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Resultados da busca por "crítica mostra 2026"

1325 resultados encontrados para "crítica mostra 2026"

  • Crítica | Carême – O Rebelde da Culinária (1ª temporada)

    Culinária, intrigas e sedução marcam a nova ficção histórica do AppleTV+. Divulgação O sucesso de Game of Thrones na década passada não apenas impactou o gênero da fantasia na TV e no streaming, mas também o da ficção histórica. As inspirações medievais da série e suas intrigas políticas (tão, senão mais aclamadas que seus elementos fantásticos) inspiraram um filão de obras que, mesmo se passando em nosso mundo nos mais diversos períodos do passado, usavam e abusavam de elementos mais adultos – em especial o sexo e a violência – para narrar as disputas de poder nas mais diversas esferas da sociedade. É na esteira de um certo ressurgimento dessas séries que Carême – O Rebelde da Culinária, nova produção francesa do AppleTV+ a ser lançada em 30/04, vem para disputar seu próprio espaço. Ambientada durante os primeiros anos do regime de Napoleão no início do século XIX, a série acompanha seu protagonista, Marie-Antoine Carême (Benjamin Voisin), um jovem, talentoso e ambicioso chef que trabalha com seu pai adotivo e, após este ser preso injustamente pela polícia napoleônica, recorre ao misterioso nobre e ex-clérigo Charles Maurice de Talleyrand (Jérémie Renier), que promete ajudá-lo e até mesmo o emprega, mas em troca de seus esforços de espionagem em meio ao cenário turbulento que se desenha para as forças napoleônicas. Embora Carême e boa parte das figuras retratadas na série realmente tenham existido (a série é baseada no livro Cooking for Kings: The Life of Antonin Carême, The First Celebrity Chef, do historiador Ian Kelly), inegavelmente são tomadas liberdades criativas que propulsionam a história, em especial esse lado “espião” do protagonista. Lançado de paraquedas nesse cenário de intrigas e disputas políticas, ele se vê forçado a lançar de suas maiores armas para sobreviver – suas habilidades geniais com a culinária e também seu charme e sedução. A série adota, ao menos em sua primeira metade, uma estrutura mais episódica, quase procedural, onde Carême precisa ajudar Talleyrand com algum problema relacionado ao círculo de Napoleão ou ao próprio (que, curiosamente, quase não aparece, e quando aparece é apenas em planos-detalhe que ocultam seu rosto). Na segunda metade, a coroação de Napoleão se torna o pano de fundo no qual a trama se desenrola com mais segurança, sem o ritmo mais apressado que ameaça atropelar os primeiros episódios. Admito, porém, que a faceta “espiã” de Carême é o aspecto menos interessante da série, mesmo que gere bons entretenimentos com os jogos de interesse e mudanças de lealdade. É só que não há nada de muito novo ou até mesmo inspirado aqui, o que se estende até mesmo às cenas de sexo, filmadas com pouco tesão, mesmo que a série insista que seja uma das armas mais perigosas e eficazes da história da política. Ao menos essa parte da série ajuda a dar o devido destaque a Talleyrand, que nas mãos de Renier se converte no personagem mais intrigante e interessante da temporada, com suas motivações dúbias (supostamente em nome da França, mas até que ponto tais interesses não são apenas os seus? É possível confiar num homem que trocou tantas vezes de lado durante a Revolução Francesa?) e a relação que constrói com o protagonista, talvez o verdadeiro coração da temporada. É justamente ao apostar no tratamento de Carême pelo que ele realmente foi conhecido – o primeiro chef celebridade da história – que a série cresce e se distingue em sua abordagem. Já no primeiro episódio o vemos criar um prato tão original e criativo que consegue apaziguar as tensões entre Napoleão e o embaixador inglês, e cada vez que temos o enfoque em seus pratos e criações, ou em sua personalidade turbulenta dentro da cozinha, vê-se a série mais inspirada. Chega a ser curioso que a figura de Carême é apresentada como anacrônica e à frente do seu tempo antes mesmo de o vermos em ação, como atesta o figurino do personagem e até mesmo o andar que Voisin imprime ao personagem. Divulgação Outro ponto positivo da série é a maneira como ela insere naturalmente uma noção de uma França mais diversa naquele período do que a historiografia oficial, especialmente através de suas duas protagonistas femininas, Henriette (Lyna Khoudri, uma mulher árabe) e Agathe (Alice da Luz, uma mulher negra). Mesmo que o texto ainda por vezes resvale em algumas obviedades para sustentar esse discurso mais representativo (ou aluda a um potencial triângulo amoroso entre Câmere e as duas personagens), no geral a inserção desses elementos se dá de maneira bem orgânica à trama e à ambientação. Ainda que não sem suas imperfeições, Carême se revela uma grata surpresa que permite conhecer um personagem, o qual particularmente não fazia ideia da sua relevância para sua culinária mundial nem seu grau de envolvimento na política francesa da época – independentemente se ele foi mesmo um espião ou “só” um chef muito talentoso. Com um final que deixa ganchos para se explorar os conflitos destes personagens em meio ao cenário das guerras napoleônicas, só posso esperar que ela alie de maneira cada vez mais acertada essa distinta dinâmica entre culinária, sexo, poder e intrigas políticas. Nota: 3.5/5

