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- Crítica | Blockbuster (1ª temporada)
Sitcom sobre a última locadora Blockbuster é, no máximo, simpática e não consegue surpreender em nada Divulgação: Netflix Sitcoms são séries incrivelmente populares e que possuem muito espaço na televisão e nos streamings principalmente por serem divertidas, leves e descontraídas. Nesse cenário, novos estilos - alguns mais ousados que outros - que apostam em novos formatos e narrativas surgiram nos últimos anos, como é o caso de The Good Place e Unbreakable Kimmy Schmidt. Contudo, o novo lançamento da Netflix continua com aquele clássico estilo usado por vários títulos dos anos 2010, como Modern Family e Brooklyn Nine-Nine, e isso poderia ser ótimo se não fosse o fato do roteiro e dos personagens serem tão medíocres e sem graça a ponto de deixarem a história desinteressante. Acompanhamos Timmy (Randall Park), que trabalha na locadora Blockbuster desde o ensino médio, e logo após o fechamento de todas as lojas da franquia passa a ser o dono da última unidade. Timmy e seus funcionários - entre eles Eliza (Melissa Fumero), sua paixão de longa data - lutam para permanecer relevantes em uma era dominada por serviços de streamings. Para isso, ele insiste veementemente e defende que grandes corporações são deficientes em proporcionar a conexão humana necessária a todos, e somente essas lojas são capazes disso, já que ao ir na locadora escolher um filme os clientes irão interagir e ouvir as recomendações dos funcionários da loja. Diferentemente de outras séries da mesma criadora, aqui Vanessa Ramos (escritora e produtora de Superstore e Brooklyn Nine-Nine) cria uma história arrastada, sem propósito, que quase não tem humor e não te prende logo na primeira temporada. É uma comédia que alguns anos atrás talvez agradasse mais, pois bastava seguir a tradicional fórmula e apresentar algumas poucas piadas sem graça durante os trinta minutos de episódio e ali garantiria uma boa série. Hoje, porém, isso não é o suficiente para conquistar o público. A ironia de ter sido produzida e lançada pela Netflix, que foi a precursora nos serviços de streaming e principal responsável por acabar com as locadoras é, no mínimo, interessante e sagaz, e em alguns momentos dão origem a algumas piadas sobre o assunto que até são legais, mas não sustentam o roteiro como um todo. Dito isso, logo no primeiro episódio é mostrado o tom que a trama seguirá e para muitos pode desagradar logo ali. Ainda assim, assisti a temporada inteira esperando a virada de chave e a evolução dos personagens, mas isso não aconteceu. Divulgação: Netflix Os atores são bons, mas o roteiro não os fazem brilhar. Os dois protagonistas se destacam entre os outros, porém, não são personagens com os quais você ficará apegado. Além disso, é evidente que eles possuem elementos de outros ótimos personagens principais já vistos em produções anteriores da criadora, principalmente do Jonah de Superstore e Jake de Broklyn Nine-Nine. Entretanto, em Blockbuster eles não conseguem ser carismáticos a ponto de elevar o nível e qualidade da história, ou até mesmo de te deixar vidrado e curioso com o que acontecerá, como era o que acontecia em B99 ao acompanhar a jornada e evolução de Jake Peralta ou Amy Santiago. No quesito humor, várias piadas que envolvem metalinguagem e o universo cinematográfico e televisivo são jogadas a todo momento durante os diálogos, e mesmo que eu ame piadas e joguinhos de palavras que envolvam o tema, o modo como é feito aqui é extremamente cansativo. Sinto que a cada cinco minutos - ou menos - uma citação dessas aparece, muitas vezes sem contexto nenhum, somente é jogada ali suplicando pela nostalgia na tentativa de cativar o público, mas isso não se concretiza. Na teoria é muito bom, na prática, porém, é um desperdício de potencial. Por fim, em um mercado saturado e repleto de sitcoms, fica evidente que a nova produção da Netflix busca espaço e destaque apostando em um bom elenco e uma equipe de roteiristas já conhecida de outras séries famosas, mas se perde ao apresentar uma história com uma boa premissa, porém com desenvolvimento bastante simples, superficial, que não se arrisca e até é chata em alguns momentos. Não bastasse isso, tenta apelar para a nostalgia, que claramente não funciona, além de não apresentar nada de especial e memorável. Arrisco dizer que provavelmente passará despercebida por muitos. Nota: 2/5
- Crítica | Noites Brutais
Uma das maiores surpresas do ano para os fãs de terror Divulgação: Star+ Após anos no limbo da falta de criatividade, o cinema de horror finalmente parece ter começado a respirar novos ares após a sua mescla com outros gêneros e a criação de histórias que buscam quebrar os velhos paradigmas. “Noites Brutais”, novo longa de Zach Cregger, veste essa camisa ao trazer uma perspectiva diferente para dentro da velha estrutura do terror. Na trama, acompanhamos Tess (Georgina Campbell), uma artista aspirante que aluga um AirBnB na cidade de Detroit para uma entrevista de emprego, porém, ao chegar no destino, descobre que já há outra pessoa alugando o espaço, Keith (Bill Skarsgård). Após chegarem a um acordo e ambos passarem a noite na casa, acontecimentos estranhos começam a ameaçar a estadia no local. Com uma premissa aparentemente comum e alguns poucos nomes conhecidos no elenco, “Noites Brutais” (Barbarian, no original) encanta justamente pela sua perspicácia, que permanece vestida sob um manto de simplicidade até o segundo ato do filme. O diretor Zach Cregger, que também escreveu o roteiro, faz um trabalho excepcional como escultor de uma trama concisa e que sabe brincar com elementos do suspense, romance e comédia, trazendo uma imprevisibilidade que poucos conseguem trabalhar da maneira correta. Isso porque temos um fluxo de acontecimentos, situações e reviravoltas que tornam o filme um emaranhado de sentimentos no decorrer de suas 1 hora e 43 minutos de duração. Esse é, inclusive, o maior feito de Barbarian. Não à toa, a divulgação do longa foi inteiramente pautada na curiosidade do espectador sobre do que se trata o filme. Conforme as primeiras impressões iam saindo, a estratégia de prometer muito e mostrar pouco (principalmente nos trailers) se mostrou muito bem-vinda, já que toda a graça do filme está justamente em suas reviravoltas. Nesse aspecto, o filme possui todo o crédito de ter uma trama surpreendente e, ao mesmo tempo, coerente, muito embora pareça perder seu ritmo nos momentos finais da trama – o que não quer dizer que o final seja necessariamente ruim. Divulgação: Star+ Com isso, devo dizer que muito do apelo dramático a que se deve o filme recai sobre seus protagonistas. De início, temos uma dinâmica muito bem trabalhada envolvendo Campbell e Skarsgård, em que a desconfiança inicial posta pela situação do aluguel duplo vai dando lugar a um desenvolvimento muito eficaz, com ótimos diálogos e interações que condizem com a estrutura que o filme adota. Em seu segundo ato, a presença do execrável AJ (interpretado por Jake Long, figura carimbada dos terrores B) eleva a narrativa ao trazer pinceladas de questões sociais envolvendo abuso e assédio no