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- Crítica | Disclaimer* (Minissérie)
Apesar de quase se perder no meio, se encontra no fim e se mostra digna de reflexões Foto: Divulgação Quando soube da minissérie, já fiquei com a expectativa lá em cima. Cate Blanchett e Kevin Kline protagonizando com Alfonso Cuarón, um dos meus diretores favoritos, adaptando o roteiro do livro homônimo de Renée Knight e dirigindo, não tinha como não ficar animado. Porém, devo dizer que esperava mais, pelo menos mais consistência. Na trama, Catherine Ravenscroft (Blanchett) é uma documentarista renomada, mas tudo muda para ela quando recebe um livro de um autor anônimo, no qual se torna a protagonista e seus segredos mais obscuros são revelados. É uma premissa instigante, mas eu desconfio que renderia mais em um filme do que em uma minissérie. O que é constante são as performances espetaculares de Blanchett e Kline. Ele, um homem que perdeu tudo e não tem mais nada a perder, carregando uma dor no olhar que é impossível não sentir empatia. Ela, uma mulher que tem muito em jogo, mesmo com um filho problemático, uma atuação contida de início, mas sempre firme e que vai aumentando o grau de complexidade junto com o desespero de Catherine, e é nos últimos episódios que ela atinge o ápice. Falando no filho, este que é um personagem de uma nota só e com uma atuação muito aquém de Kodi Smit-McPhee, um jovem ator que é muito mais capaz do que mostrou aqui, e Ataque dos Cães não me deixa mentir. Outro personagem patético é o marido de Catherine, feito por Sacha Baron Cohen, que também não está bem no papel, porque mesmo que o texto não ajude, o ator não consegue convencer. Lesley Manville sempre excelente, mesmo aparecendo pouco, tem uma forte presença e quem também merece destaque é Leila George, versão jovem de Catherine, que é muito eficaz em transitar entre a inocência e a sensualidade. Louis Partridge não vai muito além do que se espera, mas não faz feio. Foto: Divulgação Começa ótima, com dois episódios que constroem o suspense e apresentam o enredo e os personagens principais muito bem, utilizando de uma narrativa não-linear para isso. Do 3º para o 4º episódio, a qualidade começa a cair com algumas repetições de dinâmicas que já haviam sido estabelecidas anteriormente, mas ainda me manteve fisgado. O 5º, no entanto, é o fundo do poço. Quer mostrar a derrocada profissional de Catherine, mas o faz de uma maneira tão exagerada que beira o ridículo. É de causar vergonha e não de uma forma intencional. Quando assisti já pensei em compará-la com The Undoing, minissérie da HBO estrelada por Nicole Kidman, que começa fantástica e vai se tornando cada vez pior. Felizmente, no 6º já senti uma leve melhora, no entanto ainda quis me manter pé no chão e fui surpreendido pela 7ª e última hora, que é onde produção se reencontra de vez e consegue encerrar com dignidade. Apesar de irregular, o saldo final da minissérie ainda é bastante positivo. É filmada de uma forma muito elegante, com a fotografia usando tons opacos que às vezes contrastam com a luz solar, enquanto conversam com um ambiente geralmente bagunçado. Há problemas de conveniências no roteiro, isto é inegável, mas se tornam pequenas quando a verdade vem à tona. O desfecho amarra bem a trama com uma reviravolta um tanto previsível, mas que montada de uma forma criativa, traz o impacto necessário, assim como levanta diversos questionamentos e mesmo que responda muitos, ainda deixa brechas pare te fazer refletir sobre maternidade, misoginia, vingança e família, encerrando o ciclo iniciado lá no primeiro episódio de uma maneira forte, principalmente colocando na nossa cara algo que estava lá desde o início e nosso julgamento pré-estabelecido não nos deixou enxergar, ainda mais quando se trata de figuras femininas ou de o amor de uma mãe pelo filho. A traição não é um crime, mas perante a sociedade, parece ser o pior pecado que uma mulher pode cometer e isto a produção mostra muito bem, quando coloca Catherine no olho do furação, parecendo que o perdão não seria uma opção ou sequer o benefício da dúvida. Não quero dar spoilers, então não vou me alongar, mas para encerrar eu diria que “quem ama o feio, bonito lhe parece” é o ditado que mais cabe aqui, sem me referir a beleza exterior. Nota: 3,5/5
- Crítica | Salão de Baile: This is Ballroom
Documentário vibrante registra importante movimento cultural queer à moda brasileira Foto: Divulgação Nas margens da Baía de Guanabara, uma comunidade de jovens resgata e vivencia a cultura dos bailes. Um retrato dos dramas, das performances de voguing e da arte do shade, 50 anos depois do seu início em Nova York. Rio is burning! A cultura ballroom é completamente importada, tanto que muitos dos seus nomes, títulos e elementos se mantiveram tais quais os originais, mas é bater os olhos (e também os ouvidos) num baile feito no Brasil, e por brasileiros, para sentir que tem uma alma nossa que não se acha em quaisquer outros lugares mundo afora. E é exatamente essa brasilidade no movimento que o espirituoso documentário Salão de Baile vem exaltar. Confesso que achei os primeiros minutos confusos, bagunçados, muito som, muita voz, muita cor. E embora eu ache que narrativamente a introdução poderia ter sido mais suave, entendi cedo que não há outra forma de se contar a história do ballroom e as histórias de seus personagens sem excesso. São pessoas intensas, são motivações