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- Crítica | TÁR
A música e o silêncio como metáforas da glória e ruína de um modelo de humanidade Divulgação: Universal Studios Quando os créditos avisaram o final do filme, tive a impressão de que Todd Field, o diretor do longa, também lera Desonra, livro do autor sulafricano J.M. Coetzee — que escreveu Boyhood, e não, não é o filme do Linklater, mas achei que você deveria saber — em algum momento da vida. Lydia Tár, uma personagem puramente fictícia, ainda que pareça real -e o é, em certo modo, é uma maestro renomada por sua paixão, inovação e ousadia mas esconde segredos que, se revelados, mudariam o curso da própria vida. O longa e o livro encontram-se neste lugar: demonstram a decadência de um modelo de humanidade, e longe de fazê-lo sem críticas. A direção e ambientação do filme provocam estímulos tais como o andamento de uma sinfonia. Todd Field, metalinguisticamente, exerce o papel de maestro, quando escolhe de que modo demonstrar uma cena ou posicionar uma câmera, o que prefere captar, onde deseja que seu olhar se demore ou não, como esconder um tesouro à vista. Cate Blanchett é a instrumentista que compreende a linguagem visual e executa com liberdade, fôlego, intensidade e sabedoria uma personagem que está no limiar da biografia/ficção sem ser caricata, ou apelativa demais. Não à toa o filme tem sido notado no circuito de premiações e, recentemente, carimbou 6 indicações ao Oscar, incluindo melhor direção e atriz. Divulgação: Universal Studios É extremamente interessante essa percepção como representação: a música e o silêncio como metáfora. A música, quando a personagem principal encontra-se com sua própria falibilidade e decadência, e o silêncio como harmonia, movimento, trajetória. É no silêncio que as contradições de Lydia são expostas, e é na música que elas se escondem à vista, demonstrando uma destreza muito singular na forma de contar a história. O filme é uma viagem e tanto, e desde o início assistimos uma casa de ferreiro cujas estruturas são de madeira - o dito popular nunca foi tão certeiro. As ruínas morais, dos princípios e valores da personagem estão entranhadas em sua paixão - a música. E se (neste caso é quando) isto decair por completo, o que restará? Esta crítica é proposital e provocativamente curta porque quero utilizar a imortalidade da internet como aliada. Sempre que alguém ler esta crítica, sinta-se compelido a ir imediatamente assistir ao filme e trilhar, em primeira mão, o caminho proposto pela narrativa ao contemplar a imagem humana, que em seu crepúsculo, se despede, ainda que lenta e tardiamente. Nota: 5/5
- Crítica | Ginny E Georgia (2ª temporada)
Série ainda falha no tom mas melhora em relação à primeira Divulgação: Netflix O primeiro episódio começa praticamente onde a temporada anterior nos deixou: Ginny (Antonia Gentry) e Austin (Diesel La Torraca) estão com Zion (Nathan Mitchell), depois que a garota descobre os segredos de Georgia (Brianne Howey). A moça tenta disfarçar a preocupação e saudade dos filhos, enquanto organiza seu casamento com Paul (Scott Porter). Max (Sara Waisglass) ainda está magoada com Abby (Katie Douglas), por ela não ter contado do romance entre Marcus (Fellix Mallard) e Ginny, e o garoto está triste por não ter notícias da amada e nem da sua moto, que foi o transporte que ela usou para fugir. Dado este panorama geral do início, o desenrolar é bem interessante. Toda a descoberta de Ginny ativou ainda mais gatilhos na garota, crises de ansiedade são constantes, até que finalmente ela vai à terapia, onda há uma visível melhora. O assunto é mais aprofundado, e eu gostei de como o roteiro lida com isso. Eventualmente ela volta a morar com Georgia, e de certa forma “entende” o porquê da mãe ter feito as coisas que fez, mas isso vai ficar para depois no texto. A menina engata um namoro com Marcus, o vizinho um tanto chato, mas que funciona porque a química dos dois é boa. Gosto de como ela não abre espaço para Max, que está completamente insuportável nos primeiros episódios. Mean girls geralmente são engraçadas e carismáticas, mas quando Max veste essa armadura mimada e egoísta, a personagem perde qualquer traço de simpatia. Quando ela e Ginny voltam a ser amigas, é quando a gente volta a se importar com ela. É importante trabalhar a questão da saúde mental em séries teen justamente pela adolescência ser esse mar de incertezas. Se houver um estudo em qualquer série do gênero, o que não vai faltar é personagem com problemas psicológicos, mas nem todas abordam isso. Além de Ginny, a trama mostra que Abby também sofre de algo, que aqui não tem tanta profundidade, mas o roteiro indica que sejam distúrbios alimentares e baixa autoestima. Não sou psiquiatra pra dar o diagnóstico, então só posso falar sobre quando a série disser o que é. Ela é uma personagem que eu gosto, porque sempre há uma sutileza em como ela é tratada pela narrativa. A atriz manda bem, e é notável que há uma construção em andamento para uma história maior pelo modo como ela se comporta. Quando eu digo “sutileza”, cito como exemplo uma cena em que estão o grupo de amigos reunidos, bebendo e conversando e um dos rapazes faz um comentário imbecil sobre o peso dela. A conversa continua ao redor em outro assunto, mas a garota se fecha totalmente. Isso é mérito do roteiro, da atuação de Douglas e da direção do episódio. Pelo menos nessa trama. Divulgação: Netflix Eu gosto da parte focada nos adolescentes, tirando um diálogo ou outro saído diretamente do twitter, acho que eles falam e se comportam de maneiras condizentes com a idade, com toda imaturidade e egoísmo que há na bagagem. Então por isso, às vezes eles são chatos, mas não dá pra dizer que não é verossímil. O mais chato talvez seja Marcus. Ele não se sente bom o suficiente para Ginny e se afoga no álcool, o que já traz outro problema à tona: o alcoolismo. Esse, no entanto, não é tão bem trabalhado. O roteiro, na tentativa de surpreender, acaba indo há lugares comuns e previsíveis, com o rapaz acabando seu relacionamento. Já assisti séries teens o suficiente para saber que um casal não é feliz por muito tempo, mas o que faltou aqui foi um motivo plausível para o término. Não há profundidade suficiente no personagem (ou na atuação de Mallard, diga-se) para que o telespectador compre a ideia de que tudo é fruto de uma complexidade maior. O ponto central da série é a relação de Ginny e Georgia, e eu curto como o roteiro trata isso. A princípio, o que parecia ser uma cópia de 'Gilmore Girls', vai tomando rumos diferentes. Georgia é, de longe, a melhor personagem. Ela não se desculpa por ser quem é, com todos os seus defeitos, é engraçada, carismática, uma mãe leoa e Howey manda muito bem no papel. A química dela com Gentry, que também é ótima na pele de Ginny, funciona bastante. Porém, é com Georgia que o roteiro perde a mão. Não nos conflitos maternos ou amorosos, mas na parte mais sombria. Não que o enredo seja um poço de leveza, mas é gostosa de se acompanhar, e ainda que os episódios