo. O roteiro do japonês Kazuo Ishiguro é baseado no filme Ikiru (1952) do aclamado diretor Akira Kurosawa e consegue adaptar com sucesso a história para o contexto inglês pós-guerra. E por mais que o filme de Kurosawa seja um fenômeno de unidade estilística – uma das grandes qualidades do diretor – a adaptação consegue trazer um frescor em relação à obra original. Começando pelas abordagens usadas nos filmes e como se apresentam desde o momento inicial. Enquanto o filme de Kurosawa imprimia uma versão mais pessimista e logo no frame inicial estampa uma lâmina de raio-x exibindo a doença do protagonista, o sensível diretor sul-africano Oliver Hermanus opta por introduzir o enredo principal através de um carismático personagem secundário que, assim como o espectador, vai se aprofundando na história principal à medida em que vai conhecendo os demais personagens. Acho que na verdade esse é o grande triunfo de Living, fazer com que o enredo parecesse mais adorável do que ele realmente é. Ikiru é, apesar de bastante sentimental, uma lição de moral essencialmente pessimista e com várias visões negativas e críticas em relação à sociedade e ao ser humano moderno/pós-moderno. E Living consegue mudar o tom e introduzir mais alívios cômicos mesmo mantendo todas as críticas e pontos de vista negativos. O serviço público é visto como uma grande máquina ultrapassada e enferrujada, o homem é um ser indiferente, e o sistema capitalista não permite que todos gozem dos mesmos prazeres em vida. A sociedade é mecânica, engessada aversa a qualquer mudança, a qualquer tentativa de melhora que fuja do padrão preestabelecido pelo “sistema”. Estamos muito distantes dos anos 50? Foto: Divulgação Hermanus filma de uma maneira precisa e purista com poucos cortes e usa uma estética plástica bem estruturada numa fotografia que trabalha com primor sombras e blocking. A fotografia opera em uníssono com a direção de arte de Helen Scott que mostra uma Londres sisuda e imponente. O filme não é em preto e branco, mas foi filmado com uma paleta bem reduzida, trabalhando quase sempre em tons de branco e cinza para se contrapor com as sombras constantemente presentes. Não menos importante, Bill Nighy está incontestável no papel principal. O ator consegue permear pelos diferentes momentos do filme sem perder o pesar no olhar, sem perder a vaga esperança de que seus finitos dias se prolonguem mesmo sabendo que isso é inevitável. Ao mesmo em que a atuação de Nighy parece ser a peça central de um grande quebra-cabeças, ela também parece ser a imagem que é forma quando todas as peças estão no lugar. Living tem duas difíceis missões: a de mostra sentimento num mundo sem expressões e sem demonstrações e cada vez mais acostumado com isso; e a de remontar um filme de um dos maiores diretores da história do cinema, e o longa se sai muito bem nelas. Não é todo filme que consegue contemplar temas tão universais como a morte, propósito de vida e legado pessoal com tanta graça e com tanta elegância. Nunca é tarde para se debruçar e refletir na velha história do homem que começou a viver quando descobriu que estava morrendo. Nota: 4/5

  • Análise | The Last Of Us 1x08 ("When we are in need")