trabalho, pontos que vão sendo entrelaçados com a trama de maneira sinérgica, tudo isso à medida em que o filme começa a mostrar sua verdadeira face. Em termos técnicos, o longa também se mostra uma caixinha de boas surpresas. Apesar do seu baixíssimo orçamento, aqui temos uma direção extremamente competente, em que Cregger, embora estreante no gênero, consegue contar uma boa história através de uma lente dinâmica que sabe adequar-se ao sentimento que se está querendo transmitir. Os takes prolongados e os enquadramentos utilizados pelo diretor são de muita valia para a construção da tensão durante boa parte do filme, rendendo bons momentos vibrantes e sustos realmente inesperados (aos medrosos: calma, não são muitos). No meio da era de fuga dos spoilers, finalmente temos um filme que torna esse “esforço” extremamente válido. Com um grato merecimento de todo o buzz que vem gerando desde sua estreia nos Estados Unidos, “Noites Brutais” consagra-se como uma das grandes surpresas do ano no cinema de horror. Com uma trama absurdamente eletrizante, bons nomes no elenco e um diretor competente, o longa extrai o que há de melhor nessa nova era do horror, fugindo do óbvio e entregando uma bela surpresa aos fãs do gênero que ansiavam por uma produção desse tipo. Assim, apesar de todos os apelos formulaicos comuns à maioria dos filmes de terror parecerem mostrar o contrário, você simplesmente não sabe o que está por vir. Nota: 4,5/5
- Crítica | O Cavaleiro do Rei
Novo drama histórico nigeriano da Netflix tem uma história forte, contada de uma forma simples, mas que surpreende Divulgação: Netflix Baseado em eventos reais, “O Cavaleiro do Rei” se passa nos anos 1940, no Império Oyo. Lá eles têm uma tradição, que, com a morte do rei, um cavaleiro se sacrifica para servir seu governante no além. No entanto, alguns acontecimentos impedem que se cumpra o ritual e uma súbita tragédia acontece. O filme tem uma forte mensagem anticolonialista, e ainda sobre honra e dever. Tentando evitar spoilers, vou tentar falar de uma forma geral e que não atrapalhe a experiência de ninguém, principalmente nas surpresas do final. É fascinante conhecer mais dessa cultura e apesar de ter apenas 1h30, o longa consegue contar muito bem a história que pretende, cheio de vida e cores vibrantes, com ótimas atuações de Odunlade Adekola e Shaffy Bello, que emocionam e convencem de uma forma genuína. Divulgação: Netflix A Inglaterra se faz faz presente na história através do oficial Simon (Mark Elderkin), que quer impedir o sacrifício, pois do seu ponto de vista, ele acha inadmissível um suicídio assistido e celebrado assim. É uma cultura desconhecida e que o inglês não quer aceitar, mas onde ele não deveria se meter, somente observar e ficar de fora, já que em nada afetaria a sua nação como ele pensava. Para o povo de Oyo, é algo que tem que acontecer para que a tradição se mantenha, é um grande motivo de honra e dever para eles, e é assim que as cenas finais têm um significado enorme. Um dos pontos mais positivos da Netflix é trazer filmes fora do eixo hollywoodiano e nos apresentar algo que, sem o streaming, seria quase impossível de saber que pelo menos existia. Esse filme é um dos casos. É uma história bonita sobre essa tradição de um povo, cheio de alegria e vida, o que reflete na música e no figurino, mas à medida que o tempo passa e as coisas tomam outro rumo, vai se tornando mais sério e sombrio. É um trabalho delicado e honesto do diretor Biyi Bandele (in memoriam), sem artifícios desnecessários, que sabe a história que tem em mãos e como quer contá-la. E o faz da melhor maneira. Nota: 4/5
- Análise | Andor 1x10 ("One Way Out")
Sobre a esperança e heróis e heroínas anônimos Divulgação: Disney+ “Rebeliões são formadas pela esperança”. Pronunciada em Rogue One, essa frase se tornou um mote para a Aliança Rebelde, mas ganha outros contornos depois desse último episódio de Andor. Com toda a tensão acumulada dos episódios anteriores, era inevitável vermos aqui a fuga da prisão de Narkina-5 que vinha sendo delineada desde o momento em que Cassian foi posto nela. Mas mesmo com essa expectativa, é justo dizer que One Way Out as transcende, entregando algumas das sequências mais memoráveis de Star Wars até agora. Embora o episódio dê espaço aos outros núcleos (e falarei deles abaixo), o foco reside em toda a articulação para o escape da prisão, que não vem sem a tensão e as mortes esperadas. Ainda vemos um pouco de hesitação em Kino Loy (Andy Serkis), mas ela logo é dissipada e o roteiro sabiamente lhe confere a liderança da fuga, embora vejamos como Cassian o motiva e assume a frente onde preciso. A sinergia de Diego Luna e Serkis foi um dos melhores presentes que poderíamos receber nessa segunda metade da temporada, e o ator britânico rouba a cena a cada instante, especialmente no seu emocionante discurso que inflama todos os presos, bem como na sua dolorosa cena final. Mesmo que esta seja a última oportunidade de vermos Serkis na série, sua performance foi tão memorável que é fácil esquecer o quanto ele foi criminosamente desperdiçado como Snoke na recente trilogia de filmes. Há uma sensação tão pungente de esperança e subversão em toda essa sequência que não é difícil ver neste momento um outro grande divisor de águas que nos levará ao visto em Rogue One e na trilogia clássica. E, embora esse episódio cumpra as funções de Reckoning e The Eye de trazer ação e momentos épicos, ele também reforça o valor dos episódios anteriores que conduziram a narrativa a este ponto, demonstrando o cuidado e a paciência de Tony Gilroy e sua equipe de roteiristas em relação à forma como escolheram contar essa história. Enquanto isso, temos vislumbres dos outros núcleos, e, embora não haja a sensação de fechamento como houve com os eventos de Narkina-5, é possível perceber que os personagens estão cada vez mais expostos a situações que os mudarão irreversivelmente. Seja Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) tendo em mãos uma decisão dolorosa que não afeta apenas a ela em nome da causa da Rebelião – a forma como a câmera enquadra como se ela estivesse tão presa quanto Cassian é um toque de gênio –, os vislumbres de Dedra Meelo (Denise Gough) ou dos eventos em Ferrix, culminando na revelação de que o agente do BSI Lonni Jung (Robert Emms) trabalha para Luthen (Stellan Skarsgard) – o qual entrega um dos monólogos mais memoráveis não só da série, mas da saga como um todo –, vemos estes homens e mulheres submetidos a pressões quase insuportáveis, que testam a moralidade deles (e a nossa). Afinal, a Rebelião é formada por esperança, mas também por heróis e heroínas anônimos. Conhecemos um dia Luke Skywalker como um grande prometido, mas muitos(as) morreram e se sacrificaram para que ele pudesse um dia ser capaz de derrotar o Império. Kino Loy, Luthen e tantos outros – não fazemos ideia do que acontecerá a eles e os prognósticos não são favoráveis, mas ao constantemente investir nesses personagens mesmo em meio à ação, Andor os torna vivos e memoráveis para o público, conferindo-lhes uma alma que os distingue, e por extensão distingue a série como o produto audiovisual brilhante que é.