efusivas tanto sociais quanto pessoais. Através de depoimentos e de narrações divertidas e ácidas, o filme costura a realidade dos grupos que frequentam as casas e os bailes no Rio de Janeiro com a história do movimento cultural, e o resultado é uma trama sempre instigante, interessada e interessante de se ver e ouvir. O longa faz questão de deixar explícito como o ballroom é intrinsecamente LGBTQIAPN+ e negro. E essa universalidade periférica gera um espaço comum no texto onde as associações de personagens nacionais – com vozes e trejeitos exclusivamente brasileiros e cariocas – com personagens internacionais funciona de maneira orgânica e bem desenhada. Foto: Divulgação O filme consegue mostrar com uma métrica espirituosa a estrutura de um baile, suas modalidades e suas etapas. Todas as cenas de performances e danças são bem amarradas visualmente e apresentam uma musicalidade tão afiada que transporta o público para dentro daquele espetáculo. Mas tão importante quanto, e às vezes tão divertido quanto, é ouvir a emoção de quem encontrou naqueles ambientes e em seus próximos um refúgio, uma propósito e uma vontade de viver que até então não haviam achado em suas origens. É comum encontrar falas de integrantes de movimentos sociais e culturais como o samba, o hip hop e reggae afirmando que eles são estilos de vida, para além da óbvia manifestação artísticas, e o que Juru e Vitã fazem em Salão de Baile e ilustrar como o ballroom é um estilo, uma filosofia e uma proposta de encarar a vida, seja como prioridade ou seja como válvula de escape da "realidade". É sem dúvidas o Paris is Burning carioca, no melhor e no mais respeitoso dos sentidos comparativos. Nota: 4/5
- Crítica | Inexplicável
Filme abusa do artificial para não perder o tom emocional da história real Foto: Divulgação Baseado em fatos reais, Inexplicável conta a história de um menino de 8 anos apaixonado por futebol que é diagnosticado com uma doença gravíssima, e de sua família que vai precisar de força e fé para encarar as complicações da doença. Criou-se um preconceito, justificável, com filmes neocristãos que são feitos para grupos de igrejas, com mensagens rápidas e rasas, milagres surpreendentes e trabalhados em cima de muitas dicotomias, onde o certo é o certo (quem tem fé no Cristo branco de olhos azuis) e o errado é todo o resto que se não se converter vai amargar pela vida eterna no calor do inferno. Quando se é baseado em história real então aí é que não há espaço para qualquer refutação em contestar a qualidade daquela produção, porque para o seu público fiel você pode estar blasfemando contra uma grandíssima obra de evangelização. Então acabou que esses filmes ficaram retidos para o seu público que sabe exatamente o que quer assistir e encontra neles o bingo completo, e o público de fora do nicho passou a ignorar a completa existência do subgênero. Foto: Divulgação Pois bem, Inexplicável tem plena consciência que é um desses longas descritos acima, mas faz tudo o que pode para evitar preencher alguns dos pré-requisitos, por várias vezes consegue, mas em outras não há muito o que ser feito. Primeiro de tudo, este é um filme com um rigor técnico de filmagem bem competente em certos elementos: a montagem é esperta, boa iluminação, enquadramentos inteligentes e som bem decupado. Mas todo o restante abusa do exagero e do artificial para induzir, intensificar e por vezes até mesmo forçar emoções que fluíram naturalmente se tivessem espaço para acontecer sem tanta pressão. O maior exemplo disso é a trilha sonora que não deixa o espectador em paz por um minuto sequer, é uma composição dramática literalmente sobrepondo a outra a fim de não deixar o quem está assistindo pensar, só sentir – bem típico de determinadas igrejas e movimentos cristãos. E tudo no texto parece demandar essa intensidade, mas acaba se distanciando da proposta de uma história real e criando cenários engessados, com falas quadradas e pré-moldadas que mesmo as boas atuações não conseguem fugir de soarem repetidas e sem personalidade. Letícia Spiller e Eriberto Leão cumprem com louvor seus papéis de um casal que se balança entre a esperança e falta de fé para tomar as decisões necessárias numa situação delicada. E o roteiro até tenta levantar uns debates éticos e filosóficos sobre os temas, que poderiam ser intensificados com bons diálogos e cenas mais sóbrias, mas isso se perder em meio a vontade desesperadora de fazer o espectador chorar através de frases clichês, muitas lágrimas e muito desespero. Fica aqui o destaque para o menino Miguel Venerabile que apresenta um bom desempenho e um trabalho de corpo melhor que muito ator com uma carreira mais velha que ele. Enfim, Inexplicável é um filme selado e muito bem endereçado, se por acaso chegar em outro destino certamente parecerá mais um genérico, o que não anula os benefícios da narrativa, mas também não se impõe com qualquer traço de originalidade. Nota: 2,5/5
- Crítica | Senna (Minissérie)
