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- Entrevista | Anna Muylaert fala sobre 'O Clube das Mulheres de Negócios'
Diretora brasileira destaca as inspirações para o seu novo longa, que inverte os papeis de gênero na sociedade Foto: Divulgação Uma história onde, em um mundo imaginário, os estereótipos de gênero são invertidos e mulheres ocupam posições de poder enquanto os homens são criados para serem socialmente submissos. Essa é a trama principal de O Clube das Mulheres de Negócios, novo filme da diretora Anna Muylaert, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 28. Responsável por sucessos do cinema brasileiro como Durval Discos (2002) e Que Horas Ela Volta? (2015), Anna conversou com exclusividade com o Oxente, Pipoca? e falou sobre as inspirações para o seu novo longa, projetos futuros e cinema brasileiro. A história de O Clube das Mulheres de Negócios para Muylaert surge através do cansaço de perceber o tratamento feminino comparado com o masculino. “Depois, houve uma abertura de olhar para essa questão e a temática da inversão começou a aparecer no teatro, no cinema e na internet. Eu quis usar essa ideia da inversão, mas tratar além da misoginia e do machismo, trazendo outros aspectos do patriarcado que também são tóxicos como a questão de classe e a questão ambiental”, explica. Desde os pôsteres até os minutos finais do longa, a linguagem visual marcante é um dos pontos mais chamativos para a história e a inspiração de Anna e sua equipe surge por meio de signos culturais fortes no imaginário brasileiro . “A gente se inspirou no modernismo, em Tarsila do Amaral e no Carnaval. Essas cores e flores vão na contramão do que está acontecendo no filme, mas utilizamos isso para mostrar esses personagens que são arquétipos nossos. Não vamos ser educados, vamos explodir e fazer esse filme que também tem um quê de carnaval”. Foto: Divulgação Além da presença desses signos, outro símbolo constante da brasilidade se faz presente na linha narrativa da história: a fauna do nosso país, através da onça. “No início, o filme era só uma comédia assim dramática de inversão dos papeis de gênero de uma situação de uma mulher, mãe solteira, que no caso seria um homem, em situações familiares e empregatícias. Aí eu tive um sonho com o ator que ia fazer esse essa primeira versão do filme e tinha fugido uma onça num jardim e isso gerava um medo, fiquei achando que era algo muito bom para ser usado naquela primeira versão do roteiro. Também fui vendo o quanto a onça significa aqui na América Latina e na América do Sul e o quanto a onça está ameaçada, o número de onças hoje no Pantanal, eu acho que é cerca de 2.000 indivíduos. É um animal que está sendo muito maltratado. Logo em um dos primeiros tratamentos do roteiro que eu estava fazendo, ocorreu um incêndio no Pantanal e lembro que vimos umas imagens de onça com a patinha machucada, muita coisa foi aparecendo no noticiário e a partir disso houve a criação ficcional que fortaleceu esse símbolo”, reflete Anna. Denúncias também parecem ser uma linha narrativa importante nas tramas dirigidas por Muylaert. E se em Que Horas Ela Volta? ela nos faz refletir através do afeto pela protagonista, em O Clube das Mulheres de Negócios a reflexão surge por meio do repúdio e da repulsa que sentimos ao acompanhar as mulheres da história. “Esse filme veio de um lugar que nenhum outro filme meu tinha vindo, veio da raiva. Se você parar pra pensar no “Que Horas”, em 2015, era um momento de celebração, tínhamos a possibilidade de uma democracia social no Brasil. Mas em 2016 tem o golpe e aí começa a acontecer uma fase em que a gente sentia muita raiva e o filme vem dessa raiva”. “Pra mim, como diretora, era importante de algum jeito quebrar com expectativa de repetição do “Que Horas”, sabe? Eu não tenho como repetir aquilo e não quero que as pessoas esperem isso de mim porque se não é como se eu estivesse morta. Então também tem um lugar dentro de mim, mais rebelde, que fala: eu não sou só isso. E eu queria quebrar isso com respeito. Se a pessoa vai ver O Clube das Mulheres de Negócios procurando algo do “Que Horas”, ela não encontra. Eu acho que tinha esses dois lados e essa questão pessoal, minha mesmo, de me livrar da obrigação de repetir o sucesso do filme anterior”, reflete a diretora. Foto: Divulgação Sobre as protagonistas do filme, Muylaert destaca a personagem Zarife, interpretada pela comediante Katiuscia Canoro. “Ela é a personagem que vai mais longe no delírio. Tivemos uma estreia no Rio e o empresário dela estava lá e ficou encantado, dizendo que era o melhor trabalho da vida dela, tirando ela dessa caixinha de comédia televisiva e vendo o potencial dela como uma atriz dramática. Eu acho ela incrível e amei trabalhar com ela. Ficamos muito amigas”. Voltando ao contexto das denúncias, Anna Muylaert explica que o seu principal objetivo com o filme é, de certo modo, alfinetar o público. “Acho que levantar discussão, sem dúvida, é uma coisa muito positiva. Porque eu acho que essa essa linha, esse desenho da educação de gênero é algo que é tão automático na gente, que não sabemos nem de onde vem. Então trazer essa consciência é algo muito positivo e importante. Do outro lado acho que ele também causa catarse de algum jeito. Acho que a personagem da Katiuscia se enfiando no mato, pelo menos a mim, causa uma catarse a um nível delirante. Eu acho que é catarse e debate mesmo. E consciência também, né? Eu acho que o que aconteceu com a Cristina Pereira no Festival de Gramado reflete isso”, conta. O fato que Muylaert se refere na resposta anterior foi ao relato da atriz que interpreta a personagem Cesárea. Cristina Pereira surpreendeu, em um debate após a primeira exibição do filme O Clube das Mulheres de Negócios em Gramado, ao revelar ter sido vítima de abuso sexual durante a infância. A atriz de 74 anos, com uma vasta carreira no cinema e na TV, nunca havia falado publicamente sobre o tema. Na ocasião, ela desabafou: “É a primeira vez que falo publicamente isso. Aconteceu isso comigo. Tá acontecendo agora com uma porção de meninas. [...] Eu era uma menina de 12 anos, entrando na puberdade, eu nem tinha ficado menstruada. Eu não sabia nada sobre sexo, eu não sabia o que aquele homem tinha feito comigo. É uma coisa horrível. [...] Quando o [personagem] Candinho chora, sou eu que choro, são vocês que choram e são muitas meninas de 12 anos como aquela menininha, que estava indo para a escola, de uniforme”, confidenciou a atriz para o público presente em Gramado. Foto: Divulgação Sobre o assunto, Anna Muylaert completou que temas como abuso sexual, muitas vezes, são silenciados pela sociedade. “Ela ficou 50 anos com uma coisa engasgada e de repente encontrou, com o filme, a oportunidade de falar e se sentir acolhida. Esse tema é um grande tabu e, de alguma maneira, o filme já trouxe essa luz, descongelou essa parte que estava congelada de trouxe um assunto muito importante de ser dito é muito difícil de ser falado. É um ganho muito positivo em cima do filme quando a gente pensa que esses assuntos nem eram discutidos. A cena do Rafa Vitti e todo aquele arco, eu acho que vai abrir muita discussão para isso. Quando viralizou o vídeo da Cristina em Gramado, tinham posts com quase 15 mil comentários, quase todas as mulheres que comentavam falavam que haviam vivido algo parecido. Poxa, 15 mil mulheres vão para a internet compartilhar seus casos a partir da fala da Cristina. Há uma necessidade de falar e não há onde falar, eu acho que talvez muitas mulheres sintam entendidas, acolhidas, de uma certa forma, de terem vivido experiências compartilhadas próximas às de O Clube das Mulheres de Negócios”, disse. Mergulhando no tema do cinema brasileiro, destaco para a Anna a exibição do longa no primeiro dia do Festival de Artes de São Cristóvão, em Sergipe, de forma gratuita, nesta sexta-feira, 29, e a pergunto sobre a sensação em relação ao cinema nacional em um momento onde o filme mais visto do país é um longa do país, superando grandes blockbusters. “Quando eu comecei no cinema brasileiro, ele foi assassinado pelo Collor, né? Ficou quase uma década sem produção, depois eu vi a retomada acontecendo a partir do final dos anos 90 que foi um momento florescimento, nascimento e estabilização da produção. Depois teve o impeachment da Dilma e tivemos uma paralisação, a entrada dos streams, que foi uma mudança de paradigma. E aí, esse ano, todos os números do cinema brasileiro foram muito baixos, foi um ano bem desanimador, no geral. E agora com a estreia do filme do Walter e também com Arca de Noé indo bem, eu acho que é um momento de otimismo, mas a gente precisa ver como é que isso vai se comportar, se isso vai ser uma exceção ou uma tendência, né? Vamos ver, eu não sei dizer. Mas de maneira geral, após a pandemia, houve uma diminuição do público, nas salas no Brasil e no mundo e parece que a gente está se encaminhando para um outro tipo de vida mais dentro de casa, né? Mas nessa semana há um otimismo no ar. Acho legal, por exemplo, quando existem essas exibições locais assim, porque eu acho que atrai um público diferente e isso me deixa muito feliz”, reflete. Acerca dos próximos projetos, Anna adianta algumas informações. “Em 2025 vou lançar “A Melhor Mãe do Mundo”, que escrevi na pandemia, que é bem diferente desse filme, ele é bem amoroso, lírico, sobre uma mãe carroceira que larga o marido abusivo e bota os filhos na carroça e vai do Glicério até Itaquera com os filhos, é uma espécie de road movie em São Paulo. E no meio do ano começo a rodar “Geni e o Zepelim”, na Amazônia. Depois, vou dar uma pausa de um ano e vou tirar um ano sabático e descobrir o que quero fazer”.