- Crítica | Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
Novo longa da Marvel Studios traz vigor e emoção e coroa Chadwick Boseman como um nome atemporal Divulgação: Marvel Studios A produção Marvel Studios retorna ao fictício país de Wakanda para mostrar como a nação está seguindo em frente após a morte de seu rei T'Challa. Em paralelo a isso introduz Namor e o reino subaquático de Talokan, que são cheios de motivos para odiar o mundo fora d’água. Esse é apenas o quarto longa-metragem de Ryan Coogler como diretor, e ele apresenta personalidade (especialmente em cenas de ação) e força num filme que tinha muito para dar errado, uma vez que o roteiro original estava sendo planejado para uma continuação com Chadwick Boseman. Boa parte da aventura carrega um saudosismo merecido a Chadwick – ator que deu vida ao Pantera Negra (T'Challa) entre 2016 e 2020, quando faleceu aos 43 anos vítima de um câncer de cólon. O longa tem Chadwick Boseman nas entrelinhas de todo o filme, em falas e em trejeitos – mostrando que a atmosfera criada no primeiro filme se deu, boa parte, por conta do talento, da entrega e do carisma de Chadwick. O tema principal do roteiro é dor. Como lidar com a dor, como seguir em frente e como usar essa dor para reconstrução pessoal e reconstrução social (a narrativa faz questão sempre de destacar que o social é a base de tudo que acontece em Wakanda). Então, mais do que o primeiro filme, Wakanda Forever é um filme cheio de significados internos e externos à própria produção. Divulgação: Marvel Studios O elenco estelar por vezes parece estar num experimento onde precisam balancear suas emoções reais com as emoções dos personagens. E embora todo esse elenco esteja apresentando atuações afiadas, nessa continuação quem se destaca são as atrizes Letitia Wright e a impositiva Angela Bassett. Mas apesar de muito comovente o filme soube lidar com sua grande perda e ter um ritmo leve e dinâmico, apesar de sua longa duração. Eu estava esperando uma atmosfera mais densa, mais introspectiva, mas ele lida com esse peso muito bem. Um interessante movimento que vem acontecendo há alguns anos nos filmes de heróis mais “naturalistas” é adaptar a história do vilão para serem identificados como mentes mal compreendidas em vez de seres motivados por formas brutas de maldade e inveja. E é fácil de entender que as produções tentam se aprofundar nas relações humanas em vez de focar no maniqueísmo puro. Com isso, o personagem Namor (Tenoch Huerta) entra para a seleta lista de vilões engajados em causas sociais que se tornam inimigos apenas por seus métodos e não necessariamente por suas motivações. Divulgação: Marvel Studios Todos os aspectos estéticos embasados em afrofuturismo e pan-africanismo que ajudaram a consolidar Wakanda no imaginário popular no primeiro filme voltam ainda mais chamativos e vibrantes com destaques para os figurinos de Ruth E. Carter e para o sólido design de produção de Hannah Beachler (ambas ganhadoras do Oscar pelos seus trabalhos no primeiro filme do herói). A trilha sonora também ajuda na imersão e preenche bem os espaços dos reinos onde a história de desenrola. Voltando ao roteiro, ele traz sim surpresas além daquelas apresentadas nos trailers e promos, mas o molde engessado das produções cinematográficas Marvel de se contar histórias impede que ele cresça ainda mais do que poderia (e deveria) em si e em suas mitologias, e é obrigado a engatar nós com o MCU que tomam o tempo e tiram o impulso do filme como obra isolada. Não tem personalidade forte o suficiente na direção que se sustente com um roteiro que constantemente está te lembrando que é um filme Marvel com as piadocas, frases de efeito e diálogos explicativos. Partindo do fato de que é um filme que teve que ser todo remodelado para a criação de uma nova proposta após a perda de seu principal nome, e estando numa época em que os filmes e séries de heróis parecem estar saindo de uma fábrica de produção seriada, Wakanda Para Sempre traz vigor, traz emoção e coroa Chadwick Boseman como um nome atemporal. Nota: 4/5
- Análise | Franquia Halloween e o conceito de final girl
Laurie Strode é considerada por muitos a primeira final girl dos slashers. Sua história chegou ao fim em Halloween Ends Divulgação Em outubro, chegou ao fim a franquia “Halloween” com o lançamento do longa “Halloween Ends” nos cinemas. Originalmente veiculado pela primeira vez em 1978, a franquia se consolidou como um marco do terror pela figura do vilão Michael Myers e também pela por ter a final girl mais conhecida nos filmes slashers. Laurie Strode (interpretada por Jamie Lee Curtis) cativou o público e foi determinante para que a figura feminina (e o termo) ficasse cada vez mais presente no gênero. A palavra “final girl” surgiu pela primeira vez por Carol J. Clover, em 1992, no livro “Men, Women and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film” (em tradução livre: homens, mulheres e motosserras: a questão de gênero nos filmes de horror moderno). A pesquisadora é referência na área dos estudos feministas no contexto cinematográfico utilizando como base Jacques Lacan e Judith Buttler. Estudando a fundo filmes slashers, de possessão e de tramas com vingança, Clover investigava, principalmente, o motivo dos filmes de terror trazerem sempre uma figura feminina em protagonismo quando majoritariamente do público que consumia essas obras eram homens? Para a investigação de Clover, Laurie Strode foi uma personagem chave, capaz de subverter os papéis de gênero antes definidos para as mulheres nessas obras, sendo a figura na qual os telespectadores se identificam durante a narrativa. Em “Halloween - A Noite do Terror”, o plot do slasher recai nas mãos de uma mulher que tem como objetivo lutar contra as forças malignas. É claro que, em 1978, Laurie representava a mulher pura e recatada que recusava sexo com o namorado e que defendia as crianças de quem cuidava com todo fervor. Ela era a representação puritana e machista do que a sociedade americana esperava das mulheres nessa época e, além de tudo, as narrativas dessas personagens eram escritas em sua maioria por