sejam longos, não se torna cansativo. A “sutileza” que eu citei acima se perde totalmente quando o foco é na trama de Georgia assassina. Aquele detetive é uma ponta solta, que só tem relevância naquela cena final que não faz muito sentido até então, e foi choque pelo choque para terminar com um gancho. A pior cena, no entanto, ainda é quando Georgia mata por piedade o marido moribundo de Cynthia (Sabrina Grdevich), diante dos olhos de Austin, que estava escondido no quarto. É uma clara investida do texto em torná-la uma anti-heroína mais complexa, e é onde falha miseravelmente porque destoa do resto da série, soa desnecessário e exagerado. É um território perigoso e é onde a história pode se perder totalmente. No mais, a temporada soube equilibrar melhor suas tramas, lidando mais com as consequências das ações passadas, do que com novas ações. São 10 episódios, com duração de aproximadamente 1h cada, onde nem tudo são flores, mas é superior ao seu ano de estreia. É mais dinâmica, e ao mesmo tempo que tem esse lado mais sóbrio nas tramas que envolvem a discussão sobre saúde mental, há diversão também, e em certos momentos, uma emoção genuína, principalmente no que concerne à Georgia e seus filhos. É um novelão, e ainda que pise na bola em certos pontos, consegue te deixar querendo mais e curioso para o que vem a seguir. A Netflix ainda não renovou, mas imagino que irá, e se acontecer, estarei lá assistindo. Nota: 3/5
- Crítica | Perlimps
Um irresistível olhar para aquilo que fingimos não ver Divulgação: Vitrine Filmes Quando crianças – antes das aulas de física, química e biologia; antes dos documentários sobre como o mundo era ou será; antes de entendermos que é o egoísmo humano que move as sociedades – tudo é magia. Tudo é novo, grande, bonito, interessante, misterioso, extraordinário. Tudo é possível. Algo se perde quando passamos a perceber causalidades e explicações para as coisas, e acredito que todos os adultos, alguns mais, outros menos, vivem em busca dessa magia perdida. É por isso que gostamos tanto do sentimento agridoce da nostalgia, por exemplo. Entrar em contato com objetos da nossa infância nos desperta essas memórias um pouco mais vividamente. Ouvi dizer que ter e criar filhos também, ainda que em segunda mão. Estou aqui para dizer que Perlimps, novo longa de animação de Alê Abreu, faz o mesmo. Lembro que quando era criança eu adorava ir para os parques de diversão e apenas andar. Amava me perder naquelas cores e contornos sempre tão maiores e mais imponentes que tudo que eu estava acostumada. Foi essa mesma sensação que tive quando me perdi na floresta em que se passa o filme. O cenário é marcado por paletas vibrantes e formas não exatamente definidas, criando brechas para que nossa imaginação faça sentido do que está vendo. Além disso, durante quase todo tempo esse cenário é ocupado apenas por duas criaturas meio humanas, meio animais e inteiramente crianças, Claé (Lorenzo Tarantelli) e Bruô (Giulia Benite), de modo que câmera nos coloca na perspectiva deles, fazendo com que tudo fique muito maior e majestoso diante da “nossa” baixa estatura. É nessa construção de um universo abstratamente real e sistematicamente fantástico que a direção de arte se torna o ponto forte do filme – o que é ainda mais notável quando se fala de um filme que é recheado de pontos fortes. Piscar dá pena. Qualquer frame poderia ser emoldurado. E Alê Abreu sabe disso, e, assim, se utiliza sabiamente de recursos que só a animação permite para enfatizar ainda mais a beleza do que tem em mãos. Divulgação: Vitrine Filmes O som, de forma geral, funciona para dar um toque de realidade, nos ambientando na floresta que não exatamente vemos. Mas tem também seus momentos de destaque, dando som ao surreal e acrescentando, na trilha, o toque lúdico que arremata todo o contexto. Ou seja, mesmo que fosse um daqueles filmes mais experimentais, a exemplo do célebre Fantasia de Walt Disney (1940), já valeria o ingresso. Mas não, além de encher os olhos e os ouvidos, Perlimps também aquece o peito. O longa conta a história de duas criaturas meio humanas, meio animais, e inteiramente crianças. Claé é do Reino do Sol, rival do Reino da Lua, de Bruô. Ambos se intitulam agentes secretos na missão de salvar a floresta dos temíveis Gigantes, o que, segundo o plano deles, só acontecerá quando chegarem aos seres mágicos que dão nome ao filme. Sabemos da iminência de uma “grande onda”, a ser liberada pelos Gigantes para destruir toda a natureza – isto é, toda aquela beleza que rapidamente aprendemos a adorar (a arte funciona também narrativamente) – e, para impedi-la, as se vêem obrigadas a trabalhar juntas, o que demanda que aceitem suas diferenças não só de origem, como de personalidade. Os personagens não são devidamente apresentados. Nos deparamos com eles já em suas missões e é ao se conhecerem, ao longo de todo primeiro e segundo ato, que nós, do outro lado da telinha, vamos também os entendendo. Durante a missão encontram o João de Barro, em participação especialíssima de Stênio Garcia, que serve como uma espécie de mentor e nos oferece mais “pistas” sobre a história por trás da história que está sendo contada. E assim o público é convidado a montar esse lindo quebra-cabeça, que culmina em seu terceiro ato. Explicá-lo aqui seria um desserviço aos que pretendem assistir o filme, então deixo apenas a sugestão para que observem como, ao mudar o tom da história, muda também todo o caráter lúdico dos demais elementos. Misturando mensagens de preservação ambiental e tolerância, Perlimps vem para provar muita coisa: que o cinema brasileiro existe e é da maior qualidade; que a animação é mais que uma reconstrução do possível e pode ser muito mais explorada que o padrão mainstream; que ainda é factível contar uma boa e completa narrativa em menos de 90 minutos; e que há um moleque morando sempre em nossos corações. O longa, que certamente estará na briga por uma indicação às categorias de animação da temporada de premiação de 2024, estreia dia 9 de fevereiro nos cinemas. Recomendo fortemente que leve sua criança para assistir – mesmo que ela seja você. Nota: 5/5
- Crítica | Batem À Porta
