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Resultados da busca por "crítica mostra 2026"

1329 resultados encontrados para "crítica mostra 2026"

  • Crítica | Conclave

    Berger consegue cativar mais uma vez com o seu complexo drama político Foto: Divulgação Em um ano em que o mundo vai parar para assistir à contagem dos votos das eleições americanas, Edward Berger (Nada de Novo no Front) traz seu novo longa-metragem, que explora outro processo de eleição, com o qual estamos familiarizados, mas do qual nunca fizemos parte. Conclave é o nome dado ao processo de eleição de um novo papa, no qual cardeais de todo o mundo são chamados a um retiro, de onde só podem sair após a maioria concordar com o novo Pontífice. O filme de Berger adapta o livro homônimo, apresentando um conclave fictício que aconteceria nos dias de hoje. Somos confinados junto aos cardeais e freiras, e durante as duas horas de duração, acompanhamos o processo político dessa eleição, onde tudo é válido para garantir que seus valores permaneçam no poder. O filme é estrelado por Ralph Fiennes e conta também com grandes nomes da indústria audiovisual, como Stanley Tucci, Isabella Rossellini e John Lithgow. Embora todos no elenco tenham seus momentos de destaque - com cenas que parecem até conter uma mensagem na tela que lembra ao espectador que este é o momento em que os atores querem ser lembrados para suas "Oscar Tapes" -, a verdadeira estrela é Fiennes. O ator britânico consegue carregar o filme nas costas, pois quase todo o filme é contado de sua perspectiva, além de trazer um lado investigativo que poderia não funcionar, mas que Fiennes incorpora de forma eficaz ao drama da eleição. Ainda me lembro da sensação ao assistir Nada de Novo no Front e ser impactado pelos sons e trilha que elevam a história. Estava preocupado que aqui Berger não tivesse uma premissa que lhe permitisse explorar esse grande aspecto de seus filmes. Para minha surpresa, mais uma vez ele trabalha a trilha de Volker Bertelmann perfeitamente, aumentando a tensão de todas as cenas, além de usar o som de maneira sutil, mas ainda assim impactante. Foto: Divulgação Outro ponto alto do filme é sua fotografia. Somos levados a lugares desconhecidos do Vaticano, com elementos de arquitetura clássica e moderna, afetando a forma como são mostradas. No entanto, as imagens que realmente ficam gravadas na mente do espectador mostram o contraste entre esses dois elementos. As sombras e elementos clássicos da religião católica criam imagens dinâmicas, e, mesmo estando confinados nos mesmos locais durante o longa, sempre há alguma surpresa ou nova perspectiva nos ambientes mostrados. A premissa do filme abre as portas de uma das reuniões mais secretas do mundo para o público do cinema, e em nenhum momento isso é tratado de forma glamourosa, ao ponto de transformar o longa em uma glorificação da igreja. O roteiro de Peter Straughan encontra um equilíbrio perfeito, onde, ao mesmo tempo em que nos sentimos incluídos na discussão, ele consegue mostrar como esse grupo de homens vive em uma realidade diferente do restante dos membros da igreja, criando grandes momentos cômicos. Infelizmente, há momentos no filme que parecem apressados, enquanto outros são prolongados sem necessidade. Sem sombra de dúvida, Conclave usa o título de "Oscar Bait" com orgulho, trazendo o melhor que o gênero tem a oferecer. O filme consegue ser lançado no momento perfeito para que as discussões se intensifiquem ainda mais, devido às eleições americanas e aos temas polêmicos que são abordados. Ainda vamos ouvir muito de grupos religiosos condenando o filme, mas isso é o que um grande filme faz. Trazendo elementos da realidade, o longa invoca a curiosidade do espectador sobre o Conclave e entretém com sua narrativa envolvente, mostrando como fazer um filme de forma exemplar. Nota: 4/5