Vemos o mito, mas nunca o homem Foto: Divulgação Na última sexta-feira (29), uma das minisséries mais aguardadas da Netflix chegou ao streaming. Senna teve seis episódios e a difícil missão de contar a história do grande ídolo do automobilismo brasileiro. Contando desde o início da carreira do piloto nas pistas de kart até sua consagração e eventual morte nos circuitos da Fórmula 1, a minissérie entrega pouco a mais do que já sabemos da história de Ayrton e fortalece sua figura como um mito, mas nunca vemos de fato quem era o Senna de verdade. Trinta anos após sua morte, seus feitos na pista seguem marcantes na memória de quem viveu e também de quem não era vivo na época, muito graças ao seu apelo e perda precoce, que gerou um enorme fascínio mundial por ele. Todas essas particularidades que tornaram Senna uma figura mitológica da história brasileira reside não apenas no talento surpreendente, mas também na profundidade e na complexidade de sua personalidade, especialmente dentro das pistas. Desde os primeiros minutos do seu episódio inicial, Senna reflete essa magnitude do que foi Ayrton colocando-o sempre como uma figura imaculada, o cara que corre atrás dos seus sonhos, que abdica de viver o que foi, de certo modo, imposto pela sua família para seguir no esporte. E isso, do início até o final da série, demonstra um pouco de como a trama de Senna segue como mais uma biografia chapa branca, onde há uma ode aquela figura e não existem contradições ao seu respeito, com uma imagem imaculada de uma face da sua história, muito disso perpetuado pela família do piloto por trás dos bastidores. Houve, pelo o que foi divulgado pela imprensa, uma certa dificuldade em contar a vida de Ayrton Senna nas telas, mesmo que essa não seja a primeira vez que há um material biográfico autorizado pela família (O documentário Senna: O Brasileiro, O Heroi, O Campeão de 2010, dirigido por Asif Kapadia e vencedor de alguns prêmios BAFTA, é um exemplo). E nas redes sociais, uma das principais polêmicas de Senna atualmente é a presença diminuta de Adriane Galisteu, namorada dele na época do acidente, e uma hipervalorização da história do piloto com Xuxa. Foto: Divulgação Pra mim, o que falta na minissérie é algo muito mais macro do que a participação ou não de um dos relacionamentos amorosos, é que em Senna essas relações são tratadas de modo superficial e com pouco aprofundamento, há, claro, um melhor foco quando falamos de personagens do automobilismo (como Proust) para a vida de Ayrton. Mas de uma forma geral, o que prevalece é algo vago, desde as relações familiares até os relacionamentos amorosos que pouco foram mostrados em tela. Algo que faz muito sentido dentro da construção de um mito sem falhas, mas que peca quando pensamos em outras obras biográficas mais recentes, que abraçam as virtudes e as falhas de seus protagonistas. Mesmo que a presença da personagem Laura Harrison traga uma perspectiva interessante acerca da cobertura jornalística do automobilismo, a condução da narrativa por ela é um artifício fraco e mal utilizado dentro da história como um todo. Mas Senna também tem seus pontos positivos. O destaque principal é o elenco liderado por um Gabriel Leone inspirado na pele de Ayrton. Muito além de aparência física, Leone explora bem os maneirismos, o jeito e as expressões faciais do piloto e emociona muito o telespectador ao decorrer da trama. De forma geral, a série tem um cast muito competente e também uma preocupação visual na caracterização bem fidedigna dos seus personagens. Outro destaque são as excelentes cenas que envolvem as corridas, que são bem dinâmicas, utilizando-se de ótimos artifícios para fisgar os seus telespectadores pelo espetáculo visual, que a série promete e entrega sendo uma das produções mais caras da história do streaming. Algo com certeza deve ter atrapalhado a produção de mais episódios, algo que beneficiaria bastante a trama como um todo. Mesmo com seus defeitos, é muito bom embarcar novamente na história de um personagem tão marcante quanto o de Ayrton Senna. A minissérie consegue emocionar e demonstrar, mesmo que de certo modo, a importância desse personagem para a história do Brasil como um todo. Vale a pena ser assistida por tudo que Ayrton representa, mas a sensação ainda é que há mais a saber sobre ele, indo além do mito que perdura em cima do seu nome e descobrir de fato quem era o homem Ayrton Senna. Nota: 3,5/5
- Entrevista | Fernanda Bond e Valentina Homem falam sobre ‘Um Dia Antes de Todos os Outros’
As diretoras conversam com exclusividade com o Oxente, Pipoca? sobre a produção feminina que coloca o afeto no centro da narrativa Foto: Divulgação O filme Um Dia Antes de Todos os Outros, dirigido por Fernanda Bond e Valentina Homem, narra a história de Marlí (Clarissa Pinheiro), uma empregada doméstica e cuidadora que descobre que o apartamento onde trabalha, de Dona Iara (Elvira Helena), foi vendido, tornando aquele seu último dia no local. Marlí, embora atônita com a urgência da mudança, está ansiosa para retornar à sua terra natal, Olinda. No entanto, ela não esperava que sua filha, Sofia (Marianna Bittencourt), não estivesse disposta a deixar o Rio de Janeiro. Em entrevista exclusiva para o Oxente, Pipoca?, as diretoras Fernanda Bond e Valentina Homem falaram sobre sua parceria artística de longa data, o processo de idealização do filme e a complexidade de trazer à tela três gerações de mulheres muito diferentes, mas que se unem pelo afeto. Quando perguntada sobre o processo de criação e desenvolvimento do filme, Valentina ressalta que Um Dia Antes de Todos os Outros teve uma idealização diferente da tradicional. “Existia um projeto anterior, que era um projeto que o Jô Bilac, que é co-roteirista do filme, tinha me chamado para fazer a adaptação de uma peça dele.”, explicou. “O Jô escreveu um roteiro, a Nathalie, que é outra produtora junto