A fé na humanidade é questionada e colocada à prova em novo filme de M. Night Shyamalan Divulgação: Universal Studios Depois de ter seu nome colocado verdadeiramente no mapa em 1999 com O Sexto Sentido, a popularidade de M. Night Shyamalan alcançou níveis altíssimos e por um bom tempo o diretor foi considerado por muitos como um dos maiores cineastas da atualidade, sendo responsável por grandes obras e se mostrando um ótimo contador de histórias. Contudo, depois de muitos acertos, alguns erros gritantes fizeram com que seu momento de glória fosse questionado e sua aceitação fosse decrescendo ao longo dos anos. Em seu novo longa, Batem à Porta, vemos Shyamalan focado na humanidade das pessoas, na relação de cada um com o outro e no questionamento da fé a todo momento. Acompanhamos Wen, uma menina de aproximadamente 8 anos, que vai passar as férias com seus pais, Eric e Andrew, em uma cabana no meio da floresta e longe da cidade. Enquanto estava brincando na floresta à procura de gafanhotos, um desconhecido aparece afirmando querer ser um novo amigo para a menina. Logo descobrimos que o nome do desconhecido é Leonard e ele não está ali sozinho, mas acompanhado de três amigos que precisarão urgentemente, e a qualquer custo, entrar na cabana para falar com os pais da garota. Desesperados e assustados, o casal e sua filha tentam de todas as maneiras possíveis impedir a entrada dos estranhos na cabana, mas falham e acabam sendo amarrados e feitos refém pelo grupo de desconhecidos. Cada integrante presente afirma insistentemente que não queriam estar ali ou fazer mal a ninguém, mas que algo maior está em jogo e eles não podem recuar, pois foi mostrado a cada um deles que o destino da humanidade depende disso. Assim, para evitar o apocalipse a família será obrigada a escolher algo impensável: matar um dos seus ou ser responsável pelo fim da humanidade? Divulgação: Universal Studios Em 100 minutos de filme o que teremos é muita tensão, dúvida, incredulidade, a cabana, esses 7 personagens e o dilema vivido entre os protagonistas. O drama experienciado por Eric e Andrew, casal que se encontra como refém e preso na cabana, se pauta na dificuldade em ter que escolher salvar uma sociedade que nunca foi justa com eles e que é a todo momento diretamente responsável por vários tipos de violência, traumas, preconceito e marginalização, que os afeta diariamente, ou decidir salvar as próprias vidas. Ao mesmo tempo, somos colocados a crer na empatia e na capacidade do ser humano de se colocar, ou não, no lugar do outro. Após alguns desastres como Vidro, Depois da Terra e Fim dos Tempos, Shyamalan tenta voltar ao que entregou em seus primeiros e mais aclamados trabalhos, e para isso utiliza bem o que tem. Brinca com o pequeno e único espaço em que o longa se passa, uma simples cabana, e faz isso através de movimentos de câmera inquietantes e enquadramentos que causam um pouco de estranhamento ao telespectador, mas que deixam a marca do diretor. Fica evidente que a força do filme está na tensão, criada muito bem pela trilha sonora e pelo modo como o diretor filma, bem como no talento do elenco, que está excelente e deixa transparecer ao telespectador a entrega de cada ator ali presente. A todo momento o telespectador é induzido a colocar em xeque a fé contra o ceticismo. Aquilo será verdade ou somente algo da cabeça deles? Mesmo sabendo pouco sobre cada um dos desconhecidos, em diversos momentos a empatia por cada um daqueles "vilões" surge, e novamente somos questionados do real motivo de tudo aquilo estar acontecendo. Desse modo, a cada segundo que passa é gerada no espectador a urgência na ameaça, e hora você acredita em um personagem, hora você acredita em outro. Esse questionamento me deixou pensativa e rendeu horas de reflexão e debate, pois cada amigo tinha uma opinião e percepção diferente do que foi mostrado, alguns acreditavam, outros eram descrentes a todo momento. Pelo simples fato de proporcionar essa discussão o filme aumentou seu valor, o que o fez estar acima da média comparado a muitas produções por aí. Divulgação: Universal Studios Shyamalan é mestre em enganar pessoas e teve a infelicidade de "criar a febre" de mostrar grandiosos plot twist em seus trabalhos e isso pode ter sido responsável por toda a recepção que seus filmes têm, pois o público já vai esperando algo que irá explodir cabeças e se assistem ali qualquer coisa um pouco diferente disso já odeiam a obra do diretor. Nesse longa sinto o diretor tentando se manter na zona de conforto quanto a isso, o que resulta uma reviravolta que pode muito bem desagradar a muitos justamente por ser uma das mais fracas dentre todas de sua filmografia. O cineasta indiano é um dos mais amados e também um dos mais criticados, e isso deve-se, principalmente, à sua inconstância na qualidade dos longas. Na medida em que lança obras amadas e adoradas pelo público e crítica, também lança filmes que são verdadeiras decepções para muitos. Batem à Porta é sem dúvidas mais um filme do diretor que terá opiniões divisivas, e agradará a uma parcela enquanto será duramente questionado por outra. Dito isso, é um bom filme, mas não chega a ser excelente como Sinais, Corpo Fechado ou O Sexto Sentido. Porém, pode ser o retorno que o diretor precisava e o pontapé inicial para voltar com a qualidade que ele mostrava em seus melhores trabalhos. Nota: 4/5
- Crítica | Till - A Busca Por Justiça
Danielle Deadwyler brilha em adaptação contida e respeitosa sobre um flagelo ainda atual Divulgação: Universal Pictures O drama que conta a dolorosa história real do linchamento do jovem Emmett Till é um filme duro, assertivo e sensível. Em 1955 o adolescente negro de 14 anos deixou a casa de sua mãe, Mamie Till, em Chicago para visitar seus primos no Mississipi. O estado ao Sul dos Estados Unidos ainda segregava negros de brancos e Mamie deixa seu filho ir, mas com muito receio de que o espírito efusivo do filho causasse algum problema para ele. Depois de um pequeno desentendimento com uma mulher branca numa loja local, Emmett é sequestrado da casa do seu tio durante a noite e linchado até a morte. A adaptação então segue o processo de superação de Mamie e como ela pode usar sua dor e seu luto como forma de protesto e gesto de mudança social nas leis racistas dos Estados Unidos. A direção da nigeriana Chinonye Chukwu é firme, redonda e sem muitos floreios artísticos, mas também não precisa de muitos apelos quando se tem a força que a história carrega e os enquadramentos do expressivo olhar de Danielle. O longa se vende e se basta apenas com a atriz. Danielle é uma força da natureza ao conduzir o drama de uma mulher que mesmo tendo suporte de familiares, e de sua comunidade, enfrenta uma batalha solitária contra um peso que só uma figura materna negra consegue encarar, ao mesmo tempo em que precisa se mostrar forte para – de certa forma – liderar um movimento criado a partir do seu momento de mágoa. Apenas com o olhar Danielle consegue imprimir o bolo indigesto de sofrimento, angústia, tensão, força e resistência da personagem, mas, ainda assim, ela vai além disso. A produção não é graficamente violenta e, na medida do possível, é até cautelosa e respeitosa em abordar os momentos mais delicados. O jovem ator Jalyn Hall entrega carisma mesmo nos poucos momentos em que aparece, de fato todo o elenco de apoio mostra qualidade e sabem a responsabilidade que seus papeis, por menores que sejam, tem no todo. Divulgação: Universal Pictures O filme se encerra esfregando na cara da audiência a desestimulante verdade, que apenas em março de 2022 a Emenda Emmett Till de Anti-Linchamento foi aprovada nos Estados Unidos, 67 anos do acontecido. A briga de Mamie Till ainda se faz presente e vai contra um sistema que parece não se importar ou se esforçar para se transformar, e que isenta completamente os culpados. E essa chaga é também nossa e também atual. No livro Linchamentos, do sociólogo José de Souza Martins, nos últimos 60 anos cerca de um milhão de pessoas participou de linchamentos no Brasil, evidenciando que o Brasil seja o país que mais pratica esse ato no mundo.* Assistir a um filme onde você já sabe o tanto de agonia contido na história por vezes pode parecer um exercício de autopunição, apesar da importância de se contar aqueles fatos, e por mais que filmes como Till - A Busca Por Justiça mereçam ser chamados de “necessários” é exaustivo pensar quantos mais ainda precisarão ser feitos para que comecemos a ver uma real mudança na consciência coletiva e no senso comum. O que deixa o sentimento de revolta ainda mais proeminente é ver que esse e outros exemplos pintados à sangue na história mundial parecem não gerar qualquer resultado. Mas em nome de Emmett Till e Mamie Till ainda é necessário. Em nome de Moïse Kabagambe, de Tyre Nichols, de George Floyd, de Dandara dos Santos, e de tantos outros. *Recomendação: Documentário A Primeira Pedra disponível no Globoplay. Nota: 4/5