  • Crítica | Assassinos da Lua das Flores

    Bill Hale, é um velho branco arrogante e frio, que se mostra como um amigo salvador dos Osage quando, Assassinos da Lua das Flores chega em 2023 já sendo um dos melhores do ano, e é sempre motivo de agradecimento

  • Crítica | The Dink – A Última Chance

    sobre o avanço inclemente do pickleball como se fosse uma nova pandemia são hilárias justamente porque mostra

  • Crítica | Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho

    máfia com samba no pé Foto: Divulgação Não gosto muito de fazer comparações ou analogias nas minhas críticas

  • Crítica | Kung Fu Panda 4

    Camaleoa está de olho no Cajado da Sabedoria de Po, que lhe daria o poder de trazer todos os vilões-mestres

  • Crítica | Folhas de Outono (Kuolleet Lehdet)

    Aki Kaurismäki pinta belo romance resoluto, mas que esbarra nos detalhes Foto: Divulgação Numa Helsinque atual, duas almas solitárias em busca de amor se encontram por acaso em um bar de karaokê. No entanto, o seu caminho para a felicidade é cercado de obstáculos - desde números de telefone perdidos a endereços errados, alcoolismo e um encantador cão de rua. Esse é um filme bem nos moldes de um romance clássico dos anos de Era de Ouro, onde o foco é centrado única e exclusivamente no casal principal e os poucos coadjuvantes que circundam as cenas existem com a mera função de impulsionar a relação dos protagonistas. Porém mesmo com um roteiro enxuto e com uma duração curta, o roteiro consegue tropeçar em alguns obstáculos que se contradizem e impedem a narrativa de amarrar seus arcos. O maior deles é o uso da tecnologia e da maquinaria quando convém. A produção faz questão de enfatizar o cenário capitalista pós-moderno da cidade onde a trama se desenvolve na cenografia e no design de som. Os protagonistas se veem presos num ciclo de subempregos rodeados de parafernálias e instrumentos que condicionam uma péssima qualidade de trabalho e de vida. Mas esses equipamentos parecem ser inexistentes quando num dos momentos chave do enredo o casal troca telefones e endereços num pedaço de papel, por exemplo, fazendo com que a problemática que toma bons minutos de tela pareça rasa, embora entenda-se o apelo ao romantismo à moda antiga. Foto: Divulgação Esse mesmo problema também aparece, e dessa vez mais cansativa ainda, quando constantemente os personagens – que parecem ter apenas o rádio como meio de comunicação – ouvem em seus aparelhos de som mensagens sobre o quão violenta a Rússia vem sendo com a Ucrânia. E essa panfletagem política pro-OTAN e anti-União Soviética não adiciona qualquer camada ao texto, é apenas o filme dizendo o quão vilanesca é a Rússia e o quão coitada é a Ucrânia. E ele não tem o menor interesse de esconder ou camuflar isso, é uma postura assumida e sustentada. Visualmente o filme é um encanto, como é de costume do diretor finlandês. Aki elabora esse “cenário capitalista pós-moderno” com um vislumbre artístico quase onírico, onde as cores e as luzes (e consequentemente as sombras) são importantes para realçar personagens e objetos, bem ao estilo Jacques Demy. Referenciando outros autores ou não, ou melhor, intencionalmente ou não, é inegável que Kaurismäki conduz suas obras sob o mesmo viés introspectivo, com textos econômicos e com a plasticidade tão importante quanto a mensagem – e vem sendo assim desde a década de 90 – mas ainda assim consegue se mostrar atento ao cenário social e político ao seu redor, mesmo que sob uma ótica simplista. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Sequestro no Ar (1ª temporada)

