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- Crítica | Um Filme Minecraft
Aventura é artificial, sem lógica e une o absurdo ao ridículo da pior maneira possível. Divulgação Bem-vindo ao mundo do Minecraft, onde a criatividade não apenas ajuda você em suas artes e habilidades, como também é essencial para a sobrevivência! Quatro atrapalhados - Garrett “The Garbage Man” Garrison (Jason Momoa), Henry (Sebastian Hansen), Natalie (Emma Myers) e Dawn (Danielle Brooks) – envolvidos em seus problemas do dia a dia, de repente são transportados, através de um misterioso portal, para Overworld: um bizarro e cúbico país das maravilhas onde impera a imaginação. Para voltar para casa, eles vão ter que saber tudo deste mundo (além de protegê-lo de criaturas malignas como Piglins e Zumbis) ao embarcar em uma missão mágica na companhia de um experiente construtor imprevisível, Steve (Jack Black). É preciso aplaudir a coragem que Um Filme Minecraft tem de ser ridículo. Nos primeiros minutos de tela em que Jack Black introduz a história já é perceptível o tom irreal e bizarro que o filme vestirá. Não há qualquer pudor ou anseio de ter um resultado menos do que cafona, mas a que ponto isso por si se sustenta? Porque para mim quando um filme exagera a ponto de se blindar de todo contraponto afirmando que a sua intenção sempre foi esse “ridículo” ele só expõe o vazio presente em toda a estrutura. Nada faz qualquer sentido no roteiro, escrito por cinco pessoas. Não existe apelo, não existe causa, não existe consequência e nem existe contexto. O argumento abre e fecha tentando passar uma mensagem do poder da criatividade e da imaginação, mas durante todo o meio isso não é anulado por incontáveis bobagens executadas por personagens ruins, falas ruins e situações que não adicionam em nada a uma estrutura narrativa hipotética. Sempre assumo quando acontece e não tenho problemas com isso, mas sim, eu ri em umas quatro ou cinco piadocas presentes num poço infinito de piadocas ruins, então a comédia provavelmente vai acertar vários públicos em momentos diferentes porque ela atira para todos os lados. Divulgação As atuações de Jack Black e de Jason Momoa convergem para o mesmo caminho, mas é difícil de assistir a Danielle Brooks tentando achar lugar para o seu talento naquele circo de moldado por efeitos visuais horríveis que muitas vezes parece estar fazendo pouco caso do espectador, como se ele também fosse uma piada ruim. Em nada o filme deixa a desejar ao também desastroso Harold e o Lápis Mágico (2024), e na verdade eu acho que chega a ser mais covarde que o filme do lápis de cor porque usa da estranheza (uma estranheza calculada e nada orgânica) como artifício para tapar buracos, justificar erros e validar toda a bagunça realizada em cena. Enfim, torço para que outros (pelo menos as crianças) menos amargos do que eu se divirtam mais do que consegui, embora eu custe acreditar que entre os adultos tenha quem ache esse tipo de conteúdo minimamente bom se não for pelo pleno exercício da pós-ironia. Nota: 1/5
- Crítica | Onda Nova (1983)
Um filme que escancara o quanto nos tornamos jovens caretas. Divulgação “Futebol me fascina, é espetáculo, é show, é arte”, uma frase que é dita nos minutos iniciais de Onda Nova e que representa o Gayvotas Futebol Clube, time feminino que subverte o futebol com mulheres livres que reagem a um estado de espírito de uma juventude reprimida pela ditadura no Brasil. Filme dirigido por José Antonio Garcia e Francisco “Ícaro” Martins, foi censurado em 1983 e retorna em versão restaurada com distribuição da Vitrine Filmes. Curiosamente, o longa que expõe a emancipação das mulheres foi lançado no mesmo ano em que o futebol feminino foi regulamentado no Brasil. E, ao acompanharmos um time paulista de futebol feminino, somos levados a uma narrativa de uma espécie de coming-of-age da Boca do Lixo, abordando sexualidade e identidade de gênero de maneira libertadora, quase como um respiro em meio ao período final da ditadura, como uma resposta à repressão. O filme parece tão contemporâneo justamente por retornar 40 anos depois e se deparar com uma juventude que pouco evoluiu de lá para cá, uma juventude entorpecida com atitudes moralistas que acredita que sexo em filme é desnecessário. Justo o sexo, que em Onda Nova permeia todo o discurso; no filme, é a partir do sexo que o filme levanta suas questões, como a liberdade, o descobrimento, o aborto e o desejo. Um filme sem limites e sem rótulos, um filme sem nenhuma jornada para explorar, prova que, além de tudo, a liberdade é narrativa. Ter um filme brasileiro cujo sexo e futebol são os pilares do prazer é justificável por si só. Confesso que estou curioso para saber como será a recepção desse filme 40 anos depois, após a sociedade ter dado alguns passos para trás e ter abraçado a onda conservadora. Será que estão preparados para ver uma moça pedindo para o Casagrande tirar a virgindade e o Caetano Veloso usando um táxi como motel? O espírito de juventude de Onda Nova tem todo o seu potencial explorado nas personagens femininas, que vivem seus dilemas de uma juventude universal e de qualquer época. Amor, sexo, drogas, descobertas, decepções. Todos os elementos que compõem uma juventude, mas o grande diferencial é a coragem e ousadia de ter filmado isso dentro da ditadura. É um grito coletivo por liberdade, que prova que só pela transgressão vamos alcançar certos lugares. Divulgação O elenco é cativante e tem participações diversas, já que as cenas não são tão amarradas dentro da jornada que o filme percorre. Destaque para as personagens Lili (Cristina Mutarelli), Rita (Carla Camurati) e Neneca (Neide Santos), que vivem jovens mulheres se descobrindo na cidade grande. A emancipação de tais personagens vem através das relações amorosas, nas quais a sexualidade feminina é evidenciada pouco a pouco durante a trama, seja da personagem jogando o absorvente fora antes da transa, engravidando e logo depois tendo apoio das amigas para realizar o aborto, ou até mesmo ajudando a amiga a dar “fuga” na família. Onda Nova é divertido porque sabe rir do estado das coisas, sabe o quanto é ridículo ser careta. Não se curva a nenhum tipo de convenção, não permite que ninguém dite as regras e se permite ser livre em sua trajetória. O cinema brasileiro leva uma memória efervescente através das pornochanchadas, e torcemos para que as distribuidoras continuem resgatando essas obras e levando para o circuito comercial. Como diz a música de Tim Maia: Vale tudo!" Nota: 4/5
- Crítica | Oeste Outra Vez
Erico Rassi cria retrato sensível e áspero de um universo masculino desgarrado. Divulgação No sertão de Goiás, homens rudes e incapazes de lidar com suas próprias fragilidades são constantemente abandonados pelas mulheres que amam. Tristes e amargurados, eles se voltam violentamente uns contra os outros. Em seu primeiro longa-metragem, Comeback (2016), o cineasta Erico Rassi já havia mostrado sua afeição ao gênero western bem ao seu estilo. O cenário quase sempre vazio rimando o estado “espiritual” de seus personagens, as poucas e monossilábicas palavras, o machão cheio de sentimento reprimido. E em Oeste Outra Vez ele expande essas alegorias para mais personagens e mais paisagens autóctones com uma narrativa direta, mas cheia de subtexto. A começar pelo título brilhante que referencia o gênero, referencia o Centro-Oeste brasileiro e acaba por ser também uma auto referência retomando o seu primeiro longa. Rassi transfere a tensão constante dos filmes de bangue-bangue para um contexto bem nosso (e por nosso cabem: brasileiro e masculino). O longa gira em torno da mulher, da presença feminina que aqui vira ausência feminina. A macheza revestida de fragilidades substitui o excesso de confiança e propósito dos protagonistas dos clássicos spaghettis. A tensão se constrói também em cima da falta de diálogos, na produção, o silêncio comunica tanto quanto – e às vezes mais do que – as falas. Existe a necessidade palpável de externalizar sentimentos, de verbalizar palavras de dor, afeto, e raiva, mas homem que é que homem não fala, não chora, não encosta, quase não sorri, e só sente porque é involuntário. Oeste Outra Vez também deixa à mostra o papel da mulher naquela realidade, como um acessório, seja de troféu pela conquista de micropoder entre os homens, ou seja como uma medalha de honra porque ter conseguido ter alguém para passar o resto dos seus dias, “uma mulherzinha para fazer companhia”. O texto de Rassi também brinca com um humor duro e quase involuntário existente entre seus personagens mal resolvidos, uma ironia presente na eterna e cordial guerra fria de egos rivais almejando a mesma meta: uma dignidade que só existe no plano das ideias. Interessante é ver