  • Crítica | Greice

    Dramédia conquista pelo texto esperto, direção leve e elenco afiado Foto: Divulgação Greice (Amandyra) é uma jovem cearense que estuda na Universidade de Belas Artes de Lisboa. Ela se vira como pode para se sustentar na Europa, e em meio às suas malícias ela acaba se envolvendo com o português Afonso (Mauro Soares). Depois de uma festa de boas-vindas para os novos estudantes, o casal é acusado de um estranho acidente que ocorreu no evento. Greice precisa retornar a Fortaleza, sua cidade natal, para renovar a autorização de residência. Escondida em um hotel, enquanto evita que a mãe descubra os problemas em que se envolveu, Greice tenta encontrar um lugar de conforto no mundo. Em entrevista recente com o cineasta Guto Parente ele me falou sobre o nascimento de um “novo” humor cearense no cinema contemporâneo. E colocando em minhas palavras, um humor com uma estrutura menos física e com uma motivação mais elaborada. Mais sutil, menos caricato, mas não menos funcional. Uma comédia mais instintiva e menos maneirista. E embora esse humor – que por vezes chega a tocar o absurdo, mas que nunca tira os pés do chão – apareça como alívio cômico em produções com cargas dramáticas mais densas, em Greice ele é o alicerce do roteiro. Greice apresenta um recorte bastante específico de realidade, mas que no plano geral é alguém próximo do cotidiano de todo brasileiro. Para além de trambiqueira, ou do “jeitinho brasileiro”, Greice é o retrato geracional de pessoas que lidam com seus anseios da forma mais rápida, possível e viável, pessoas inconsequentes, mas que se colocam como prioridade após perceber que ninguém fará isso por elas. Foto: Divulgação O roteiro sagaz de Leonardo Mouramateus, que também dirige o longa, abre margens para que o desenvolvimento da personagem-título do filme seja ao mesmo tempo honesto e surpreendente desde o primeiro instante que Amandyra aparece em cena. No entanto essas margens abertas também permitem fechamentos e soluções precipitados que não convencem tanto quanto poderiam. Todo o percurso que a narrativa principal faz até a conclusão passa por diferentes questões que usa de maneira inteligente a narração e flashbacks para montar o quebra-cabeça principal, da trama e da personalidade de Greice. Leonardo apresenta uma direção fluida e cheia de artifícios que funcionam organicamente numa montagem precisa e bem amarrada. Amandyra constrói uma personagem complexa, autêntica e que encorpa bem todas as matizes desenhadas no texto. O elenco coadjuvante consegue marcar as situações distintas que circulam Greice com seus traços bem definidos, destaque para o ator e músico Dipas que consegue dividir a atenção do espectador com a protagonista exibindo graciosidade sempre que está em cena. Nota: 4/5

  • Crítica | Twisters

    Dito isto, a versão de 2024 expõe uma estrutura narrativa quase que idêntica ao original.

  • Crítica | Música

    Sinestesia, herança brasileira e os dilemas do amor se unem nessa divertida comédia romântica. Foto: Divulgação Desde pequeno me vi cercado pela música. Ter um ouvido absoluto e um pai músico que me apresentou às suas bandas favoritas desde cedo fez com que a música e a musicalidade sempre tivessem um lugar cativo no meu dia a dia, de maneiras muitas vezes assombrosas — como ao memorizar álbuns inteiros ou cultivar obsessões como marcar o tempo das músicas que estou “ouvindo” em minha cabeça e até fazer beat box de bateria, instrumento que eu também toco. Talvez por isso, essas manias e idiossincrasias tenham me feito ser empático à condição que aflige Rudy (Rudy Mancuso). Embora não se assuma frontalmente como um musical, Música faz jus ao seu título (pelo menos em sua primeira metade) ao explorar como a sinestesia de seu protagonista está diretamente ligada à sua forma de ver e viver o mundo, e como a incapacidade das outras pessoas de entender sua condição e seu interesse em viver da música o aflige. Mas não se preocupe, este não é um drama sério: Mancuso, que traz para a tela uma vaga adaptação de sua própria vida, constrói uma obra leve e divertida, explorando tanto sua condição sinestésica quanto sua herança brasileira, tudo isso enquanto nos conduz pelos caminhos da comédia romântica. Foto: Divulgação Esse lado romântico da obra vem através de um triângulo amoroso entre Rudy, sua ex Haley (Francesca Reale) e seu novo interesse amoroso Isabella (Camila Mendes), que também partilha das raízes brasileiras como ele. Infelizmente é aqui que Música vacila; embora a química de Mancuso e Mendes seja cativante de assistir — não à toa, os dois começaram a namorar durante a produção do filme —, o triângulo pouco agrega ao conflito dramático da obra. Na verdade, ele se torna apenas irritante depois de um tempo, e pior: rouba o espaço das demais vertentes que o longa quer trabalhar. Felizmente, há os momentos que nos apresentam visualmente a riqueza da sinestesia de Rudy, e que me fizeram desejar que esse flerte com o musical fosse muito além. Além do mais, diversas cenas possibilitaram com que, como brasileiro, me sentisse contemplado por ver um longa estadunidense que consegue quebrar o estereótipo de latinos como uma entidade homogênea, tanto em instantes simples — como o uso de Canta Canta, Minha Gente, de Martinho da Vila — como na fluidez e transições incríveis entre o inglês e português, especialmente nas cenas de Rudy e sua mãe (vivida pela própria mãe de Mancuso, em toda a sua glória de carioca suburbana). É uma pena, portanto, que o lado da comédia romântica acabe empalidecendo frente às outras abordagens trazidas em Música, e digo isso como um devoto fã do gênero. Acaba gerando uma desigualdade na obra, mas felizmente é possível ver como ela se sustenta por outros méritos, ilustrando um potencial caminho para Rudy Mancuso na direção — e se for para ver mais da sua química com Camila Mendes e seu amor pela música e pelo Brasil sendo mais explorados, mal posso esperar. Nota: 3,5/5