- Crítica | M3GAN
O novo brinquedo assassino do cinema é engraçado, inteligente e nada sofisticado Divulgação: Universal Studios A história de M3GAN gira em torno de Gemma (Allison Williams), uma engenheira que trabalha numa empresa de brinquedos projetando possíveis lançamentos inovadores para o mercado. De repente ela se vê obrigada a mudar toda sua rotina e estilo de vida para cuidar de Cady (Violet McGraw), sua sobrinha que fica órfã após um acidente de carro. Mas a presença de Cady no seu cotidiano faz com que Gemma consiga inspiração para desenvolver M3GAN (Amie Donald), uma boneca robô que busca compreender e se adaptar às necessidades do seu dono e usuário principal. Porém a relação da boneca com a criança vira uma dependência desregulada que abala a estrutura familiar e traz consequências para quem se envolve com elas. A cena de abertura do filme é uma sátira escrachada que dá o tom de comédia ácida no qual o filme se desenvolve. Além disso, o filme é um suspense de ficção científica, e incrivelmente consegue equilibrar tudo isso sem deixar cair nada. M3GAN ironiza o consumismo, os limites de interação da tecnologia e das inteligências artificiais, a sociedade do consumo e o fetichismo da mercadoria na pós-modernidade. O uso da ficção científica em vez do sobrenatural – como tem-se visto nos mais famosos brinquedos de terror no cinema – faz com que o filme não precise contar com a fé do espectador para comprar a ideia e o aproxima mais ainda da proposta. M3GAN não é o primeiro filme sobre a revolta das máquinas contra a humanidade e duvido que seja o último, mas a roupagem usada no roteiro adaptando às funcionalidades contemporâneas faz com que ele perca o distanciamento distópico da realidade presente na maioria das ficções científicas. Divulgação: Universal Studios O filme é muito caricato. Algumas falas, enquadramentos e até mesmo a trilha sonora poderiam ser mais sofisticado e menos óbvios, mas a verdade é que isso afetaria a breguice proposital que distingue o filme de outros do gênero. O diretor Gerard Johnstone sabe brincar com o que tem em mãos ao mesmo tempo que testa os extremos desse brinquedo das maneiras mais variadas e criativas. A jovem atriz Violet McGraw é responsável pelos momentos mais emotivos e compenetrados do filme, enquanto a outra jovem atriz, Amie Donald, equilibra com irreverência e extravagância nos trejeitos, golpes e danças presentes em uma das melhores performances físicas de humanização de robôs até hoje. M3GAN soube como se celebrar, e não ironicamente conseguiu entender seu público, se vender e se estabelecer como marca, antes, durante e depois do filme. O contraditório carisma da boneca que conquistou a audiência somado ao recorte atual em que se estabelece fazem da produção um clássico instantâneo no gênero, e certamente duradouro. Nota: 4/5
- Análise | The Last Of Us 1x03 ("Long, Long Time")
A beleza do amor e das conexões mesmo em meio ao apocalipse Divulgação: HBO É sempre um desafio para uma série desviar sua narrativa principal em um episódio relativamente auto-contido, com personagens que não seus protagonistas, sem que isso pareça um filler. Mais desafiador ainda é fazer isso ainda no terço inicial da sua primeira temporada, numa obra que, por ser uma adaptação de um dos jogos mais famosos de todos os tempos, é constantemente cobrada pelos fãs da obra original para ser a mais fiel possível. Mas The Last of Us abraça esses desafios e já em seu terceiro episódio entrega o que pode ser um clássico instantâneo da TV. Ainda que vejamos Joel (Pedro Pascal) e Ellie (Bella Ramsey) nos minutos iniciais - com direito a mais um vislumbre do latente e perturbador interesse da garota pela violência -, 'Long, Long Time' não é sobre eles, ao menos não diretamente. É a história de um homem solitário, fechado e paranoico que estava confortável em sua solidão até conhecer o amor de sua vida. Ver Nick Offerman como Bill é simplesmente um deleite, devido à sua composição do personagem - é fascinante a sua linguagem corporal de um homem fechado para o mundo muito antes do apocalipse. É como ver uma versão mais séria e mais ancap do seu icônico Ron Swanson de Parks and Recreation, e o episódio não precisa de muito para mergulharmos no seu mundo particular conforme aproveita os dias iniciais dessa pandemia para obter o máximo de suprimentos possíveis e se isolar de uma vez por todas. É ainda mais poderoso ver sua armadura e suas fortalezas se quebrarem após conhecer Frank (Murray Bartlett), e o que deveria ser apenas uma gentileza a um estranho se converter numa união que atravessa décadas e supera todos os obstáculos possíveis. A montagem é eficaz em costurar os saltos temporais que nos permitem acompanhar a evolução do relacionamento deles (com direito a um breve encontro com personagens que já conhecemos), mas de nada essas costuras adiantariam se Offerman e Bartlett não nos fizessem acreditar que, mesmo em meio ao fim do mundo, um amor como esse poderia brotar e florescer. A forma como o episódio consegue traçar paralelos entre o casal e a jornada de Joel e Ellie é simples, mas poderosa, e a decisão de trazer uma espécie de epílogo após a conclusão da jornada dos dois homens reforça essa conexão entre ambos os pares, algo potencializado pela canção de Linda Ronstadt que dá título ao episódio e ecoa perfeitamente a mensagem aqui passada. 'Long, Long Time' se distingue dos episódios anteriores ao fazer um desvio ousado da narrativa que, no entanto, a amplifica, fechando uma espécie de “primeiro ato” da história de Joel e Ellie e solidificando o laço entre eles. Mais que isso, porém, é a prova de que a série não pretende viver à sombra do jogo, sabendo alterar e expandir onde necessário como toda boa adaptação deve saber fazer, e não apenas seguir à risca a obra original para agradar um nicho. Através da beleza e da sensibilidade da relação de Bill e Frank, a série nos deixa claro que, não importa o mais desolador dos cenários, não estar sozinho sempre nos ajuda a seguir em frente.