    Série do Apple TV+ com Idris Elba é uma sequência de ação de sete horas Foto: Divulgação Imagine a seguinte situação: Você está em um voltando para casa após um trabalho em um voo de Dubai para Londres que dura aproximadamente sete horas, e, logo após a partida um grupo de terroristas sequestram o avião em que você está. Bom, essa é a premissa de Sequestro no Ar, série semanal do Apple TV+, finalizada na primeira semana de agosto. Estrelada por Idris Elba, a série é contada em tempo real através das horas do voo com o total de sete episódios. Pela breve sinopse, percebemos que a história da série é um clássico clichê de muitos filmes de ação. Porém, isso não é demérito para Sequestro no Ar que consegue entregar uma trama muito instigante, repleta de reviravoltas, que deixa o telespectador cada vez mais ansioso para os próximos episódios. Com sua história dividida em dois eixos, no ar e na terra, seguimos primeiro Sam (Idris Elba), um homem que trabalha como negociador corporativo, ainda apaixonado pela sua ex-mulher e que quer reencontrá-la ao chegar em Londres. Além dele, também somos apresentados a outros passageiros do avião e também aos sequestradores, onde alguns acabam sendo mais aprofundados que outros, tudo de uma maneira bem interessante. Foto: Divulgação Já no solo, acompanhamos várias ‘fases’ da situação que vai se degringolando até se tornar um problema de estado para o Reino Unido. Desde controladores de voo de Dubai, Hungria e Turquia até os investigadores em Londres, vamos entendendo todos os pormenores da investigação para chegar na motivação do sequestro e aos seus mandantes. Sequestro no Ar tem ótimas atuações e uma boa direção de cena em momentos de ação durante a série. Outro mérito é a criação do suspense por meio de um roteiro que vai se engrandecendo ao longo dos episódios, chegando ao ápice da tensão em seu último episódio. A temporada, dividida em sete partes, possui o tempo certinho para contar a história, sem desgastar a ação de sua narrativa. Mesmo sendo repleta de clichês, Sequestro no Ar é uma prova de que histórias de ação conseguem ser recicladas da melhor forma e é a melhor pedida para quem busca uma boa história de suspense e tensão para uma maratona. Nota: 4/5

  • Crítica | Tic Tac - A Maternidade do Mal

    Longa usa a pressão que existe em mulheres para gestar em artifício para boa história de suspense Foto: Divulgação Lançado na última semana no Star, o longa Tic Tac - A Maternidade do Mal foi dirigido pela estreante Alexis Jacknow e é baseado em seu próprio curta-metragem. Na história, conhecemos Ella Patel (Dianna Agron), uma design de interiores extremamente bem sucedida na sua carreira e na sua vida pessoal. Em um relacionamento estável e amoroso e repleta de amigos, Ella começa a sentir as cobranças da sociedade para ter filhos e mesmo não querendo, ela começa a achar que tem algo de errado com o seu relógio biológico. À medida que a pressão social aumenta, Ella fica sabendo de um ensaio clínico onde a vontade de não ter filhos passa a ser considerada uma questão de fertilidade e esse ‘desequilíbrio químico’ pode ser tratado com hormônios sintéticos recém-projetados e terapia cognitivo-comportamental. Ao adentrar no experimento da Dra. Simmons (Melora Hardin), o tratamento começa a funcionar, porém, os efeitos colaterais da medicação começam a colocar a vida dela e das pessoas ao redor em perigo. Utilizando muito bem esse conceito de ‘terror social’, o filme consegue transformar um tema inquietante como ter filhos em algo assustadoramente palpável. Essa crescente que o longa consegue imprimir durante o seu tempo de projeção é interessante em ser observada. Ella começa o filme tendo repulsa a gravidez e de crianças e nós, telespectadores, acompanhamos sua trajetória de autodescoberta e de entendimentos de traumas que a fizeram não querer ter filhos. Foto: Divulgação Essa jornada de Ella é marcada por uma curiosa ideia de como inserir o terror nessa narrativa e que faz quem está assistindo se perguntar o que é real e o que um surto da cabeça da protagonista. Tic Tac - A Maternidade do Mal não traz nada de inovador nessa premissa, mas, inova ao abordar uma temática que ainda é tabu para muitas pessoas. Muito dessa força e agonia que o filme consegue passar é mérito de Dianna Agron. Ela faz uma atuação muito constante durante as 1h31 minutos de projeção e transmite todos os sentimentos com maestria. Ainda assim, o filme comete alguns deslizes, especialmente no seu ato final, e deve desagradar aqueles que gostam de um final mais redondinho e bem explicado. Mas, isso não tira o mérito da produção que conversa perfeitamente com quem sofre com a pressão de gestar desde cedo e não consegue sair das amarras de uma sociedade que ainda atrela o sucesso feminino a engravidar. Nota: 4/5