  • Crítica | A Matriarca

    O filme comete o maior pecado que um terror pode cometer: é chato pra caramba! Divulgação: Star+ Atormentada por uma estranha doença após sobreviver a uma overdose, Laura (Jemima Rooper) retorna à sua cidade natal para enfrentar seus demônios interiores, mas acaba descobrindo a presença de uma entidade real. Com uma infância problemática, herdou uma vida de caos, drogas, álcool, distúrbios alimentares e todos os clichês possíveis para mostrar que a moça não está nada bem. Esse ainda não é o maior problema de “A Matriarca”. O título do filme, pensa-se de início, é por causa da relação dificultosa da protagonista com sua mãe, Celia (Kate Dickie), a quem ela culpa por tantos traumas. O roteiro quer apostar nesse terror psicológico do relacionamento conturbado de mãe e filha, alinhado com a entidade paranormal que assombra a cidade, e falha em ambos os casos. A direção e o roteiro são de Ben Steiner, que traz um certo impacto visual em algumas cenas, mas não consegue trazer ritmo ou qualquer outra coisa que seja interessante, que faça o filme de 1h25 não parecer ter 3h. Divulgação: Star+ O pouco carisma da personagem principal deixa quase impossível torcer por ela, ou ter qualquer sentimento, na verdade. Rooper faz caras e bocas, mas não é capaz de dar substância à moça, e o texto que lhe é dado, também não a faz nenhum favor. Já Dickie, é mais habilidosa e consegue extrair algo palpável. A atmosfera de mistério que sua personagem carrega, em conjunto com o arco de “mãe malvada”, parece ter uma complexidade maior, e ela ainda protagoniza a cena mais impactante do longa. Flertando com propostas interessantes, mas não sabendo desenvolver bem nenhuma delas, o filme se torna maçante, não assusta e não empolga. Não é eficaz em unir as tramas e tudo soa meio jogado. Visualmente tem alguns méritos, mas não é o suficiente porque tudo parece gratuito. É como se o diretor tivesse uma ideia boa, mas não conseguisse construir o caminho para chegar nesse lugar. O que vemos é um caminho tortuoso e que ao chegar no final dele, notamos que o percurso simplesmente não valeu a pena. Nota: 1,5/5