    Cada vez mais os infectados são adereços. E isso é bom. Foto: Divulgação Semana após semana, The Last of Us vem provando que não é a série de “zumbi” (que a equipe da série não me veja escrevendo isso, já que eles mesmos proibíram o uso da “palavra com z”, apenas usando o termo “infectado” para os mortos-vivos que aparecem na série) que o público, especialmente o que acompanha a narrativa desde os games, esperava. Essas criaturas, outrora humanas e hoje dominadas por um fungo parasita altamente contagioso, aparecem vez ou outra para dar um toque de ação e lembrar o porquê daquele contexto pós-apocalíptico, mas não fazem muito mais que isso. E há de se entender, em partes, a fúria de alguns fãs: os infectados são, sim, elementos bastante interessantes e ainda há muito que se revelar sobre eles (há emoções e raciocínio humano por trás de todo aquele cogumelo? quais os tipos de infectados e como eles se dividem?). Mas The Last of Us não é uma série de zumbi. Os oito episódios até aqui exibidos não deixam dúvidas de que estamos assistindo uma história sobre conexões humanas nas condições menos humanas possíveis, sobre a dualidade entre dois instintos tão inerentes: o de sobrevivência e o de empatia. Tanto que um recurso recorrente tem sido a apresentação de personagens queridos que morrem no mesmo arco narrativo, senão no mesmo episódio: Sarah, Marlene, Tess, Bill, Frank, Henry e Sam. No oitavo episódio, penúltimo da temporada, esse padrão muda. Somos introduzidos à cidade de Silverlake, povoada por uma comunidade em extrema vulnerabilidade, liderada pelo extremista religioso David (Scott Shepherd). Apesar de todos na cidade confiarem nele, sabemos desde o início que há algo de errado em sua personalidade. Quem também sente tal desconfiança é Ellie (Bella Ramser), que, ao sair para caçar um veado enquanto tenta cuidar e prover para um Joel (Pedro Pascal) ainda extremamente ferido, encontra David e James (Troy Baker), um de seus subordinados. Tentando impor mais segurança que sua imagem de menina consegue sustentar, Ellie ameaça os dois homens, que, por sua vez, tentam lhe vender a promessa de acolhimento em Silverlake. Um acordo é feito quando, em troca de metade do veado e de deixá-los vivos, Ellie aceita remédios para tratar a infecção de Joel. Mas a sagacidade de uma pré-adolescente que cresceu num mundo apocalíptico só vai até certo grau, jamais sendo superada pela de um homem que ganhou a vida manipulando outros. Ao lhe ser revelado que ela e o amigo são suspeitos de matar um membro da comunidade, Ellie se dá conta que está numa emboscada e consegue fugir com os remédios, que aplica em Joel quando retorna. Retornando para a uma comunidade que, suspeitamente, agora possui alimento – coisa escassa algumas cenas atrás, David é questionado por James sobre suas decisões e intenções com a menina. Em reunião com a comunidade, tenta explicar sua misericórdia quase divina, ao mesmo tempo que perde o controle e agride uma de suas fiéis, filha da vítima, que clama por vingança. As pulgas atrás da orelha das primeiras cenas começam a se justificar, e membros de Silverlake partem em busca da redenção de Ellie e da cabeça de Joel. Percebendo que a ameaça se aproxima, Ellie protege um Joel ainda debilitado e parte para distrair seus atacantes, sendo logo capturada por eles. Ela acorda numa cela, com David à sua espera. Ao perceber um pedaço de orelha humana no chão, Ellie e nós entendemos, enfim, como aquela população vinha se alimentando diante de tamanha escassez. Se antes amedrontada, Ellie agora está também enojada e rejeita as investidas do homem, agredindo-o e esgotando toda piedade que ele fingia ter por ela. O embate entre os dois desemboca numa perseguição silenciosa no local de concentração de Silverlake, que é tomado por chamas. É uma sequência tão tensa quanto excelente, desembocando numa tentativa de estupro e no assassinato de David por uma Ellie descontrolada de medo, que enfim consegue liberar todo ódio e violência que vinha guardando desde o primeiro episódio. Joel, que juntou toda a pouca energia que tinha para procurar sua protegida, a encontra fugindo do pesadelo que acabou de viver. Desorientada e avessa ao toque, Ellie se debate contra Joel, que, confuso, a conforta, chamando-a de “baby girl”. Não acho que esse seja o melhor episódio de TLOU (afinal, nessa mesma disputa tem "Long, Long Time", talvez um dos melhores episódios de série do ano), mas considero o mais importante. É como se tudo que assistimos até aqui fosse um aquecimento para mostrar o potencial de amor entre duas pessoas extremamente machucadas, e esse episódio viesse para justificar Joel finalmente se despindo das armaduras emocionais e Ellie se deixando ser vulnerável e abraçada. Ao meu ver, o título do episódio, “When we are in need”, confirma essa suspeita. Destaque necessário para Bella Ramsey, que carrega a narrativa pelo segundo episódio seguido e não deixa nada a desejar. Sua personagem exige timing cômico, um olhar sombrio e machucado e, nesse episódio, um senso de terror. Três facetas dificílimas de serem alcançadas até mesmo isoladamente. Muito tem se falado sobre Pedro Pascal, mas há de se reconhecer, também, que sem Bella, dificilmente a série nos tocaria tanto. Como falei lá em cima, The Last of Us nos fala de conexões. Na série, os maiores riscos são os seres humanos – mas também é só pelos seres humanos que vale a pena lutar. É preciso personagens complexos, profundos, vivos e com vontade de viver para que essa história seja contada. Infelizmente, os infectados não preenchem esses requisitos.