comigo, conseguiu captar um certo dinheiro, um dinheiro muito pequeno, e o tempo foi passando, a gente não conseguiu captar mais, e chegamos a um determinado momento que a gente tinha ali 85 mil reais captados, que não dava para fazer o filme original, e aí a gente ou devolveria esse dinheiro ou a gente faria alguma coisa com ele. Era mais ou menos ali nos anos de 2019 e 2020, ou seja, o Brasil estava vivendo um caos político. Logo depois da pandemia, estava tudo muito difícil.” Foi diante do desafio de fazer um longa-metragem com o dinheiro arrecadado que Valentina entrou em contato com Fernanda Bond para participar do projeto, compartilhando a direção e o roteiro do filme. Fernanda enfatiza que essa inversão de etapas do processo foi importante na hora de preparar a narrativa, já que o filme se passaria em um único dia e em uma única locação. Foto: Divulgação Sobre a parceria entre as duas diretoras, Fernanda diz que a similaridade de ideias sempre marcou a relação. “Eu posso dizer que no meu caso com a Val, não é a primeira vez que a gente colabora. Isso é uma coisa que já vem de muito tempo. A gente entende que queremos falar sobre coisas parecidas, que as coisas que nos afetam desde sempre são muito próximas. Então isso já facilita.” Fernanda e Valentina também ressaltam que destacar as diferenças entre as personagens, mas uni-las através do afeto, sempre foi a premissa do filme. “É um filme que quer falar das relações de cuidado, de ausência de cuidado entre mulheres, mas que o afeto seja o foco central. Então a gente quer que as relações, as questões, as complexidades de classe, de raça que são tão características do nosso país e que são tão profundamente determinantes para as relações de cuidado no nosso país e para a terceirização do cuidado, a gente quer falar sobre tudo isso, mas a gente quer que o afeto esteja, de certa forma, no primeiro plano.”, explica Valentina. Sobre a criação de um senso de linguagem visual, as diretoras explicam que a complexidade da imagem e de criar um senso estético para o filme vem também do próprio modo de fazer. Fernanda comenta sobre a cena final do filme, pessoalmente a mais emblemática. “A gente privilegiou a fluidez da câmera, das atrizes, porque você poderia aprisionar as atrizes e falar assim: olha, fica aqui nesse chiva aqui do chão, se não me saia daí, vamos marcar o foco, mas a gente queria que a coisa fosse se os corpos estivessem de fato soltos no espaço e que a câmera fosse considerada um corpo câmera também.” Nesse mesmo sentido, Valentina complementa: “Desde sempre tínhamos em mente o plano sequência. Por mais que o filme não seja montado com os planos sequências, a gente acabou misturando planos. Inclusive na mesma cena que a gente acabou refazendo outro dia, a gente juntou, mas foi todo filmado em plano sequência e muito próximo das atrizes. Acho que isso era uma coisa importante, que é isso que a Fê falou, de ser uma câmera que tá dentro da cena, que não é uma câmera observadora, que chega perto da pele. Acho que isso tem a ver com o afeto, com esse lugar do cuidado. Então a câmera lá também tá ali dentro dessa dinâmica.” Foto: Divulgação Um Dia Antes de Todos os Outros conta com uma equipe majoritariamente feminina, do elenco até a produção executiva. Para Valentina e Fernanda, isso já é uma grande diferença, especialmente pela falta de costume com esse tipo de dinâmica. O ambiente do set costuma ter uma lógica masculina e ser liderado, em grande parte, por homens. “Foi muito bom trabalhar só com mulheres, e era realmente uma coisa diferente. Porque, se vocês forem pensar, a unidade de cinema é sempre o contrário. Mulheres são exceção fora da cena – atores e atrizes até que é mais –, mas pensando em termos de equipe, imagina o diretor de fotografia, a própria ideia da direção, o roteiro e tudo, se você for botar em números, ainda é uma coisa muito masculina”, fala Fernanda. “Dava essa sensação mesmo de um clima diferente no set. Todo mundo tá muito à vontade e, ao mesmo tempo, colaborando. Acho que tem uma coisa da colaboração, por ser uma equipe muito pequena, e também não ter as hierarquias tão definidas como costuma ser um set de cinema. Todo mundo fazendo tudo. Enfim, enquanto diretora, também fazia milhões de outras coisas, então acho que isso dá uma quebrada.”, ri Valentina. “E não foi um pré-requisito [apenas contratar mulheres]”, acrescentou Fernanda. “Acabou que isso aconteceu, e eu acho que isso sem dúvida impactou, porque os olhares são diferentes. Também tivemos na pós-produção a inclusão de homens na equipe que foram absolutamente incríveis.” Ao final da entrevista, quando perguntadas sobre os avanços da presença feminina no cinema brasileiro, o que já foi conquistado e o que ainda precisava ser alcançado para a construção de um cinema mais feminino e diverso, a resposta das duas foi unânime. “As políticas afirmativas são super importantes para isso, não só para ter mais espaço para as mulheres e olhar feminino, mas também para todas as outras pessoas historicamente marginalizadas. Ainda assim, acho que é um caminho bem longo. Os números, não só no Brasil, como no mundo, mostram que em todas as etapas da cadeia produtiva e de distribuição dos filmes, os homens são 60, 70, 80%. Chegam nos principais festivais de cinema e, de 50 filmes, tem 5% de mulheres; às vezes não chega nem a 10%. É uma longa batalha, uma trajetória que ainda tem muito a ser conquistada.”