- Crítica | Moana 2
Continuação é decente mesmo com enredo que insiste em não desenvolver Foto: Divulgação Em Moana 2, novo filme musical da Walt Disney Animation Studios, Moana e Maui se reencontram após três anos para uma nova e incrível jornada com um grupo improvável de marujos. Após receber um chamado de seus ancestrais, Moana parte em uma jornada nos mares distantes da Oceania, desbravando águas perigosas, rumo a uma aventura diferente de todas as que já viveu. Tal qual a morte que nos espera eventualmente em algum ponto de nossas vidas, continuações de animações da Disney que fazem um bom dinheiro são também inevitáveis. Moana 2 traz novos personagens carismáticos, mas que em nada ajudam na progressão da narrativa; novas canções marcantes louvando a natureza e os melhores valores humanos; e amplia os alcances da mitologia dos povos polinésios. Até a primeira metade alguém pode se confundir e achar que está assistindo mais uma vez ao filme original tamanhas são as semelhanças na estrutura do texto. A protagonista-título está lidando com o anseio de deixar sua ilha, dessa vez para procurar outros povos que fortaleçam seus vínculos com o passado. A motivação é diferente do anterior, mas os tratamentos com a problemática são basicamente os mesmos. Talvez o segundo filme tenha a mesma duração do primeiro e a mesma quantidade de músicas, mas tudo aqui parece ser mais compacto, mais contido ou pelo menos não tão inflado. Até mesmo o “vilão” da história tem uma abordagem mais metafórica e hipotética, como uma força da natureza sem um desenho próprio delimitado. Foto: Divulgação E são nessas economias que o derivado se distingue do original. Os números musicais são menos extravagantes, as músicas são mais compassadas (nisso Lin Manuel-Miranda não fez falta) e de alguma forma a mensagem tenta se provar importante a todo momento, enquanto o meio aparenta não querer chamar tanto a atenção. Não que a animação tenha perdido qualidade, embora haja algumas transições que parecem ter sido feitas numa renderização apressada, ou mesmo o brilho do anterior, mas não há tantos vislumbres que façam da plasticidade de Moana 2 seu principal atrativo ou traço mais memorável. Mas talvez o maior obstáculo seja a história que na maior parte do tempo não evolui. Obviamente que ao final temos mudanças na protagonista e o arco principal está num lugar mais adiante de onde se iniciou, no entanto tudo que acontece no longa-metragem até sua meia-hora final anda sobre uma esteira narrativa que resulta num grande déjà vu involuntário que diz menos do que poderia. Mesmo sendo uma produção decente, Moana 2 soa mais como um parágrafo do que como um capítulo. Nota: 3/5
- Entrevista | Juru e Vitã falam sobre 'Salão de Baile'
Em entrevista para o Oxente, Pipoca?, diretories destacam a jornada do filme Foto: Divulgação Surgida em Nova York por volta da década de 1960, a cultura Ballroom se destaca pela realização dos balls (bailes), onde os participantes têm a liberdade de experimentar novas formas de expressão de identidade, gênero e potencial artístico através dos movimentos corporais, e tem como um de seus principais registros o documentário Paris is Burning (1990), de Jennie Livingston. No Brasil, a cultura Ballroom chegou ao Brasil há pouco mais de uma década, e a cena fluminense é o foco do documentário Salão de Baile, dirigido pela dupla Juru e Vitã e que tem contado com exibições pelo país afora, bem como no exterior. Entrevistada pelo Oxente, Pipoca?, a dupla de diretories falou a respeito das influências, o processo de produção do documentário e a sua jornada em festivais e salas de cinema. Questionade a respeito das possíveis influências que Paris is Burning teve sobre a produção de Salão de Baile, bem como das diferenças entre os dois filmes, Juru diz que o primeiro é uma referência incontornável dentro do cenário audiovisual a respeito do Ballroom, mas que durante o processo de gravação de Salão de Baile diferenças foram sendo notadas, o que levou a dupla a buscar um diálogo crítico com Paris is Burning. Elu destaca que a realização do filme só foi possível com editais públicos, um da prefeitura de Niterói e outro da Rio Filme, mas ainda assim as gravações foram feitas com um baixo orçamento. Entretanto, isso não impediu que elu e Vitã buscassem remunerar todas as pessoas envolvidas na produção. “A gente queria dar alguma dignidade, alguma estrutura para as pessoas que estavam participando, para que elas tivessem condições de poder de estarem performando, reproduzindo o que a gente vive na vida, nos bailes, compartilhar um pouco do que a gente vive”, diz elu. Vitã complementa dizendo que é inegável a influência de Paris is Burning na cena Ballroom — destacando como elus voltaram ao filme durante o processo de montagem de Salão de Baile para se “apropriar” dele —, mas que também foram adotadas outras referências audiovisuais, como a série documental Segura Essa Pose, disponível na Globoplay. Para ela, o Ballroom conta com ramificações notáveis nos campos da dança, da moda e da música, e agora o audiovisual também está se tornando uma extensão relevante da cena. Foto: Divulgação Devido à origem estadunidense do Ballroom, uma questão surgida na entrevista diz respeito ao uso de anglicismos e a maneira pela qual a cena local consegue “abrasileirar” ou não termos e conceitos do movimento. Juru afirma que o mundo do Ballroom é fortemente definido por regras muito próprias, muitas das quais surgiram nos anos 1970 e 1980, onde termos como “mulher trans” e “homem trans” ainda não haviam surgido. Se por um lado nos EUA haveria a categoria de “Femme Queen”, o Brasil possui a categoria de “travesti”, mas os termos não são necessariamente intercambiáveis, especialmente pelo fato de que acessos a procedimentos cirúrgicos e hormonais ocorrem de formas diferentes em ambos os países. Para Vitã, mesmo com sua origem estadunidense e afrodiaspórica, o Ballroom ainda conta com outras referências culturais, como as artes marciais asiáticas ou termos do francês. No Brasil, a herança africana se destaca, com o uso de termos do iorubá, por exemplo. Mas sobre manter o uso de certos termos em inglês, ela afirma: “a gente usa [o inglês] porque é como foi criado, então também é uma referência a essa ancestralidade. Então a gente tá aqui criando novas formas e ressignificando tudo isso, mas usar os termos em inglês é se lembrar do contexto onde surgiu, não apenas nos Estados Unidos, mas na periferia de Nova York dos anos 70, com pessoas pretas e latinas, que eram marginalizadas. Então é importante reforçar isso e também fazer pontes com outras culturas”. Por fim, Juru e Vitã não escondem o orgulho pela trajetória que Salão de Baile vem tendo, com exibições em festivais nacionais e internacionais. “Parece um sonho”, diz Juru. “Tá dando muito certo e tem sido muito potente a gente conseguir se conectar com essas cenas fora do Brasil, além das trocas com cenas locais nas exibições onde estivemos presentes. Rolaram até performances [de Ballroom] dentro dos festivais, e mesmo quando a gente não tá presente as pessoas articulam. (...) Eu acho que a gente conseguiu fazer o filme que fez porque estava falando de uma cena que a gente conhecia muito bem, e tinha uma relação de afeto com as pessoas que estão ali e que construíram o filme”.