- Crítica | Teen Wolf: O Filme
Antigos inimigos e aliados retornam para lutar uma batalha que não justifica sua existência Divulgação: Paramount+ Quando uma fagulha de esperança de que Allison (Crystal Reed) possa voltar a viver, Scott (Tyler Posey) precisa retornar à Beacon Hills para executar um ritual e precisará reunir velhos amigos para isso. O que eles não fazem ideia, é que junto com Allison, um perigoso mal ressurgirá. É essa a sinopse e é bem genérica para fazer jus ao filme. A série em si nunca foi um primor de roteiro, direção ou atributos técnicos, mas por muito tempo sabia entreter e as coisas faziam sentido naquele universo, com protagonistas carismáticos por quem podíamos torcer e nos apegar. Era um “guilty pleasure” honesto e não tinha pretensões maiores. A última temporada foi dividida em duas partes. A primeira trouxe tudo o que fez a gente se apaixonar pela série, mas a segunda entregou uma trama chatíssima e, claro, mal desenvolvida que parecia mais uma extensão de algo que já devia ter acabado. Quando soube do filme, fiquei esperançoso que pudessem dar um final mais digno ao universo do lobo adolescente, mas ledo engano. O principal chamariz era o retorno de Allison. A moça morreu no final da 3ª temporada e isso contou a favor da série. Foi emocionante (aquele grito de Lydia me arrepia até hoje) e mostrou que ninguém estaria a salvo, afinal ela era a protagonista feminina. Foi um movimento ousado que nem toda série do gênero tem coragem de fazer. Séries adolescentes, principalmente as que têm temáticas sobrenaturais, sempre arrumam um jeito de trazer personagens de volta dos mortos, basta o ator estar disponível para retornar. “The Vampire Diaries” era mestre nisso, e até a excelente “Buffy the Vampire Slayer” usou o artifício. Por algum tempo parecia que “Teen Wolf” estava imune a isso, e mesmo com seus tantos defeitos, tivemos mais três temporadas pela frente em que os personagens viveram o luto e seguiram em frente, então por que trazê-la de volta agora? A resposta é um “porque sim” um pouco – ênfase no pouco – mais elaborado. Um ritual que quase não apresenta dificuldade “ressuscita” uma Allison, óbvio, desmemoriada. Ela, convenientemente, só lembra que é uma caçadora de lobisomens e está sendo manipulada pelo vilão da vez, para completar a patacoada. É apenas uma jogada do roteiro para adiar o reencontro da moça com Scott, Lydia (Holland Roden) ou Chris (JR Bourne). Resultado, o filme enrola tanto que mal sobra tempo para nada mais além de alguns abraços rápidos, com exceção de Scott que tem mais alguns momentos com ela. A cena em que ela finalmente relembra do passado é bonita, graças aos flashbacks de cenas da série e ao grito de banshee de Lydia que consegue salvá-la dessa vez. Divulgação: Paramount+ Falando em Lydia, ela sempre foi uma das melhores personagens da série, e sua dupla com Jackson (Colton Haynes) é bacana aqui, traz um alívio cômico válido, mas que nem sempre funciona, porque o texto não ajuda muito. Dylan O’Brien não quis retornar para o filme e quem perdeu fomos nós. Stiles, era um dos pontos mais altos da trama, e não tinha quem não torcesse para o casal ‘Stydia’, como chamavam os fãs. A justificativa para a ausência do rapaz me convenceu, em partes, porque Roden é uma das poucas do elenco que consegue transparecer alguma emoção real em cena. O’Brien fez bem em não retornar, pois poderia correr o risco de ser desperdiçado como tantos outros que voltaram e não serviram para muita coisa além do fator nostalgia, como Shelley Henning e sua Malia, uma das favoritas dos fãs, que serviu apenas para soltar uma tirada cômica ou outra. Seria bom rever Stiles, mas sejamos honestos, sua presença não seria capaz de salvar a trama principal pífia. Estou esquecendo de algo importante? Eu diria que não, já que o fato de Derek (Tyler Hoechlin) morrer se sacrificando não causou qualquer emoção, a não ser decepção. Na luta final, um tanto sem graça, eu diria, Derek acaba segurando o Nogitsune para que Parrish (Ryan Kelley) o queime e acaba se queimando junto, na frente do seu filho adolescente, Eli (Vince Mattis). Com uma direção melhor, a cena poderia até emocionar, infelizmente não é o caso aqui. Me pareceu que, além de encerrar a trama de Teen Wolf com os personagens que conhecemos, Jeff Davis quis introduzir Eli para uma possível continuação da história. Não dá para saber ao certo, além da certeza que minha audiência não terá. O filme não consegue justificar sua existência porque até o “fan service” que entrega não funciona. O fator principal deveria ser a conexão, já estabelecida pela série, que o telespectador tem com os personagens e isso é extremamente mal-usado em 2h20 de duração, sendo esse é o maior desafio que o longa oferece a quem o assiste: conseguir chegar até o fim. Nota: 2/5
- Annie Awards 2023: Confira os vencedores
