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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | O Mundo Depois de Nós

Sam Esmail busca trabalhar as relações humanas em meio ao apocalipse

Foto: Divulgação


Logo nos primeiros minutos de O Mundo Depois de Nós, Amanda Sandford (Julia Roberts) explica ao marido Clay (Ethan Hawke) porque decidiu alugar uma casa de campo longe de Nova York. Em resumo: ela odeia pessoas e quer distância delas. E isso fica ainda mais evidente quando as férias idílicas da família, composta também pelos filhos Archie (Charlie Evans) e Rose (Farrah Mackenzie), são interrompidas pela chegada do dono da casa, George “G.H.” Scott (Mahershala Ali) e sua filha Ruth (Myha’la), que foram para lá em decorrência de um apagão na cidade. A situação leva a uma convivência forçada e repleta de tensões entre as duas famílias, conforme eventos cada vez mais estranhos prenunciam o que pode vir a ser o fim do mundo.


Contudo, o apocalipse parece secundário aos reais interesses do diretor e roteirista Sam Esmail, que aqui adapta o livro de mesmo nome de Rumaan Alam. Mais conhecido por seu aclamado trabalho com a série Mr. Robot (uma das minhas favoritas da vida), Esmail usa todo o arsenal da sua vasta e exuberante identidade visual – planos zenitais, planos-sequências, zoom-ins dramáticos, giros em 180° e 360° e mais – tanto para prenunciar que algo está errado quanto para trabalhar os desconfortos nas interações entre esses personagens. Nada é mais simbólico do que o plano que estabelece o primeiro contato de Amanda e Clay com G.H. e Ruth, onde ambos os pares são dramaticamente separados pela parede da casa antes que Clay convide pai e filha para entrarem, mesmo com a resistência da esposa.


Ajuda muito a química do elenco, seja nos melhores ou piores momentos dos protagonistas. Os dois grandes destaques, para mim, são Roberts e Myha’la, cujas personagens não se batem desde o começo: Amanda se afirma como uma misantropa, mas mal esconde seu racismo diante da presença de G.H. e Ruth, e esta rebate a passivo-agressividade da mulher branca com deliciosas doses de sarcasmo próprias a alguém que já encarou muitas Amandas na vida e não partilha da cordialidade do pai. É a partir da oposição delas (e de Clay e G.H. como suas contrapartes) que Esmail apresenta sua tese: quando o mundo está acabando, vale mais a pena se unir para sobreviver a ele, a despeito de suas diferenças, ou “farinha pouca, meu pirão primeiro”?

Foto: Divulgação


É uma pena que a riqueza do estudo de personagens não se aplique em igual medida ao suspense. Não que este esteja ausente, dada a habilidade de Esmail em construir imagens memoráveis e assustadoras – seja um navio encalhando, aviões caindo ou carros Tesla se amontoando numa estrada –; isso para não falar da trilha sonora sufocante do talentoso Mac Quayle, habitual parceiro do diretor. Mas para alguém que já criou experiências assombrosas e imersivas em Mr. Robot (como suas elaboradas sequências de tiroteios ou o icônico episódio em plano-sequência), o que Esmail entrega aqui está aquém das suas habilidades e do potencial prometido pelo filme.


Além disso, o clima de mistério e incerteza que permeia o longa se intensifica a cada um dos capítulos em que ele se divide, mas acaba sendo diluído na sua “explicação final” sobre o que está acontecendo. Não gosto de tentar definir um filme pelo que gostaria que ele fosse ao invés do que ele é, mas penso se não seria melhor levar essa incerteza e ambiguidade até o final ao invés de oferecer uma resposta que acaba ficando aquém do mistério que vinha sendo construído (embora a cena final das personagens de Roberts e Myha’la apresente por si só o impacto de que a explicação careceu).


Apesar de sempre trabalhar com temas complexos e que miram na escuridão humana, Esmail me parece cada vez mais um otimista por natureza, mesmo que deixe para nós a interpretação sobre se no fim das contas essas duas famílias enfim se unirão frente ao apocalipse ou tomarão seus próprios rumos. A despeito da falta de ênfase no suspense e da diluição do seu mistério central, O Mundo Depois de Nós acerta na construção das dinâmicas entre seus personagens, o que é potencializado pela força de um ótimo elenco principal e a rica identidade visual de um diretor que nunca cansa de surpreender.


Nota: 3,5/5

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