  • Crítica | Vulcões - A Tragédia de Katia e Maurice Krafft

    Quando o cinema nos permite imergir nas possibilidades do amor (e da obsessão) Foto: Divulgação Toda vez que me ponho a pensar na vastidão do universo, sinto uma pontada de melancolia me dominar. Independentemente de sua fé ou crença (se é que tenha uma), há um certo peso esmagador quando nos enxergamos como o que realmente somos dentro da infinitude do cosmos — minúsculos e até insignificantes. Nem precisamos ir tão longe: basta olharmos para a Terra e a natureza, suas forças impiedosas e alheias a nós, humanos, conforme exercem seus poderes de destruição e criação. Poucas forças da natureza representam tanto essa capacidade e dualidade quanto vulcões, e é nessa convicção que Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft se sustenta, usando a história de vida (e morte) do casal de vulcanólogos franceses Katia e Maurice Krafft. Apesar do subtítulo em português enfocar a tragédia (o casal morreu durante a erupção do Monte Ouzen, no Japão, em 1991), o documentário é tudo, menos trágico. Sim, o poder destrutivo dos vulcões observados e visitados pelos Krafft está sempre presente, mas mais do que isso, o filme está interessado em nos mostrar o que os atraiu tanto nesses vulcões, de forma que nos sintamos atraídos também. Para isso, a diretora Sara Dosa se vale das próprias imagens de arquivo do casal, que gravavam ostensivamente suas expedições aos vulcões em erupção. Esses materiais, aliados aos diversos registros de entrevistas dadas por eles (em especial Maurice) durante os anos 1960 e 1990 e as leituras dos diários de Katia, permite que adentremos as vidas particulares e profissionais de ambos, como se eles mesmos fizessem esse convite do pós vida para os conhecermos melhor e entendermos (e vivenciarmos) a obsessão que os guiava. Foto: Divulgação As intenções de Dosa são claras: usar a história de amor dos Krafft para entrelaçá-la com o amor de ambos pelos vulcões. Mas sua abordagem passa longe de ser chapa-branca: uma vez que temos acesso direto ao que Katia e Maurice gravaram, é fácil entender o que os uniu em primeiro lugar e os manteve juntos mesmo com suas nítidas diferenças até o último dia de vida dos dois. É inevitável pensar em diversos momentos do documentário: “eles são loucos”, e ao mesmo tempo... é fácil entender porque eles foram atraídos por algo tão comum. Mesmo nos instantes mais trágicos — erupções no Congo, nos EUA, na Colômbia e a no Japão que ceifou suas vidas —, há uma beleza magnética e desafiadora em imagens de montanhas cuspindo fogo e gases, em rios de lava que trazem destruição e lava, nos atraindo na medida em que nos assombra. Se há um porém aqui, é na escolha da narração em off. Não só porque a maioria dos materiais de arquivo falam por si só (e em diversos momentos Dosa entende isso, dando voz a Katia e Maurice e a eles apenas), mas porque o tom monocórdico adotado por Miranda July, ao mesmo tempo em que consegue fugir dos chavões de documentários sobre natureza, também parece deslocado, incoerente com o tom que o próprio longa adota. Depois de um tempo é até possível se acostumar com esse modelo de narração, mas acaba sendo o calcanhar de Aquiles da obra. A despeito dessa estranha escolha, contudo, Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft consegue com maestria nos por na pele de Katia e Maurice, entender esse amor tão obsessivo por vulcões e partilhar desse amor por pouco mais de 1 hora e meia. Uma das mágicas do cinema é nos permitir empatizar e viver sentimentos e conexões que de forma alguma vivenciaríamos na vida real. Nesse aspecto, portanto, Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft é mais do que bem-sucedido, mesmo que jamais passemos perto de um vulcão.´ Nota: 4,5/5