- Crítica | Amor da Minha Vida (1ª temporada)
Moderna, série triunfa na naturalidade, mas às vezes peca pela falta dela Foto: Divulgação Abordando as desventuras amorosas dos melhores amigos Bia (Bruna Marquezine) e Victor (Sérgio Malheiros) e aquela confusão mental dos 20 e poucos (ou tantos, até) que todo mundo passa, é impossível não se identificar com a história, o problema é que nem sempre acontece de forma orgânica. Me surpreendi muito com o primeiro episódio, o texto esperto e jovial, a personagem de Marquezine é muito bem apresentada e seu envolvimento com Marcelo (Danilo Mesquita) sendo construído genuinamente. No entanto, nos momentos finais, acontece uma reviravolta um tanto folhetinesca. O problema não é a reviravolta em si, mas como ela pareceu forçada. E é neste tom que a série segue por seus dez episódios, mas felizmente o lado bom prevalece na maior parte. A Bia de Marquezine é a maior força da produção. A atriz está excelente no papel e este, dos que eu assisti, é seu melhor trabalho. Ela está muito mais experiente, madura, segura de si e se entrega ao papel na maior espontaneidade. Sabe chorar muito bem e isso não era segredo para ninguém, mas é nas situações corriqueiras que seu talento se destaca mais. Sérgio Malheiros está muito bem como o coprotagonista, no entanto, seu personagem demora um tanto para engatar. Em Bia, há muito mais humanidade por ela ser melhor desenvolvida pelo roteiro, enquanto do lado de Victor são apresentadas mais características clichês, que perdem um pouco do fator da imprevisibilidade e até prejudica o eventual envolvimento romântico deles, o que não é spoiler. Há química, mas havia mais com outros parceiros de ambos e até o dinamismo entre eles se perde um pouco. Fica clara a tentativa de ser algo meio Normal People, mas só fica na tentativa mesmo. Não significa que seja ruim, só não tem profundidade o suficiente. É como se Bia estivesse no ponto certo, mas Victor não. Foto: Divulgação Outro ponto positivo é a direção de René Sampaio e Tatiana Fragoso e codireção da própria Marquezine. A câmera focando no rosto dos personagens traz uma sensação de intimidade, de estar ali junto com aquelas pessoas, até porque a familiaridade é evidente. Se não rolar uma identificação pessoal, alguém retratado ali te lembra pelo menos um alguém que você conhece. As cenas de sexo são muito bonitas e há uma elegância presente nelas que deixa tudo mais intenso e não menos real. Criada e escrita por Matheus Souza, o roteiro é outro mérito. Junto com seus colaboradores, ele consegue dar muita naturalidade às situações, com gírias e referências bastante atuais. No entanto, às vezes escorrega no exagero em alguns casos e alguns diálogos e circunstâncias soam forçadas com muita exposição. Marquezine tem alguns monólogos fortes sobre essa crise existencial da idade e como eu disse, a atriz está excelente em todos eles, mas o texto em si, em um especificamente, me passa a sensação de “você precisa se identificar” e tira a naturalidade da cena. Entre alguns baixos e vários altos, a série consegue capturar bem a essência das idas e vindas dos 20 e poucos. É comum que alguns ciclos se repitam e isso não me incomoda em um período da vida onde tudo que temos são incertezas e isso é bem retratado nos dez episódios de quase quarenta minutos cada, onde há um equilíbrio entre o drama e a comédia – que nem sempre funciona, devo dizer – nunca deixando o clima pesar demais. O ritmo é bom e em momento algum a série se torna maçante, mesmo com os defeitos que eu já apontei. A última cena - da qual eu gosto muito - tem tons de finitude, mas pode ser que haja espaço para mais, porém acho que funciona melhor como uma minissérie, pois uma 2ª temporada poderia ficar repetitiva e colocar a maturidade atingida em jogo. O principal ponto são os erros que nos fazem humanos e é através deles que aprendemos a ser quem somos. É um válido sopro de honestidade. Nota: 3,5/5
- Análise | A Casa do Dragão 1x08 (“The Lord of the Tides”)
A paz termina. Divulgação: HBO Assistir The Lord of the Tides é como ver os momentos finais da calmaria antes da tempestade, uma contraditória e eficiente mistura de (poucos) momentos de genuína felicidade com outros de tensão e muita falsidade familiar. Beneficiando-se de passar em sua maior parte num único espaço tal qual o anterior, Driftmark (embora não cometa o erro deste de um final apressado que o estraga), o episódio se sagra como talvez o melhor da temporada, mostrando House of the Dragon em seu melhor. Não à toa as poucas falhas do episódio vêm justamente dos problemas maiores da temporada. Embora a ausência de Corlys Velaryon (Steve Toussaint) se projete como uma sombra sobre os demais personagens, é desconcertante que a série dependa de diálogos expositivos para apresentar sua condição, ao mesmo tempo em que o pouco espaço dado ao seu irmão Vaemond (Will Johnson) nos episódios anteriores seja um impeditivo para enxergá-lo como um antagonista notável na sua busca pela sucessão da Casa, em detrimento da legitimidade dos filhos de Rhaenyra (Emma D’Arcy). Por outro lado, os novos atores que interpretam os filhos de Rhaenyra e Alicent (Olivia Cooke) mergulham com facilidade nos personagens, especialmente Ewan Mitchell como Aemond, que compõe um personagem assustador e de poucas palavras. Ao mesmo tempo, os talentos de D’Arcy e Matt Smith permitem que vejamos com naturalidade a evolução do casamento dos dois, enquanto Cooke traz mais lados da sua personagem, seja no aparente fervor religioso quanto na hipocrisia de acobertar os abusos sexuais de seu próprio filho Aegon (Tom Glynn-Carney). Porém, se há um nome que merece destaque nesse episódio, é mais uma vez Paddy Considine como Viserys. Desde o terceiro episódio defendo que ele criou uma versão do personagem muito mais interessante que a dos livros, e se o recurso da sua doença pode soar “demais” para transmitir suas fraquezas, aqui é bem-sucedido por revelar tudo que há de mais trágico sobre ele, o que é ampliado pela excelente atuação de Considine. No fim, Viserys é apenas um homem que queria ver sua família unida, como atesta a excepcional sequência do jantar, mas será para sempre marcado pela tragédia, a julgar pela cena final. Em tudo o nome de Considine merece atenção e louvor, trazendo nuances e um retrato emocionante para um personagem que facilmente supera sua versão original. Toda a meia-hora da segunda metade do episódio se mostra o melhor e mais bem-construído final na série até agora, indicando que quando a série quer, ela pode entregar sequências que não soam exageradamente corridas ou que não detraem do que vimos antes. Ainda mais do que o casamento no quinto episódio, aqui a progressão entre a sequência das petições na sala do trono e a do jantar é uma aula de tensão acumulada, ressentimentos, passados mal-resolvidos e temores para o futuro. Ao fim dos muito bem-dirigidos e roteirizados 67 minutos de The Lord of the Tides, a certeza que fica é que House of the Dragon sabe abandonar seus erros quando quer, e que o futuro de seus personagens é sombrio, mas fascinante.
