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  • Foto do escritorHosanna Almeida

Crítica | A Máquina Do Destino (1ª temporada)

A adaptação do Apple TV+ explora com sucesso o poder dos recomeços

Foto: Divulgação


Se eu fosse levada à cada uma das vezes em que, quando criança, me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, provavelmente ficaria presa num eterno loop temporal. Foram inúmeras as perguntas, e as dúvidas, proporcionais aos questionamentos. Eu nunca soube exatamente o que faria, até começar a fazer, e até que eu começasse a fazer, levou um certo tempo. E como as pessoas da minha idade — e eu não vou dizer qual é, mas você pode estimar entre os 15 e os 60 — tendem a ser bastante obstinadas (uma palavra bonita para cabeça dura), ter alguma ferramenta divina ou cósmica que ajudasse a encurtar esse caminho do autoconhecimento seria uma mão na roda.


Então agora, se puder, imagine. Só não feche os olhos, senão eu não vou conseguir continuar conversando com você. Mas se imagine diante de uma máquina grande, luzes brilhantes, maior do que um fliperama, com uma estrutura externa que lembra asas de borboleta, e tem uma porta. Você entra, se senta, confere a textura do banco, é de couro, meio rígido, antigo, tem marcas, vê as ondulações nas paredes internas que são de um azul espacial. Você imagina de onde raios surgiu aquela geringonça que ninguém nunca tinha visto antes. Para iniciar o serviço, insere uma moeda. Diante de você, a tela pede que informe o número do cpf. A voz interna diz é golpe, pô, mas a curiosidade vence. Agora o aviso muda e pede que você encoste as duas mãos, como num registro de digitais, e inesperadamente, um pequeno envelope cor azul-real sai da máquina e pronto. Ali, em até duas palavras, está o potencial da sua vida, que pode — e vai mudar a trajetória das suas escolhas. O que você faria diante dessa descoberta? Esta é a premissa de The Big Door Prize, em português, A Máquina do Destino, lançamento da Apple TV+.

Foto: Divulgação


Dentro do mercado de séries, as produções da AppleTV+ têm se destacado por explorar a sensibilidade e ambiguidade nas relações, e a repercussão de Severance e Ted Lasso indicam um caminho longo de êxitos. É neste caminho que encontramos A Máquina do Destino, conduzida por David West Read, com quem tive o prazer de conversar brevemente na Coletiva de Imprensa Internacional à convite da Apple TV+, e que vocês poderão ouvir no nosso podcast Cuscuz com Pipoca em breve. O showrunner de Schitt’s Creek toma as rédeas desta série que é adaptação do livro de M.O. Walsh, de mesmo título em inglês, ainda sem tradução no Brasil.


É muito importante que você entenda, antes de tudo, que esta é uma 'dramédia'. Você se verá rindo com a peculiaridade desengonçada de Dusty, personagem do sempre incrível Chris O’Dowd, ou se identificando com algum aspecto escondido da personagem Cass, interpretada por Gabrielle Dennis (também conversamos brevemente com os protagonistas da série e foi incrível, breve no Cuscuz com Pipoca.). A série possui 10 episódios e cada um deles, até o oitavo, conta a história da pessoa do título, começando com Dusty; Cass, Jacob, Padre Reuben, Trina, Beau, Giorgio e Izzy. O efeito dominó que acontece na narrativa a cada fim de episódio, passando simbolicamente o “bastão” para dar início à outra história, serve para demonstrar como estes personagens estão conectados, porque estão conectados e até o que não foi contado importa para a narrativa da série como um todo. Os dois episódios finais, Deerfest: parte 1 e Deerfest: parte 2, se passam na festa da cidade, evento em que a narrativa atinge seu ápice final (?).

Foto: Divulgação


Esta é uma série rica em conteúdo que retrata situações comuns à experiência humana com muita simplicidade e delicadeza. Uma destas é a fragilidade da imagem que temos de nós mesmos e sobre quem somos quando estamos diante de nossos fracassos ou de nossos acertos, e este último parece, no universo de A Máquina do Destino, tão difícil de aceitar quanto o primeiro. Esta é mais uma história sobre como sempre seremos seres faltantes, e nunca nenhuma resposta será definitiva. As atuações do elenco envolvem quem assiste com calidez, em situações que, se retratadas de outro modo, provocariam desconforto; a exemplo da morte precoce de um adolescente, ou uma mãe exibindo comportamentos narcisistas. Estão por toda parte, em cada história de cada personagem: o ressentimento, a estagnação, a felicidade, os equívocos, os medos, as angústias, e a coisa mais bizarra sobre ser humano: o desejo de tentar de novo, e de novo, e de novo, até dar certo.


A série encerra sua primeira temporada com ganchos para a segunda e questões importantes a serem respondidas, que são cruciais para o trilhar da narrativa. A Máquina do Destino é uma série aconchegante e agridoce, onde cada vida é vista, cuidada e cultivada.


Nota: 4,5/5

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