  • Crítica | Guardiões da Galáxia Vol. 3

    A despedida dos Guardiões e um abraço apertado para quem fica. Foto: Divulgação “Quem iria querer ver um filme sobre uma árvore falante e um guaxinim?”. A pergunta genuína de Amanda Seyfried sobre a ainda embrionária ideia do filme Guardiões da Galáxia (2014) parecia externar o que todos estavam se questionando na época. Adaptando uma das histórias menos conhecidas dos quadrinhos, o longa dirigido por James Gunn nos apresentou um grupo disfuncional com um espírito quase contrário ao que éramos acostumados a ver com os Vingadores: mercenários egoístas que, ao acaso, se unem para defender a galáxia. Daí, para a surpresa de muitos – inclusive de Seyfried – a aposta se mostrou certeira, dando origem a um dos segmentos mais populares da Marvel Studios atualmente. Nove anos após o lançamento do primeiro filme, Guardiões da Galáxia Vol. 3 chega para fechar a trilogia de Gunn. Mais do que o fim da formação que conhecemos, o longa também marca a despedida do diretor no estúdio – da forma mais simbólica que poderia acontecer. Com um esforço louvável para sair da sombra deixada por Vingadores: Ultimato, o roteiro, que também fica por conta de Gunn, abraça a solidez de um filme único sem se escorar nas pretensões faraônicas de um universo compartilhado, algo que só tem atrapalhado as produções da Marvel nos últimos anos. Com transições entre passado e presente muito bem executadas, a história tem Rocket (Bradley Cooper) como o fio condutor de toda a narrativa. Se antes o personagem era relegado a mero alívio cômico em quase todas as suas aparições, aqui a profundidade de sua história, bem como a do restante dos Guardiões, ganha novos contornos. A faceta emocional do volume 3 é gritante e nos apresenta algumas das cenas mais comoventes do estúdio até então, uma tentativa muito bem sucedida de dar aquela cara de despedida ao filme. Nesse sentido, é notório que a (raríssima) liberdade criativa concedida ao diretor teve um grande impacto sobre a produção. Extravagância é o que não falta nesse Volume; indo de uma belíssima cena em plano sequência até o primeiro palavrão já dito em uma produção no estúdio, a marca do diretor estampa as telas e brinca na margem de sua classificação indicativa – afinal este é, com certeza, o filme mais sangrento da Marvel. Ainda, honrando inclusive o trocadilho com o nome do filme, as inserções musicais continuam no ponto certo, servindo como um belo adicional naquela dramaticidade que só um acústico de “Creep”, do Radiohead, pode dar. Foto: Divulgação No entanto, os excessos também trazem alguns problemas. Chega a ser desconfortável a facilidade com a qual subtramas são descartadas em favor de conveniências postas apenas para fazer a história principal andar. Aqui, quem mais sofre é o personagem de Will Poulter, Adam Warlock, que, apesar das grandes expectativas em torno de sua aparição desde a cena pós-créditos do Volume 2 (2017), teve apenas a função de dar início aos eventos do longa, sendo reduzido a mero personagem secundário em questão de minutos. Ainda assim, quando falamos em quesitos técnicos, o longa entrega com louvor o que se propõe. Trazendo uma formidável direção de cena e efeitos visuais muito satisfatórios, a composição visual é com certeza um dos pontos altos da produção. Além disso, temos com uma bela variedade de nomes competentes no elenco, com merecido destaque ao Alto Revolucionário (Chukwudi Iwuji), vilão da trama, cuja sádica expressão traz uma densidade quase palpável e correspondente a muitos exemplos reais. Aliás, é justamente na capacidade de ser palpável que o filme se supera. Isso porque, muito embora os outros volumes já tratassem da natureza peculiar dos laços familiares formados entre os personagens, aqui isso se torna muito mais evidente. É nas entrelinhas dos diálogos que as relações entre os membros do grupo vão correspondendo às próprias experiências do espectador. Não é um grupo perfeito, é verdade, mas talvez seja essa a grande sacada que tornou uma árvore falante e um guaxinim tão satisfatórios de acompanhar (tô errado, Amanda?) Acima de seus problemas, não podemos descaracterizar o bom trabalho feito aqui. Com atuações eficientes e uma direção formidável, Guardiões Vol. 3 encarna a posição de um filme muito mais maduro que seus antecessores, trazendo uma história cativante e honesta, a qual dá um desfecho condizente com tudo que foi mostrado até aqui. Assim, apesar de ainda ser cedo para dizer que os dias de cão realmente acabaram, o que fica é um lembrete de como um bom filme da Marvel se parece. Nota: 4,5/5