homens. Divulgação O próprio Carpenter, ao responder as críticas sobre as personagens mais sexualmente ativas sempre morrerem (um dos maiores exemplos é a sequência inicial de ‘Halloween’, explica: “Os críticos erraram o ponto, eu acho. Porque se você reparar a garota que é a mais sexualmente contida continua esfaqueando o cara com uma faca longa. Ela é a mais frustrada sexualmente. Ela é quem o matou. Não porque ela é virgem, mas porque toda aquela energia reprimida começa a sair. Ela usa todos aqueles símbolos fálicos no cara...Ela e o assassino têm uma certa ligação: repressão sexual”. Ou seja, a existência da final girl, no caso, seria uma forma de punir a sexualidade feminina? Ou seria a representação do desejo masculino de uma mulher que revida mas ainda sim submissa ao homem? O caso é que de 1978 para cá, a fórmula dos slashers foi reutilizada e reinventada com exaustão até chegarmos em 2018. Quarenta anos depois, a franquia “Halloween” volta às telas com uma sequência direta que ignora os outros trocentos filmes que invocaram a figura de Michael Myers. David Gordon Green foi responsável por reviver o longa e trazer Laurie de volta ao universo de Haddonfield. Ignorando outras linhas temporais estabelecidas em outros longas, o “Halloween” de 2018 é uma sequência direta de 1978. Muito bem recebido, o primeiro filme deu origem a mais dois longas que exploraram as nuances da final girl mais famosa de todos os tempos. Em 2018, Laurie é reapresentada como uma mulher alcoólica, problemática e extremamente armamentista. Ela vive isolada, em uma casa extremamente protegida e aterrorizada pelos traumas causados por Michael. Nessa linha do tempo, ela é portadora de estresse pós-traumático e não consegue ter relações (amorosas e familiares) bem sucedidas. Com o retorno do vilão, Laurie resolve enfrentá-lo de uma vez por todas para proteger a sua família e as consequências disso puderam ser vistas no longa “Halloween Kills”, lançado em 2021. Já “Halloween Ends”, a estrutura da personagem retoma esse lado protetor, especialmente em relação a sua neta, mas, também a coloca como a única pessoa capaz de derrotar Michael Myers de uma vez por todas. Ela, neste terceiro longa, volta ao protagonismo e é apresentada como uma mulher pacata, mais forte e determinada a ajudar os outros e encontrar um propósito na vida. Mesmo sendo uma total decepção (narrativamente falando), “Ends” consegue colocar a franquia de volta à Strode e a sua relação com o mal na forma de Michael Myers. Seu ato final representou bem esse antagonismo criado entre esses dois polos opostos. É o bem contra o mal. Vilão contra final girl. E mesmo que a história não termine da forma mais satisfatória para os fãs da franquia ou os de um bom filme de terror, ele representa bem as nuances de uma final girl tão histórica e representativa para o gênero. Laurie Strode merecia, talvez, um filme melhor, mas, teve o final digno e descansará intocável como uma das personagens mais icônicas e clássicas do mundo dos slashers.
- Crítica | Enola Holmes 2
Sequência mantém o espírito despretensioso do primeiro filme e apresenta um caso mais elaborado Divulgação: Netflix Lançado em 2020, Enola Holmes foi um enorme sucesso para a Netflix, adaptando os livros infanto-juvenis de Nancy Springer e trazendo a estrela Millie Bobby Brown em um papel bem diferente da sua Eleven de Stranger Things: munida de inteligência, carisma, humor e uma propensão a quebrar a quarta parede, a personagem permitiu a Brown explorar novos lados dos seus talentos de atuação. Dito isso, era inevitável que uma sequência fosse produzida, e esta chega agora para mostrar que em time que está ganhando não se mexe. O longa traz praticamente o mesmo time do primeiro – além de Brown, tem-se os retornos de Henry Cavill, Helena Bonham Carter e Louis Partridge no elenco, além do diretor Harry Bradbeer e o roteirista Jack Thorne –, também adotando uma estrutura parecida que aponta para poucos riscos ou mudanças. Isso não quer dizer que não haja certas diferenças: beneficiando-se de não precisar apresentar seus personagens principais, aqui já temos desde os primeiros minutos Enola se engajando na investigação do sumiço de uma jovem que trabalha em uma fábrica de fósforos e que pode estar relacionada a um grande escândalo político, um caso que aos poucos se conecta com um que seu famoso irmão Sherlock (Cavill) está investigando. Embora as conexões dos casos dos dois irmãos de início não soem muito convincentes, elas funcionam mais conforme o filme avança. O roteiro de Thorne consegue tornar o mistério principal ao mesmo tempo intrincado e acessível, ainda que a identidade do antagonista principal possa ser telegrafada a quilômetros de distância a partir de certo ponto. Além disso, o longa consegue dialogar com a realidade ao trazer o núcleo das empregadas na fábrica de fósforos, que é inspirado num evento real ocorrido em Londres em 1888. Os temas da emancipação e sufrágio femininos, já introduzidos no primeiro filme, retornam com maior força aqui, embora sua apresentação seja oscilante, por vezes recaindo em diálogos dolorosamente expositivos e óbvios. Divulgação: Netflix Essas falhas narrativas se estendem à reapresentação de personagens como Eudoria Holmes (Helena Bonham Carter) e até mesmo Lorde Tewkesbury (Louis Partridge). É perceptível que os personagens não têm muito o que fazer aqui, embora no caso de Tewkesbury o personagem se sustente na sua química com Enola. Esta, mais uma vez, é o coração e a alma do filme, graças à capacidade de Brown de dominar cada cena em que aparece e trazer aquela aura espirituosa e despretensiosa que fez do primeiro filme tão bem-sucedido. Além disso, outro acerto do roteiro se dá por trazer sua parceria com Sherlock para o primeiro plano; embora a interpretação de Cavill para o maior detetive de todos os tempos não vá figurar entre as mais memoráveis do cinema, é calorosa e atraente o suficiente para construir uma ótima dinâmica com a protagonista. Ainda que apostando na manutenção dos pontos fortes do primeiro filme, Enola Holmes 2 traz algumas diferenças que o distinguem e permitem ser uma evolução em relação ao seu antecessor, ainda que não sem suas falhas. Não deixa de ser, porém, um filme que cumpre o que promete: embora longe ser de o único atrativo para os méritos do longa, a atuação de Millie Bobby Brown é o que eleva a franquia, e a julgar pela introdução de alguns personagens aqui, não demoraremos a ver um terceiro filme. Nota: 3,5/5