também como aqueles homens trabalham sua codependência no trabalho e na socialização, “é bom ter uma pessoa por perto que é um ajudando o outro” é a forma mais próxima de demonstrar o apreço pela amizade, mesmo marcado a ferro quente pelos parceiros de trabalho eles são como família onde “um cuida do outro”, e onde cuidado significa meramente a manutenção básica da vida. Divulgação A direção é impecável, o filme é enxuto, bem distribuído, com uma montagem limpa e precisa que cria a dinâmica natural e diluída da narrativa. A imagem é rica em sua simplicidade, é um trabalho bem iluminado, bem enquadrado, bem desenhado em uma cenografia que altera entre os planos abertos e iluminados das chapadas goianas e os ambientes fechados e escuros de bares e casas populares. O desenho de som translúcido também ajuda a compor a aclimatação das paisagens do longa. Erico Rassi é goiano, e talvez por essa razão óbvia e outras questões subjetivas o oeste escolhido tenha sido aquele, mas é uma história tão universal, é uma abordagem tão cirúrgica e são temas tão pertinentes que, completando o que falei no início, o argumento seria facilmente adaptável para qualquer interior do país e certamente de vários outros lugares do mundo, afinal, homem, machismo e patriarcado existem onde quer que seja, e os parâmetros são de mal a pior. Nota: 5/5
- Análise | Ruptura e o Refinamento do Macro Sentimento
Uma análise do último episódio da temporada e as coisas que fazemos por amor... ou deixamos de fazer. Divulgação Começando o episódio exatamente de onde o anterior nos deixou, agora Cobel e Devon desenham para o Mark Interior o plano para salvar Gemma da Lumon, mas para que ajude, ele precisa ser convencido, obviamente. E quem tem esse papel é o Mark Exterior. Os dois conversam se gravando, o Mark Interior fica dentro da cabana, enquanto o Mark Exterior vai para a varanda assistir a resposta e gravar a sua. É uma bela jogada da série e reflete seu dilema principal: por mais que dividam o mesmo corpo, o Interior e o Exterior têm personalidades diferentes e os argumentos são válidos de ambos os lados. O Interior tem o senso de responsabilidade com a esposa do seu Exterior, mas seu verdadeiro amor é Helly, então eles deixariam de existir se o plano feito por Cobel fosse totalmente executado. O Mark Interior precisa completar o Cold Harbor, último estágio de Gemma, ir ao andar onde ela está, lá o Mark Exterior retomaria, resgataria sua amada, depois o Mark Interior assumiria quando voltassem ao andar da ruptura e levaria Gemma à escada, onde ambos voltariam a ser seus Exteriores fugindo juntos. Perceberam o impasse? Pois é. São dilemas complexos que chegam ao seu clímax neste episódio e funcionam porque houve uma construção muito bem pensada sobre Mark S./Helly e Mark/Gemma. A temporada tem falhas, algumas que poderiam até ser sanadas aqui, mas não foram. No entanto, o desenvolvimento destes personagens e suas relações não é uma delas. O mesmo eu não posso dizer de Cobel. A série gastou um episódio inteiro sobre ela para tentar nos convencer de que era possível ela mudar de lado depois de tantos anos sendo devota a empresa e falhou. Esconder o jogo em uma hora que deveria aprofundar a personagem foi um desperdício e ela continuou como uma folha de papel branca, só que ganhou alguns rabiscos. Cobel era conivente com absolutamente toda destruição que a Lumon causou na sua cidade natal até então, e por isso não dá para comprar que este seja um fator na mudança dela. O intuito era nos trazer a este momento, onde ela “explicava” o que era Cold Harbor e ajudar no resgate de Gemma. Falarei mais sobre Cold Harbor e o pouco que descobrimos sobre isso depois. Quando o Mark Exterior chega à Lumon para finalizar o tal Cold Harbor, ele ainda tem dúvidas se executa o plano, mas é convencido por Helly, em uma belíssima e emocionante conversa entre os dois sobre o ser ou não ser da questão. Adam Scott e Britt Lower se destacaram na temporada pelo talento e pela dualidade daquelas pessoas, sem perder a humanidade, e esta cena é prova disso. Os olhos marejados refletiam o sentimento genuíno que um nutre pelo outro a importância das decisões tomadas aqui, ganha muito mais substância. O “te vejo no Equador” mostrava que ainda não era a despedida. Cold Harbor finalizado, Mr. Milchick aparece com uma fanfarra para fazer um show em comemoração em uma genial sequência tão estranha quanto engraçada e mais um atestado de que o Emmy de Ator Coadjuvante em Drama deste ano não pode ser de ninguém além do incrível Trammel Tillman. O personagem foi um dos destaques da temporada e um antagonista muito mais bem trabalhado do que Cobel, por exemplo. Há muita nuance envolvida na relação dele com a Lumon e espero que explorem mais isso no futuro. Divulgação Em meio a fuga de Mark do evento, Helly consegue prender Milchik no banheiro, mas não vai conseguir segurá-lo por muito tempo, até que Dylan G. aparece para ajudar a amiga. Depois que o seu Exterior não concordou com sua demissão, ele volta à Lumon e decide ficar, devido a contra argumentação de que ele precisava existir ali. O triângulo amoroso do Interior/Exterior com sua própria esposa foi mais uma trama que terminou de forma apressada. Começou muito interessante, levantando várias possibilidades, mas pouco foi desenvolvido pelo roteiro e jogado para escanteio. Assim como os arcos de Burt e Irving, que continuamos a saber pouquíssimo. Senhorita Huang, entrou e saiu e não disse muito a que veio, além de saber que Lumon investe em mão de obra infantil. São tramas começadas e que pareciam pensadas a longo prazo para uma temporada que aparentemente teria episódios suficientes para contá-las de uma maneira satisfatória. Mas a impressão que fica é que os roteiristas foram avisados de última hora que precisavam ser encerradas e fizeram de qualquer jeito. E estes não foram os únicos problemas, mas também falarei mais depois. Enquanto Mark corre para chegar a tempo de salvar Gemma, ela está dentro da sala de Cold Harbor, na qual o último teste consiste em desmontar um berço, remetendo a uma das maiores dores da sua Exterior. Ela é assistida pelo Dr. Mauer e pelo próprio Jame Eagan, que anseiam pelo resultado. Ao chegar perto do elevador, Mark é impedido por Drummond, em uma sangrenta luta física onde nosso herói estava em clara desvantagem. A violência não é muito usada na série, então foi uma surpresa positiva, e ela continua com a chegada de Lorne, personagem de Gwendoline Christie para salvar Mark. Cansada e frustrada de ter que matar cabritos, ela desconta toda sua raiva acumulada em Drummond e incorpora Brianne de Tarth em um visceral corpo a corpo, mas é impedida de finalizar por Mark, que precisa que Drummond viva pelo menos para levá-lo ao andar de Gemma e por um acidente tragicômico, o executivo grandalhão morre após cumprir seu papel, felizmente. Para desespero de Eagan e Mauer, Mark consegue entrar em Cold Harbor tirar Gemma de lá. No corredor, ambos são seus Exteriores e a cena de reencontro é muito comovente, atingindo as expectativas de tanto tempo de espera. No entanto, a frustação de Eagan não causa o impacto necessário porque nos falta mais informações sobre Cold Harbor. Qual a finalidade? É algo com a juventude dele? O porquê de ser especificamente Gemma? Estas são algumas entre as muitas questões e saber que Mark refinava as personalidades das 24 Interiores dela simplesmente não é o suficiente. No elevador, durante um beijo apaixonado, Mark volta a ser Mark S. e Gemma volta a ser Mrs. Casey. A cena é engraçada por natureza, porque afinal ali eles são apenas colegas de trabalho. Ainda assim, eles continuam sua fuga e o Mark Interior cumpre sua parte de levar Gemma até a escadaria, só que com um porém: Helly aparece de última hora, o “encontrando no Equador”, para o que poderia ser uma despedida. Tudo nos levou aquele momento. Mark S. escolhe ficar com sua amada, em meio ao caos, alarmes soando e luzes vermelhas, ele prefere este mergulho no escuro com alguém que ama do que uma vida sem ela. “Eles nos dão metade de uma vida e esperam que não lutemos por ela?” diz Helly em um discurso tentando convencer a banda de fanfarra a ajudá-la anteriormente. Isto sumariza o episódio e a clara divisão que há entre seres Interiores e Exteriores. Há uma teoria que neste episódio seria Helena no lugar de Helly, novamente. Considero totalmente infundada e não faria o menor sentido com tudo que vimos até então, que Helena vivesse estes grandes momentos ao invés de Helly. A temporada termina com os dois correndo pelos corredores da Lumon rumo ao desconhecido. Não fazemos ideia do que vem depois e nem eles, imagino. Estando juntos, é o que vale. Não é um plano muito pensado, mas o amor é o sentimento mais