  • Crítica | A Máquina Do Destino (1ª temporada)

    A adaptação do Apple TV+ explora com sucesso o poder dos recomeços Foto: Divulgação Se eu fosse levada à cada uma das vezes em que, quando criança, me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, provavelmente ficaria presa num eterno loop temporal. Foram inúmeras as perguntas, e as dúvidas, proporcionais aos questionamentos. Eu nunca soube exatamente o que faria, até começar a fazer, e até que eu começasse a fazer, levou um certo tempo. E como as pessoas da minha idade — e eu não vou dizer qual é, mas você pode estimar entre os 15 e os 60 — tendem a ser bastante obstinadas (uma palavra bonita para cabeça dura), ter alguma ferramenta divina ou cósmica que ajudasse a encurtar esse caminho do autoconhecimento seria uma mão na roda. Então agora, se puder, imagine. Só não feche os olhos, senão eu não vou conseguir continuar conversando com você. Mas se imagine diante de uma máquina grande, luzes brilhantes, maior do que um fliperama, com uma estrutura externa que lembra asas de borboleta, e tem uma porta. Você entra, se senta, confere a textura do banco, é de couro, meio rígido, antigo, tem marcas, vê as ondulações nas paredes internas que são de um azul espacial. Você imagina de onde raios surgiu aquela geringonça que ninguém nunca tinha visto antes. Para iniciar o serviço, insere uma moeda. Diante de você, a tela pede que informe o número do cpf. A voz interna diz é golpe, pô, mas a curiosidade vence. Agora o aviso muda e pede que você encoste as duas mãos, como num registro de digitais, e inesperadamente, um pequeno envelope cor azul-real sai da máquina e pronto. Ali, em até duas palavras, está o potencial da sua vida, que pode — e vai mudar a trajetória das suas escolhas. O que você faria diante dessa descoberta? Esta é a premissa de The Big Door Prize, em português, A Máquina do Destino, lançamento da Apple TV+. Foto: Divulgação Dentro do mercado de séries, as produções da AppleTV+ têm se destacado por explorar a sensibilidade e ambiguidade nas relações, e a repercussão de Severance e Ted Lasso indicam um caminho longo de êxitos. É neste caminho que encontramos A Máquina do Destino, conduzida por David West Read, com quem tive o prazer de conversar brevemente na Coletiva de Imprensa Internacional à convite da Apple TV+, e que vocês poderão ouvir no nosso podcast Cuscuz com Pipoca em breve. O showrunner de Schitt’s Creek toma as rédeas desta série que é adaptação do livro de M.O. Walsh, de mesmo título em inglês, ainda sem tradução no Brasil. É muito importante que você entenda, antes de tudo, que esta é uma 'dramédia'. Você se verá rindo com a peculiaridade desengonçada de Dusty, personagem do sempre incrível Chris O’Dowd, ou se identificando com algum aspecto escondido da personagem Cass, interpretada por Gabrielle Dennis (também conversamos brevemente com os protagonistas da série e foi incrível, breve no Cuscuz com Pipoca.). A série possui 10 episódios e cada um deles, até o oitavo, conta a história da pessoa do título, começando com Dusty; Cass, Jacob, Padre Reuben, Trina, Beau, Giorgio e Izzy. O efeito dominó que acontece na narrativa a cada fim de episódio, passando simbolicamente o “bastão” para dar início à outra história, serve para demonstrar como estes personagens estão conectados, porque estão conectados e até o que não foi contado importa para a narrativa da série como um todo. Os dois episódios finais, Deerfest: parte 1 e Deerfest: parte 2, se passam na festa da cidade, evento em que a narrativa atinge seu ápice final (?). Foto: Divulgação Esta é uma série rica em conteúdo que retrata situações comuns à experiência humana com muita simplicidade e delicadeza. Uma destas é a fragilidade da imagem que temos de nós mesmos e sobre quem somos quando estamos diante de nossos fracassos ou de nossos acertos, e este último parece, no universo de A Máquina do Destino, tão difícil de aceitar quanto o primeiro. Esta é mais uma história sobre como sempre seremos seres faltantes, e nunca nenhuma resposta será definitiva. As atuações do elenco envolvem quem assiste com calidez, em situações que, se retratadas de outro modo, provocariam desconforto; a exemplo da morte precoce de um adolescente, ou uma mãe exibindo comportamentos narcisistas. Estão por toda parte, em cada história de cada personagem: o ressentimento, a estagnação, a felicidade, os equívocos, os medos, as angústias, e a coisa mais bizarra sobre ser humano: o desejo de tentar de novo, e de novo, e de novo, até dar certo. A série encerra sua primeira temporada com ganchos para a segunda e questões importantes a serem respondidas, que são cruciais para o trilhar da narrativa. A Máquina do Destino é uma série aconchegante e agridoce, onde cada vida é vista, cuidada e cultivada. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Reparação (15º Olhar de Cinema)

