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Crítica | Elize: Sombras de Uma Mulher

Gabriella Ferreira

22 de jul de 2026 · 3 min de leitura

Filme acerta nas atuações e na caracterização, mas o roteiro simplifica um caso muito mais complexo.
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Depois de documentários, livros e incontáveis debates sobre o caso Elize Matsunaga, a Netflix aposta na ficção para revisitar uma das histórias criminais mais conhecidas do país. Lançado nesta quarta-feira (22), Elize: Sombras de Uma Mulher, dirigido por Felipe Vellas, acompanha uma tendência que ganhou força no audiovisual brasileiro após o sucesso de produções como A Menina que Matou os Pais/O Menino que Matou Meus Pais e Tremembé: transformar crimes reais em dramas de ficção. Com argumento e roteiro assinados por Raphael Montes, em parceria com Mariana Torres, o longa busca recontar uma história que já faz parte do imaginário popular brasileiro sob uma perspectiva mais dramática.


O maior acerto do filme está justamente na reconstrução desse universo. A caracterização dos protagonistas é impressionante e, somada às atuações da dupla principal, produz momentos em que é fácil esquecer que se trata de uma dramatização. Lorena Comparato entrega uma interpretação segura de Elize, transitando com naturalidade entre os momentos de vulnerabilidade, tensão e frieza da personagem, sem recorrer a exageros. Ao lado de seu colega de cena, ela sustenta sequências em que a semelhança física e gestual com o casal real é tão precisa que, por instantes, parece que estamos assistindo às imagens do próprio caso. Nesse aspecto, Felipe Vellas conduz a produção com segurança, valorizando a recriação dos acontecimentos sem transformá-los em espetáculo.


Sem entrar no mérito da culpa de Elize ou discutir a fidelidade dos acontecimentos retratados, o principal problema do filme está justamente na maneira como escolhe contar essa história. O roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres não consegue equilibrar a complexidade dos dois protagonistas e acaba reduzindo uma relação profundamente contraditória a uma dinâmica excessivamente binária.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Marcus surge como um homem controlador, abusivo, violento e infiel. Um personagem que exercia poder sobre as mulheres ao seu redor, colecionava animais exóticos, caçava por esporte e fazia questão de esquartejar os próprios animais. Ao mesmo tempo, Elize não era apenas uma vítima observando tudo isso de fora: ela fez parte desse estilo de vida durante anos e, em certa medida, também o abraçou. São nuances importantes que o roteiro prefere não desenvolver.


Essa simplificação também aparece na construção da própria Elize. O filme parece interessado em estabelecer com clareza quem ocupa o lugar do "bem" e quem representa o "mal", deixando pouco espaço para explorar as ambiguidades de uma personagem que desperta discussões justamente por fugir de respostas fáceis.


Outro ponto que pesa contra a produção é a estrutura narrativa. As constantes idas e vindas na linha do tempo tornam a montagem confusa e quebram o ritmo da história. Em um caso amplamente conhecido pelo público brasileiro, essa fragmentação pouco acrescenta e, em vários momentos, apenas torna a experiência cansativa. Embora a direção de Felipe Vellas mantenha o filme visualmente envolvente, ela não consegue compensar as limitações de um roteiro que insiste em simplificar conflitos complexos.


É evidente que, dentro do contexto brasileiro, Elize desperta mais empatia do que outras figuras associadas ao true crime. Vivemos em um país onde mulheres continuam sendo assassinadas diariamente, e existe uma leitura possível de que ela reagiu antes de se tornar mais uma vítima de um relacionamento abusivo ou de ser reduzida ao estereótipo da mulher "louca". O filme abraça essa interpretação de forma bastante explícita e não faz questão de esconder o lado que escolhe defender.


Isso não significa que a produção deixe de funcionar. Pelo contrário: mesmo com um roteiro que simplifica um caso marcado por zonas cinzentas, Elize: Sombras de Uma Mulher entrega uma produção tecnicamente competente, sustentada por ótimas atuações, uma caracterização impressionante e uma direção segura de Felipe Vellas. Fica, porém, a sensação de que havia espaço para um olhar menos maniqueísta e mais interessado nas contradições de seus personagens.


Para quem acompanha histórias de true crime, o filme oferece um entretenimento eficiente e certamente alimentará novas discussões sobre um dos casos criminais mais emblemáticos do Brasil. Mas, diante da riqueza e da complexidade desse caso, a impressão é que o filme escolhe respostas fáceis quando poderia fazer perguntas mais difíceis.