- Crítica | Wicked
Talvez a narrativa predominante seja apenas o que os poderosos querem que seja enxergado Foto: Divulgação Dorothy e os sapatinhos vermelhos, o espantalho, o homem de lata, o leão covarde, a bruxa boa e a bruxa má, o caminho dos tijolos dourados, a cidade das esmeraldas, Over the Rainbow, o mágico de Oz. A fábula que faz parte do imaginário popular nasceu da mente de L. Frank Baum em 1900, chegou aos cinemas em 1939 e tornou-se um dos maiores e mais influentes clássicos até então. De lá pra cá, O Mágico de Oz virou referência e diversas outras obras surgiram do cerne da sua história, algo bastante usual quando falamos de tramas importantes para a cultura de forma geral. Foi nos anos 90 que o romancista americano Gregory Maguire resolveu se aprofundar na Bruxa Má do Oeste, uma das mais icônicas vilãs do cinema, da cultura americana e que moldou o nosso imaginário sobre bruxas desde o filme clássico, sendo verde, cruel, de chapéu pontudo e voando em uma vassoura. Gregory lança o livro “Wicked: A História Não Contada das Bruxas de Oz” e tenta responder uma grande questão filosófica sobre vilões de uma forma geral: as pessoas nascem ou se tornam más? Utilizando o livro como base, em 2003, o compositor Steven Schwartz criou a peça de mesmo nome Broadway que estreou com as atrizes Idina Menzel e Kristin Chenoweth nos papeis principais. O espetáculo é um dos mais bem-sucedidos da história da Broadway e é um dos únicos a arrecadar mais de US$ 1 bilhão em bilheterias - ao lado de O Fantasma da Ópera e O Rei Leão com adaptações ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Mas, querendo ou não, a grandiosidade de Wicked ainda estava muito nichada ao público ligado ao teatro musical, muito fiel e forte, sem dúvidas, mas desconhecida aos olhos de quem não se interessa tanto por essa arte. Aos olhos de Hollywood, apostar em uma adaptação tão conhecida era só questão de tempo e depois de uma pré-produção de mais de 10 anos, foi pelas mãos do roteiro de Winnie Holzman e Dana Fox e com a direção e o olhar aguçado do talentoso Jon M. Chu, que Wicked chega aos cinemas nesta semana, dividindo sua grandiosa história em duas partes, tal como os atos que dividem a peça que o inspirou. Foto: Divulgação Logo nos primeiros segundos de projeção somos lembrados da trama clássica de O Mágico de Oz, especialmente do seu final, onde a Bruxa Má do Oeste havia sido morta por Dorothy e que agora o povo de Oz comemora alegremente o fato do mal ter sido derrotado e da bruxa ter morrido sozinha e solitária. Glinda (interpretada por Ariana Grande) aparece enaltecida pelo povo e, depois de ser questionada sobre o fato de ter sido amiga da bruxa, somos introduzidos para a parte da história que conta o outro lado da moeda. De forma geral, sem dar muitos spoilers, Elphaba (Cynthia Erivo) é uma jovem do Reino de Oz, incompreendida por causa de sua pele verde incomum e por ainda não ter conseguido domar seus poderes. Renegada pelo pai, que prefere sua irmã, sua rotina é tranquila e pouco interessante, mas ao iniciar seus estudos, por acaso, na Universidade de Shiz, seu destino encontra Glinda, aqui ainda Galinda, uma jovem popular e ambiciosa, nascida em berço de ouro e extremamente privilegiada, depois de um ódio mútuo no início, as duas iniciam uma inesperada amizade. No entanto, suas diferenças, como o desejo de Glinda pela popularidade e poder, e a determinação de Elphaba em permanecer fiel a si mesma, entram no caminho, o que perpetuado no futuro de cada uma e em como as pessoas de Oz as enxergam. Curiosamente, Wicked inspirou uma grande parte das histórias que vemos hoje sobre humanização de vilões e a busca por uma resposta do motivo pelo qual eles se tornam maus. Esse tipo de trama, em um universo tão já saturado de spin-offs e prequels, pode te fazer pensar que a história não consegue trazer nada de novo sob essa ótica vilanesca. Os vilões são vilões e pronto. Mas será mesmo que é só isso? Em Wicked, mergulhamos em uma trama que, desde o início, nos mostra que talvez a narrativa predominante é a apenas o que os poderosos querem que seja enxergado. Utilizando-se da originalidade de contar sua história única através de um dos gêneros mais especiais e do mesmo modo que a fotografia ou a trilha sonora podem revelar mais sobre as personagens e seus relacionamentos entre si, as canções que fazem parte da narrativa de Wicked também possuem esse poder e engrandecem uma história que brilha ao abraçar a sua fantasia como um todo. O maestro deste universo é Jon M. Chu (responsável por In The Heights - Um Bairro em Nova York de 2021, outra excelente adaptação do teatro musical), que conduz a trama com uma câmera ágil, que quase se mescla com a beleza visual criada pelos efeitos visuais. Com uma fotografia que abraça essa mistura entre os tons rosas e verdes, Wicked também se torna um deleite pela sua entrega na direção de arte e cinematografia. Foto: Divulgação Mas, quem torna Wicked o que de fato ele é são suas duas protagonistas. E mesmo que Glinda seja colocada como coadjuvante, vejo as duas aqui como iguais, quase como polos opostos que se atraem e se completam por serem tão diferentes e tão parecidas ao mesmo tempo. Ariana Grande é uma Glinda que conquista pelo seu texto sagaz, mas também por uma atuação que não se distancia do material original, mas que consegue ter vida própria dentro das referências da cantora. Ela, que é uma grande fã do musical, se viu com o papel de sua carreira em mãos e honrou o desafio com maestria, alterando até o tom de voz e a forma como ela pronunciava as palavras ao cantar. Se Ariana brilha no cômico, Cynthia Erivo brilha mais nos momentos dramáticos com uma atuação intensa e angustiante, quando vamos entendendo tudo o que Elphaba passou e a sua decepção com quem ela reverenciava. Com um senso de justiça e uma grande vontade de mudar as desigualdades ao seu redor, Elphaba é uma personagem repleta de nuances e Erivo conta isso com maestria através da atuação. Além das protagonistas, Wicked tem um ótimo elenco coadjuvante que, na mesma medida, entrega boas atuações e boas performances nos atos musicais. Por falar na parte musical, Wicked une a tradição da Broadway com canções que ficam na sua cabeça por semanas depois de ouvi-las. A versão do filme mudou pouco comparada a versão original, entregando performances que ressoam até em quem não costuma gostar tanto. O destaque, na minha opinião, vai para as versões de “Popular”, “What is this Feeling?” e, claro, “Defying Gravity”, o grande ápice da história que se torna o clímax perfeito para o encerramento dessa primeira parte. Conheci Wicked em 2013 quando ouvi em Glee uma das versões do musical e me apaixonei pela música que falava sobre desafiar a gravidade como uma metáfora para acreditar em si mesmo. A partir daí, entrei nesse mundo do teatro musical e admiro a história de Elphaba e Glinda com um carinho e uma familiaridade enorme. Devo dizer que aquela majestosidade que via nos vídeos gravados do teatro não pareciam que iriam ser transposta nas telas. Parecia muito difícil, irreal, diferente. Torci o nariz no anúncio da adaptação, fiquei com o pé atrás quando vi as escalações e entrei no cinema com mais medo do que ansiedade de ver uma peça tão importante pra mim ganhar uma outra vida. Quando depois de quase 2h40, ouvi as primeiras notas de “Defying Gravity” tocarem e Elphaba dizer que “algo mudou em mim, algo não é mais o mesmo”, também vi as lágrimas rolarem no meu rosto e senti aquela mesma sensação de familiaridade que Wicked me proporciona. Algo também mudou em mim e não sou mais a mesma após ver Wicked nos cinemas. Nota: 4,5/5
- Crítica | Continente