- Crítica | A Hora do Diabo (1ª temporada)
Com uma trama hipnotizante, nova série da amazon fisga a atenção do telespectador do início ao fim Divulgação: Amazon Prime Video 'A Hora do Diabo', nova série da Amazon Prime Video conta a história de Lucy (Jessica Raine), uma mulher que acorda toda noite, exatamente, às 3h33. Ela tem várias visões e tudo passa a fazer menos sentido ainda, mas de alguma forma, ela encontra uma conexão com assassinatos brutais que estão ocorrendo. Com uma narrativa não linear, os seis episódios querem confundir sua cabeça e conseguem, então não dá pra ver com o celular na mão. Isso não é uma coisa difícil, já que você se envolve na trama e quer descobrir as respostas para tantas perguntas. Desconfio que se fosse uma série mega famosa, o YouTube estaria cheio de vídeos de “final explicado”, o que seria desnecessário, já que o último episódio quase desenha o que está se passando. De novo, você só tem que prestar atenção. E esse suspense psicológico te fisga. Lucy, a protagonista, é uma assistente social que faz de tudo para ajudar quem precisa. Ela tenta descobrir o que há de errado com o filho, Isaac (Benjamin Chivers), um menino que não demonstra qualquer sentimento, tendo os inúmeros médicos consultados descartado autismo ou esquizofrenia. No entanto, a esquizofrenia atinge a mãe da moça, de quem ela ajuda a cuidar. Lucy mantém uma relação estritamente sexual com seu ex-marido Mike (Phil Dunster), que ainda almeja voltar à vida dela e do filho. Em outro ponto da cidade, os detetives Ravi (Nikesh Patel) e Nick (Alex Ferns) investigam um assassinato brutal. Aparentemente no futuro, Lucy e Ravi interrogam Gideon (Peter Capaldi), o suposto culpado pelos assassinatos. É um panorama geral do primeiro episódio, sem entregar muita coisa, porque quanto menos se sabe, melhor. Divulgação: Amazon Prime Video A série não funcionaria se tudo girasse em torno somente de mistérios e os personagens não fossem desenvolvidos, o que, felizmente, não é o caso aqui. Todas as tramas se interligam de maneira satisfatória, narrativa e emocionalmente. Se o roteiro não fizesse com que nos importássemos com os personagens, tudo seria em vão. Ela é uma série ambiciosa e complexa, porque trabalha com vários temas, mantém o suspense psicológico como o tom principal, mas sabe dosar isso com um drama familiar de qualidade. Por exemplo, a relação de Lucy com seu filho Isaac, é um ponto crucial e é construída de uma forma tão sensível e tão bonita, que consegue emocionar genuinamente. Os dois atores estão sensacionais, Raine consegue trazer força e vulnerabilidade ao mesmo tempo. Chivers, traz a frieza que o personagem pede e ainda consegue se mostrar uma criança que pede por cuidado, o que só sua mãe enxerga. Outro destaque do elenco é Peter Capaldi, que tem um personagem bem difícil em mãos, mas não se pode falar dele sem entregar muito da trama. Quando uma série quer mostrar tanta coisa, contar tantas histórias e passear por diversos gêneros, ela acaba se perdendo em inúmeros casos. O que me impressiona tanto em “The Devil’s Hour” é isso. Começa como uma aparente trama de terror e suspense, traz esse drama familiar, complementa com o gênero policial, sem falar no humor ácido presente nos diálogos e no romance que surge. No meio disso tudo, desenvolvendo bem seus personagens. Por isso a duração de quase 1h por episódio não fica cansativa. O que também colabora é o fato da direção ser segura e dinâmica e com a ajuda da bela fotografia, que adota tons mais sombrios, consegue trazer alguns sustos que não são meramente apelativos. Naquela máxima do “ela entrega o que se propõe”, o desfecho é fechado, mas exige que você saia da sua zona de conforto e pense sobre ele. Já disse no começo do texto, embora que as coisas sejam muito bem explicadas em uma determinada conversa, requer atenção. Poderiam ter “mostrado” mais do que “falado”, mas em alguns casos é necessário que ambos aconteçam dada a complexidade do enredo. Esse é um dos casos. Não sei se a Amazon pretende renovar ou deixar como uma temporada só ou minissérie. Confesso que ficaria mais satisfeito com a última opção, por gostar tanto do final. Mas, caso haja, estarei assistindo, desde que mantenha a qualidade dessa primeira. Nota: 4,5/5
- Crítica | A Jaula
Filme brasileiro mistura suspense e sátira ao criticar o Brasil dos 'cidadãos de bem' Divulgação: Star+ Lançado no Star+ na última quarta-feira, 2, o filme brasileiro “A Jaula” chegou de forma inédita no streaming após ter sido lançado nos cinemas em fevereiro deste ano. O thriller psicológico tem em sua premissa principal um assalto a um veículo estacionado em uma rua da cidade de São Paulo. Djalma da Rocha (Chay Suede) entra com facilidade no SUV que planeja roubar, mas, ao tentar sair do carro, descobre que está preso em uma armadilha, incomunicável, sem água ou comida. A ‘jaula’ foi preparada e planejada por um famoso médico da capital (Alexandre Nero), que se revoltou após ser assaltado diversas vezes. Quem passa em volta não percebe o embate que se arma entre o sádico vingador e o ladrão prisioneiro dentro do carro, a situação se desenrola para o caminho mais catastrófico possível. Cabe ao telespectador apontar quem é o vilão e quem é a vítima da história e entender as nuances da história que vão além das quatro portas. Desde o seu início, o longa parece seguir dois gêneros distintos que se enlaçam em determinados pontos na narrativa. Com uma tensão sendo construída junto com o desespero e a claustrofobia do personagem de Chay, também sentimos uma veia satírica e extremamente crítica, algumas vezes óbvia, para uma determinada camada social existente em nosso país. “A Jaula” é a versão brasileira de um longa argentino de mesmo nome, mas, é possível