  • Crítica | Sorria

    O terror estrelado por Sosie Bacon cumpre seu papel. Divulgação: Paramount Brasil No mundo todo, o sorriso é associado à alegria e bons sentimentos. Em “Sorria”, novo filme do diretor Parker Finn, essa lógica é subvertida: o que deveria ser um sinônimo de cordialidade é, aqui, transformado em um artifício para causar medo. Assim, contando com uma premissa interessante, “Sorria” chega aos cinemas com a promessa de honrar o gênero de horror e assustar de verdade quem assiste. Mas será que consegue cumpri-la? A trama segue Rose Cotter (Sosie Bacon), psiquiatra que trata transtornos psíquicos de pacientes da ala emergencial, majoritariamente voltados ao trauma recente. Após presenciar uma paciente recém chegada tirar a própria vida, a médica começa a ser perseguida por uma entidade que se manifesta através de sorrisos aterrorizantes no rosto de pessoas próximas. O enredo é simples. Já vimos premissas parecidas em filmes como Verdade ou Desafio, A Entidade e, principalmente, Corrente do Mal. Marcando sua estreia nas grandes telas, o diretor Parker Finn não esconde as fontes que influenciaram o filme, que também teve roteiro assinado por ele. Por isso, há um condicionamento na experiência de quem assiste, já que algumas das linhas narrativas trazidas em ‘Sorria’ remetem bastante a seus predecessores, fazendo transparecer uma certa falta de personalidade por parte do longa. Divulgação: Paramount Brasil Porém, ainda é preciso dar o devido crédito ao filme em alguns aspectos. Isso porque, mesmo com toda essa bagagem em torno de si, Parker Finn consegue trazer sua marca através da criação de uma atmosfera sinistra eficiente, muito bem aproveitada por sua protagonista (Sosie Bacon). A atriz (que, assim como Finn, é uma estreante) encarna com propriedade seu papel e entrega uma interpretação formidável. Assim, a combinação dos maneirismos do diretor e a interpretação de Bacon, que incorpora uma personagem à beira do colapso, são eficazes em concretizar a proposta do filme, que é justamente a linha tênue entre o que é realidade e o que não é. Nessa lógica, o longa conta com sequências realmente tensas, deixando o espectador vidrado e ansioso para ver como vai terminar. Divulgação: Paramount Brasil Claro, não tem como dizer que o 'Sorria' é uma revolução do cinema de horror, por que não é. Isso se deve ao fato de que, muito embora o terror venha se reinventando nos últimos anos através de algumas produções formidáveis, ainda é difícil evitar que esses filmes – principalmente os voltados ao grande público – não recaiam nos grandes clichês do gênero. No geral, mesmo não tendo uma história inovadora, o filme permanece na média e entrega resultados satisfatórios, trazendo um elenco competente e um bom aparato técnico. Com isso, sem muitas novidades, mas com o papel cumprido em ser um terror que, de fato, assusta, ‘Sorria’ faz valer o seu ingresso. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Continente

    O excelente Propriedade (2022) de Daniel Bandeira também escancara essa problemática, de uma forma, talvez

  • Crítica | Não Solte!

    Quando os “monstros” resolvem ir além do suspense, o texto parece não querer escolher ou assumir uma

  • Crítica | A Substância

    A mulher que virou suco Foto: Divulgação Se em Barbie (2023), a diretora Greta Gerwig cria um universo comicamente superficial, em A Substância (2024) temos um universo superficialmente grotesco. até que ambos os mundos colidem e o problema vem à tona — o que ocorre justamente quando, em Barbie (2023 realidade, com hiperestímulos que acabam derrapando nos mesmos problemas de Triângulo da Tristeza (2022