forte e é por ele que eles são guiados. Acho que o principal é que não existe certo ou errado nesta situação e parte daquela máxima de “todos somos vilões na história de alguém”. Foi egoísmo do Mark Interior não ir com Gemma? Foi. Mas quando ele olha para aquela mulher gritando do outro lado da porta e não sente nada por ela, olha para o outro lado e vê o amor da sua vida, o que você faria? Eu sei o que eu faria. Enquanto isso, uma Gemma desesperada vê a chance de recomeçar com o homem que ama, depois de tanto sofrimento, se esvair entre seus dedos. Fisicamente, é o Mark dela. Emocionalmente, é o Mark de outra. De Helly, que também não está disposta a voltar a ser Helena. Os Interiores querem viver, ao mesmo tempo que não dão voz ou vez ao que os Exteriores sentem. Você é livre para torcer por qualquer um dos casais, mas ciente de que não há certezas e verdades absolutas. É por dilemas carregados de complexidade assim, onde nada é tão preto no branco, que Ruptura se destaca entre a quantidade absurda de produções que temos graças aos streamings hoje em dia. Tem falhas, mas se peca no desenrolamento mitológico, se sobressai no lado humano da coisa. E o ser humano é o núcleo. Foi um ótimo episódio – visualmente irretocável, como de costume – que funcionou muito bem como final de temporada. Adrenalina, ação, humor, drama, romance, uma combustão de sensações que me deixaram na ponta da cadeira. Mas é inegável que faltam respostas mais claras aqui. Obviamente nem tudo pode ser respondido, pois a série acabaria, mas o conceito da chamada mystery box, em tradução livre “caixa de mistérios”, é que uma resposta leve a outras perguntas. Aqui faltam respostas, o que nos dão é muito pouco para que a mitologia evolua. Alguns personagens são bem desenvolvidos, outros são deixados de lado, bem como tramas que pareciam importantes e deram em pouca coisa. A reintegração supostamente seria o cerne da temporada e o que vimos episódio a episódio foi praticamente uma repetição, e pareceu que o único ponto era Devon se desesperar e ligar para Cobel, reincluir a personagem na trama, alguém que ela não teria qualquer razão para confiar. Do mesmo jeito, o Mark Exterior oferece ao Mark Interior a reintegração como uma alternativa e nos soa a coisa menos plausível até então, já que pouco se mostrou funcional e em prática pouco funcionaria para o dilema de um ser apaixonado por Gemma e outro por Helly, que também deixaria de existir, já que é muito improvável que Helena toparia passar pelo processo. Algo que começou no episódio 3 e praticamente não saiu do lugar até o episódio 10. Tivemos excelentes episódios até pouco mais da metade da temporada e até então, havia pouco para se falar mal. No entanto, nos episódios 8 e 9 ficou claro que havia um problema na estrutura dela e por melhor que tenha sido o final, não conseguiu superar “The We We Are” justamente por conta destas questões. No vindouro 3º ano, espero que continuem desenvolvendo bem os personagens – a maioria deles, pelo menos –, afinal é deles que uma boa série de drama é feita, mas sem nos dar apenas migalhas de respostas, já que também é uma ficção científica. A série precisa devolver a confiança de tanto tempo de espera ao telespectador, e tudo bem que nem tudo precisa ser respondido, mas algumas coisas são essenciais para o progresso da narrativa. Não partilho da decepção da temporada completa e o saldo é muito positivo. Ruptura continua como uma das melhores séries da atualidade, aborda dilemas humanos complexos e profundos, tendo como pano de fundo uma história de mistério e ficção científica. Ela só precisa encontrar a harmonia entre seus dois “eus”, com o perdão do trocadilho.
- Crítica | The Alto Knights: Máfia e Poder
Confuso e desordenado, filme parece um mosaico de várias referências que não forma qualquer imagem. Divulgação The Alto Knights acompanha a disputa pelo controle das ruas de Nova Iorque por dois dos mais notórios chefes do crime organizado da cidade, Frank Costello (De Niro) e Vito Genovese (De Niro). Uma vez melhores amigos, ciúmes mesquinhos e uma série de traições os colocam numa rota de colisão fatal que vai transformar a máfia (e os EUA) para sempre. Esse é o tipo de filme que se traja e se porta como os filmões cânones do seu gênero, e a olho nu pode até passar a impressão a um espectador desavisado de que se tem ali um trabalho refinado. Mas basta passar pelos primeiros 30 minutos para detectar a bagunça de estilo e de diegese ao se contar aquela história. O cineasta Barry Levinson é um nome para lá de experiente em dramas criminais, assim como o roteirista Nicholas Pileggi, que escreveu simplesmente Os Bons Companheiros (1990), já tem um passado com uma escrita de referência em filmes de gângsters. Mas aqui não há denominador comum para os autores e o resultado deixa bem à mostra a falta de unidade. É uma confusão de abordagens que não dialogam entre si, hora quer se vestir de documentário, hora tenta focar na dramatização, hora é dominado por uma narração que depois é esquecida por um bom tempo, e isso compromete, de forma especial, a cadência do filme que fica sem ritmo e sem impulso. Divulgação A carreira de Robert De Niro foi marcada por personagens de mafiosos italianos nos EUA em alguns dos principais títulos do cinema, então tentei ver a opção de trazê-lo para fazer ambos os protagonistas como uma espécie de homenagem "hors concours" a sua contribuição, porque fora isso não existe qualquer motivo aparente para ele dar vida aos dois papeis. Papeis esses que, mais uma vez, ele desempenha redondamente bem e com uma facilidade aparente, mas talvez se dividisse o espaço de cena com outro ator a narrativa ganhasse mais cores do que conseguiu. The Alto Knights é um filme feito por mãos experientes, mas que numa urgência tardia de tirar o enredo do papel acabaram por usar de recursos já preestabelecidos no gênero que não harmonizaram e construíram um produto datado e sem pontuações. Parece uma história já contada infinitas vezes no cinema estadunidense, e de formas bem mais inspiradas. Nota: 2/5
- Entrevista | Tania Vincent e Ricard Cussó falam sobre a nova animação “Deu Preguiça”
Os diretores do longa compartilham os bastidores da produção, desde a dublagem até o equilíbrio entre humor e emoção. Divulgação Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca, Tania Vincent e Ricard Cussó, diretores da animação australiana Deu Preguiça, compartilham os detalhes da criação do filme. Eles falam sobre o processo de reunir uma equipe para desenvolver a ideia, a escolha dos atores ideais, como tornar a história envolvente para públicos de todas as idades e também suas animações favoritas de todos os tempos. Deu Preguiça (A Sloth Story) conta a história de Laura, uma preguiça que se muda com sua família para a cidade grande sem nada além de um livro de receitas de sua família latina e um velho e enferrujado food truck. Porém, a deliciosa comida logo chama a atenção de uma esperta chita chamada Dotti. O filme faz parte da franquia The Tales from Sanctuary City, que já inclui seis filmes sobre animais australianos que residem na chamada Sanctuary City. A animação já está em cartaz nos cinemas de todo Brasil. Ana (Oxente Pipoca): Primeiramente, queria parabenizá-los pelo filme. Tenho que dizer que gostei muito dos personagens e do estilo da animação. E queria perguntar: como a ideia desse projeto começou? De onde surgiu esse conceito de preguiças comandando um food truck? Tania Vincent: Acho que nós tentamos imaginar qual animal seria engraçado de assistir comandando um food truck. Como as preguiças são bastante devagar e, quando você pensa em um food truck, imagina um ambiente muito rápido, achamos que seria um casamento perfeito. O que sabíamos que queríamos era que a filha, Laura, fosse bem rápida e que a família fosse bem devagar, mas não queríamos que a história fosse apenas sobre isso. Então, tentamos realmente nos aprofundar nesse conceito de velocidade, e ele meio que se transformou em uma história sobre tempo, memórias e o que tudo isso significa. O food truck e as preguiças eram a metáfora perfeita para contar essa história de verdade. Ricard Cussó: Sim. Tudo começou porque a Universal, na Austrália, tinha essa ideia de criar um universo cinematográfico de animais australianos, todos interconectados entre si. Então, a equipe se reuniu em uma sala e lançamos umas dez ideias diferentes. Acho que o conceito original veio dessa sessão de pitching para a Universal e, como a Tania disse, pensamos no que seria divertido de ver em um food truck e quem estaria comandando esse food truck. Então... surgiram as preguiças! E foi um filme muito especial para mim também porque sou da Espanha. Nasci em Barcelona e minha esposa é