perceber perfeitamente o motivo da sua adaptação brasileira, especialmente em 2022. Divulgação: Star+ Durante 1h23, o roteiro dúbio que segue uma tentativa de neutralidade para que o telespectador seja o juiz, se perde em prolongar uma trama que funcionaria muito mais em um curta-metragem. Mesmo assim, a atenção do telespectador não é perdida graças às excelentes atuações dos dois principais. Alexandre Nero é, sem discussões, um dos melhores atores da teledramaturgia brasileira e é incrível ver aqui como ele transita muito bem entre os gêneros e, mesmo sem aparecer tanto, é possível captar um enorme sentimento por meio da sua voz durante os dois primeiros atos. Já Chay se estabelece como uma ótima promessa dentre os jovens atores e demonstra que tem capacidade de ir além do simplório-ruim imposto pelos roteiros de Glória Perez nas novelas globais, provando ser um excelente ator em filmes com cargas mais dramáticas. Tecnicamente, “A Jaula” é muito bom e utiliza bem o espaço limitado quase que em sua totalidade em cena e aproveita o uso dessa claustrofobia nos jogos de câmera, causando uma sensação desesperadora também em quem assiste. Dirigido por João Wainer, a crítica social do longa se enfraquece com algumas decisões do roteiro (especialmente no clímax e no seu ato final), porém, ainda é muito cabível em um Brasil extremamente punitivista e violento. A raiva internalizada no personagem de Nero é um retrato típico dos “cidadãos de bem” que clamam por serem ouvidos por meio do sensacionalismo midiático e da sociedade capitalista. Esse senso de justiceiro de pessoas que se dizem acima de tudo e donas da boa moral e dos bons costumes ao bradar que “bandido bom, é bandido morto”, parecem esquecer do ponto que os igualam àqueles que eles mais repudiam. Afinal, não é sobre inocentar um criminoso, é sobre notar que o sadismo, a tortura e a violência muitas vezes impostas por eles são muito mais condenáveis. Nota: 3,5/5
- Crítica | Nada de Novo no Front (Im Westen Nicht Neues)
Desprovido de qualquer esperança e munido de muita qualidade, o filme prova que dá para fazer remakes que valem a pena Divulgação: Netflix O livro 'Im Westen Nichts Neues' teve sua primeira adaptação para o cinema lançada em 1930, chegando ao Brasil com o título 'Sem Novidade no Front', e retratando um período da primeira guerra, focando em alguns estudantes que eram convencidos por um professor muito nacionalista a se alistarem no exército. Quarenta e nove anos depois, em 1979, ele ganhou uma nova versão, dessa vez chegando por aqui como 'Adeus à Inocência' e com pouquíssimas diferenças do anterior. Em 2022, quase 100 anos depois do primeiro, uma nova versão é entregue; 'Nada de Novo no Front'. Desta vez produzido pela terra natal do livro, a Alemanha, ele foi lançado pela Netflix no último dia 29, trazendo de volta os mesmos estudantes no período da primeira guerra que decidem se alistar ao exército alemão. Com uma visão mais contemporânea, a produção traz a mesma história dolorosa sob um olhar mais denso, tenso e desesperador. Com um foco mais direto em Paul, temos uma trama que se afunila para um fim de desesperança desde o seu início. É inegável que a atualidade beneficie alguns aspectos de uma obra originalmente explorada num período em que o cinema estava saindo do mudo e entrando na era de filmes falados. Ao mesmo tempo há também um peso em se mexer com um clássico, coisa que a segunda versão não conseguiu sustentar, mas que nessa visão de Edward Berger tudo funciona. Com um tom bastante artístico, Berger transmite todo o clima de destruição com uma beleza estonteante. Usando de nuances marcantes, ele inicia o filme de forma poética e singela para logo em seguida entregar o caos que somente uma guerra repassa. Divulgação: Netflix A direção é, sem sombra de dúvidas, um dos muitos pontos fortes. O diretor transita entre tons e cenários com muita naturalidade, trazendo mais sagacidade para essa versão e um tom de urgência constantemente presente. Como dito antes, a contemporaneidade traz artifícios que contribuem para que um filme desse porte consiga suplantar todas as dificuldades enfrentadas em suas versões anteriores, mas não somente isso, pois, visto a quantidade de produções que costumam falhar, o mérito maior vai para a equipe que soube utilizar a modernidade para aperfeiçoar uma história desse nível. O roteiro é outro ponto forte, trazendo uma densidade dramática muito superior aos seus antecessores, ele eleva a trama a um patamar surreal. Se utilizando de um personagem principal, o texto corre de maneira fluida, arrastando para esse epicentro todas as tramas subjacentes. Por se tratar de um roteiro adaptado, fica ainda mais nítido reparar as diferenças positivas mostradas nessa versão, ele se estende sem ficar cansativo, e ainda se recria e se remonta sem perder a coesão. A trilha sonora é uma obra à parte. Filmes de guerra costumam quase sempre ter uma trilha bastante marcante, mas o que Volker Bertelmann trabalhou nessa não foi brincadeira. Sozinha ela já encanta e faz o ouvinte sentir as vibrações e a urgência das melodias, e em conjunto com a história ela cresce de forma absurda, colocando o telespectador num torpor ainda mais agravante enquanto assiste a cenas tão pesadas. Divulgação: Netflix Outro ponto que se faz necessário mencionar é a fotografia de James Friend. Ela faz com que o caos ganhe uma beleza visual imersiva, com quadros tão bem encaixados que o público fica hipnotizado por cada detalhe, e sente que não pode perder nada daquilo. Quando soma ela à direção e à trilha, o resultado é esse conjunto fenomenal. Outros dois aspectos técnicos muito bem acertados são a edição, que com maestria faz essa obra elevar ainda mais o seu grau de qualidade, e os efeitos incríveis e convincentes. O austríaco Felix Kammerer, responsável por dar vida a Paul Bäumer, é quem fica a cargo de carregar a história ao seu redor, com companheiros de cena que vão o deixando no decorrer da caminhada e das mortes iminentes. O personagem vai ganhando um tom cada vez mais dramático com a passagem do tempo, e Kammerer sustenta de maneira louvável toda essa tensão e sofrimentos pelos quais Paul é submetido, e é perceptível no decorrer dos minutos de filme o quanto o ator se molda para entregar todas as nuances das perdas que ele sofre. 'Nada de Novo no Front' é um dos grandes acertos do ano. É um remake que se reinventa de maneira impecável, que deixa claro que ali não haverá nenhum final feliz e transmite com firmeza os horrores de uma guerra. Ele trabalha bem a dor, a angústia e a desesperança, e consegue fazer isso com um visual encantador. É uma produção muito bem feita e que teve cuidado do início ao fim em todos os seus aspectos. É garantia de telespectador vidrado enquanto o assiste já sabendo que ficará um leve vazio no peito ao acabar. Nota: 4,5/5