Filme usa bem analogias e subgêneros do terror para contar história sobre a luta de classes Foto: Divulgação Quando recebi a oportunidade de assistir Continente por uma cabine de imprensa online aqui pro Oxente, Pipoca?, pouco sabia da história além de que era um terror que se passava no sul do Brasil e isso foi uma das melhores coisas que aconteceram para minha experiência com a história ser bem mais imersiva e surpreendente do que eu esperava. Lançado na última quinta-feira, 31, nos cinemas de todo país, o longa nacional Continente é uma trama que cresce mais ainda quando você sabe poucos detalhes sobre a sua trama. Em linhas gerais, o filme conta a história de Amanda que, após 15 anos morando no exterior, retorna para casa com seu namorado francês Martin. Eles chegam na casa da fazenda de seu pai, que fica num vilarejo remoto e isolado no sul do Brasil. Lá, Amanda encontra seu pai em estado de coma em meio a grandes tensões entre ele e os trabalhadores da fazenda. A única médica do vilarejo é Helô, uma jovem mulher que se resigna a cuidar dos moradores locais. A morte iminente do fazendeiro coloca Amanda, Martin e Helô no coração de acontecimentos perturbadores entre os habitantes do vilarejo e os donos da fazenda. Dirigido por Davi Pretto, Continente começa com um suspense tímido, gerando no telespectador aquela dúvida sobre o que está acontecendo de fato no local. Essa atmosfera de tensão e dúvida aparece bem na história tanto através do roteiro, tanto com as escolhas de direção de arte e trilha sonora, que tentam catapultar esse medo também em quem está assistindo através da tensão iminente no olhar daquelas pessoas. Essa primeira parte do filme consegue criar muito bem essa dúvida e me causou uma sensação de sufocamento e angústia tal qual a que os personagens sentiram ao chegar no local. Foto: Divulgação Muito disso acontece pela competência do elenco que Davi Pretto tem em mãos. Protagonizado por Olívia Torres, que é uma força motriz em tela como Amanda, todo filme se sustenta muito bem por essas boas atuações que se complementam entre si durante as cenas. Com uma boa fotografia que mistura bem os tons frios e quentes e uma direção que foca em planos fechados, o filme tem uma ótima cenografia e competentes trabalhos de som e edição. Quando Continente larga a mão do suspense e abraça a violência, a segunda parte do filme incorpora um terror mais visual e corporal, fazendo com que a trama se engrene para um caminho diferente do que pensamos. O roteiro de Davi em parceria com Igor Verde e Paola Wink dá um giro de chave na história, quase como inserindo um segundo filme dentro do outro, pelas diferenças perceptíveis tanto visuais e técnicas, quanto no desenrolar da história. É isso é algo muito positivo para uma trama que utiliza-se bem de analogias para apontar um problema crônico do social do Brasil. Isso não significa que o longa não tem problemas. Algumas escolhas de trilha sonora me incomodaram bastante, especialmente nessa segunda parte da história. Além disso, a falta de aprofundamento na mitologia ou a falta de explicações de como e porquês da trama podem incomodar alguns telespectadores que preferem o didatismo em certas histórias, mesmo que Continente deixe claríssimo o que denuncia. Falar de problemas sociais, luta de classes e relações de trabalho não é novidade. O excelente Propriedade (2022) de Daniel Bandeira também escancara essa problemática, de uma forma, talvez, mais didática e expositiva. Continente, ao tratar dos mesmos temas, utiliza-se desse horror de gênero para falar de uma história que talvez seja o retrato esquecido de um Brasil que ainda existe e fere milhares de trabalhadores de forma sistemática. No fim, assisti-lo é uma experiência catártica, visual e visceral que te faz pensar durante horas a fio após o fim da projeção. Nota: 4/5
- Crítica | Operação Natal
Apenas mais um filme hollywoodiano pré-moldado, cafona e em baixa saturação Foto: Divulgação Depois que o Papai Noel – codinome: Das Neves – é sequestrado, o Chefe de Segurança do Polo Norte (Dwayne Johnson) deve se unir ao mais infame caçador de recompensas do mundo (Chris Evans) em uma missão global e cheia de ação para salvar o Natal. Sou uma pessoa bastante deslumbrada com o espírito natalino em suas mais diferentes vertentes filosóficas, religiosas e comerciais que possam existir. Já assisti a incontáveis filmes natalinos entre clássicos que apenas melhoram com o tempo e outros mais alinhados ao doce descompromisso da Sessão da Tarde. Não sabia qualquer detalhe sobre essa produção quando cheguei para assisti-la, no entanto, sabia que não encontraria em Operação Natal uma experiência cinematográfica catártica, mas com certeza não esperava ser a farofa sem sal que é. Se o roteiro se contivesse no sequestro do Papai Noel, como apresenta a sinopse, e buscasse – por mais tola que fosse – a justificativa mais fácil para o desenrolar de tal apuro, talvez o resultado não fosse tão prejudicado como acabou por acontecer. Os roteiristas preferiram, além de manter a esperada tolice natural de uma história envolvendo Papai Noel e sequestro, colocar inúmeros elementos e personagens mitológicos que transformou o filme num emaranhado cafona de sub narrativas desinteressantes, sem graça e de motivações fraquíssimas (várias cenas são até bem constrangedoras). Foto: Divulgação Não vou ser hipócrita e fingir que não dei uma risadinha ou outra das muitas canastrices que os protagonistas exibem em cena, mas além nem aquém do que se espera do formato. Feche os olhos e aponte para as filmografias de Dwayne Johnson e de Chris Evans e as chances de você encontrar outros papéis exatamente iguais a este são de quase 100%. Mas infelizmente o restante do elenco parece não corresponder aos personagens medianos que lhes são oferecidos, e entregam atuações bem fora dos esquadros do gênero: ação com humor completamente esquecível. Além disso, o filme é mais uma vítima do filtro de baixa saturação que impede o público de ter uma visão clara do que está acontecendo – o que, na verdade, nem sempre é uma coisa ruim porque vários dos efeitos visuais são vergonhosos. Mas num filme natalino se espera brilhos, luzes e cores vibrantes, mas o que se ganha aqui é mais um borrão escuro, manchado e sem expressividade. Pouco provável que este passe por uma revisão minha, no entanto, se um dia eu me aventurar a tal, o bom é saber que pode ser uma experiência toda nova porque provavelmente semana que vem já terei esquecido de absolutamente tudo que vi nessas duas horas. Nota: 1,5/5
- Crítica | Arca de Noé
Animação é simpática, mas bagunçada e sem foco Foto: Divulgação Vini (Rodrigo Santoro) e Tom (Marcelo Adnet) são dois ratos boémios inspirados em Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Depois de, acidentalmente, testemunharem o momento em que Deus confia a Noé a tarefa de acolher apenas um casal de macho e fêmea de cada espécie para a sua arca, os dois amigos encontram uma maneira de embarcar juntos nesta aventura. Acho que a primeira questão a ser levada em conta é como o filme dos diretores Sérgio Machado e Alois Di Leo consegue se dissociar da categoria “filme crente” sem evitar a narrativa bíblica e consegue usar das composições de Vinicius de Moraes sem aparentar serem emprestadas ao filme. Essa articulação consegue criar um espaço comum para que o roteiro aconteça sem precisar diretamente das duas vertentes, mas usando delas sempre que possível para referências, piadas e trocadilhos, alguns engraçados e espertos e outros já bem datados. O grande problema de Arca de Noé é o excesso, tanto no enredo quanto na plástica. O caos de incontáveis animais de espécies diferentes confinados num mesmo ambiente é justificável desde antes de Cristo, mas a maneira com que o filme escolhe inserir personagens secundários em excesso cheios de falas causando todo tipo de confusão deixa a fluidez do filme desgastada logo cedo – pelo menos para este senhor de 31 anos. É muito barulho, muita voz, muita cor, muita