mexicana, então passei muito tempo no México. Foi incrível que eu finalmente pudesse codirigir um filme sobre a cultura latina. Há tantos easter eggs e pequenas ideias que colocamos lá para prestar homenagem e respeitar as tradições e a cultura do México – seja com a comida, os personagens, as cores ou os cenários. Além disso, poder dirigir em espanhol, minha língua nativa, foi incrível. Uma experiência muito, muito boa. Ana (Oxente Pipoca): Vocês poderiam compartilhar como o processo de codireção funcionou entre vocês dois? Houve algum desafio específico ou talvez momentos memoráveis durante a produção? Tania Vincent: Eu e Ricard tivemos muita sorte porque já trabalhamos juntos muitas vezes. Comecei como animadora no filme de Ricard. Ele estava dirigindo o primeiro filme da série Tales. Comecei a codirigir com ele em seus filmes e, então, nós meio que invertemos os papeis. Eu estava dirigindo Deu Preguiça, e ele veio e me ajudou muito. Uma vez, eu li que um codiretor e um diretor são como um telescópio, em que cada um deve olhar para as duas extremidades ao mesmo tempo. Quando eu estava olhando para o quadro geral, Ricard estava olhando para os detalhes, e, quando ele estava olhando para os detalhes, eu estava olhando para o quadro geral. E eu acho que falamos nosso próprio idioma agora. Quando damos notas para a equipe, se um de nós não estiver lá, o outro pode meio que traduzir para todo mundo o que queremos e o que estamos falando. A animação é um processo tão grande, e você tem que criar cada coisa que ouve ou vê na tela. Por isso, ter essa pessoa com você, que está supervisionando o filme junto com você, é uma ajuda enorme. E acho que é por isso que, na animação, o codiretor está se tornando um papel tão importante e muito mais popular. A Disney, a Sony e todo mundo estão começando a fazer isso. Então, sim, acho que nós dois somos muito, muito sortudos e espero que façamos isso de novo. Não sei (risos). Ricard, como você se sente? Ricard Cussó: Uma coisa que Tania não mencionou é que ela é uma animadora incrível. E eu não faço animação! Eu venho de uma formação em cinema live action, e Tania está nessa indústria há tantos anos. Então, ter alguém que sabe exatamente como se comunicar com os animadores e fazer com que cada quadro fique tão bom é incrível. Tania escreveu o roteiro junto com Ryan [Greaves], e a sensibilidade que eles deram à história e ao desenvolvimento dos personagens é incrível. Só o fato de eu poder fazer parte dessa jornada foi incrível. Fiquei muito feliz por fazer parte desse tipo de produção e poder ajudar com o que pude no filme. Divulgação Ana (Oxente Pipoca): Quando estamos falando de animação, as vozes dos personagens são muito importantes para garantir que o tom do filme esteja certo e que as piadas sejam engraçadas. Como foi o processo de seleção dos dubladores para este filme? Tania Vincent: Esse processo foi bem divertido, inclusive. Nós sabíamos que a família precisava ter química. Se a família não tivesse química, esse filme nunca daria certo. Então, nós fizemos uma grande leitura conjunta e tivemos muitas pessoas se inscrevendo para os papeis. Queríamos que as pessoas fossem da Austrália, mas também tivessem essa origem latina. Então, encontramos esse grupo de pessoas, colocamos todos eles em uma sala juntos e simplesmente deu certo. Foi fantástico! Tivemos a oportunidade de gravar com todos em um mesmo ambiente. Você consegue fazer esse tipo de coisa em uma animação. Normalmente, em dublagens, é só você e o microfone. O legal também é que eles conversavam um com o outro, faziam essas piadinhas e acrescentavam coisas novas ao roteiro. Acho que tivemos muita sorte por causa desse processo. Inclusive, o Ricard faz a voz de um personagem neste filme. Ele faz uma voz em todos os filmes. E eu também entrei lá! Nós dois pegamos o microfone e fomos fazer vozes também. Ricard Cussó: Acho que essa é uma das coisas particulares sobre filmes com orçamentos fora do estilo Pixar e DreamWorks, por exemplo. Você tem que fazer mil coisas ao mesmo tempo. Então, às vezes, o filme tem esses personagens aleatórios que não foram escalados, e a gente pede ao nosso editor para dar voz a um desses personagens, ou a gente pede à Tania, ou sobra para mim dar voz a eles. Então, às vezes, temos que entrar lá e fazer. Mas é bem divertido, nós gostamos de fazer isso! E sobre o que a Tania estava falando sobre a dublagem, todos ali falavam espanhol. Mesmo que houvessem palavras que não estavam escritas em espanhol no roteiro, no momento em que a fala era dita, conseguimos um resultado surpreendente. Então, era tipo: “Ei, vamos tentar dizer esta palavra ou esta frase em espanhol, tudo parece mais natural.” Os atores realmente ficaram felizes em ter essa oportunidade porque, como você também sabe, qualquer um que seja bilíngue, às vezes, pode acabar alternando entre idiomas muito fluentemente, muito rapidamente. E é algo tão comum! Poder usar isso no filme foi ótimo. Ana (Oxente Pipoca): O filme fala sobre recomeços, manter as tradições familiares, mas também sobre acreditar em si mesmo e não viver com medo. Como vocês dois veem o papel dos filmes de animação no cinema atual quando se trata de abordar temas complexos de uma forma acessível a diferentes faixas etárias? Por exemplo, eu tenho 23 anos, mas tenho certeza de que meu priminho, que tem sete, também adoraria o filme. Tania Vincent: Acho que o segredo é que as crianças são tão, tão, tão inteligentes. Você nunca deve menosprezá-las. Acho que nunca nos propusemos a fazer um filme que tentasse ser para crianças. Era só fazer um filme que as pessoas quisessem ver. E acho que algo que descobrimos ao trabalhar com esse tipo de filme é que, quanto mais único e pessoal ele é, mais universal ele se torna para o público. Às vezes, são os próprios adultos que têm mais dificuldades em compreender os temas mais difíceis que você está tentando apresentar do que as crianças. Os pequenos simplesmente entendem instantaneamente. Uma questão também é que estávamos preocupados com o tom do filme, já que a personagem da mãe está enfrentando o início de Alzheimer. Nos preocupava como isso seria compreendido pelas crianças, mas elas simplesmente conseguem seguir com a narrativa e levar o tema a sério. Acredito que há muitas crianças por aí lidando com esse tipo de coisa na família, então é legal ter um veículo, como um filme de animação, para que elas possam pensar sobre essas questões. E também acaba construindo uma maneira esperançosa de olhar para isso. Sim, as coisas podem ser bem difíceis, mas se você aprecia o agora com a sua família e se concentra no presente, ainda pode criar memórias e viver uma vida feliz. Foi complexo, mas acho que as crianças são tão inteligentes que simplesmente entendem. Ricard Cussó: Concordo com tudo o que você disse. Eu acho que isso realmente decorre também do que nos fez virar diretores e do que nos fez entrar na indústria. Eu e Tania somos millennials e crescemos com Steven Spielberg e filmes da Pixar. Eles têm uma maneira de contar histórias que agrada tanto a crianças quanto a adultos. Você pode assistir novamente a um filme de Spielberg, ou Up e Toy Story, e, toda vez que assiste, capta algo novo. Acho que crescemos absorvendo esse tipo de narrativa, que gera identificação. São histórias universais, relacionáveis tanto para crianças quanto para adultos. Então, acho que acabamos fazendo o mesmo com nossos filmes também. Ana (Oxente Pipoca): E a última pergunta: eu adoraria que vocês recomendassem três filmes de animação para nossos seguidores. Ah, Deu Preguiça também é uma opção! Tania Vincent: Nossa, essa é a pergunta mais difícil de todas! Ok, acho que definitivamente O Gigante de Ferro, de Brad Bird, é um dos meus filmes favoritos. Toy Story 3 sempre me pega muito, não consigo lidar quando eles estão naquela fornalha. As lágrimas sempre aparecem. E, por último, vou escolher um clássico da minha infância. Eu era totalmente obcecada por A Pequena Sereia. Ricard Cussó: Vou dizer Scarygirl, que é uma adaptação da graphic novel de Nathan Jurevicius. É um pequeno filme australiano que agora não consigo lembrar quem dirigiu [risos], mas veja se você consegue assistir. Eu acho que a Pixar, como mencionei antes, é mestre em contar histórias. Em Toy Story 3, é incrível o jeito como eles capturam a narrativa e fazem uma sequência funcionar tão bem. Por fim, acho que vou escolher O Príncipe do Egito, uma animação 2D. Esse filme foi lançado na época em que a DreamWorks estava crescendo e fazendo Shrek ao mesmo tempo, mas O Príncipe do Egito foi o filme que liderou como a "resposta" para a Disney. E fizeram um trabalho fantástico. Ana (Oxente Pipoca): Perfeito, gente. Muito obrigada pelo tempo e parabéns pelo filme.