- Crítica | Rota 66: A Polícia Que Mata
Uma das minisséries mais necessárias do ano. Divulgação: Globoplay Genivaldo Santos. Kathlen Romeu. Ágatha Vitória Félix. Três pessoas cujas vidas foram interrompidas precocemente por conta da violência policial no Brasil. Além de serem moradores de áreas periféricas, os três também eram pretos e morreram entre 2019 e 2022. Genivaldo, Kathlen e Ágatha são apenas três dos milhares já assassinados covardemente pela polícia. São histórias como essas que a série do Globoplay, Rota 66, conta durante seus oito episódios. “Rota 66” é baseada no livro reportagem de Caco Barcellos, jornalista da TV Globo, publicado originalmente em 1992. Em “Rota 66: A História da Polícia que Mata”, Caco investiga e denuncia a atuação irregular da Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar (Rota) como um verdadeiro aparelho estatal de extermínio em São Paulo entre 1970 a 1990. Na Rota, policiais forjaram confrontos para justificar a morte de dezenas de milhares de cidadãos, em sua maioria pretos e pobres, apenas por puro sadismo, punitivismo e satisfação pessoal. O trabalho de Caco é revolucionário e se tornou um dos maiores exemplos de jornalismo investigativo para qualquer aspirante da profissão. Na adaptação do streaming, Maria Camargo e Teodoro Poppovic ficaram responsáveis pela remodelação do conteúdo do livro, que também tem direção artística de Philippe Barcinski. Adaptar “Rota 66” não era uma tarefa fácil, mas, a série do Globoplay aproveita tudo de mais impressionante da obra e não se preocupa em fazer uma adaptação literal. Caco, interpretado por Humberto Carrão, ganha mais nuances aqui e nós conhecemos o homem por trás do repórter e entende como a profissão era importante na vida dele, afetando até suas relações amorosas e familiares. Ficcionalizando alguns dos crimes citados por Caco e dando vida aos números existentes no livro com personagens palpáveis, a adaptação também acerta mostrando o contexto vivido por milhares de brasileiros que moravam em locais considerados de “alta criminalidade”. “Rota” aproveita o embalo e faz uma breve, mas extremamente pontual, crítica aos programas policiais sensacionalistas que perduram na televisão brasileira até hoje e endossam o discurso de que “bandido bom é bandido morto”. Divulgação: Globoplay Tecnicamente “Rota 66” também é incrível e não abusa de muitas cenas gráficas para demonstrar a violência, nós conseguimos enxergá-la por meio dos detalhes e especialmente pela dor no olhar dos familiares e da indignação do jornalista. Vale destacar a atuação fenomenal de Humberto Carrão e de Ailton Graça, mas, todo elenco está em perfeita sintonia. É preciso fôlego para chegar até o final de “Rota 66”, que inclusive vai além do contado no livro e mostra outras situações que tiveram o envolvimento dos policiais da Rota (como o massacre de Carandiru) e da reação da corporação ao lançamento do livro. Porém, esta é uma série extremamente necessária para a sociedade brasileira, pois, mais de 30 anos depois, a polícia continua matando de forma indiscriminada, sem punições e os alvos quase sempre são os mesmos. Espero muito que “Rota 66” venha a ser exibida em TV aberta para que mais brasileiros conheçam mais profundamente a figura excepcional de Caco Barcellos e, principalmente, para que entendam o quanto é necessário que toda a instituição da polícia seja repensada pelos governantes e que essa matança precisa terminar. Não podemos admitir que mais Genivaldos, Ághatas e Kathlens percam a vida precocemente nas mãos de uma polícia covarde, preconceituosa e violenta. Nota: 5/5
- Os melhores filmes do Festival de Toronto 2022
'The Whale', 'Women Talking' e 'Holy Spider' figuram no top 10. Divulgação: A24 Após 10 dias e quase 45 filmes vistos, o Festival de Cinema de Toronto 2022 acabou oficialmente e não poderíamos de deixar de fazer uma listinha com os filmes que mais gostamos de assistir no evento. Sim, sabemos que atrasamos, mas o importante é que veio aí. Então vamos lá, os melhores filmes do TIFF 2022 foram: 1. The Whale - Confira nossa crítica Mais um sucesso de Darren Aronofsky, conta com incríveis performances de Brendan Fraser, Sadie Sink e Hong Chau. O filme consegue ser claustrofóbico e incômodo ao mesmo tempo que mantém o espectador preso no filme durante toda a sua duração. Courtesy of TIFF 2. The Banshees of Inisherin Martin McDonagh entrega mais uma perfeita combinação de comédia e drama, fazendo o espectador refletir sobre as amizades, suas relações, e quanto amamos os nossos dedos. Colin Farrell, Brendan Gleeson, Kerry Condon e Barry Keoghan nos transportam para a ilha fictícia de Inisherin, entregando-nos momentos hilários. Courtesy of TIFF 3. Joyland (Paquistão) O filme consegue capturar perfeitamente a dinâmica da família paquistanesa, fazendo a audiência passar por uma montanha russa de emoções. Conta com visuais e direção de arte incríveis, que consegue nos levar a diferentes e contrastantes locais do Paquistão. Courtesy of TIFF 4. All Quiet on the Western Front (Alemanha) O remake do clássico filme consegue trazer o lado pesado da guerra e passar sua mensagem sem a força na goela do espectador, coisa que ‘The Greatest Beer Run Ever’ fala miseravelmente. Uma possível grande aposta no filme internacional da Netflix que mais um ano consegue emplacar um grande nome durante os festivais. Courtesy of TIFF 5. Bros - Confira nossa