    Quando o exercício do luto se transforma num exercício de autocentralidade. Imagem: Divulgação O cinema, como qualquer arte, é um canal poderoso de expressão dos sentimentos e visões dos seus realizadores perante o mundo, havendo variados graus dessa expressão, desde o campo do alegórico até o brutalmente direto. Nesse sentido, talvez poucos sentimentos podem ser tão poderosamente trabalhados quanto o luto, dada a sua intensidade e complexidade. Em Reparação, o diretor baiano Marcus Curvelo propõe um exercício do seu luto frente a morte do pai e o adoecimento da mãe. No primeiro caso, a perda já é dada logo no começo, quando uma conversa entre os dois se converte em um descarrego de lágrimas; já o segundo se dá progressivamente, e somos colocados juntos a Marcus, forçados a ver sua mãe morrer aos poucos, mesmo com sua personalidade espirituosa se mantendo firme. O diretor evita alguns caminhos mais óbvios na construção do filme, adentrando o reino do cinema experimental e deixando que suas imagens assumam contornos mais poéticos, com um enquadramento 4:3 e a fotografia P&B que faz de Salvador e do interior em que sua família viva lugares quase oníricos, transcendentais. Em especial, o mar assume uma dimensão crucial à obra: imagens de águas revoltosas se chocando contra as pedras, as narrações sobre os efeitos do salitre em Salvador, a própria figura de Marcus fantasiada e pintada perambulando a esmo pela praia, buscando ouvir as vozes dos pais. E é a figura do diretor que mais vemos na obra. Ele escolhe fazer de seu luto o motor de Reparação, mais do que as memórias dos seus pais ou suas reflexões sobre os lutos. Os diálogos e narrações são esparsos, e o filme busca no silêncio (ou nos sons ambientes, sobretudo do mar) a sua voz. O vemos se filmando a todo instante, seja em crises de choro, ou assumindo outras personas que o ajudem a lidar com o luto; vemos até mesmo cortes auto infligidos em seu braço. O problema é que, ao se apresentar de forma tão crua perante seu público, Marcus acaba caindo num lugar demasiadamente autocentrado, visto que volta a câmera quase que única e exclusivamente para si mesmo durante todo o processo. O resultado é um exercício de luto tão particular que se torna importante para ele, mas falha em sê-lo para o restante do público. É como ver uma sessão de terapia que em tese devia ser privada, mas é exposta para o mundo ver. E não há problema em externalizar estes sentimentos, mas pressupõe-se que tal externalização tenha como objetivo capturar uma resposta por parte do público. Nisto reside o grande problema de Reparação: não há resposta a ser capturada além do tédio. Toda a beleza formal e estética não é suficiente para fazer com que o filme saia dessa dimensão tão particular para seu realizador, deixando-nos em dúvida sobre o que estamos assistindo: um exercício de vulnerabilidade que o aproxima do seu público ou um exercício tão egóico que o afasta. Ao final, salvo alguns instantes inspirados (as conversas por telefone com os pais, os poucos momentos centrados em sua mãe que revelam uma potência desperdiçada na obra), a segunda opção é a mais evidente. Nota: 1.5/5