- Crítica | Branca de Neve
Inofensivo e bobo, live action se isenta pelas boas músicas e pela vontade de acontecer. Divulgação Branca de Neve da Disney é uma releitura em live-action do clássico filme de 1937. Estrelando Rachel Zegler como Branca de Neve e Gal Gadot como sua Madrasta, a Rainha Má. A aventura mágica remonta à história atemporal com os amados personagens Dengoso, Mestre, Dunga, Zangado, Feliz, Soneca e Atchim. Chegando atrasado para a cansada onda de refilmagens em live action das animações clássicas da Disney, era inevitável que o primeiro longa-metragem de animação norte-americano não ganhasse uma refilmagem toda sua. Por incontáveis aspectos técnicos, a animação de 1937 é um filme revolucionário, que influenciou, direta ou indiretamente, literalmente tudo que veio após o gênero. Mas é também, no fim das contas, uma produção cujo resultado é maior do que sua narrativa, inspirada num conto de fadas alemão. As muitas interpretações e lições de moral extraídas de contos de fadas se tornam perceptíveis na maneira em que aquela história está sendo contada. E neste sentido o novo filme traz lá sua esforçada mensagem sobre justiça, coragem e beleza interior. Sempre digo que não sou contra refilmagens, novas versões e adaptações contanto que elas tenham algum apelo estético ou narrativo que as distingam das primeiras versões e/ou que validem uma motivação de existirem para além da financeira. Aqui o trabalho do roteiro é onde o filme busca ganhar mais força do que a primeira versão. O argumento ganha mais subsídios, mais contexto e mais músicas (e boas músicas compostas pelos premiados Benj Pasek e Justin Paul), para rechear a trama, e o trabalho funciona bem a ponto de se assemelhar às afinadas narrativas da época de ouro das animações Disney. Mas quanto à execução filmada o filme é uma bagunça. É mais uma produção que sofre com a padronização da iluminação opaca e sem vida que desmoraliza o decente trabalho da equipe de direção de arte e dos belos figurinos de Sandy Powell. Por mais digitais que sejam, existem vários cenários que poderiam sugerir tons diferentes e imprimir momentos diferentes e bem marcados pelas músicas e pelos números musicais, mas tudo sofre com o mesmo filtro lavado de baixa saturação que prejudica toda a boa vontade que o filme possui em dar alguma vida àquela história. Rachel Zegler entrega uma Branca de Neve clássica, misturando uma ingenuidade irritante a uma bravura apenas de discurso. Andrew Burnap surpreende com uma atuação comedida. E Gal Galdot tenta ganhar no canto, mas parece sempre faltar um ímpeto na sua vilã que tinha tudo em mãos para desempenhar um papel divertido e relevante. Como também era de se esperar os efeitos visuais contam com pouquíssimos efeitos práticos e bastante digitais. Tudo até que ia bem até a chegada dos anões, criados digitalmente depois de algumas polêmicas e aparentemente renderizados às pressas para a finalização do longa. No quesito do lúdico e até mesmo do absurdo faz todo sentido estes personagens serem, contrastantes, por assim dizer, ao restante dos demais (os reais), mas a verdade é que eles acabam por se tornar distrações dado o tanto que destoam do conjunto (também cheio de pixels criados). Divulgação No mais, não serei hipócrita em dizer que não dei uma risadinha aqui e acolá com algumas piadocas e que não fiquei com a melodia de algumas canções no inconsciente, outro ponto positivo é que ele recria momentos icônicos da animação sem querer reproduzir quadro a quadro. Ainda assim é um filme tímido, que não usa sua grandiosidade financeira para ousar e entregar um produto que, para o bem ou para o mal, tivesse alguma assinatura ou que trouxesse algum frescor. Nota: 2,5/5
- Crítica | Paradise (1ª temporada)
Entre altos e baixos, melodrama e reviravoltas absurdas, não faltou entretenimento. Divulgação Criada por Dan Fogelman, de This is Us, a trama de Paradise se passa em uma comunidade idílica habitada por alguns dos indivíduos mais proeminentes do mundo. Porém, um assassinato chocante acaba com essa tranquilidade, desencadeando uma investigação de alto risco. Esta é a premissa básica da série, e logo de início já dá para notar que há algo estranho, como por exemplo, por que o presidente dos Estados Unidos está morando naquela cidadezinha com tão pouca segurança? A reviravolta final do primeiro episódio responde esta pergunta, mas o faz de uma maneira tão estapafúrdia que eu me questionei se valia a pena continuar vendo a série. Continuei, mas com o alerta aceso de que não deveria levá-la a sério, por mais que o roteiro implorasse por isso em algumas situações. É assim que a narrativa segue, focando em determinados personagens a cada episódio, o que eu gosto, porque é essencial que conheçamos aquelas pessoas e não há dificuldade alguma em assistir Sterling K. Brown e Julianne Nicholson, dois vencedores do Emmy, darem seus shows. Brown é Xavier, o chefe de segurança do presidente Cal Bradford, interpretado por competência por James Marsden, enquanto Nicholson é Samantha, sua chefe de gabinete. Não é fácil escrever mais sobre eles sem dar qualquer spoiler, mas vou tentar. Xavier é um pai viúvo, que tem uma rusga com Cal, de quem já foi bastante devoto, e Brown, sem surpresas, tira o personagem de letra. Cal, por sua vez, é o presidente gente boa, que sente o peso do cargo e não queria muito estar ali, além da pressão familiar. Clichê, eu sei, mas é o que não falta por aqui e Marsden está realmente bem no papel. Samantha é quase robótica, à primeira vista, aquele tipo de pessoa que fará o que for necessário para manter a “ordem”. Graças a flashbacks e a performance de Nicholson, vemos que há uma pessoa por trás da casca. Divulgação A história gira em torno deste trio protagonista, suas ações e consequências em meio ao que, de início, parecia uma série policial, vai se transformando em uma ficção-científica misturada com um drama familiar pesado – afinal estamos falando do criador de This is Us, certo? E a impressão é que está mais apelativo aqui do que na série anterior. A busca de Xavier para descobrir a tal verdade o coloca em um ponto de antagonismo com Samantha e, apesar de haver uma dinâmica interessante entre a dupla, ela é ofuscada pelas reviravoltas que parecem ser o carro-chefe que guia o enredo. Praticamente, em todo final de episódio, há uma grande virada na trama. Algumas fazem sentido e outras são completamente absurdas porque o intuito é mais o choque do que o desenvolvimento, mas te mantém fisgado assistindo e ansioso pela próxima, isso não dá para negar. E geralmente elas vêm acompanhadas de frases de efeito, o que sempre me faz dar uma leve risada, por mais seriedade que a cena queira passar. São oito episódios no total e o sétimo é o melhor deles. Não só da série, como um dos melhores da televisão nos últimos anos. Tendo como cenário um fatídico dia muito importante para a narrativa, a tensão é elevada ao máximo e o drama funciona perfeitamente, com os personagens sendo colocados em situações em que decisões extremas precisam ser tomadas, com grandes consequências em jogo. Este é o valor de uma série episódica, porque enquanto outros podem não agradar tanto, vem um episódio que mostra que a excelência pode ser atingida. No entanto, o oitavo e último, apesar de ter seus momentos, incluindo um ótimo gancho para a já confirmada 2ª temporada, fraqueja na conclusão do assassinato, com um desfecho covarde. Em uma produção que não tinha medo de ousar, a solução me parece um balde de água fria, onde prevaleceu mais uma vez o intuito de chocar do roteiro, mas o tiro saiu pela culatra e foi bastante anticlimática. A série tem conquistado o público e eu entendo o porquê: é fácil se envolver na teia de mistérios de Paradise, que mesmo entre seus altos e baixos, mantém um entretenimento que não exige muito da audiência. Então com toda sua cafonice, é um entretenimento válido. Nota: 3/5