  • Crítica | Império da Luz

    Um filme que tenta ser várias coisas e falha em quase todas elas Foto: Divulgação Na esteira de longas autobiográficos e/ou descritos como “cartas de amor ao cinema” (um termo que cada vez menos me soa um elogio), Império da Luz traz um Sam Mendes se rendendo à nostalgia, evocando o início turbulento dos anos 1980 na Inglaterra para interconectar uma série de temas: um estudo de personagem da protagonista vivida por Olivia Colman, as tensões raciais do período e uma ode ao poder transformador do cinema. Colman dá vida a Hilary Small, a gerente de um cinema decadente, o Empire, localizado numa cidade costeira. Pelos primeiros 15 minutos somos apresentados à deprimente vida de Hilary: ela esteve internada em um hospital psiquiátrico, está tomando remédios para controlar as oscilações de humor, tem um caso com seu chefe e, mesmo trabalhando num cinema, não vê os filmes exibidos. Tudo muda quando ela conhece o novo funcionário, Stephen (Micheal Ward), um filho de imigrantes negros caribenhos, e o romance aflora entre os dois, embora ameaçado pelas instabilidades emocionais de Hilary e a tensão racial que afeta duramente o rapaz. Norteado inicialmente pelo drama romântico do casal, Império da Luz não demora a tentar ser outras coisas, conforme mostrado no parágrafo inicial. Mas o roteiro, assinado pelo próprio Mendes, logo revela suas vulnerabilidades, como se ele tentasse equilibrar várias bolas no ar e deixasse quase todas cair no chão. A premissa sugere a tal “carta de amor ao cinema”, o que é amplificado pela locação, magistralmente trabalhada pela direção de arte para retratar tanto a opulência quanto a decadência do Empire, bem como pela fotografia do sempre brilhante Roger Deakins (embora sua abordagem mais estilizada pareça fora de lugar aqui). Entretanto, o filme está sempre se recusando a mostrar os filmes em exibição, mesmo os mencionando aos montes, o que soa uma decisão no mínimo incoerente. Embora seja apresentada a justificativa de que a protagonista não assiste esses filmes, logo fica claro que é uma desculpa rasa para forçar uma certa catarse que vem no último ato (a qual não pude deixar de associar com a controversa cena final de Babylon, esta muito mais coesa com o filme em questão). Foto: Divulgação Aliás, “raso” é um adjetivo pertinente para o filme, o que é esperado dada a quantidade de temas que quer abordar sem nunca se aprofundar de fato neles. A abordagem do racismo é simplesmente desastrosa: tal qual Green Book, a escolha de tratá-lo pela ótica da personagem branca, tratando-a como ingênua e ignorante a respeito dos males do preconceito — enquanto trata o personagem negro mais como um totem do que como uma pessoa de verdade em alguns momentos — se revela uma decisão covarde de um homem branco e privilegiado, que parece ter descoberto apenas recentemente que é branco e privilegiado. Da mesma forma, há algum interesse em trazer também uma discussão sobre desigualdade de gênero, mas esta fica limitada a frases vociferadas pela personagem de Colman e pelo antagonista medíocre vivido por Colin Firth, sem nunca ir além disso. É nítido que o viés habitualmente estilizado de Mendes trabalha contra sua própria obra, revelando uma abordagem higienizada e embelezadora dos temas que se propõe a discutir. A única razão pela qual o filme não chega a ser um desastre completo é a força das atuações de Colman e Ward. Ela é uma das melhores atrizes de sua geração, e consegue fazer o que o roteiro é incapaz de dizer, incorporando as diversas facetas da sua personagem desequilibrada e trágica. Seus momentos explosivos e desvairados poderiam soar como caricaturais e forçados na mão de atrizes menos talentosas, mas nas mãos dela soam poderosamente naturais e críveis. Já Ward traz uma performance mais contida, mas que consegue se elevar para além do papel de totem que lhe é imposto pelo roteiro. Ainda assim, se é para vê-lo como um imigrante afro-caribenho fã de reggae na Inglaterra dos anos 1980, recomendo assisti-lo em Lovers Rock, de Steve McQueen, um filme que faz muito mais jus ao seu talento e carisma do que este aqui. Na safra de filmes feitos para premiações (os famosos “Oscar baits”), Império da Luz é um dos mais dolorosamente óbvios que vi em muito tempo. Em tese, tem muito ao seu favor — um diretor, equipe de produção e elenco oscarizados, além de temas que demonstram ser relevantes e a tal capacidade “metacinematográfica” que é irresistível a Hollywood. Mas, embora Colman e Ward brilhem e deem seu melhor, eles não podem fazer o filme ser mais do que é: uma obra rasa, ingênua e malconduzida, que na tentativa de dizer algo sobre vários assuntos pertinentes acaba dizendo pouco ou quase nada além do que saibamos e que já não tenhamos visto em obras melhores. É um filme cheio de boas intenções, mas parafraseando o velho ditado: de boas intenções as premiações estão cheias. Nota: 2/5