  • Crítica | Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor

    Continuação consegue encantar com carisma do elenco, mesmo sem o charme dos anos 90. Imagem: Divulgação Anos após os acontecimentos do primeiro filme, as irmãs Sally e Gillian Owens ainda carregam as consequências de uma antiga praga que condena as mulheres de sua linhagem a perderem aqueles que amam. Quando uma força ancestral volta a ameaçar seus descendentes, as duas precisam unir seus poderes para desvendar os mistérios de sua origem. Entre encantamentos, paixões e sacrifícios, as Owens terão de confrontar as raízes de seu legado sobrenatural e encontrar uma maneira definitiva de romper o ciclo que atravessa gerações. A sequência de Da Magia à Sedução consegue resgatar parte do encanto do clássico original especialmente por causa do excelente entrosamento entre Sandra Bullock e Nicole Kidman. Ao retornarem aos papéis que marcaram o final dos anos noventa, as duas atrizes mostram que a química que tornou as irmãs Owens tão queridas continua intacta. É um prazer imediato ver o amadurecimento dessas personagens em tela, fazendo emergir a perigosa sensação de nostalgia acolhedora para quem acompanhou a primeira história de amor e feitiçaria. Destaques também para as personagens de Dianne Wiest e Stockard Channing que também repetem suas personagens e aqui são responsáveis pelos momentos mais emotivos da produção. Além de celebrar o retorno das protagonistas, a nova produção atualiza as discussões sobre sororidade e a força do feminino no mundo contemporâneo. Essa transição para os dias atuais ganha força com a chegada de Joey King e Maisie Williams, que interpretam a nova geração de bruxas da família. As novas personagens introduzem novos dilemas e conflitos que por vezes parecem atuais e por vezes parecem ter travado há quase 30 anos com a ideia de um romance idealizado demais para jovens garotas sonhadoras, o que não é necessariamente um problema, na verdade é até necessário para o desenvolvimento da diegese, mas que perde a oportunidade de se desvencilhar do material base e dar uma nova roupagem para as questões. Imagem: Divulgação O longa esbarra em problemas evidentes de ritmo ao se estender muito além do necessário. A tentativa de construir uma atmosfera de mistério e suspense falha porque o desfecho da narrativa se revela previsível desde o início, então é sentar e ver como tudo vai acontecer. A diretora Susanne Bier faz um trabalho visual bonito ao tentar recriar a textura acolhedora do cinema de Hollywood do final dos anos 90, mas o roteiro simplesmente não acompanha essa fluidez, parecendo haver uma indisposição entre os subgêneros, gerando momentos em que a imagem e o texto parecem caminhar em direções totalmente opostas. No fim das contas, a obra entrega momentos divertidos e carismáticos, mas falha em se estabelecer como um filme de grande impacto. Embora seja gostoso rever esse universo, falta uma força criativa que faça a história se destacar de forma independente. É uma produção correta, por assim dizer, e simpática que serve como um bom entretenimento passageiro, mas que dificilmente será lembrada no futuro por algum elemento verdadeiramente marcante. Nota: 3/5

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