- Entrevista | Erico Rassi fala com o Oxente Pipoca sobre "Oeste Outra Vez"
O diretor comentou sobre suas referências, sobre a escolha do ator Rodger Rogério e sobre a presença feminina no filme. Divulgação Oeste Outra Vez, o western ganhador de 3 prêmios no 52° Festival de Cinema de Gramado – incluindo Melhor Filme –, chega aos cinemas no próximo dia 27 de março. Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca, o cineasta Erico Rassi falou sobre os cenários de Goiás, sobre a presença (e a ausência) feminina no filme e também sobre suas referências. O longa se passa no sertão de Goiás, onde homens rudes e incapazes de lidar com suas próprias fragilidades são constantemente abandonados pelas mulheres que amam. Tristes e amargurados, eles se voltam violentamente uns contra os outros. Você pode conferir nossa crítica clicando aqui. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Eu queria começar parabenizando pelo trabalho, Erico, e dizendo que assisti a Comeback (2016) pela primeira vez na pandemia e eu fiquei deslumbrado pelo filme. E acho que o resultado de Oeste Outra Vez ficou ainda melhor e maior do que o Comeback. Erico Rassi: Muito obrigado mesmo. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Vamos começar, este é um filme que se passa em Goiás. Mas ele tem uma história tão universal que se ele se passasse em qualquer interior, pelo menos do Brasil, ele funcionaria. Se fosse Nordeste Outra Vez, funcionaria também perfeitamente. E não só do Brasil, certamente que em alguns outros países ele seria bem aplicável. Mas é um filme goiano. Como você acha que Goiás reflete no filme? O que você acha que tem de identificação daquele lugar no filme? Erico Rassi: Eu acho que o que é mais goiano é a ambientação. As paisagens do Cerrado, daquela região da Chapada dos Veadeiros que é bem única. Eu já até falei para alguém, eu não lembro quem, que a sensação que tenho é quase como se fosse o nosso Monument Valley, só que em uma escala bem menor, e mais colorida e diversa em termos de vegetação. E em termos de comportamento, eu acho que é isso que você falou, de certa forma ele representa esses interiores do Brasil e talvez vários outros interiores espalhados pelo mundo. São os homens, e os homens têm um comportamento relativamente parecido em relação ao machismo e à validação e cancelamento pelos pelos iguais, né? Não quer dizer que o machismo também não aconteça na mesma quantidade nas metrópoles, ele está presente em todos os lugares, mas eu acho que no interior ele é mais explícito. E é quase como se houvesse até um certo orgulho daquela coisa do macho. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Eu queria perguntar sobre a presença feminina no filme. Existe uma mulher que aparece no começo do filme e que introduz aquele universo sem falar nada, deixando aquilo tudo para trás. Eu queria saber se você chegou a cogitar ter mais mulheres, ou ter uma presença maior daquela mulher, ou não ter mulher nenhuma. Como que a figura feminina se desenvolveu durante a escrita inicial do roteiro até a montagem final do filme? Erico Rassi: É engraçado porque a personagem feminina tinha uma participação maior. Ela ia até certa parte do roteiro, mas eu estava sentindo muita dificuldade em desenvolver melhor essa personagem. Eu sentia sempre que ela não estava integrada naquele universo. Para mim, ela ficava bidimensional. E eu fiz muita pesquisa para tentar desenvolvê-la. Eu fiz muitas e muitas entrevistas com mulheres de diferentes espectros, e mesmo assim, eu não consegui resolver. Quando a gente teve essa ideia de eliminar a personagem feminina e fazer ela abandonar aquele universo de livre espontânea vontade, sair do filme no começo, as coisas parecem que se encaixaram. Então não foi uma ideia pré-concebida essa ausência dela, ela foi algo natural, e ao longo do processo a gente foi chegando a essa conclusão. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): O elenco do filme tá deslumbrante. A gente tem o Antônio Pitanga, que é um cânone, o Ângelo Antônio e o Babu que já têm uma estrada longa no cinema, mas eu vou puxar a brasa para a sardinha do meu conterrâneo. A atuação do Rodger Rogério é um espetáculo, e o personagem de certo modo lembra o personagem de Nelson Xavier em Comeback. Como é que você e o filme chegaram no Rodger, ou como é que o Rodger chegou ao filme, e como é que foi trabalhar com esse ator que nunca tinha sido um protagonista. Como ele lidou com o processo de fazer um personagem tão importante? Erico Rassi: Eu escrevi o personagem do Jerominho para o Nelson, mas ele faleceu durante esses anos entre o Comeback e a produção do Oeste. E eu demorei até um pouco para conseguir me desapegar da persona do Nelson, porque tudo que eu escrevi era imaginando ele naquele papel. Então a gente fez teste com vários atores, consideramos muita gente, nossa, foi o personagem mais difícil de ser escalado. E aí a diretora de casting me apresentou o Rodger e a gente fez uma chamada por vídeo. E no começo eu estava muito inseguro, porque o Rodger nunca tinha protagonizado um grande papel no cinema. Então eu fiquei com aquela coisa assim: “poxa, mas esse cara tem quase 80 anos e nunca fez um protagonista, e o filme inteiro gira em torno dele, será que eu vou bancar isso?” Demorei um pouco para dar esse salto de confiança, mas a gente foi fazendo algumas chamadas de vídeo, ele foi fazendo alguns monólogos. Até que eu fui sentindo mais segurança e a gente falou: "Não, vamos trazer ele de Fortaleza aqui para São Paulo e vamos fazer um um teste presencial com ele." Porque naquele momento ele já era com certeza nosso melhor Jerominho. E aí nesse teste que ele fez presencial eu me decidi, eu vi que ele tinha um diferencial, uma fragilidade, ele trazia um sentimento para o personagem que sabia que ia funcionar. Foi então que eu resolvi confiar e apostar nele. E eu acho realmente que ele é o achado do filme, assim, eu não consigo imaginar o filme com outro ator que não fosse o Rodger naquele papel. Me sinto muito feliz de ter trabalhado com ele e de poder ter ajudado a protagonizar esse filme com essa idade. Ele é um artista que apesar de ter essa carreira musical já consistente, ele ainda é tímido. Assim como eu também, eu também tenho essa timidez. Ele é alguém que não tem ego inflado. Quando a gente estava lá durante a filmagem, Bacurau saiu na capa da Cahiers du Cinéma e o Rodger ali na frente com o violão tocando aquela cena do que eles estão andando para o velório, e aí ele olhou: "Ah, que legal, tal". Mas assim, sem nenhum deslumbramento, sabe? Ele é muito diferente assim, parece fora desse sistema nosso, e acho que ele trouxe isso para o personagem. E isso somou muito ao personagem, o fato de ter uma grande oportunidade já com a idade avançada, no crepúsculo da vida. Divulgação Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Eu queria que você falasse sobre as suas influências. Certamente que você já assistiu a vários westerns na sua vida. Mas existe algum filme específico ou cineasta que você tenha como referência direta? E já queria perguntar também o que é você consome, o que você gosta de assistir? E vou perguntar logo junto se existe algum outro gênero que você tem vontade ou já um projeto para filmar. Erico Rassi: Minhas influências são tipo uma salada. Eu tenho muita influência literária. Durante a pesquisa para