textura a ponto de, por vezes, parecer que afeta até mesmo a destreza no traço dos desenhos. Foto: Divulgação A qualidade técnica do desenho dos personagens e da renderização não deixa em nada a desejar em relação ao crescente e diverso mercado internacional de animação, mas faltou ao longa uma coerência visual nas ambientações. Mesmo se passando quase toda na arca, os cenários carecem de uma rápida identificação e de um padrão mesmo com mais abstrações, menos detalhes. Uma utilização mais purista da gestalt talvez harmonizasse com o excesso de personagens e objetos que por si já gera bastante informação visual. E esse excesso de personagens é também um obstáculo para o arco central do filme que em alguns momentos parece ser esquecido em detrimento de outras situações que em nada acrescentam ao cenário geral. É uma animação simpática e cheia de mensagens positivas e progressistas, algumas camufladas num texto mais sagaz e outras bem escancaradas em metáforas simplistas do reino animal. Os trabalhos de dublagem de todo o elenco são bem afiados, inclusive esse é um dos benefícios do caos: sacar algumas piadas que aqui e acolá saem, num tom mais baixo, da voz de um coadjuvante. E mesmo que não seja a animação perfeita, o resultado consegue ser acima da média e pode agradar mais a geração infantil atual moldada por hiper estímulos. Nota: 3/5
- Crítica | Agatha Desde Sempre (Minissérie)
Uma lufada de frescor e qualidade na fraca sequência da Marvel na TV Foto: Divulgação/ Disney+ É um fato universalmente conhecido que as produções do Universo Cinematográfico da Marvel saturaram para o seu telespectador. Além da grande quantidade de filmes produzidos em quantidade quase industrial, quando o MCU adentrou no universo das séries no Disney+ com Wandavison, lá em 2021, tudo isso piorou com um volume extenso de séries desse cenário compartilhado, que pareciam se preocupar mais em fazer volume e encher referências o seu público do que entregar um bom conteúdo. Quase três anos depois, a série Agatha Desde Sempre é lançada, e, para surpresa de muitos, traz um frescor pouco antes visto em um universo tão repetitivo e repleto de marasmo. Agora trazendo como protagonista a grande vilã de Wandavision, a série explora a origem da poderosa feiticeira Agatha Harkness, interpretada por Kathryn Hahn, onde após os eventos de Westview, Agatha agora está enfraquecida e desmotivada. No entanto, sua sorte muda quando um adolescente gótico misterioso (Joe Locke) a liberta de um feitiço distorcido e a convence a guiá-lo pela lendária Estrada das Bruxas, uma jornada mágica repleta de provações. Juntos, a dupla reúne um clã de bruxas desesperadas e embarcam em uma perigosa aventura em busca do que Agatha mais deseja: poder. Em nove episódios, lançados semanalmente até a última quarta-feira no Disney+, Agatha Desde Sempre explorou um universo mágico protagonizado inteiramente por mulheres, celebrando, em seu esplendor, uma trama que mistura bem elementos de comédia, drama, mistério e horror. Mesmo possuindo uma trama simples, a série consegue gerar no telespectador quase como um efeito de encanto, muito disso pelas excelentes atuações e pela química entre esses personagens. Além da excepcional Kathryn Hahn, Agatha Desde Sempre traz um Joe Locke muito seguro de si que evolui bem conforme os mistérios acerca do seu personagem vão se revelando. No coven, Sasheer Zamata como Jennifer Kale e Ali Ahn como Alice Wu-Gulliver destacam-se, especialmente em seus episódios específicos, com momentos muito potentes e emocionantes. Foto: Divulgação/ Disney+ O destaque vai, sem dúvidas, para Patti LuPone como Lilia Calderu que em um episódio sete digno de prêmios, encanta com a história de uma bruxa que sempre soube qual seria o seu destino. Outra participação que rouba a cena é Aubrey Plaza como a misteriosa Rio, que tem ótima aparição nos episódios finais. É óbvio que Agatha Desde Sempre ainda é uma série da Marvel e, inevitavelmente, cai em clichês do gênero de séries de super-herois, mas nada que diminua a diversão e a qualidade de um produto muito superior ao seus antecessores. Não sou a maior fã da Marvel e olhava com descrença para Agatha Desde Sempre antes de dar play no primeiro episódio. Porém, é muito bom ser surpreendida e perceber que a Marvel ainda consegue uma lufada de ar fresco quando se aventura em novas tramas e novos protagonismos. Por mais que uma parcela do público incel do MCU julgue a série por sua óbvia representatividade racial e LGBTQIAPN+, Agatha Desde Sempre vai muito além disso e é entrega uma história madura sobre jornada, pertencimento e redenção de uma das personagens mais interessantes da Marvel em muito tempo. Nota: 4/5
- Crítica | Gladiador 2
Empolgante e bagunçado, continuação é outro épico em grande escala querendo apenas um objetivo: diversão Foto: Divulgação Anos após testemunhar a morte do herói Maximus (Russell Crowe) pelas mãos de seu tio (Joaquin Phoenix), Lucius (Paul Mescal) enfrenta um novo desafio: forçado a entrar no Coliseu, ele deve lutar pela sobrevivência e pela honra de Roma. Depois de ter sua casa tomada pelos imperadores tirânicos que governam Roma com punho de ferro, Lucius precisa reencontrar a força e a coragem que o inspiraram na juventude. Admirador da jornada de Maximus, Lucius busca seguir seus passos para restaurar a glória perdida de Roma. Gladiador 2 é uma sequência direta do aclamado filme dirigido por Ridley Scott. Agora, Lucius luta não apenas pela sua vida, mas pelo futuro do império. Com o coração cheio de raiva e o destino de Roma em jogo, ele revisita seu passado em busca da força necessária para devolver ao povo a honra que um dia foi perdida. Em sua primeira metade, Gladiador 2 segue os exatos mesmos passos do seu antecessor. Estruturalmente, a narrativa prefere usar os símbolos, marcações e elementos que caracterizaram a produção de 2000, o protagonista solitário, a figura imperial descompensada, os amigos sábios e a busca por vingança que acaba por ganhar mais propósitos. Mas cedo também o inquieto cineasta Ridley Scott prova que – beirando os 90 anos – não se acomoda com repetições e zonas de conforto, ele ousa (às vezes até demais, é verdade) e tenta ao máximo entregar um filme que não está absolutamente nem aí para fatos e precisões históricas, contanto que o resultado empolgue no efeito imediato. Sim, a ação conta com tubarões no Coliseu, batalhas com macacos e com rinoceronte. Tudo em relação ao viés frenético do enredo é elevado a um exagero criativo que ainda assim não destoa do anseio de Scott em surpreender. Mas é na falta de equilíbrio entre alguns efeitos digitais, nas abordagens do humor e do drama no texto, e na constante mistura de filtros que o longa se fragmenta e perde a sensação de constância necessária para os primeiros momentos de embasamento. Foto: Divulgação Após a primeira (de várias) cena numa arena de batalha eu tive minhas dúvidas de que a aventura teria fôlego para chegar ao final de suas mais de duas horas de duração, mas surpreendentemente é no seu desfecho que o filme parece se encontrar, acerta os esquadros e tudo converge para o mesmo compasso, mais sóbrio, mas não menos extravagante, até os minutos finais. Paul Mescal apresenta bem mais item do seu leque de versatilidade com uma atuação concisa e comedida, o básico para o papel, e um trabalho de corpo bem construído, algo que não o via fazer desde o musical Carmen (2022). Entre os coadjuvantes destaque para Joseph Quinn e Fred Hechinger que entendem com precisão o que Scott estava buscando neste segundo filme. Mas quem manda e desmanda até mesmo nas cenas em que não se faz presente é Denzel Washington. Com um personagem inescrupuloso e cheio de maneirismos, o veterano ator parece brincar com o que tem em mãos e cria um papel que destoa da maioria de sua vasta filmografia e, junto com o desenvolvimento do roteiro, faz com que o filme gire ao seu entorno. Gladiador 2 tem claramente uma proposta diferente do primeiro. Aqui, por mais que exista a trama política motivando os acontecimentos, e mesmo tendo alguns entendimentos espertos, ela é engolida pelos vibrantes dinamismos das sequências de ação. O premiado filme anterior seguia uma cartilha de gênero que ajudou a cunhar no período, influenciando toda uma geração seguinte, ele também era contido nas limitações de uma austeridade dramática; enquanto o segundo aparenta gritar “are you not entertained?” para a audiência e se curte despretensiosamente. Nota: 3,5/5