crítica A ótima comédia romântica continua usando a tradicional fórmula básica do gênero, mas consegue sair da mesmice dos recentes filmes. Creio que ninguém que vá assistir consegue sair odiando-o. Um dos mais engraçados do ano. Courtesy of TIFF 6. Os Fabelmans - Confira nossa crítica Mais um grande acerto de Steven Spielberg, que consegue capturar sua infância e adolescência, sem esconder os seus defeitos. Perfeitamente capturando o amor de um jovem com o cinema, o diretor consegue entregar um lado que não o tínhamos visto explorar. O filme também conta com uma performance incrível de Gabriel LaBelle e Michelle Williams. Courtesy of TIFF 7. Women Talking Sarah Polley consegue adaptar o livro de mesmo nome, entregando uma incrível e difícil conversa, que mulheres de uma comunidade têm que ter para decidir o seu futuro. Jessie Buckley e Claire Foy são o principal destaque do filme, que tem como seu principal erro uma escolha visual. Courtesy of TIFF 8. Holy Spider (Dinamarca) O longa consegue mostrar a pesada história de uma jornalista que tenta achar um serial killer. A parte mais interessante do filme é que ele consegue chocar e amedrontar, ao mesmo tempo que nunca mostra coisas que infelizmente fazem parte e acontecem na sociedade atual.. Courtesy of TIFF 9. EO (Polônia) Mesmo sendo curto, ele consegue nos levar a lugares extremamente diferentes ao nos mostrar a jornada de um burro. Com um visual e ponto de vista único, o filme consegue capturar a essência do animal que desta vez carrega a história nas costas. Courtesy of TIFF 10. Triangle of Sadness Não surpreende ninguém que o ganhador da Palma de Ouro esteja entre os melhores filmes do festival. Ruben Östlund consegue trabalhar os temas que propõem, ao mesmo tempo que assistimos algumas das situações mais inusitadas, que infelizmente se tornam realistas na visão do diretor. Dolly De Leon é o principal destaque do filme, que só erra ao introduzir sua personagem somente no terceiro ato. Courtesy of TIFF 11. Weird: The Al Yankovic Story - Confira nossa crítica Uma das maiores surpresas do festival, o filme consegue acertar perfeitamente o tom que propõe, entregando uma ótima comédia. Daniel Radcliffe pode não estar perfeito, mas consegue entregar um personagem que nos lembra de Al, ao mesmo tempo que definitivamente não é a grande figura que conhecemos. Courtesy of TIFF 12. R.M.N (Romênia) Mostrando a xenofobia de habitantes de uma pequena cidade contra novos imigrantes que vão trabalhar em uma fábrica local, o filme romano consegue demonstrar a triste realidade de muitos lugares no mundo. Apesar de ter um começo lento, ele consegue se encontrar e fluir até o fim, mesmo quando sai da história principal. Courtesy of TIFF 13. Glass Onion: Um Mistério Knives Out - Confira nossa crítica Uma bela sequência ao seu maior sucesso original ‘Knives Out’. Com uma nova leva de personagens interessantes que se encontram em uma situação inusitada, o diretor reverte a fórmula do “Who-done-it?” nos mantendo cativados pelo longo filme. Daniel Craig está bem na sua volta como o detetive Benoit Blanc, mas o destaque é Janelle Monáe. Courtesy of TIFF 14. Carvão (Brasil) - Confira nossa crítica Com uma incrível crítica social à atual sociedade brasileira, a roteirista Carolina Markowicz consegue entregar um fantástico primeiro longa como diretora. Deixando a audiência refletir sobre suas reações à situação apresentada, o longa consegue colocar o público no centro da família apresentada. Courtesy of TIFF 15. Nanny O suspense/terror entrega uma das minhas performances preferidas do festival, vinda de Anna Diop. O filme consegue passar do terror psicológico, e entrega temas incrivelmente relevantes à sociedade atual, ao mesmo tempo que deixa a audiência intrigada durante toda a sua duração. Courtesy of TIFF 16. Pearl O filme não consegue ser tão bom quanto o seu antecessor, ‘X’, mas ainda é um ótimo uso de seu tempo ao ver a história de uma mulher movida pelo seu sonho. Ele consegue misturar o terror com o cinema clássico dos anos 30/40, dando espaço para Mia Goth brilhar, em uma das melhores performances do ano até agora. Courtesy of TIFF 17. Leonor Will Never Die Apesar de ser um filme que não vai agradar a todos, Martika Ramirez Escobar consegue capturar a essência e amor ao cinema nacional, mostrando uma linda história sobre uma cineasta aposentada que ao entrar em um como acaba sonhando com o filme que sempre quis produzir. Ele até funciona muito bem como filme de ação, sempre mantendo seu estilo único que ao mesmo tempo que satiriza, vangloria o cinema filipino. Courtesy of TIFF 18. The Inspection Jeremy Pope brilha no longa que explora um personagem que decide tentar entrar no exército. O filme que conta com visuais deslumbrantes consegue usar todo o talento de Pope que está excepcional, principalmente quando contracenando com Gabrielle Union. Courtesy of TIFF 19. Return to Seoul (França/Coreia do Sul) A atriz estreante Park Ji-Min entrega uma das melhores atuações do ano, neste drama que explora a relação de pessoas que migraram jovem com suas terras natais. O filme poderia ser um pouco menor, mas ainda brilha ao explorar relações familiares, adoção e imigração. Courtesy of TIFF 20. Causeway Jennifer Lawrence consegue entregar uma boa atuação no longa que explora o trauma de uma soldada que volta à sua cidade natal. O filme brilha ao explorar outros lados de sua personagem, principalmente sua relação com o personagem de Brian Tyree Henry, que está tão bem quanto Lawrence. Courtesy of TIFF 21. Wendell & Wild 22. Miúcha: A Voz da Bossa-Nova (Brasil) 23. Valeria is Getting Married 24. The Eternal Daughter 25. The Good Nurse 26. Other People's Children (França) 27. Emily 28. Aristotle and Dante Discover the Secrets of the Universe 29. Empire of Light 30. The Lost King Courtesy of TIFF 31. La Jauria (Colômbia) 32. Raymond & Ray 33. Moving On 34. Devotion 35. Allelujah 36. The Son - Confira nossa crítica 37. My Policeman 38. A Jazzman's Blues 39. The Greatest Beer Run Ever 40. Mato Seco em Chamas (Brasil) 41. Butchers's Crossing 42. Prisioner’s Daughter Courtesy of TIFF