o filme eu li muito de literatura regional, li muito Guimarães [Rosa], eu li Sagarana duas vezes. Li, terminei de ler, comecei a ler de novo, tem um conto que se chama “Duelo”, que foi meio que o disparo dramático para o filme, porque ele deu um estalo narrativo. Até ali eu só tinha a intenção de contar uma história sobre esses homens frágeis e violentos numa ambientação de oeste. Então, esse conto do Guimarães me deu um primeiro esboço de uma narrativa, mas que no final mudou bastante e é quase irreconhecível a influência do “Duelo” no roteiro do filme. Mas um filme que eu gosto muito, e eu não diria que é uma influência direta, mas que ele tem uma uma certa influência para mim no sentido de que parece um filme clássico, mas que tem umas pequenas subversões que a gente percebe enquanto vai assistindo é o Shane (Os Brutos Também Amam (1953)). É engraçado que o Shane hoje é meio ignorado, como se fosse um faroeste meio careta. E ele tem algumas pequenas subversões que eu acho que são brilhantes. Tem toda a questão do homem desgarrado com aptidão para violência que chega e que meio que desestrutura aquela família, é um personagem que parece heróico, mas a gente vai ver que ele não é heróico e quem é herói mesmo é o personagem do Van Heflin, sabe? Então eu gosto dessa proposta de contrabandear as questões sem que o espectador perceba isso de cara. Com certeza o espectador sente que tem alguma coisa estranha naquele faroeste em se tratando de herói e vilão. É um filme que eu gosto não pela estrutura dramática, não pela estética, mas acho que por essa possibilidade de trazer pequenas subversões dentro de um de uma narrativa mais clássica. Eu gosto muito de ver coisas mais clássicas, assim claro, no cinema eu tento ver de quase tudo que estreia, mas quando eu estou em casa, eu assino o Old Flix, então eu fico revendo coisas antigas, eu revejo muita coisa. Esse final de semana eu revi Los Angeles - Cidade Proibida (1997), que já vi várias e várias vezes. Esse final de semana eu revi The Killer (1989) do John Woo. Então eu gosto muito de rever, as vezes prefiro do que arriscar [risos]. Eu tenho um projeto que se passa aqui no centro de São Paulo e que são dois detetives incompetentes especialistas em casos de infidelidade conjugal, dois detetives bem vagabundos, bem bem precários. E que são contratados para investigar um caso de infidelidade, mas que vão descobrir que o caso é um pouquinho mais complexo e aí vão ter que lidar com esse submundo paulistano, um ambiente de muita bebida, de muita dificuldade de sobrevivência nesse dia a dia paulistano. Então, é um filme que usa meio um pouquinho do do gênero noir, mas para falar de outras temáticas, para falar do homem que tem que se virar para tentar sobreviver nesse submundo de golpes, de pequenas trapaças. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Agora para finalizar, queria que você indicasse filmes brasileiros que você gosta, que você tem como favoritos e/ou que você acha que o público deveria dar mais atenção. Erico Rassi: Olha… deixa eu pensar em títulos que talvez pouca gente fale sobre… Meu Nome é Tonho (1969) do [Ozualdo] Candeias… e deixa eu ver outro que talvez ajude as pessoas a ampliar o repertório… e Cidade Oculta (1986), do Chico Botelho.
- Crítica | O Melhor Amigo
Musical tropical é um espetáculo energético e apaixonante que não tem vergonha de exagerar. Divulgação Na praia de Canoa Quebrada, o reencontro entre Lucas (Vinicius Teixeira) e Felipe (Gabriel Fuentes) faz acender antigos desejos. Envolto na atmosfera ensolarada e musical do paraíso cearense, Lucas, em busca de uma paixão ardente e incerta, se permite viver as noites coloridas da cidade, mas descobre que Felipe, embora fisicamente acessível, permanece emocionalmente inalcançável. O musical é um gênero com um quantitativo de produções escasso em relação a todos os outros. Com exceção das efusivas superproduções indianas, até mesmo Hollywood, mercado que popularizou o filme musical e se sustentou no gênero por décadas, deixou de demonstrar interesse neste estilo. Aqui no Brasil são poucos os longas que usam da música como diálogo direto ou inserção de pensamento. Apenas por isso, O Melhor Amigo já começa marcando pontos neste escore avaliativo que você parou para ler. A produção é uma adaptação do curta-metragem homônimo do cineasta Allan Deberton, que resolveu recontar a história em vez de apenas expandi-la. O diretor usou, para além das músicas que são inseridas com sagacidade para impulsionar o roteiro, de recursos e alegorias narrativas e visuais que permitiram a história crescer, se desdobrar e criar uma linguagem diferente. Ainda assim o texto foca no presente da relação dos personagens principais, introduzida por um breve prólogo, e carece em se aprofundar em suas causas e consequências, o que traria mais força e alicerce ao roteiro. Vinicius Teixeira é um ator fantástico e guia o enredo com uma atuação cheia de personalidade nos tempos do humor, no canto, na dança e às vezes só no olhar em alguns momentos em que a câmera insiste em fechar o plano bem próximo aos atores. Gabriel Fuentes apresenta completa desenvoltura e se mostra tão à vontade no volátil personagem que não parece ser seu primeiro protagonista nem seu filme de estreia no cinema. A dinâmica dos atores é bem construída numa relação desencontrada de desejo e insegurança que ambos desempenham muito bem. O Melhor Amigo é também uma celebração queer. É um romance gay, é uma comédia gay, é um musical gay. E esse é mais um acerto do longa, em nenhum momento ele tenta esconder seus personagens, seu contexto e sua verdade. A presença de talentos como Denis Lacerda e Deydianne Piaf, e Rodrigo Ferrera e Mulher Barbada enriquecem as cenas mais lúdicas onde o escuro ambiente em contraste com os holofotes do palco se tornam o lugar seguro para a plena vivência dos personagens. Divulgação Para além disso tudo, este é um filme bonito plasticamente. O tratamento de cores intensifica o calor, a tropicalidade, o tesão e a sensação de delírio febril constante durante toda a produção. Allan e sua equipe souberam imprimir uma estética que remete aos excessos estéticos dos anos 80 e início dos anos 90 com neons, metalizados e estampas. É um filme exagerado em tudo e não só no visual. É exagerado nos sentimentos, nas texturas, nas músicas, porém não é um exagero que foge do tom, é um transbordamento da força do resultado que explode quase para fora da tela. É um filme que nasce como clássico cult também por ser cearense, nordestino e brasileiro, por referenciar outros grandes filmes e por usar músicas já conhecidas e ainda assim consolidar um rosto próprio, um cenário próprio, uma identidade própria e cheia de caráter. Para quem revisita com frequência filmes como A Gaiola das Loucas (1996), Priscilla, a Rainha do Deserto (1994) e Mamma Mia! (2008) agora pode adicionar um título bem brasileiro à lista. 4/5
- Crítica | Mythic Quest (4ª temporada)