- Entrevista | Diretora e elenco falam sobre 'Mal de Família'
Dearbhla Walsh, Anne-Marie Duff, Eva Birthistle e Sarah Greene discutem o sucesso da série e a jornada emocional da nova temporada Foto: Divulgação/ Apple TV+ Nesse oceano de conteúdo audiovisual on demand em que vivemos, alguns tesouros acabam não recebendo o reconhecimento que merecem, como é o caso da excelente primeira temporada de Mal de Família (Bad Sisters), série irlandesa estreada em 2022 para a Apple TV+. Com doses perfeitamente balanceadas de humor, drama e suspense, a obra (que é baseada na série flamenga Clan, de 2012) conta os percalços das irmãs Garvey para se livrar – literalmente – do cunhado inconveniente, manipulador e abusivo. Quando menciono que a série é digna de mais reconhecimentos, me refiro à audiência, à presença na boca do povo, particularmente o público brasileiro. Isso porque, verdade seja dita, a primeira temporada foi muito bem recebida pela audiência local e pela crítica especializada, tendo conquistado 12 indicações na premiação de cinema e televisão da Irlanda e 4 no Emmy, além de levar 2 BAFTAs, incluindo melhor série de drama. Menos de um mês após o final da primeira temporada, a Apple TV+ já havia encomendado sua sequência. No entanto, em termos de Brasil (talvez pelo reduzido número de assinantes da plataforma de streaming no país), sinto que a série ainda não foi “descoberta” como deveria. Pois estamos aqui na esperança de reverter isso. O OP? teve a oportunidade de assistir antecipadamente a ótima segunda temporada, que estreia neste dia 13 de novembro, e conversar com diretora e elenco sobre os novos episódios, que não chegam a se equiparar com a maestria da primeira temporada, mas continua oferecendo entretenimento inteligente e com ótimo ritmo, mantendo, sobretudo, a excelente química entre as atrizes principais. E isso é quase tudo que podemos falar sobre o que vem por aí. A pedido da própria Apple TV+, só podemos confirmar que dois anos depois da morte de John Paul, as irmãs Garvey tentam viver uma rotina normal, mas, mais uma vez, se envolvem numa rede de suspeitas, mentiras e segredos. Todo esse sigilo faz sentido, uma vez que se trata daquelas (raras) narrativas em que qualquer mínimo spoiler pode, sim, estragar a experiência. Na entrevista a seguir, conversamos com a diretora e produtora executiva Dearbhla Walsh, Anne-Marie Duff (Grace), Eva Birthistle (Ursula) e Sarah Greene (Bibi). Foto: Divulgação/ Apple TV+ Aianne Amado: Acabei de terminar a segunda temporada e queria parabenizar vocês por isso! Sarah Greene: Você assistiu os oito episódios? AA: Sim! Infelizmente, não posso conversar muito com vocês sobre eles por causa dos spoilers – SG: Sim [risos] AA: mas só queria dizer que adorei. Dearbhla Walsh: Obrigada! Aianne: O que acharam quando receberam o convite para retornar para a segunda temporada? Eva Birthistle: Fiquei muito feliz em voltar para mais, sabe, tínhamos esperança quando terminamos a primeira temporada de que isso aconteceria. Que haveria uma segunda temporada, mas realmente não estava nos planos. Eu lembro que tentamos meio que persuadir a Sharon [Horgan, roteirista e intérprete de Eva] a pensar em fazer outra, e acho que sugerimos algumas ideias de história provavelmente horríveis. Acho que acabou tendo o efeito contrário. E então só descobrimos quase um ano depois que realmente teríamos uma segunda temporada. Fiquei muito aliviada e feliz com isso. Anne-Marie Duff: E nós sabíamos que o público estava louco pelo programa e desesperado para saber o que aconteceria com todas as irmãs. Sabíamos que havia um grande apetite por isso, e isso tornava ainda mais prazeroso oferecer essa continuidade. SG: Assim como o público, achávamos que a série tinha acabado na primeira temporada. torcíamos e desejávamos por uma segunda temporada, e sugerimos ideias bem ruins para Sharon quando estava chegando ao fim da primeira temporada. Estávamos filmando e tentávamos pensar em ideias para continuar. Se fôssemos voltar para uma segunda temporada, queríamos que fosse tão boa quanto, e acho que conseguimos. DW: Ela não ouviu as ideias delas. SG: Não, não ouviu nenhuma das ideias. Nenhuma [risos]. Mas sim, ficamos absolutamente empolgados em poder trabalhar juntos de novo, porque realmente nos amamos e é uma alegria ir trabalhar todos os dias com pessoas que você ama. DW: E acho que é muito bonito também, as pessoas ficam esperando, tipo, "podemos ler o próximo episódio?" Acho que deve ser incrível como escritor, mas também como ator interpretando um personagem, porque você não sabe aonde vai, até ler o que eles querem. E aí você pensa: "Nossa, isso é genial." SG: Provavelmente não poderia dizer isso, mas algo acontece com Becca na segunda temporada, e ela descobriu porque um amigo dela estava fazendo teste para interpretar o namorado dela. E ela não tinha visto nada. Não tínhamos recebido os roteiros ainda. Só tínhamos confirmado a segunda temporada, então ela descobriu essa grande revelação sobre a personagem de Becca por causa do teste de elenco. AA: Quando eu li a premissa do programa antes de assistir à primeira temporada, vi que era sobre um grupo de irmãs cometendo assassinato e pensei: "hmm, será impossível torcermos por elas neste clima sociopolítico?". E vocês fizeram isso funcionar. Então, Dearbhla, como foi o processo de criar esse equilíbrio e como vocês planejam mantê-lo na segunda temporada? DW: O mais importante é que é sobre um grupo de irmãs que planejam matar o irmão delas. Porque, quando Sharon falou comigo pela primeira vez, era sobre o desejo de matar, não o ato em si, sabe? E a frustração com isso. Foi realmente desafiador na primeira temporada porque você só entende sobre o que é a série no final do segundo episódio da primeira temporada, e é sobre o fracasso delas em se livrar dele. E isso foi muito desafiador nos dois primeiros episódios da primeira temporada na edição, e usávamos essa frase chamada "permissão para rir". Para que o público soubesse que tudo bem rir. Porque começa com um funeral, e a maioria das pessoas pensa em um funeral como algo triste, mas grande parte da escrita de Sharon e da série explora a comédia sombria das coisas que acontecem em funerais, e então vem a revelação gradual de que talvez nem todo mundo esteja tão triste com a morte desse homem. Foto: Divulgação/ Apple TV+ Eu sempre digo a todos e a cada ator e a Sharon que sou a pessoa menos engraçada no set: “eu dirijo drama e nunca dirijo vocês para serem engraçados. Então, vocês podem encontrar o engraçado nisso”. E acho que essa mistura de sempre buscar a verdade emocional é o que todos os atores fazem primeiro. Nenhum deles é comediante. Todos estão buscando a verdade de seus personagens. E a situação, obviamente, a escrita da Sharon e a dinâmica entre todos permite que exploremos esse tom. Uma das abordagens na primeira temporada foi filmar muitas cenas em grupo para capturar a dinâmica natural entre as atrizes. E na segunda temporada queríamos realmente expandir isso; a câmera se movimenta mais e há uma energia nova dessa vez, em parte porque as meninas amam atuar, e é tão divertido. Acho que dançamos um pouco no set, porque ninguém quer ser a