- Crítica | As Polacas
Bom enredo é desperdiçado com execução de muito mau gosto Foto: Divulgação Em 1917, Rebeca (Valentina Herszage) foge da fome e da guerra na Polônia e chega ao Brasil para reencontrar o marido e iniciar uma nova vida. No Rio de Janeiro, ela descobre que seu marido faleceu e acaba refém de uma grande rede de prostituição e tráfico de mulheres, chefiada pelo impiedoso Tzvi (Caco Ciocler). Rebeca transgride suas próprias crenças e encontra aliadas que vivem o mesmo drama. Juntas, elas decidem lutar por liberdade. O cineasta João Jardim pode ter tido as melhores das intenções em retratar uma história tão pungente – e certamente desconhecida para a maior parte dos brasileiros –, mas a falta de tato e de sensibilidade que esse texto carece é perceptível em sua direção. A condução do filme prefere planos fechados onde coloca as mulheres em evidência e consegue transmitir a sensação de aprisionamento e sufoco a que as personagens femininas estão submetidas, o que é uma escolha de estilo compreensiva e até bem empregada. Mas para além disso, todas as outras decisões que são tomadas ao querer evidenciar a violência e os abusos sofridos são completamente questionáveis. O longa tem uma grande adversidade com seu ritmo e tenta usar esses momentos impactantes, por assim dizer, como situações-chave no desenvolvimento do enredo, o que reduz o protagonismo das mulheres ao papel de vítima e não consegue dar a força e a relevância que acha que está dando àquelas personagens. Por vezes o filme parece se inspirar no premiado Entre Mulheres (2022), de Sarah Polley, para tentar construir em cena a rede de apoio feminina que fará com que elas superem seus obstáculos, mas falta diálogos, falta tempo de tela, e falta também profundidade. Se muito do óbvio mostrado nas partes de agressão fosse transferido para a simplicidade da troca entre suas protagonistas, o longa teria uma roupagem mais sincera e mais justa. foto: Divulgação Valentina Herszage mostra porque é um dos nomes de destaque no cinema brasileiro dos últimos 5 anos. A atriz consegue passear por diferentes gêneros com naturalidade e aqui carrega a trama com garra e muito sentimento na voz e no olhar. Caco Ciocler também interpreta bem seu cínico antagonista e contrapõe Valentina com nuances variadas. Jardim é um diretor com muita experiência em televisão e isso reflete em seu novo filme. Os enquadramentos, a montagem e o desenho de som, são alguns dos elementos que mostram seu viés mais enxuto ao arquitetar sua narrativa filmada, o que torna o filme contido, mas não menos impositivo. As Polacas se valida pela urgência de seu tema, como registro artístico-histórico, e como problema ainda vigente, mas provavelmente uma visão feminina (ou mais visões femininas) no tratamento da história traria uma melhora substancial no teor e no resultado. Nota: 2/5
- Crítica | Terra Indomável (Minissérie)
Uma produção caprichada que tenta dar vida a um roteiro pífio Foto: Divulgação Esta era uma das produções que eu estava mais ansioso para conferir neste começo do ano, já por saber do envolvimento de Peter Berg, um dos produtores executivos de Friday Night Lights, e pelo baita elenco. Porém, a máxima seguiu verdadeira aqui: quanto mais expectativas, maior a queda. A trama segue os primeiros anos do desbravamento do Oeste Estadunidense, em meio a conflitos culturais e territoriais, além dos perigos naturais, Sara (Betty Gilpin) e seu filho Devin (Preston Mota) precisam da ajuda de Isaac (Taylor Kitsch,) um então desconhecido, para chegarem a um lugar seguro, mas nada é fácil neste caminho. É o ponta pé inicial e tiro, porrada, bomba e flechas para todo lado, mas infelizmente não consegue passar disso. Mark L. Smith é o criador e escreveu todos os seis episódios, mas não conseguiu dar substância aos vários acontecimentos, por mais que Peter Berg na direção tivesse um ótimo controle das caóticas sequências de ação. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas não ficava confuso em tela e este é um mérito de Berg, porque por mais que o ritmo seja intenso e a violência constante, há pouca evolução na trama, com vários personagens mal desenvolvidos correndo de um lado para o outro com motivações vazias. Uns querem se apropriar da terra e outros querem fugir dela, então a narrativa permanece nessa briga por tanto tempo que a gente até esquece o porquê dela existir. Não há qualquer complexidade, somos jogados no meio do furacão e mal sabemos como estamos ali. Foto: Divulgação O filtro acinzentado prejudica as belas paisagens do Novo México, onde a minissérie foi gravada. É ótimo que tenha sido filmada em uma locação real e há esse capricho da produção, seja nos figurinos ou maquiagens, o design de produção realmente mostra que há um alto valor investido ali, então não deixa de ser frustrante que toda essa pompa não seja bem aproveitada pelo texto. Quando há uma pausa na correria, os personagens tentam se conhecer – e serem apresentados a nós, telespectadores – através de diálogos previsíveis e que não dizem praticamente nada de interessante ou que demonstre qualquer nuance, criando uma tentativa de conexão entre eles que não funciona, apesar do elenco estar dando o seu melhor ali, a química é zero. Taylor Kitsch caiu como uma luva para o papel de Isaac, um homem sem muita expressão e que quer reprimir seus sentimentos, mas com muito instinto de sobrevivência naquele mundo. Betty Gilpin sempre é excelente, mesmo que sua Sara seja exatamente o que se espera dela. Gilpin sabe aproveitar bem suas personagens e tirar o melhor delas com criatividade, mas aqui o roteiro a deixa presa na persona da mãe protetora e ela faz o que pode com o enredo limitado que tem. Destaque para o pequeno Preston Mota, que faz um Devin bastante genuíno e tem uma das melhores sequências, com gritos de arrepiar. Shawnee Pourier também acompanha