Wagner Moura é o representante brasileiro na premiação que escolhe os melhores longas e séries animadas Divulgação: ASIFA-Hollywood Com suas mais de 30 categorias, o Annie Awards reconhece anualmente o melhor no mundo das animações e os melhores usos de VFX. Em 2023, os vencedores serão premiados na noite do dia 25 de fevereiro com a participação de Wagner Moura, que foi nomeado por sua dublagem em Gato de Botas 2 - O Último Pedido. Pinóquio, a versão de Guillermo del Toro para a Netflix, e Marcel the Shell with Shoes On, ainda inédito no Brasil, lideram as indicações com 9 e 8 menções, respectivamente. Red: Crescer é uma Fera, a maior animação da Disney/Pixar em 2022, no cenário de premiações, vem logo atrás deles com 7 indicações. Melhor Animação - A Fera do Mar - Gato de Botas 2: O Último Pedido - Pinóquio por Guillermo del Toro (Vencedor) - Red: Crescer é uma Fera - Wendell & Wild Melhor Animação Independente - Charlotte - Inu-Oh - Little Nicholas, Happy as Can Be - Marcel the Shelll with Shoes On (Vencedor) - O Dragão de Meu Pai Melhor Produção Especial - O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo (Vencedor) - Planeta Pré-Histórico - Superworm - The House - The Sandman Melhor Curta - Amok - Black Side - Ice Merchants (Vencedor) - Love, Dad - The Flying Sailor Melhor Direção - TV/Mídia - Lissa Treiman (BAYMAX!) - Yûzô Satô (exception) - Amy Bench e Maya Edelman (More Than I Want To Remember) - Daisuke "Dice" Tsutsumi (Oni: Thunder God’s Tale) - Peter Baynton e Charlie Mackesy (The Boy, the Mole, the Fox and the Horse) (Vencedor) Melhor Direção - Filme - Domee Shi (Red: Crescer é uma Fera) - Guillermo Del Toro, Mark Gustafson (Pinóquio por Guillermo del Toro) (Vencedor) - Dean Fleischer Camp, Kirsten Lepore, Stephen Chiodo (Marcel the Shell with Shoes On) - Nora Twomey (O Dragão de Meu Pai) - Henry Selick (Wendell & Wild) Melhor Atuação de Voz (TV/Mídia) - Candi Milo (Looney Tunes Cartoon) - Fred Tatsciore (StoryBots: Answer Time) - Tara Strong (Teen Titans Go! & DC Super Hero Girls Mayhem in the Multiverse) - Karen Malina White (The Proud Family: Louder and Prouder) - Maurice LaMarche (Zootopia+) (Vencedor) Melhor Atuação de Voz (Filme) - David Bradley (Pinóquio por Guillermo del Toro) - Gregory Mann (Pinóquio por Guillermo del Toro) - Jenny Slate (Marcel the Shell with Shoes On) (Vencedora) - Wagner Moura (Gato de Botas 2: O Último Pedido) - Zaris-Angel Hator (A Fera do Mar) Melhor Campanha Comercial - Can’t Negotiate the Melting Point of Ice - The Office, de Minions - Save Ralph (Vencedor) - Ted Lasso: The Missing Christmas Mustache - Today’s Holiday Moments are Tomorrow’s Memories Melhor TV/Mídia Pré-escolar - Elinor Wonders Why - Gabby’s Dollhouse - Rise Up, Sing Out - Spirit Rangers - The Tiny Chef Show (Vencedor) Melhor TV/Mídia para Crianças - Abominable and the Invisible City (Vencedor) - Big Nate - Moominvalley - The Owl House - We Baby Bears Melhor TV/Mídia para Adultos - Bob's Burgers (Vencedor) - Harley Quinn - Rick and Morty - The Simpsons – Treehouse of Horror XXXIII - Tuca & Bertie Melhor TV/Mídia (Minissérie) - BAYMAX! - El Deafo - HouseBroken - Oni: Thunder God’s Tale (Vencedor) - Undone Melhor Roteiro de Série Animada ou Mídia para TV - BAYMAX! - Big Nate - The House - Tuca & Bertie - Love Death + Robots (Vencedor) Melhor Roteiro em Filme - Eternal Spring - Inu-Oh - Red: Crescer é uma Fera - Marcel the Shell with Shoes On (Vencedor) Divulgação: Netflix Melhor Filme Estudantil - Au revoir Jérôme! - Birdsong - Synchronie Passagère - The Most Boring Granny in the Whole World - The Soloists (Vencedor) Melhor Efeitos de Animação em TV/Mídia - Cars on the Road - Love Death + Robots (Vencedor) - Prehistoric Planet - O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo - The House Melhor Efeitos de Animação em Filmes - Avatar: O Caminho da Água (Vencedor) - A Fera do Mar - Lightyear - Pinóquio por Guillermo del Toro - Minions 2: A Origem de Gru Melhor Animação de Personagem - TV/Mídia - Entergalactic - Oni: Thunder God's Tale - StoryBots: Answer Time - O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo (Vencedor) - The House Melhor Animação de Personagem - Animação (Longa) - Red: Crescer é uma Fera (Teresa Falcone) - Red: Crescer é uma Fera (Eric Anderson) - Pinóquio por Guillermo del Toro (Vencedor) - Os Caras Malvados (Jorge Capote) - Os Caras Malvados (Min Hong) Divulgação: Universal Pictures Brasil Melhor Animação de Personagem - Live Action - Avatar: O Caminho da Água (Vencedor) - Beast - Finch - Jurassic Word: Domínio - Peacemaker Melhor Animação de Personagem - Vídeo Game - Cuphead – The Delicious Last Course (Vencedor) - God of War Ragnarök - Horizon Forbidden West - Moss: Book II - Potionomics Melhor Design de Personagem - TV/Mídia - Entergalactic - Amphibia - Oni: Thunder God’s Tale - Love, Death + Robots (Vencedor) - Spirit Rangers Melhor Design de Personagem - Animação (Longa) - Luck - Rise of the Teenage Mutant Ninja Turtles: The Movie - Gato de Botas 2: O Último Pedido - Os Caras Malvados (Vencedor) - Wendell & Wild Melhor Trilha Sonora (TV/Mídia) - O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo - The House - Oni: Thunder God’s Tale - Love, Death + Robots - The Cuphead Show! (Vencedor) Melhor Trilha Sonora (Filme) - Red: Crescer é uma Fera - A Fera do Mar - Pinóquio por Guillermo del Toro (Vencedor) - Mad God - Os Caras Malvados Melhor Direção de Arte (Filme) - Gato de Botas 2: O Último Pedido - A Fera do Mar - Pinóquio por Guillermo del Toro (Vencedor) - Mad God - Os Caras Malvados Melhor Direção de Arte (TV/Mídia) - Primal - Mall Stories – Atilla the Grilla - Oni: Thunder God’s Tale (Vencedor) - O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo - The House Melhor Storyboarding (TV/Mídia) - Cyberpunk: Edgerunners - Kung Fu Panda: The Dragon Knight - Looney Tunes Cartoons - Love, Death + Robots (Vencedor) - The Cuphead Show! Melhor Storyboarding (Filme) - Gato de Botas 2: O Último Pedido (Vencedor) - Minions 2: A Origem de Gru (Nima Azarba) - Minions 2: A Origem de Gru (Dave Feiss) - Mundo Estranho (Jeff Snow) - Mundo Estranho (Javier Barboll) Esse post foi atualizado às 15:30 de 26/02 para incluir os vencedores.