Apesar de algumas repetições narrativas, série da AppleTV continua prezando pela consistência (e humor afiado). Divulgação Uma das joias escondidas do catálogo da AppleTV, Mythic Quest tem mantido um caminho relativamente estável desde sua estreia lá em 2020. A aposta do streaming para as comédias em ambiente de trabalho como The Office (com os toques ácidos de Community e It’s Always Sunny in Philadelphia por compartilhar nomes no elenco e na equipe com ambas), a série usa do universo dos games para construir as situações humorísticas mais absurdas, sem nunca perder de vista as relações entre seus personagens, por mais caóticas que sejam. Nesta quarta temporada, a série se bifurca em dois núcleos principais: aquele em que Ian (Rob McElhenney) e Poppy (Charlotte Nicdao) trabalham na sua expansão intitulada Elysium, enquanto os atritos pessoais e profissionais entre eles se manifestam, especialmente agora que Poppy está em um relacionamento; e o trio formado por Dana (Imani Hakim), Brad (Danny Pudi) e Jo (Jessie Ennis), que trabalham em torno do sucesso de Dana com seu jogo Playpen. Ambos os núcleos são conectados por David (David Hornsby) e Rachel (Ashley Burch), que trabalham para manter a empresa Mythic Quest viva, mesmo com tudo que conspira (comicamente) contra eles – inclusive eles próprios. A série nunca se furtou a mudar drasticamente o status quo dos personagens e da empresa quando necessário – de fato, o final da segunda temporada poderia até ser encarado como um encerramento da série. E, embora a terceira temporada tenha ficado um pouco abaixo das duas primeiras, mesmo com ótimos momentos (como o episódio focado nas infâncias de Ian e Poppy, um dos melhores da série), esta quarta temporada resgata o frescor dos anos iniciais para se consolidar como a mais consistente até o momento, mesmo com alguns percalços. Muito disso vem do fato de que ela parece mais interessada em examinar o estado em que seus personagens estão após toda a jornada que tiveram até aqui do que em necessariamente alterar toda a dinâmica que os envolve. Isso é particularmente evidente no arco de Ian e Poppy: embora alguns momentos pareçam repetições do que já vimos entre os dois antes, especialmente em suas brigas, é perceptível a relação dos dois evoluiu e amadureceu bastante desde os primeiros dias da série. Ouso dizer que ambos têm uma das melhores dinâmicas platônicas nas séries atuais, junto com Carmy e Syd em The Bear, embora o final sugira uma mudança chocante para esse relacionamento que me deixa bastante curioso para o que está por vir. Divulgação Entretanto, eu diria que, ainda que sejam o coração e a alma da série, Ian e Poppy nem de longe são os personagens mais interessantes da temporada. Desde o ano anterior defendo que David Hornsby se tornou a grande estrela do show, aperfeiçoando seu David neurótico, ingênuo e desesperado por validação – ou seja, a pior (ou melhor?) pessoa para estar numa posição de poder como precisou assumir. Suas dinâmicas com o inescrupuloso Brad ou a assustadora Jo conferem alguns dos momentos mais cômicos e icônicos da temporada. Infelizmente, embora a relação de Dana e Rachel entregue um bem-vindo conforto – culminando no quarto episódio, que já entrou para o hall dos melhores da série – as duas personagens são as mais desinteressantes do elenco, ofuscadas até por Carol (Naomi Ekperigin), cujas poucas aparições sempre me deixam querendo mais dela. Entre muitos acertos e alguns erros (estes que parecem inerentes à estrutura da série e que dificilmente serão abolidos), além de um final que certamente será bem divisivo, a quarta temporada de Mythic Quest em nada deve às antecessoras, justificando a longevidade da série dentro do catálogo ainda recente da AppleTV. Torço para que seus criadores saibam encontrar um fim adequado antes que a fórmula se desgaste, mas do que tenho visto até aqui, tal fórmula segue firme e forte. Nota: 4/5
- Crítica | A Batalha da Rua Maria Antônia
Supervalorização da técnica e temática relevante não escondem as nítidas deficiências do filme. Divulgação Em meio ao sucesso da minissérie Adolescência, da Netflix, tenho visto uma exaltação daquele que é certamente seu elemento mais distinto: o fato dos seus quatro episódios ocorrerem em plano-sequência, técnica onde vemos um único plano (ou onde os cortes entre os planos são ocultos pela montagem) de forma a passar uma ideia de continuidade. É um feito que sempre impressiona, como podemos ver em filmes como Filhos da Esperança ou até aqueles em um único plano-sequência, como Birdman. Afinal de contas, é uma técnica que aponta para o esforço hercúleo que envolve sua realização, conferindo um ar “elevado” à obra em questão. No entanto, é preciso sempre se perguntar: a que serve tal técnica? O que ela nos comunica nessa obra fílmica? Trago essa reflexão porque hoje estreia A Batalha da Rua Maria Antônia, filme dirigido por Vera Egito e que conta a história do embate entre estudantes da USP e da Mackenzie durante plena ditadura, em 1968. O longa é composto por 21 planos-sequências que relatam a escalada do conflito entre os dois grupos em face das votações para a UNE, com o grupo da USP (foco do filme) representando a resistência estudantil contra a ditadura, que era nítida apoiadora da Mackenzie à época. Vera filma os planos-sequência com uma câmera de mão que empresta um ar documental e de cinema verité aos eventos, o que é reforçado pela razão de aspecto em 4:3 e a fotografia em preto-e-branco, enquanto pincela as vidas pessoais de alguns dos personagens. O uso da palavra “pincela” não é à toa. Em apenas 84 minutos, é de se esperar que não haja um grande desenvolvimento desses personagens para além do básico, mas a despeito de todos os recursos técnicos e estéticos conferidos ao filme (com nítidos acenos a movimentos como a Nouvelle Vague e suas diretrizes políticas mais radicais), muito dele é gasto focando justamente nesses dramas pessoais dos personagens, o que não seria um problema em si, não fosse o fato de que sacrifica e esvazia muito da tensão que se pretende alcançar através dessa narrativa em tempo real e a intensificação do conflito, ainda que sintamos o impacto em determinados planos-sequência onde a violência e a tensão do momento retratado nos atingem eficazmente. Não ajuda o fato de que, mesmo com todo esse apelo com que o filme quer nos atrair através da imagem, o seu texto cai em lugares-comuns de obras ambientadas na ditadura que chega a ser vergonhoso. As atuações em gerais mecânicas do elenco prejudicam ainda mais a entrega do texto, de modo que, ainda que o objetivo geral do longa seja nos fazer simpatizar pelos estudantes da USP, há pouco pelo que simpatizar aqui, já que parte deles são repetições de estereótipos já batidos (a estudante isenta que se envolve com a luta política, o líder carismático e problemático, a adulta ingênua, etc.). Divulgação Chega ser curioso que numa obra que se preza tanto a uma estética mais documental e realista, sua melhor cena seja aquela que foge mais a tal estética, que é aquela em que duas personagens fazem sexo. A maneira como Vera filma ambos os corpos, depois posicionando-os em reflexos no espelho que atinge ares quase surrealistas, é um desvio tão gritante da maneira como a encenação vinha sendo construída que poderia ser um ponto baixo do filme, mas acaba sendo uma de suas melhores cenas e talvez uma das poucas onde a ênfase nas vidas pessoais desses personagens se justifique na narrativa. De alguma maneira, é poético que tenha assistido A Batalha da Rua Maria Antônia num dia em que presenciei embate entre alunos da UNICAMP que lutavam em favor das cotas trans na universidade e militantes do MBL que vieram para causar seu típico pânico moral e posar de vítimas. Enquanto estes últimos eram enxotados, vi os alunos chamá-los das mesmas palavras que aqueles da USP de 1968 gritavam para os da Mackenzie e que de nada adiantaram. Se alguma coisa resta do filme, é que ele aponta para a ingenuidade ainda presente na esquerda brasileira, como se bradar “fascistas” e palavras de ordem para reacionários e fachos bastasse. Entretanto, o saldo final é de uma obra presa a essa mesma ingenuidade, inclusive no campo técnico e estético, ao não confiar o suficiente na imagem e diluí-la e esvaziá-la com um texto medíocre. Nota: 2/5