  • Crítica | Marcel The Shell With Shoes On

    Um abraço apertado que deixa o coração quentinho Foto: Divulgação É triste perceber que poucas pessoas assistiram e tiveram o prazer de ter contato com Marcel the Shell With Shoes On, tranquilamente um dos melhores filmes do ano passado. A pouca divulgação e distribuição não contribuíram para o seu melhor alcance, já que o longa não chegou às salas de cinema no Brasil e não houve qualquer previsão para sua estreia em plataformas de streaming por aqui. Felizmente, o longa foi merecidamente indicado e reconhecido em algumas premiações - entre elas o Oscar - pela excelente e majestosa animação que é, além do magnífico trabalho na sua produção, o que elevará sua visibilidade e dará a novos espectadores a chance de conhecer essa linda história. Aqui acompanhamos a rotina de Marcel, uma adorável concha que usa pequenos sapatos e leva uma vida agradável com sua avó Connie. Os dois protagonistas são criaturas que antes faziam parte de uma grande comunidade de conchas e agora vivem sozinhos, pois foram vítimas de uma desconhecida tragédia que deixou somente os dois como únicos sobreviventes. A vida de Marcel muda quando um documentarista o encontra no meio da bagunça de seu Airbnb e resolve postar na internet pequenos vídeos curtos sobre a rotina da pequena concha. O que antes começou com curtas sem propósitos, logo atinge enormes proporções e fazem de Marcel um sucesso nacional e uma celebridade amada por muitos fãs. Assim, com a visibilidade alcançada e os recursos que possuí, Marcel enxerga ali a possibilidade de reencontrar sua família há muito tempo perdida. Acompanhar o dia a dia de uma concha usando tênis é uma ideia que eu nunca imaginei para um filme, e pode até ter sido justamente por isso e pelo fato de não saber absolutamente nada pelo que esperar que ele foi capaz de me tocar e me fazer chorar tanto. Sinto que o cuidado que a equipe teve com esse longa transparece e fica notório em cada frame, que parecem sair da tela para encontrar e se conectar com o telespectador. A impressão que fica é que os envolvidos no projeto são seres humanos talentosos, cheios de coração e com uma linda mensagem para passar. Foto: Divulgação Por ser um longa independente, em stop-motion, com baixo orçamento e que teve uma produção que durou aproximadamente sete anos, a originalidade e criatividade extravasam e tomam conta, mas não são a única fonte de riqueza do filme. A mensagem passada é mais um troféu em meio a tudo que é construído e entregue ao telespectador. Desde perseverança, otimismo inabalável, inocência, fragilidade, e até coragem; tudo em tela é capaz de te fazer enxergar a magia das pequenas coisas e te deixar com o olhar atento para o que está ao nosso redor. E mesmo sendo relativamente curto, com 1h30min de duração, tem muita bagagem e muita coisa importante para contar. O diretor e roteirista Dean Fleischer Camp precisa ser exaltado e reconhecido por esse trabalho esplendoroso e pelo espetáculo que é essa obra. Foi criado aqui uma excelente e harmoniosa combinação entre animação em stop-motion, efeitos especiais e live action, bem como um texto que navega entre temas como amizade e companheirismo à formas de lidar com traumas e luto. Além do incrível trabalho do diretor, outra pessoa merecedora de crédito e exaltação é a atriz Jenny Slate que também assina o roteiro - juntamente com Fleischer e Nick Paley - dubla e é a responsável por dar vida à concha protagonista. A atriz consegue ao mesmo tempo mostrar tanto a fragilidade quanto a bravura de Marcel através de seu tom de voz que sem dúvidas foi um dos pontos altos do longa para mim. Por fim, Marcel the Shell With Shoes On é um comfort movie adorável, brilhante e repleto de criatividade que consegue ser fofo, mas nunca bobo, e que conta com um protagonista incrivelmente irresistível. Capaz de ser original ao mesmo tempo que é simples, mas com uma simplicidade que se eleva e se transforma em algo mais, pois transborda todo o amor envolvido nessa produção. Incrível como a cada segundo que passava e a cada cena de crescimento, amadurecimento e aprendizagem vivenciada por Marcel um sentimento tomava conta de mim e eu me encantava ainda mais por aquilo que estava assistindo. Sem dúvida alguma é um dos filmes mais originais que assisti nos últimos anos, com uma linda lição de vida e de amor que ficou comigo por bastante tempo. Nota: 5/5

bottom of page