Nota: 3/5


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Crítica | Elize: Sombras de Uma Mulher

22 de jul.
3 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

Filme acerta nas atuações e na caracterização, mas o roteiro simplifica um caso muito mais complexo.
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Depois de documentários, livros e incontáveis debates sobre o caso Elize Matsunaga, a Netflix aposta na ficção para revisitar uma das histórias criminais mais conhecidas do país. Lançado nesta quarta-feira (22), Elize: Sombras de Uma Mulher, dirigido por Felipe Vellas, acompanha uma tendência que ganhou força no audiovisual brasileiro após o sucesso de produções como A Menina que Matou os Pais/O Menino que Matou Meus Pais e Tremembé: transformar crimes reais em dramas de ficção. Com argumento e roteiro assinados por Raphael Montes, em parceria com Mariana Torres, o longa busca recontar uma história que já faz parte do imaginário popular brasileiro sob uma perspectiva mais dramática.


O maior acerto do filme está justamente na reconstrução desse universo. A caracterização dos protagonistas é impressionante e, somada às atuações da dupla principal, produz momentos em que é fácil esquecer que se trata de uma dramatização. Lorena Comparato entrega uma interpretação segura de Elize, transitando com naturalidade entre os momentos de vulnerabilidade, tensão e frieza da personagem, sem recorrer a exageros. Ao lado de seu colega de cena, ela sustenta sequências em que a semelhança física e gestual com o casal real é tão precisa que, por instantes, parece que estamos assistindo às imagens do próprio caso. Nesse aspecto, Felipe Vellas conduz a produção com segurança, valorizando a recriação dos acontecimentos sem transformá-los em espetáculo.


Sem entrar no mérito da culpa de Elize ou discutir a fidelidade dos acontecimentos retratados, o principal problema do filme está justamente na maneira como escolhe contar essa história. O roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres não consegue equilibrar a complexidade dos dois protagonistas e acaba reduzindo uma relação profundamente contraditória a uma dinâmica excessivamente binária.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Marcus surge como um homem controlador, abusivo, violento e infiel. Um personagem que exercia poder sobre as mulheres ao seu redor, colecionava animais exóticos, caçava por esporte e fazia questão de esquartejar os próprios animais. Ao mesmo tempo, Elize não era apenas uma vítima observando tudo isso de fora: ela fez parte desse estilo de vida durante anos e, em certa medida, também o abraçou. São nuances importantes que o roteiro prefere não desenvolver.


Essa simplificação também aparece na construção da própria Elize. O filme parece interessado em estabelecer com clareza quem ocupa o lugar do "bem" e quem representa o "mal", deixando pouco espaço para explorar as ambiguidades de uma personagem que desperta discussões justamente por fugir de respostas fáceis.


Outro ponto que pesa contra a produção é a estrutura narrativa. As constantes idas e vindas na linha do tempo tornam a montagem confusa e quebram o ritmo da história. Em um caso amplamente conhecido pelo público brasileiro, essa fragmentação pouco acrescenta e, em vários momentos, apenas torna a experiência cansativa. Embora a direção de Felipe Vellas mantenha o filme visualmente envolvente, ela não consegue compensar as limitações de um roteiro que insiste em simplificar conflitos complexos.


É evidente que, dentro do contexto brasileiro, Elize desperta mais empatia do que outras figuras associadas ao true crime. Vivemos em um país onde mulheres continuam sendo assassinadas diariamente, e existe uma leitura possível de que ela reagiu antes de se tornar mais uma vítima de um relacionamento abusivo ou de ser reduzida ao estereótipo da mulher "louca". O filme abraça essa interpretação de forma bastante explícita e não faz questão de esconder o lado que escolhe defender.


Isso não significa que a produção deixe de funcionar. Pelo contrário: mesmo com um roteiro que simplifica um caso marcado por zonas cinzentas, Elize: Sombras de Uma Mulher entrega uma produção tecnicamente competente, sustentada por ótimas atuações, uma caracterização impressionante e uma direção segura de Felipe Vellas. Fica, porém, a sensação de que havia espaço para um olhar menos maniqueísta e mais interessado nas contradições de seus personagens.


Para quem acompanha histórias de true crime, o filme oferece um entretenimento eficiente e certamente alimentará novas discussões sobre um dos casos criminais mais emblemáticos do Brasil. Mas, diante da riqueza e da complexidade desse caso, a impressão é que o filme escolhe respostas fáceis quando poderia fazer perguntas mais difíceis.


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