o trio principal como Two Moons (ou Duas Luas, em português) e apesar de ser uma personagem que desperte curiosidade, não vai muito além disso. No elenco ainda estão rostos conhecidos como Shea Whigham, de Boardwalk Empire, Joe Tippett, de The Morning Show e Kim Coates de Sons of Anarchy, no entanto, por mais que seus personagens apareçam bastante, mal dá para dizer quem são por serem tão mal concebidos, assim como os tantos outros desperdiçados. São pessoas que enfrentam os mais diversos perigos, querendo matar umas as outras, ou até morrer pela própria natureza com algumas condições climáticas bem complicadas. Ao mesmo tempo é que parece não haver um risco real de algo imutável acontecer, eles podem se machucar de forma grave, mas morrer mesmo a gente sabe que só no último episódio, em algum sacrifício heroico. Não é spoiler, porque é fácil levantar esta hipótese assim que os acontecimentos começam a se desenrolar. É uma pena que a minissérie não consiga ir além do que se espera e deixe suas instigantes possibilidades tão mal exploradas como o conflito entre brancos x indígenas, que não passa do raso. Colocar somente ação desenfreada sem aprofundar ou fazer o telespectador se importar com aquilo que está em tela ou com os personagens é uma falha amadora, que pode agradar a tantos, mas a mim só soou repetitiva e um tanto maçante na maior parte dos episódios. Nota: 2/5
- Crítica | Babygirl
Filme se sustenta na excelente performance de Kidman, mas perde o foco e não empolga como thriller erótico Foto: Divulgação Lançado nesta quinta-feira, 9, nos cinemas brasileiros, Babygirl é um dos longas participantes da corrida do Oscar, muito sustentado pela atuação e pelo nome da atriz Nicole Kidman. Na trama, Kidman interpreta Romy, uma bem sucedida mulher de negócios, que comanda uma grande empresa no ramo de tecnologia. Casada com Jacob (Antonio Banderas), um diretor de teatro, e mãe de duas filhas, a personagem tem uma vida perfeita, sem maiores problemas. Até que, um dia, ela conhece Samuel (Harris Dickinson), um jovem estagiário de sua firma, que mexe com seus instintos pelo comportamento incomum. Escrito, produzido e dirigido pela holandesa por Halina Reijn (também responsável pelo ótimo slasher Morte, Morte, Morte), Babygirl se vende como um thriller erótico, mas essa definição, na verdade, mais atrapalha do que ajuda, pois o filme não se equipara a outros filmes do subgênero e parece mais um drama com leve toques de erotismo do que qualquer outra coisa. E se em Morte, Morte, Morte, Halina utiliza-se do terror cômico para fazer uma crítica contundente com a performance das redes sociais, em Babygirl, ela fala de uma subversão das estruturas de poder que moldam as relações interpessoais — e como esse poder é cultivado, mantido e exercido, também por meio das relações sexuais. Mesmo assim, o filme traz características cruciais dos thrillers eróticos da década de 40 e 50 com um roteiro com nuances melodramáticas, a trama coloca as preocupações de uma mulher moralmente ambígua em seu centro, mas falta algo ali para colocar o longa no patamar do gênero. As cenas mais eróticas não empolgam, podem ser bem coreografadas, mas nunca esquentam demais e falta aquela tensão sexual forte entre os protagonistas, por mais que os dois estejam muito bem em cena. Foto: Divulgação E por mais interessante que essa dinâmica entre Romy e Samuel pareça no início, parece que o roteiro de Halina não chega onde ela de fato queria chegar. Seria Babygirl uma crítica ao patriarcado e como ele reduz as mulheres e seus desejos sexuais a segundo plano? Ou a tentativa é mostrar que mulheres no alto escalão de poder ainda querem ser submissas em quatro paredes? Não sei. Mas aqui a ideia não funciona por completo. Mas Babygirl até que instiga. Muito em parte pela atuação de Nicole Kidman, que transforma o filme em algo além do que ele se propõe a ser, especialmente pela dualidade que ela imprime em sua protagonista. Harris Dickinson também está inspirado e tem boas cenas com Nicole. Outro ponto positivo no longa é a direção muito criativa de Halina Reijn, com planos muito interessantes e que conversam muito com a proposta de thriller que ela tentou passar, ornando muito bem com a trilha sonora forte e efusiva, que é bem presente durante todo o filme. A tentativa é válida, mas a impressão que fica é que Babygirl não alcança seu potencial. Uma pena para uma história que cai na confusão de seu roteiro, enquanto poderia ser um transgressor desta temporada de premiações ao tocar em assuntos tão relevantes para sociedade atual. Nota:3/5
- Crítica | Dahomey
Sobre retornos, memórias e pertencimentos Foto: Divulgação Vencedor do Urso de Ouro em Berlim neste ano e representante de Senegal às categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Documentário no Oscar 2025, Dahomey, dirigido por Mati Diop, segue a jornada de volta de 26 peças (entre esculturas, estátuas e outros patrimônios) para o Benim após 130 anos mantidas na França depois que as tropas coloniais francesas as levaram do então reino de Daomé. Diop, no entanto, não segue uma abordagem tradicional no sentido de limitar o filme a entrevistas com personagens e fontes que discutem a importância e as nuances desse evento, mas também borra os limites entre o real e o mágico ao dar “voz” a uma dessas estátuas, dotando-a de subjetividade para que entendamos o quão complexo é esse retorno. A voz etérea da estátua, nem masculina nem feminina, suas reflexões e meditações sobre o que significa “voltar para casa” após mais de um século — pode essa casa ainda reconhecê-la quando tanta coisa mudou? —, a posição subjetiva em que a câmera de Diop nos situa (até mesmo na escuridão da caixa na qual a estátua é levada para o Benim): esses e outros recursos adotados pela diretora conseguem ilustrar com potência a ideia de que não estamos vendo “coisas” sendo