- Análise | The Last Of Us 1x05 ("Endure and Survive")
No apocalipse, quem são os heróis e os vilões da história? Divulgação: HBO É no mínimo fascinante a forma com que The Last of Us consegue abraçar clássicos da temática apocalíptica e, ainda assim, se manter tão autêntica e cativante. Com sequências de tirar o fôlego, o quinto episódio da série consegue desenvolver novos personagens, fortalecer a dinâmica de seus protagonistas e conduzir o espectador para um desfecho de cortar o coração. Ainda seguindo a estratégia de voltar ao passado para criar uma maior contextualização do presente, o quinto episódio, em seu primeiro instante, traz a queda da dominação da FEDRA sobre o QZ de Kansas City. Depois de um violento conflito, o grupo comandado pela líder Kathleen (Melanie Lynskey) toma o controle da cidade e não medirá esforços para encontrar os irmãos Henry (Lamar Johnson) e Sam (Keivonn Woodard), os novos personagens em foco deste capítulo. Após conseguirem chegar no esconderijo planejado, Henry e Sam encontram o médico Edelstein e já percebem que não terão comida e suprimentos por muito tempo. É neste pequeno espaço que já percebemos como a dinâmica dos dois irmãos funciona – Henry tenta ser o mais corajoso possível para proteger Sam, o pequeno entusiasta de gibis e super-heróis. Inclusive, a frase de efeito que entitula o episódio, 'Resistir e Sobreviver', é derivada das histórias em quadrinhos do caçula. Os dias se passam rapidamente, a comida está escassa e Henry e Sam não podem esperar pelo médico para sempre. Nós, como visualizadores da série, sabemos que seria uma espera sem propósito. Não há outra solução a não ser sair do esconderijo e tentar trilhar alguma rota que os leve para fora da cidade. É diante desse desafio que acontece o abrupto encontro de Joel e Ellie com os irmãos, cena final do episódio anterior. Depois de dialogarem suas motivações, as duplas chegam a um acordo: irão utilizar túneis subterrâneos para escaparem da guarda de Kathleen, presente nas imediações da cidade. Com a revelação de que Sam sofria de leucemia e necessitava de medicamentos provenientes da FEDRA, Henry confessa a Joel que era um colaborador, ou seja, estava na margem entre as autoridades militares e os revolucionários da oposição. Em conclusão, a morte do irmão de Kathleen foi o preço pelos remédios, o que acabou originando uma verdadeira busca implacável pelos irmãos. Um dos aspectos mais interessantes do episódio 5 é o imediato clique entre Ellie e Sam – duas crianças, nascidas pós surto, que tiveram suas infâncias roubadas pela violência e pelo perigo constante. Essa troca dos dois, além de traduzir muito sobre o background dos personagens, confirma as belas escolhas narrativas de The Last of Us. Por mais que estejamos falando de uma série de ação, o seu foco principal são as relações de lealdade entre aqueles sobreviventes. Acompanhada do constante desenvolvimento de seus personagens, a série consegue ampliar ainda mais o seu universo com a ajuda das ambientações. Neste quinto episódio, enquanto Joel, Ellie, Sam e Henry estão desbravando os perigos dos túneis, eles acabam encontrando um dos chamados assentamentos. Essa riqueza de detalhes em seus cenários trazem informações cruciais sobre como o mundo lidou com o fungo desde o dia do surto, tornando a imersão do espectador ainda mais intensa, seja ele fã ou não do game da Naughty Dog. Ademais, minutos antes do ápice de adrenalina do episódio, a série conclui o raciocínio iniciado por Joel e Henry sobre vilania e heroísmo com uma declaração visceral de Kathleen. Nessa sequência, percebemos de fato que os heróis e os vilões são escolhidos de acordo com o ponto de vista de quem conta a história. Afinal, Kathleen procura vingança por sua perda, Joel persegue a anestesia total de suas emoções e Henry só quer viver para proteger o seu irmão mais novo. Ainda discorrendo sobre a alucinante ascensão dos infectados na superfície, precisamos falar sobre a riquíssima biologia fictícia que envolvem as criaturas de The Last of Us. Neste episódio, vimos pela primeira vez o baiacu, um dos tipos mais raros, perigosos e resistentes dentre os infectados. As caracterizações fenomenais da série ficam por conta de Barrie Grower, também responsável pelos visuais do Rei da Noite, em Game of Thrones (HBO) e do Vecna, em Stranger Things (Netflix). Em seus últimos três minutos, ‘Resistir e Sobreviver’ nos deixa em pedaços. Infelizmente, Joel e Ellie seguem rumo a Wyoming apenas com a companhia um do outro. Agora, nos restam as dúvidas – quais os efeitos das terríveis baixas que Joel e Ellie sofreram nos últimos episódios e quais os limites morais de fazer o que for preciso para sobreviver. De fato, não há como rotular totais heróis e vilões em um mundo pós Cordyceps.
