Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao discutir masculinidade
Em entrevista ao Oxente Pipoca, ator falou sobre a construção de Batista, pai de Gugu no longa de Allan Deberton, e explicou como o filme evita transformar o personagem em um vilão simples

Em Feito Pipa, Lázaro Ramos interpreta um pai cuja construção evita os clichês normalmente associados a personagens abusivos e violentos e se concentra em mini-violências presentes no cotidiano. Em uma das cenas, por exemplo, Batista mal consegue esconder a decepção ao descobrir o sexo do bebê durante um chá revelação, expondo sem gritos ou explosões alguns dos códigos de masculinidade que moldam sua relação com o filho.
Foi a partir dessa observação feita por Vinícius Oliveira, do Oxente Pipoca, durante entrevista com o ator, que Lázaro explicou como o afeto se tornou fundamental para construir Batista e impedir que o personagem fosse tratado apenas como um vilão.
Batista é pai de Gugu (Yuri Gomes), um menino queer que vive no sertão cearense ao lado da avó Dilma (Teca Pereira). Embora ame o filho, o personagem carrega códigos de masculinidade que acabam interferindo na forma como demonstra esse afeto e se relaciona com a criança.
Segundo Lázaro, essa contradição está no centro do que ele define como uma pedagogia do afeto.
É um filme que tem a pedagogia do afeto. A gente mostra que esse personagem tem afeto pelo filho, que ele gosta do filho, mas que tem uma rigidez por causa dos códigos de masculinidade que recebeu.
Para o ator, o desafio estava justamente em encontrar novas maneiras de abordar questões que o audiovisual já discutiu diversas vezes.
A gente já falou de vários desses temas em várias obras audiovisuais. A gente já falou de machismo, já falou de Alzheimer, já falou das questões queer. Mas com o que a gente pode contribuir de novo?
A construção final de Batista também é diferente da primeira leitura que Lázaro Ramos fez do roteiro.
Lázaro Ramos contou que inicialmente imaginou o personagem como um homem rígido, constantemente de cara fechada e marcado por gritos, aproximando sua interpretação de uma figura mais claramente identificável como vilão. Mas, que durante o processo de preparação, essa abordagem acabou sendo abandonada.
Segundo o ator baiano, o próprio roteiro e a direção de Allan Deberton buscavam evitar personagens estereotipados e permitir que cada figura da história tivesse diferentes camadas.
"É uma estratégia narrativa que vem do nosso roteiro e do nosso diretor. Ele [Deberton] não queria fazer personagens estereotipados, nenhum deles, queria que todos os personagens tivessem camadas, apesar de na minha primeira leitura eu pensar no personagem como um cara rígido, de cara fechada, com muito grito, pensando somente como um vilão. E foi muito legal passar por esse processo."
Feito Pipa é dirigido por Allan Deberton e protagonizado por Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos.
O longa foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga em Melhor Filme Internacional no Oscar 2027 e chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro, com sessões de pré-estreia desde o dia 29 de outubro.
A entrevista completa com Allan Deberton, Teca Pereira e Lázaro Ramos está disponível aqui no site do Oxente Pipoca.