devolvidas à sua terra natal, mas sim expressões da identidade, cultura, memória e talvez até mesmo da alma de um povo. Dentre todas as muitas mazelas que a colonização impôs aos povos africanos (e que facilmente ecoam no que foi feito na América também), privá-los de seus próprios patrimônios, ainda que “apenas” os materiais, é um dos mais perversos, conforme ilustrado quando, na segunda metade do filme, um jovem cita que cresceu assistindo Disney, Avatar e Tom e Jerry, mas nunca viu uma animação que contasse a história do reino de Daomé. Foto: Divulgação Esse e outros discursos que povoam a segunda metade — estruturados em torno de um debate em um ambiente universitário — se destacam pela contundência e complexidade da discussão, a respeito das reais intenções da França e do presidente do Benim (afinal de contas, foram apenas 26 de 7000 peças devolvidas até então), o quanto essas peças de fato podem servir à manutenção da memória do país, o acesso de toda a população a elas, e muito mais. Mas, embora aprecie esse bloco e como ele mostra que não há respostas fáceis sobre o assunto, não deixo de sentir que ele é um passo atrás rumo a uma abordagem documental mais convencional, reiterando ideias e sentimentos que a primeira meia hora, mais hipnótica e atmosférica, já vinha cravando bem sem tamanha necessidade de apostar no texto. A despeito dessa mudança sensível de angulação, Dahomey preserva sua força ao retomar o fluxo quase onírico dessa viagem que, mais que geográfica, é histórica, política e emocional. Sim, 26 peças de 7000 ainda é muito pouco para reparar todas as chagas perpetradas pela colonização, mas se sobressai o sentimento de uma das jovens de debate — que diz ter chorado por mais de 15 minutos ao vê-las expostas no palácio do governo. Como poderia ser diferente, quando você enfim pode contemplar a alma coletiva que foi roubada de sua terra? Há um começo, e as escolhas formais e narrativas de Diop, por mais contidas e “pequenas” que pareçam, abrem um leque de possibilidades para que seja discutido (e filmado) o que ainda há de ser feito para que essa alma coletiva seja plenamente recuperada. Nota: 4/5
- Crítica | O Auto da Compadecida 2
Continuação é mais pop, menos naturalista e com o humor que segura as pontas do acabamento apressado Foto: Divulgação O Auto da Compadecida 2 traz de volta a dupla mais querida do cinema brasileiro: João Grilo e Chicó. Matheus Nachtergaele e Selton Mello prometem divertir, emocionar e surpreender o público neste Natal com as novas aventuras de seus icônicos personagens. O filme se passa vinte anos depois da primeira história e mostra a pacata rotina de Chicó (Selton Mello) na mítica cidade de Taperoá, no sertão nordestino. Agora, ele vive da venda de santinhos esculpidos em madeira e conta a história da ressurreição de João Grilo. Seu grande amigo não dá notícias há duas décadas e Chicó acha que ele morreu novamente. Mas eis que João Grilo reaparece vivinho da silva e cheio de planos mirabolantes, que vão virar a cidade de cabeça para baixo. O Auto da Compadecida (1999) foi exibida originalmente como uma minissérie da Rede Globo. A versão compactada em longa-metragem se tornou um dos mais populares filmes brasileiros pelo seu humor afiado, seu roteiro bem amarrado baseado na genialidade do material de Ariano Suassuna, seu elenco encorpado e seus tons naturalista e realista tanto no texto quanto na estética. Na continuação, o elenco continua excelente, o humor continua pungente, mas o restante se equilibra em escolhas que ora parecem fazer sentido, ora não dialogam entre si apresentando uma falta de estabilidade e imprimindo um acabamento apressado. O segundo filme rasga completamente todo o viés naturalista e realista – pegando emprestado as definições literárias – e parte para um tom mais mímico e teatral que destoa por completo do fora apresentado ao público há mais de 20 anos. Me agrada a vontade de testar uma nova proposta, mas não me agrada o resultado quando comparado às escolhas do primeiro. A falta de gravações externas (fora de estúdios) evocou um estilo “novo”, agregando técnicas e estéticas do teatro como o uso de holofotes de iluminação focais que realça personagens e cores. Mas confesso que a falta de luz natural causou uma claustrofobia visual que sufoca involuntariamente. Foto: Divulgação Matheus Nachtergaele e Selton Mello ainda brilham em seus icônicos papeis como se não houvesse uma semana entre os dois filmes. E o roteiro consegue trazer boas sacadas e piadas espalhadas por toda a sua duração. Mas O Auto da Compadecida 2 carece de um mote central convincente que justifique aquele o reencontro dos seus personagens através de um longa-metragem de duas horas de duração. O formato minissérie permitiu que os personagens coadjuvantes ganhassem um considerável espaço de cena e arcos narrativos bem trabalhados – e por aparecerem no texto original do escritor paraibano –, mas aqui a história está intrinsecamente ligada aos dois protagonistas de forma que as personas secundárias não parecem se sustentar de forma independente. O ato final, em específico o ato da compadecida, se apresenta quase como uma réplica do memorável julgamento pós-vida de João Grilo quando deveria ser o ponto-chave de toda a trama. A verdade é que tudo aqui depende da produção anterior, de forma mecânica, para acontecer. E o que frustra um pouco mais é o roteiro usar das meta-piadas como forma de se blindar de possíveis críticas e questionamentos. Então nem como uma obra isolada talvez o longa se resolva melhor do que como uma continuação. Mesmo com seus percalços e repetições, é uma produção que carrega sentimento demais nas camadas mais óbvias e nas entrelinhas, e é constituído sob uma benevolência graciosa e quase cega na humanidade que deixa o resultado com uma aparência inofensiva e quase inocente. Nota: 3/5