  • Crítica | Inexplicável

    Filme abusa do artificial para não perder o tom emocional da história real Foto: Divulgação Baseado em fatos reais, Inexplicável conta a história de um menino de 8 anos apaixonado por futebol que é diagnosticado com uma doença gravíssima, e de sua família que vai precisar de força e fé para encarar as complicações da doença. Criou-se um preconceito, justificável, com filmes neocristãos que são feitos para grupos de igrejas, com mensagens rápidas e rasas, milagres surpreendentes e trabalhados em cima de muitas dicotomias, onde o certo é o certo (quem tem fé no Cristo branco de olhos azuis) e o errado é todo o resto que se não se converter vai amargar pela vida eterna no calor do inferno. Quando se é baseado em história real então aí é que não há espaço para qualquer refutação em contestar a qualidade daquela produção, porque para o seu público fiel você pode estar blasfemando contra uma grandíssima obra de evangelização. Então acabou que esses filmes ficaram retidos para o seu público que sabe exatamente o que quer assistir e encontra neles o bingo completo, e o público de fora do nicho passou a ignorar a completa existência do subgênero. Foto: Divulgação Pois bem, Inexplicável tem plena consciência que é um desses longas descritos acima, mas faz tudo o que pode para evitar preencher alguns dos pré-requisitos, por várias vezes consegue, mas em outras não há muito o que ser feito. Primeiro de tudo, este é um filme com um rigor técnico de filmagem bem competente em certos elementos: a montagem é esperta, boa iluminação, enquadramentos inteligentes e som bem decupado. Mas todo o restante abusa do exagero e do artificial para induzir, intensificar e por vezes até mesmo forçar emoções que fluíram naturalmente se tivessem espaço para acontecer sem tanta pressão. O maior exemplo disso é a trilha sonora que não deixa o espectador em paz por um minuto sequer, é uma composição dramática literalmente sobrepondo a outra a fim de não deixar o quem está assistindo pensar, só sentir – bem típico de determinadas igrejas e movimentos cristãos. E tudo no texto parece demandar essa intensidade, mas acaba se distanciando da proposta de uma história real e criando cenários engessados, com falas quadradas e pré-moldadas que mesmo as boas atuações não conseguem fugir de soarem repetidas e sem personalidade. Letícia Spiller e Eriberto Leão cumprem com louvor seus papéis de um casal que se balança entre a esperança e falta de fé para tomar as decisões necessárias numa situação delicada. E o roteiro até tenta levantar uns debates éticos e filosóficos sobre os temas, que poderiam ser intensificados com bons diálogos e cenas mais sóbrias, mas isso se perder em meio a vontade desesperadora de fazer o espectador chorar através de frases clichês, muitas lágrimas e muito desespero. Fica aqui o destaque para o menino Miguel Venerabile que apresenta um bom desempenho e um trabalho de corpo melhor que muito ator com uma carreira mais velha que ele. Enfim, Inexplicável é um filme selado e muito bem endereçado, se por acaso chegar em outro destino certamente parecerá mais um genérico, o que não anula os benefícios da narrativa, mas também não se impõe com qualquer traço de originalidade. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Malu

