top of page
Background.png
Header_Site3.png
  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | O Assassino

Execução é tudo, tanto à frente quanto atrás das câmeras

Foto: Divulgação


O cinema de David Fincher é povoado de personagens obsessivos, sejam eles detetives, esposas rancorosas ou criadores de redes sociais. O assassino sem nome de Michael Fassbender vem se juntar a esse filão, num filme que dificilmente figurará entre os melhores do diretor, mas que o mostra em casa na maneira como conta uma história simples e objetiva.


Dividido em seis capítulos e um epílogo, o filme nos mergulha na rotina do seu protagonista conforme o vemos em preparação a mais um de seus trabalhos. Se podemos contar nos dedos as vezes em que esse personagem diz algo no decorrer do longa, por outro lado o roteiro de Andrew Kevin Walker (que trabalhou com Fincher em Se7en - Os Sete Crimes Capitais) abre espaço para uma narração em off que nos dá acesso à sua mente intrigante. Pensamentos soltos, reflexões sobre a sociedade contemporânea e um quê de niilismo povoam o personagem, enquanto Fincher adota um rigor formal impressionante, com seus habituais planos estáticos e poucos cortes que nos habituam ao cotidiano “tedioso” desse assassino. E então... as coisas dão errado.


De início, o formalismo do diretor nos faz pensar que o personagem é um daqueles tipos indefectíveis e de poucas palavras como o motorista de Ryan Gosling em Drive ou os bandidos de Alain Delon em filmes como Le Samouraï e O Círculo Vermelho. Mas ao quebrar esse formalismo após o Assassino falhar em sua missão — com uma rara câmera trêmula para os padrões de Fincher e uma tensão crescente potencializada pela montagem de Kirk Baxter e a trilha pulsante de Trent Reznor e Atticus Ross — nos desestabiliza tanto quanto o desestabiliza. Mesmo tendo seu metodismo evidenciado ao longo do filme, é nítido o gradual descontrole do protagonista no banho de sangue que se segue conforme ele dá cabo da vingança contra seus empregadores. Até seus pensamentos e reflexões, aos poucos, se dessincronizam das suas ações, especialmente quando ouvimos seu mantra (“stick to the plan... empathy is weakness...”) prenunciar imprevistos cada vez maiores.

Foto: Divulgação


A mixagem sonora é um importante recurso por nunca cessar a tensão e nos prender à mente do personagem, mesclando a trilha sonora com os sons ambientes e até mesmo as músicas do The Smiths que ele está sempre ouvindo, numa relação incomum de diegese/não-diegese. Alguns até poderão reclamar do ritmo lento, mas ele é de uma fluidez exuberante e serve perfeitamente à mentalidade e aos métodos desse Assassino — sendo justamente por isso que a única cena de ação do longa surge como uma ruptura tão flagrante, encenada com uma brutalidade e crueza notáveis. Da mesma forma, os defensores do roteiro como o elemento mais importante de uma obra certamente sairão decepcionados, mas a simplicidade e economia deste serve perfeitamente para que Fincher exiba e flexione suas melhores habilidades por trás da câmera ao nos guiar pela jornada violenta do protagonista e os recônditos da sua personalidade em conflito.


Fassbender, que não estrelava um filme há quatro anos, brilha ao compor um personagem de mínimas reações, mas que ainda expressa tanto (frustração, surpresa, raiva, tristeza), não importa o que a voz da sua mente nos diga. O filme é seu tanto quanto de Fincher, e por isso não chega a ser uma surpresa que haja pouco espaço para o elenco coadjuvante (lamento, fãs de Sophie Charlotte), ainda que Tilda Swinton brilhe como de costume mesmo em uma pequena participação.


O Assassino pode ser uma “obra menor” de Fincher, mas isso é mais mérito do restante da sua filmografia do que um demérito dele em si. Elegante em sua simplicidade, fascinante em nos imergir na psique do seu protagonista, o filme consegue atualizar esse arquétipo de personagem para o século XXI, servindo quase como um anti-John Wick na forma como desmistifica a ideia de um assassino para retratá-lo como um trabalhador ordinário preso às dinâmicas do capitalismo contemporâneo. Afinal de contas, como diria The Smiths: “I was looking for a job, and then I found a job, and heaven knows I'm miserable now” (Eu estava procurando por um emprego e então eu encontrei um emprego

E os céus sabem que agora estou infeliz).


Nota: 4/5

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page