- Crítica | Mato Seco em Chamas
No western distópico de Adirley Queirós e Joana Pimenta, o futuro é revolução e não demora. Divulgação: Vitrine Filmes Você pode não enxergar, mas eu sei que dos olhos de Joana Darc Furtado, temida e conhecida como Chitara, cintilavam as mesmas chamas ardiam pelo chão. Como o poder de uma profecia, ela assiste ao fogo, enquanto duas outras mulheres provam a eficiência da gasolina ao incendiar outro pequeno canto de terra batida. A presença da colônia de motoboys ao redor não intimida nem quando um deles passa uma informação sobre a liberdade de alguém como uma ameaça à liderança dela. Sem hesitação, ela se opõe em poucas palavras: “nós aqui tá se fudendo pra recado de cadeia, parceiro”, e o recado foi dado e compreendido. A resposta, um tímido “pode crer” precede o ruído de adeus dos motores. Nas primeiras impressões, a trama parece se desenrolar em torno dessa gangue composta apenas por mulheres, liderada pela notável Chitara, num ponto clandestino de extração de gasolina. Mas não deixe que a primeira impressão vença a percepção. Neste mundo tudo é real, até a ficção. É na 2ª maior favela do país, lar real de Chitara, Léa, Andréia e Michelle Bolsonaro, que os idealizadores de Mato Seco em Chamas criam um espécie de faroeste — com direito a tudo o que caracteriza o gênero: muitas armas, cenários áridos, disputas por território e comando e muitos planos abertos — matriarcal que luta, discute e expõe, nas perspectivas reais e ficcionais, as condições precárias da comunidade de Sol Nascente. É esse hibridismo presente na obra que a torna mais instigante de acompanhar. A fissura na linguagem fílmica, que é do savoir faire de Adirley, chacoalha a ordem costumeira: a realidade, que fica “fora das câmeras”, e protege a vida pessoal dos atores, aqui é o lastro onde o filme se estende, seja nome próprio, características e experiências pessoais da vida de cada mulher, expressões de gênero, linguajar, sexualidade, etc. Já a ficção, que “pertence” a tudo o que acontece diante do enquadramento das lentes, no longa compõe os detalhes: o local e a extração de gasolina ou o PPP- Partido do Povo Preso que tem como um de seus lemas assistir às pessoas que foram encarceradas em seu processo de ressocialização. (Este último bem que podia ser verdade.) Quando a Força Nacional, munida de tecnologias especiais e recitando uma frase bastante familiar, entra em Sol Nascente decretando toque de recolher com o intuito de subjugar a comunidade e tomar o local de extração de petróleo, a gangue de Chitara ensaia sua insurgência contra a demonstração de autoritarismo. E como se não bastasse, em meio ao clima de tensão, o mais alto cargo da democracia brasileira é preenchido por uma figura já conhecida - que agora já pertence ao nosso passado. Neste momento, imagens reais da manifestação pró-ex-presidente preenchem a tela. Adirley e Joana, com muita gana e sensibilidade, constroem um filme que se inclina para múltiplas discussões sem parecer forçado, monótono ou repetitivo. As muitas ambiguidades da vida na periférica estão presentes no filme e não há vergonha ou impedimento, é exatamente o oposto. Seja no Distrito Federal, aqui na Bahia, ou em qualquer lugar do país, a mensagem é a mesma: nós, a periferia, somos a chama da revolução. Nota: 5/5
- Crítica | Lockwood & Co. (1ª temporada)
Uma versão adolescente de Caça-Fantasmas repleta do humor e charme britânico Divulgação: Netflix Baseada na saga literária de mesmo nome de Jonathan Stroud, Lockwood & Co. poderia ser mais uma série teen genérica dentre as várias lançadas pela Netflix, mas nas mãos de Joe Cornish (diretor de Attack the Block e The Boy Who Would Be King) ela é revestida de um charme irresistível, indo além da sua premissa básica - adolescentes fazendo papel de caça-fantasmas numa Londres alternativa - para entregar uma joia escondida no streaming. No universo da série, 50 anos atrás um evento conhecido como “O Problema” libertou fantasmas pelo mundo, trazendo caos e paralisando o desenvolvimento tecnológico da sociedade. Misteriosamente, apenas crianças e adolescentes podem ver esses fantasmas, de modo que eles são treinados pelos adultos para combatê-los, ingressando em agências de detetives. Após um caso no qual estava envolvida terminar em tragédia, a jovem psíquica Lucy Carlyle (Ruby Stokes) foge para Londres, onde tenta ingressar nas melhores agências, mas acaba entrando na Lockwood & Co., composta apenas por Anthony Lockwood (Cameron Chapman) e George Karim (Al Hadji-Heshmati). Centrando-se nesse trio principal que não foge muito à regra do que já vimos em outras obras infanto-juvenis de fantasia, Lockwood & Co. vive e morre na química do seu elenco, e embora seja um pouco difícil comprar a hostilidade inicial entre George e Lucy, não demora para que o espectador se veja investido na crescente amizade entre os três (e também nas sugestões de romance entre Lucy e Anthony). Embora uma galeria promissora de coadjuvantes seja introduzida no decorrer dos episódios - como o rígido inspetor Barnes (Ivanno Jeremiah), a carismática contrabandista Flo Bones (Hayley Konadu), a desajustada pesquisadora Pamela Joplin (Louise Bradley) e o misterioso vilão Golden Blade (Luke Treadaway) -, é o trio de protagonistas quem realmente nos conquista, mostrando que Joe Cornish continua a ser um exímio revelador de talentos, tal qual foi com John Boyega em Attack the Block. Divulgação: Netflix Porém, onde a série mais acerta é na sua construção de mundo e da sua mitologia. Longe de ter o orçamento vultoso de outras obras da Netflix como Stranger Things, o que se tem aqui é um uso de criatividade e das próprias limitações orçamentárias para nos imergir em um mundo que, embora fantasioso, não deixa de ser crível. A sensação retrô que permeia a obra - como se a sociedade e sua tecnologia tivesse estagnado nos anos 80 - potencializa seu charme, alimentado pelo design de produção, figurino e a trilha sonora, que traz nomes como Bauhaus e The Cure. Mas, a despeito desses méritos, a temporada é prejudicada pela escolha em adaptar os dois primeiros livros da saga original de uma vez só. É perceptível a mudança de tom entre o terceiro e quarto episódios, indicando onde a história do primeiro livro começa e a do segundo termina; e embora a adaptação faça esforços para conectar tudo em um grande arco que liga o trio de protagonistas à maior agência de detetives de Londres e ao próprio mistério d’O Problema, essa repartição dentro da trama da temporada acaba por fragmentá-la. É possível olhar a trinca inicial de episódios como uma grande introdução, mas é inegável que a série engrena de fato quando mergulha na adaptação do segundo livro, apresentando uma história que se sente mais completa. Apesar dessa escolha que acaba por prejudicar a apreciação geral da temporada, Lockwood & Co. se mostra uma grata surpresa em meio ao mar de mediocridade de produções originais da Netflix. Mas com o histórico de cancelamentos do streaming nos últimos tempos, é difícil manter a esperança de que uma série que foi tão pouco divulgada tenha chances de continuar numa futura temporada. Seria uma pena, pois o que temos aqui é uma série divertida, cativante, por vezes assustadora, com uma mitologia e construção de mundo frescas e que tem todos os requisitos para ser um grande sucesso. Nota: 4/5












