Crítica | A Fabulosa Máquina do Tempo
- Gabriella Ferreira

- 29 de jul.
- 3 min de leitura
Documentário de Eliza Capai transforma o olhar de meninas do sertão em uma bonita narrativa sobre futuro, memória e resistência.

É curioso como o cinema costuma imaginar o futuro sempre pelo pior caminho possível. Quando pensamos em ficção científica, é comum encontrar histórias sobre o fim do mundo, máquinas dominando humanos ou uma humanidade caminhando para o desastre. A Fabulosa Máquina do Tempo, novo documentário de Eliza Capai que estreia nesta quinta-feira (30), faz um movimento completamente diferente: ele olha para o futuro a partir do sonho.
O filme acompanha meninas de Guaribas, no interior do Piauí, que participam de uma oficina de audiovisual e começam a criar uma máquina do tempo imaginária. A partir dessa brincadeira, elas revisitam histórias das gerações anteriores, conversam com suas famílias e passam a imaginar quais futuros gostariam de construir.
A ideia poderia facilmente cair em um documentário convencional sobre desigualdade social, mas Eliza Capai encontra uma abordagem muito mais interessante. O filme não transforma essas meninas em personagens de uma realidade difícil que precisam ser "salvas". Pelo contrário: elas são o centro de tudo.
São elas que conduzem a narrativa, fazem perguntas, descobrem informações, contam suas histórias e mostram como enxergam o mundo. A câmera não está ali apenas para registrar a infância dessas meninas. Ela entende que existe inteligência, criatividade e uma forma própria de interpretar a realidade naquele olhar infantil.
E esse talvez seja o maior acerto do documentário. A Fabulosa Máquina do Tempo entende que brincar também é uma forma de pensar sobre questões sérias. Quando as meninas inventam situações, criam personagens e imaginam o futuro, elas estão tentando organizar as informações que recebem sobre o mundo ao redor. A brincadeira não diminui a força dos temas abordados; ela torna tudo ainda mais poderoso.
A estrutura narrativa também merece destaque. Eliza mistura elementos de documentário, ficção científica e fantasia sem que isso pareça forçado. O filme encontra uma linguagem própria ao acompanhar a lógica dessas meninas, que conseguem transformar problemas complexos em possibilidades de criação.
A fotografia é outro grande destaque. A câmera acompanha as protagonistas com uma proximidade que coloca o espectador dentro daquele universo, enquanto a paisagem da Serra das Confusões ganha uma dimensão quase fantástica. Existe beleza nas imagens, mas o filme nunca usa essa beleza para esconder as dificuldades enfrentadas pelas personagens.
Porque A Fabulosa Máquina do Tempo não foge dos temas mais duros. A pobreza, o machismo estrutural, o alcoolismo, as desigualdades e as limitações impostas às mulheres aparecem ao longo da narrativa. A diferença é que Eliza Capai não permite que esses problemas sejam a única definição dessas meninas.
E isso torna o filme ainda mais político, especialmente, em um período em que o Brasil volta a discutir quais caminhos quer seguir, especialmente com a proximidade das eleições, o documentário propõe uma reflexão fundamental: que futuro estamos construindo para essas crianças? Quem terá direito de sonhar? Quem terá espaço para ocupar lugares que historicamente foram negados?

Ao colocar meninas do sertão nordestino imaginando suas próprias possibilidades, o filme também fala sobre o papel da mulher na sociedade. As histórias das mães e das avós mostram como as desigualdades atravessam gerações, mas as meninas representam justamente a possibilidade de romper esse ciclo.
O mais bonito é que o filme consegue falar de tudo isso sem perder a leveza. Ele não termina deixando o espectador com a sensação de que os problemas são grandes demais para serem enfrentados. Pelo contrário: termina fazendo acreditar naquelas meninas e nos futuros que elas imaginam.
Ainda que alguns momentos poderiam explorar mais profundamente determinadas questões sociais apresentadas ao longo da narrativa, a força do olhar escolhido por Eliza Capai supera essas limitações. O filme entende que imaginar também é uma forma de construir caminhos.
E talvez essa seja a maior qualidade de A Fabulosa Máquina do Tempo: em vez de prever um futuro inevitavelmente pior, ele escolhe acreditar que existe outro possível. Um futuro onde essas meninas existem, sonham e têm o direito de construir suas próprias histórias.
Nota: 4.5/5



