pessoa que diz: "Ah, não me diga que precisamos de mais duas tomadas". Em vez disso, todos dizem: "Podemos? Podemos fazer de novo? Podemos fazer mais?" Isso torna o ambiente muito, muito lúdico. Um lugar onde muita criatividade acontece, e é bem colaborativo. O que é adorável. AA: Vocês receberam muitos elogios na primeira temporada, incluindo o reconhecimento de premiações de televisão. Como foi para vocês testemunhar o sucesso do programa tanto com a crítica quanto com o público? Vocês esperavam esse tipo de sucesso? EB: Nunca se sabe o quão bem-sucedido algo vai ser ou como será recebido. Você meio que sente que está em algo muito bom, mas, quero dizer, já senti isso muitas vezes em outras produções que não foram bem-sucedidas [risos]. Então, nunca se sabe realmente. Foi incrível ver a resposta que tivemos, e então ganhar, sabe, os BAFTAs... é simplesmente maravilhoso. É uma ótima forma de celebrar o trabalho de todos e ver o reconhecimento. Ver esse reconhecimento global é algo muito bacana. Tem sido incrível ver o sucesso e acho que as pessoas responderam positivamente porque os roteiros são incríveis, mas também porque é algo com o qual as pessoas se identificam, sabe? São personagens femininas que são relacionáveis, e havia um verdadeiro desejo por isso, pelo aspecto familiar e pela dinâmica familiar. Acho que é algo que tem um pouco para todos. AMD: E os streamers... uma das grandes coisas que os streamers oferecem é o impacto internacional, sim. Assim, você não precisa esperar que o programa seja lançado em outros países. É uma comunidade enorme de espectadores. É como um novo capítulo na televisão, o que é muito divertido, porque significa que você pode estar de férias em algum lugar e alguém vem falar com você sobre o programa. É maravilhoso. AA: Vocês interpretam personagens com uma gama extrema de emoções. Vocês podem estar realmente tristes com os acontecimentos, mas, quando as irmãs estão juntas, há alegria e amor. Às vezes, os sentimentos mudam de uma cena para outra, com muitas emoções diferentes. O que é necessário, como ator, para ir tão fundo assim? AMD: Isso é o sonho dos atores, é o que queremos. Somos bem ambiciosos; queremos interpretar tudo, especialmente em papéis femininos, porque muitas vezes você acaba interpretando um tipo específico de mulher em um filme ou série. Então, é maravilhoso. É uma alegria. SG: Acho que é isso que torna o desafio tão brilhante: são todas mulheres complicadas e imperfeitas. Mesmo que ela [Bibi] pareça muito forte, na primeira temporada ela estava cheia de raiva contra JP. Ela tinha um foco singular e não vimos muito de sua vida pessoal. Na verdade, ela tem o casamento mais sólido de todos, o relacionamento mais forte. Então, é muito bom explorar isso, e eu amo atuar, então embarcar nessa jornada emocional é uma alegria como atriz. AMD: E também acho que, no elenco, quando alguém tem um calor natural – como a Sarah tem – você pode interpretar alguém durona e, ao mesmo tempo, esse calor se manifesta através dos personagens. E isso é algo importante para a escolha do elenco da série, para que todos pareçam tridimensionais. Acho que todos na série estão trazendo suas próprias experiências de vida, como suas experiências familiares ou de crescimento, e isso enriquece a história. AA: E, por fim, quais são suas expectativas para a reação à segunda temporada? SG: Que as pessoas amem tanto quanto nós amamos. Nós absolutamente adoramos fazer isso, amamos interpretar essa família e somos muito afortunados por o público nos ter recebido em suas casas. Estamos animados que seja um episódio por semana, porque acho que vai reunir as famílias, assim como aconteceu na primeira temporada. Espero que as pessoas amem. AMD: Acho que elas ficarão chocadas. Há algumas reviravoltas e revelações grandes, decisões que são impactantes. Acho que isso vai prender o público. Então, sim, acho que funciona. EB: São decisões ousadas, mas acho que elas valem a pena. AMD: Você quer que o público se surpreenda sempre, quer que eles não vejam o que está por vir. Essa é a melhor narrativa. As pessoas nunca sabiam o que ia acontecer com JP, e você ficava na ponta da cadeira esperando se eles iam conseguir na temporada passada. Nesta temporada, queremos que o público sinta o mesmo, que o tapete seja puxado debaixo deles.
- Crítica | Sutura (1ª temporada)
Série médica associa suspense com viés social e não deixa pontas sem nó Foto: Divulgação/ Prime Video De um lado, Ícaro (Humberto Morais) um talentoso jovem com um forte senso de justiça que vê seus sonhos ameaçados. Do outro, Dra. Mancini (Cláudia Abreu) uma cirurgiã brilhante com doses explosivas de cinismo, tentando voltar a operar após um trauma. Unidos por uma inesperada e perigosa situação, acabam formando uma dupla médica imbatível. Não sei exatamente onde e quando retornou, mas o fato é que estamos presenciando um renascimento de séries médicas no cenário internacional, e uma popularização a nível de produção nacional que até 2015 não se tinha como tema prioritário de narrativa. Chicago Hope, ER - Plantão Médico e o novelão General Hospital foram alguns dos principais responsáveis pela difusão do gênero televisivo a partir da década de 90, e o Brasil mesmo, na época, ensaiou sua medicina filmada em episódios no seriado Mulher. Na última década, no entanto, o gênero que parecia ter retornado para seu nicho de origem ganhou as mais diferentes roupagens mundo à fora, se moldando a realidades e contextos diferentes. Sutura é um exemplo onde essa adaptação acontece de maneira orgânica e não-forçada. Mesmo com um alicerce narrativo preconcebido e bem conhecido – o residente médico que se destaca entre os demais, mas que vem de origem humilde e isso limita seu desenvolvimento –, suas variáveis conseguem dar uma identidade bem desenhada na construção do texto e especialmente na estruturação dos personagens. O elenco liderado por Cláudia Abreu e Humberto Morais é um dos grandes acertos da produção. A temporada, com 8 episódios, tem total ciência do seu tamanho e como preencher esse tempo sem muito enxerto vazio. Claudia e Humberto são tratados como protagonistas desde o primeiro episódio, e os demais, mesmo com seus arcos individuais que não se expandem a longo prazo, estão ali para orbitar ao redor deles. E isso não é um ponto negativo, pelo contrário, mostra o quanto o roteiro está atento ao todo em vez de encher de personagens que vão brigar por tempo de cena. E não ache que por serem coadjuvantes seus papéis são menos relevantes ou menos embasados, afinal, várias das consequências dos protagonistas terão os coadjuvantes como causa. E todos os nomes do elenco de coadjuvantes entregam atuações irretocáveis. Sem querer ser injusto com um ou outro, vou apenas citar Elzio Vieira e Naruna Costa como exemplo de atuações precisas e marcantes em seus papéis. Destaque também para todas as atrizes e atores convidados que fizeram participações de apenas um episódios, ninguém fez menos que um ótimo trabalho. Foto: Divulgação/ Prime Video Cláudia e Humberto montam uma dinâmica completamente fluida e bem estruturada, num jogo de poder e de interesses onde os personagens parecem acompanhar a vontade dos atores de estarem ali, juntos, colaborando, disputando, aprendendo um com outro e costurando, cena a cena, corte a corte, ponto a ponto um vínculo forte e saudável, entre os atores, e perigoso e tóxico, entre os personagens. São personagens complexos e cheios de camadas muito bem desempenhados pelo par de atores. O social é o que faz de Sutura uma série com cara brasileira. O texto sabe dosar o tanto de ação, suspense, drama, alívio cômico e sensualidade sem pender desproporcionalmente para nenhum dos lados. A alegoria de um hospital de luxo num prédio espelhado com uma clínica clandestina na parte inferior é rica e bem aproveitada com