Allan Deberton relata resistência a Feito Pipa durante busca por financiamento
Durante painel acompanhado pelo Oxente Pipoca na Mostra de SP, diretor afirmou ter ouvido que o projeto parecia ser “mais um filme brasileiro”

Allan Deberton enfrentou dificuldades para conseguir financiamento para Feito Pipa, longa que representa o Brasil na corrida pelo Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. Durante o 6º Encontro de Ideias, realizado como parte da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor cearense contou que o projeto encontrou resistência por reunir características consideradas pouco atraentes comercialmente, como a ambientação nordestina e o protagonismo de uma criança queer, todas descritas como "os motivos mais esdrúxulos possíveis".
A declaração foi dada no painel O Processo Criativo de Feito Pipa, realizado em 21 de outubro e acompanhado pelo Oxente Pipoca.
Segundo o cineasta, o projeto carregava o que ele identificou como "o estigma de cinema nordestino, de um personagem queer". Ele também relatou ter ouvido comentários de que a produção parecia ser apenas "mais um filme brasileiro", como se essa característica fosse um obstáculo.
"De certa forma parecia que o roteiro trazia ali o estigma de cinema nordestino, de um personagem queer, e que parecia verdadeiro demais para poder fazer sentido, dentro dessa expectativa de negócio, de venda de ingresso, de sucesso. Ele tinha muita cara de ‘cinema brasileiro’, eu escutei bastante isso: “ah não, parece ser mais um filme brasileiro’", afirmou Deberton no painel.
Em vez de abandonar a ideia, ele afirmou que essas reações aumentaram sua determinação de realizar o longa. "E aí, quando essas coisas vêm para mim, isso se torna na verdade um motivador, parece que eu tenho uma raiva, uma vontade de superar, que vem de algum lugar: ‘não, agora que a gente vai fazer o filme’", completou.

Ambos naturais de de Russas, no Ceará, Deberton e o roteirista André Araújo mantém uma parceria criativa que já havia tido um resultado muito positivo em Pacarrete (2019), filme que rendeu 8 troféus no Prêmio Grande Otelo 2021, mais do que qualquer outro naquele ano.
Em Feito Pipa, os dois voltaram a trabalhar juntos em uma narrativa ambientada no sertão cearense, acompanhando Gugu (Yuri Gomes), um menino queer criado pela avó Dilma (Teca Pereira) e que precisa lidar com a possibilidade de morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos). Leia nossa entrevista com o elenco aqui.
Durante o mesmo encontro, Araújo também defendeu a importância de realizadores nordestinos participarem da construção de novas imagens sobre a região. O roteirista destacou que, embora a história de Gugu não fosse exatamente autobiográfica, muitos pontos em comum foram identificados, sendo ele um homem gay que nasceu e cresceu no interior do Ceará.
“Eu acho que o que me motivou a escrever e enveredar pelo cinema foi pensar a forma como a gente tem produzido imagens sobre o sertão, sobre o Nordeste, e, mais do que isso, atualizar esse imaginário. Há uma necessidade de ver nordestinos construindo essas imagens, produzindo essas imagens, atualizando elas, trazendo essa especificidade, esse olhar que é só nosso”, afirmou.

Feito Pipa teve sua estreia mundial no Festival de Berlim e foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. O longa chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (5), com distribuição da Paris Filmes.
A cobertura completa do painel, realizada por Vinicius Oliveira, pode ser lida no Oxente Pipoca.