    Os dramas e tensões intergeracionais de três mulheres ferozmente vividas por suas três brilhantes intérpretes Foto: Divulgação Ao final de Malu, os créditos são acompanhados de Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, icônica canção de Sérgio Sampaio, onde o artista capixaba canta: Eu, por mim, queria isso e aquilo / Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso / É disso que eu preciso ou não é nada disso / Eu quero é todo mundo nesse carnaval. A escolha de trazer a música de um dos “malditos da MPB” — alcunha dada a artistas que, no contexto da ditadura militar, foram ostracizados por não se acomodarem aos padrões radiofônicos — é mais do que apropriada para um filme que, em sua essência, fala de uma “maldita”. Malu (Yara de Novaes) é uma presença magnética já desde a sua primeira cena, onde a vemos ensaiar no terraço da sua casa numa favela do Rio nos anos 1990. Os dez primeiros minutos habilmente nos dão a tônica desta personagem, do seu contexto e das suas relações, em especial com a filha Joana (Carol Duarte), que acaba de retornar ao Brasil depois de um tempo morando na França, e com a mãe Lili (Juliana Carneiro da Cunha), com quem divide a casa e com quem frequentemente se antagoniza ao ponto de haver altercações físicas entre as duas. A protagonista é dona de uma personalidade intempestiva e afrontosa, se recusa a se adequar a quaisquer padrões de “feminilidade” e fuma religiosamente sua maconha todo santo dia, enquanto se agarra desesperadamente às lembranças da sua trajetória como atriz do teatro durante a ditadura. É perceptível o ressentimento que a envenena, diante das oportunidades perdidas e pela vida que leva agora, presa a uma mãe conservadora e racista e incapaz de se reconectar com a filha, enquanto nutre sonhos que nós, como espectadores, já tememos que nunca irão se realizar. Como os malditos da MPB, Malu é essa figura que foi ostracizada por um regime tão repressivo — ainda que possamos colocar em xeque a veracidade de seus relatos, à medida que o filme vai indicando a natureza turva das suas memórias e perspectivas. Mas é inegável como a subversão reside em seu âmago e como o preço que ela precisou pagar por isso ainda é sentido, especialmente em sua saúde mental (nitidamente deteriorada) e em suas relações familiares. Foto: Divulgação Para dar vida à personagem que dá nome ao filme, Yara de Novaes a interpreta como uma figura maior do que a própria vida, intensa, instável, cativante na medida em que pode ser repulsiva. Em um momento estamos rindo dela humilhando um padre para em seguida ficarmos chocado com sua capacidade de ir às vias de fato com a mãe numa briga. Particularmente, adoro o detalhe dela contando ocasionalmente as mesmas histórias da sua trajetória no teatro para Joana e amigos, uma maneira eficaz pela qual o diretor Pedro Freire ilustra o fato da personagem estar presa ao passado de (suposta) glórias. Em um ano onde vemos o estrondoso sucesso de Ainda Estou Aqui e a maneira como a atuação contida de Fernanda Torres é a alma do filme, é um exercício interessante olhar para como a atuação expansiva de Yara é um contraponto que, à sua própria maneira, é a alma de Malu. Mas é na maneira como sua expansividade se relaciona com as outras pontas do triângulo que sustenta o filme que ele cresce. A dinâmica entre essas mulheres é pesada, tóxica e até mesmo violenta em alguns momentos (em ações, mas sobretudo em palavras carregadas de ressentimento, ódio e mágoas). É perceptível como se tratam de três gerações que não conseguem conversar entre si: Lili representando uma geração retrógrada e religiosa, Malu aquela que tentou se libertar das amarras repressivas da ditadura e Joana simbolizando uma nova geração que só pensa em sobreviver e é muito menos interessada em política que a de sua mãe. Tais percepções são potencializadas pela razão de aspecto em 4:3 que Freire adota, “comprimindo” ainda mais essas personagens nos espaços já apertados dessa humilde casa, além de trazê-las sempre em planos mais intimistas e close-ups que nos tornam tão próximos dessas mulheres ao ponto das discussões e brigas serem ainda mais desconfortáveis e difíceis de assistir. Ao mesmo tempo, porém, Freire é inteligente o suficiente para mostrar como essas relações são complexas, sendo também pontuadas por afeto, cuidado e (talvez) amor, seja nas interações entre Lili e Joana, no orgulho que Malu precisa engolir para pedir ajuda à filha no melancólico epílogo — e nessa ajuda ser oferecida mesmo com tantas dores envolvidas. Da mesma forma, cada personagem recebe um background que, se não justifica suas ações, certamente explica muito dos seus comportamentos, especialmente no que se refere às ausências das figuras masculinas: não parece coincidência que o único homem relevante na trama, vivido por Átila Bee, é um homem negro e gay que oferece as mais genuínas expressões de afeto para essas mulheres, mas ainda assim é afetado pelas dores e traumas delas. Talvez por isso, ainda que Yara de Novaes seja a grande estrela do filme, a minha cena favorita é a do devastador monólogo oferecido pela personagem de Juliana Pereira da Cunha após arriscar fumar maconha pela primeira vez. Malu é um primoroso exemplar da atual safra do nosso cinema, um filme cuja alma reside na instabilidade que permeia as relações familiares entre suas personagens femininas, as quais nunca são romantizadas, mas apresentadas em toda a sua crueza e contradições. Ancorado na fenomenal performance de Yara de Novaes, uma das melhores que vi em tempos recentes, é um filme que merece ser visto e revisto, mesmo com todo o desconforto que possa gerar com a acurada representação de relações tão disfuncionais, honestas. Quando os créditos anunciam a dedicatória à mãe do diretor, ela própria uma atriz cuja vida inspirou partes do filme, não resta dúvidas de que o que vimos nos 100 minutos anteriores foi uma belíssima homenagem a uma grande maldita. Nota: 4/5

  • Crítica | Lobisomem

    A nova abordagem de um dos monstros clássicos do cinema e do imaginário popular de boa parte do mundo Foto: Divulgação A primeira metade do filme trata a lenda do monstro metade lobo metade homem todo em O resultado da revelação do monstro é tão bizarro, no pior dos sentidos, que perde a liga da apreensão sequências de ação e com uma postura louvável de se levar a sério e de respeitar o texto (mesmo quando os monstros

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