o sobe e desce dos personagens. Na parte de cima há sempre uma postura ética falsa, sorrisos forçados e palavras ácidas. Na parte de baixo não há qualquer pudor ou tentativa de maquiar a situação, é sempre visceral, brutal e desnudo. É nesse contrapeso moral entre alto e baixo, lá e cá, que Ícaro vê seus dilemas pessoais e profissionais se confrontando. Então tem crítica social bem explícita para o espectador mais obtuso, mas tem também suas sutilezas narrativas. A competência da produção está impressa também na camada mais urgente da direção, o visual. Com uma câmera sempre ágil e esperta, os diretores Diego Martins e Jéssica Queiroz mostram versatilidade em conduzir o olhar do público seja em cenas de perseguição de motos ou seja nos procedimentos cirúrgicos, que por sinal apresentam veracidade no tratamento estético que ajudam a compor a construção do "real". Sutura se apresenta com uma primeira temporada que faz muito bem a sua lição de casa. É uma programa que conhece seu potencial e também suas limitações, e que não tenta fazer mais do que pode, e ela pode coisa pra caramba em sua coesão comedida. E, o sonho de toda série, apresenta um leque diverso de possibilidades para seu futuro, o que espero que aconteça o quanto antes. Nota: 3,5/5
- Melhor Filme Internacional do Oscar 2025: Inscritos da América Latina
Lista com os pré-selecionados para a categoria será divulgada dia 17 de dezembro Foto: Divulgação Estamos a pouco mais de um mês de conhecer a pré-lista da categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2025 e, como um “aquecimento” — afinal, este ano pode ser muito promissor para nós, brasileiros — preparamos uma lista com todos os filmes inscritos pelos países da América Latina na maior premiação do cinema mundial. Abordando temas como busca por justiça, desigualdade e identidade cultural, este ano pode ser bom para países como Brasil, Argentina e Chile, que, historicamente, são alguns dos com maior visibilidade entre os possíveis pré-selecionados. Focando na terrinha, o Brasil possui, na história, quatro indicações na categoria: O Pagador de Promessas (1962) — até hoje o único longa brasileiro a conquistar a Palma de Ouro de Cannes, O Quatrilho (1995), O Que É Isso, Companheiro? (1997) e Central do Brasil (1998), que também rendeu uma indicação para Fernanda Montenegro em Melhor Atriz. Caso as previsões se confirmem, Ainda Estou Aqui pode trazer a quinta indicação do Brasil em Melhor Filme Internacional e, com sorte, em outras categorias da premiação. Então, vamos lá, confiram os filmes inscritos pelos países da América Latina para o Oscar 2025: • Argentina - El Jockey (Luis Ortega) O comportamento autodestrutivo de Remo ofusca seu talento. Abril, uma jóquei promissora, está grávida de Remo e tem que decidir entre ter um filho ou continuar a corrida. Ambas correm por Sirena, uma empresária que salvou a vida de Remo no passado. Foto: Divulgação • Bolivia - Mano Propia (Rodrigo Patino) Um promotor, um pai e seu filho lutam para sobreviver e buscar justiça em meio a um linchamento liderado por uma multidão em uma cidade boliviana, expondo as consequências perigosas da justiça justiceira. Foto: Divulgação • Brasil - Ainda Estou Aqui (Walter Salles) Rio de Janeiro, início dos anos 70. O país enfrenta o endurecimento da ditadura militar. Estamos no centro de uma família, os Paiva: Rubens, Eunice e seus cinco filhos. Vivem na frente da praia, numa casa de portas abertas para os amigos. Um dia, Rubens Paiva é levado por militares à paisana e desaparece. Eunice - cuja busca pela verdade sobre o destino de seu marido se estenderia por décadas - é obrigada a se reinventar e traçar um novo futuro para si e seus filhos. Foto: Divulgação • Chile - El lugar de la otra (Maite Alberdi) No Chile, em 1955, o caso de Maria Carolina Geel, uma escritora popular que assassina seu amante e cativa Mercedes, uma tímida secretária que trabalha para o juiz designado para defender o acusado. Foto: Divulgação • Colombia - La Suprema (Felipe Holguín Caro) Em uma cidade apagada dos mapas onde não há nem eletricidade, uma adolescente sonha em ser boxeadora. Quando ela descobre que seu tio lutará pelo título mundial e o evento será transmitido ao vivo pela televisão, ela e a comunidade farão de tudo para assistir à luta, enquanto lutam por sua dignidade e contra o esquecimento. Foto: Divulgação • Costa Rica - Memorias de un Cuerpo que Arde (Antonella Sudasassi) Repressão e tabus moldaram a imagem de feminilidade para Ana (68 anos), Patricia (69 anos) e Mayela (71 anos). Suas histórias se combinam poeticamente para formar um caleidoscópio de memórias, segredos e anseios encarnados pelo corpo de outra mulher. Foto: Divulgação • Equador - Al Otro Lado de la Niebla (Sebastian Cordero) Um cineasta acompanha um famoso alpinista até o Nepal, documentando a jornada. Conversas sobre suas vidas levam a reflexões filosóficas, à medida que a montanha desafia seus motivos. Com o passar dos dias, a altitude mais alta e o esgotamento do oxigênio elevarão seu debate a territórios interiores e transcendentais, colocando em jogo suas trajetórias e seus egos ao encarar a montanha e sua profundidade milenar. Foto: Divulgação • Guatemala - Rita (Jayro Bustamante) Rita, uma garota de 13 anos, foge de seu pai abusivo para a cidade grande. Ela encontra consolo até ser colocada em uma casa segura administrada pelo Estado. Rita e suas companheiras de cela planejam uma fuga que termina em um ato chocante de violência. Foto: Divulgação • México - Sujo (Astrid Rondero, Fernanda Valadez) Quando um atirador do cartel é morto, ele deixa para trás Sujo, seu amado filho de 4 anos. A sombra da violência cerca Sujo durante cada estágio de sua vida no interior isolado do México. À medida que ele se torna um homem, Sujo descobre que cumprir o destino de seu pai pode ser inevitável. Foto: Divulgação • Paraguai - Los últimos (Sebastian Pena Escobar) A vasta região natural do Gran Chaco no Paraguai está sob séria ameaça de desmatamento em larga escala e incêndios florestais. O cineasta viaja com o entomologista alemão Ulf Drechsel e o ornitólogo paraguaio Jota Escobar para esta área vulnerável e inflamável, que parece uma paisagem apocalíptica com estradas de terra vermelha e árvores espinhosas secas. Foto: Divulgação • Panamá - Despierta Mamá (Arianne Benedetti) Ali decide se mudar para uma pequena cidade nas montanhas com sua filhinha Sofia após sua devastadora separação do marido. Semanas depois, ela estará imersa na atmosfera misteriosa do lugar e então sofrerá um acidente e perceberá que sua filha desapareceu. Foto: Divulgação • Perú - Yana-Wara (Tito Catacora, Óscar Catacora) O sistema de justiça acusa Don Evaristo, 80 anos, do assassinato de sua neta Yana-Wara, 13 anos. Durante a audiência, todos descobrem a trágica história dessa jovem. Foto: Divulgação • República Dominicana - Aire (Leticia Tonos) No ano de 2147, um vírus resultante de uma Grande Guerra Química deixou todos os homens no planeta estéreis, levando a humanidade à beira da extinção. A bióloga e cientista Tania tenta se inseminar para garantir a sobrevivência da espécie humana, com a ajuda de um sistema de inteligência artificial chamado VIDA. No entanto, tudo muda quando Azarias aparece, um viajante com um passado sombrio e possivelmente um dos últimos homens do planeta. Foto: Divulgação • Venezuela - Vuelve a la Vida (Luis Carlos Hueck, Alfredo Hueck) Em 1996, Ricardo retorna para casa em Caracas após um ano de intercâmbio em Nova York. Em uma viagem pelas belas costas da Venezuela, após reencontrar seus amigos, Ricardo sofre uma forte dor que transforma sua vida e a de sua família. Foto: Divulgação A pré-lista de Melhor Filme Internacional do Oscar 2025 será divulgada pela Academia de Cinema no dia 17 de dezembro. 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