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Crítica | Privadas de Suas Vidas (Mostra de SP 2026)

Vinicius Oliveira

19 de out de 2026 · 3 min de leitura

Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner abraçam sem medo a escatologia, a sátira e o charme dos filmes B de horror no filme mais divertido da Mostra até agora.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Nos últimos anos, a proliferação do chamado “horror de trauma/luto” levou a uma certa saturação dentro do gênero do terror, sobretudo pela necessidade dessas produções de explicarem ou aludirem fenômenos sobrenaturais e insólitos pela perspectiva racional de um evento traumático ou da perda, Logo, superar esse trauma implica em superar o mal com o que estava se lidando, como atestavam s simbologias e metáforas tão óbvias quanto cansadas usadas por essas obras. E é por isso que a pergunta lançada pela dupla de diretores e roteiristas Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner no começo de Privadas de Suas Vidas já define muito do tom do filme: como se supera a morte do seu filho pelas mãos de uma privada?


A ideia dessa sátira com o horror de trauma é apenas o ponto de partida da verdadeira salada que a dupla trabalha ao longo das quase duas horas de filme. Tem-se o luto enfrentado pela protagonista Malu (Martha Nowill), expresso não só na sua relação conturbada com Gênesis (Benjamín Damini), seu filhe não-binárie, mas na incapacidade de defecar e usar privadas no geral; tem-se a galeria de personagens excêntricos (e ao mesmo tempo muito próximos da nossa realidade) do edifício em que moram, que incluem uma influencer de maternidade (Chandelly Braz) e seu marido envolvido com jogo do tigrinho (Marco Pigossi), ou uma vizinha cleptomaníaca (Regina Braga) e uma mística que lê a sorte nas fezes e fluídos dos clientes (Olivia Torres); o cenário de precarização que afeta o zelador Villaça (Otávio Muller); e, é claro, o instável encanamento do prédio, que, associado às emoções instáveis e reprimidas de Malu (e o mesmo pode ser dito das suas fezes), logo fazem com que as privadas ganhem vida e passem a assassinar os moradores.


Se essa premissa lhe parece ridícula, é porque é, e aí reside a beleza de Privadas de Suas Vidas (se é que posso usar essa palavra para esse filme): ele não tem medo de assumir esse ridículo e se comprometer com ele até o fim. É um filme que consegue se levar a sério ao ponto de nos fazer investir no conflito delineado ao longo da trama, à medida que as privadas se tornam cada vez mais mortíferas, mas nunca se leva a sério demais para que pareça envergonhado de contar uma história tão absurda – como se vê em muitos filmes por aí que lidam com os elementos do cinema de gênero de maneira autoconsciente.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

E quando eu digo que o longa se compromete até o fim em seu ridículo, é porque ele não se acanha em seu teor gráfico, seja pelo viés da escatologia, do horror corporal e da brutalidade um bocado cômica. Desde sua primeira cena, onde vemos um cocô feito por Malu flutuar até ser engolido pela descarga, passando pela morte de seu filho, e todas as sequências cada vez mais inventivas de mortes, o filme não está necessariamente querendo nos chocar, mas também não se faz de rogado com a violência e toda a profusão de fluídos e excrementos que vemos em tela. Não é para os sensíveis, embora talvez diga muito de nós se nos incomodamos mais com um cocô a flutuar no vaso do que com um personagem sendo destripado.


Seus momentos mais instáveis e fracos vêm dos conflitos de Malu e Gênesis. Este últime atende de maneiras um tanto inconvenientes àquele estereótipo de adolescente LGBTQIA+ revoltado(e), embora aqui a ideia de zoar com a binariedade de gênero dos chás revelação, mote principal que interliga Malu aos personagens de Braz e Pigossi, seja um adicional cômico bem trabalhado. Mas são porções em que o filme tenta resvalar num certo drama que o aproxima demais do tipo de produção que está satirizando, e acabam fazendo o filme cansar em alguns momentos, sobretudo em sua porção do meio, o que, junto com algumas piadas que se esticam um tanto demais, o tornam um pouco inchado em determinadas partes.


Paradoxalmente, essa certa ênfase no drama em alguns instantes só reforça que Privadas de Suas Vidas é muito mais interessante quando está bebendo diretamente das fontes dos filmes B de terror, seja nos efeitos práticos ou na direção por diversas vezes tresloucada e frenética que tanto evidencia suas limitações orçamentárias quanto as usa a seu favor. Entre o gore, a abundância de excrementos e a completa entrega ao mais bizarro e “feio”, o filme consegue nos arrancar muitas risadas. Quem diria que uma produção sobre privadas assassinas seria a mais divertida da Mostra até o momento?


Nota: 3.5/5



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19 de out.
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Atualizado: há 1 dia

Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner abraçam sem medo a escatologia, a sátira e o charme dos filmes B de horror no filme mais divertido da Mostra até agora.

Imagem: Divulgação
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Nos últimos anos, a proliferação do chamado “horror de trauma/luto” levou a uma certa saturação dentro do gênero do terror, sobretudo pela necessidade dessas produções de explicarem ou aludirem fenômenos sobrenaturais e insólitos pela perspectiva racional de um evento traumático ou da perda, Logo, superar esse trauma implica em superar o mal com o que estava se lidando, como atestavam s simbologias e metáforas tão óbvias quanto cansadas usadas por essas obras. E é por isso que a pergunta lançada pela dupla de diretores e roteiristas Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner no começo de Privadas de Suas Vidas já define muito do tom do filme: como se supera a morte do seu filho pelas mãos de uma privada?


A ideia dessa sátira com o horror de trauma é apenas o ponto de partida da verdadeira salada que a dupla trabalha ao longo das quase duas horas de filme. Tem-se o luto enfrentado pela protagonista Malu (Martha Nowill), expresso não só na sua relação conturbada com Gênesis (Benjamín Damini), seu filhe não-binárie, mas na incapacidade de defecar e usar privadas no geral; tem-se a galeria de personagens excêntricos (e ao mesmo tempo muito próximos da nossa realidade) do edifício em que moram, que incluem uma influencer de maternidade (Chandelly Braz) e seu marido envolvido com jogo do tigrinho (Marco Pigossi), ou uma vizinha cleptomaníaca (Regina Braga) e uma mística que lê a sorte nas fezes e fluídos dos clientes (Olivia Torres); o cenário de precarização que afeta o zelador Villaça (Otávio Muller); e, é claro, o instável encanamento do prédio, que, associado às emoções instáveis e reprimidas de Malu (e o mesmo pode ser dito das suas fezes), logo fazem com que as privadas ganhem vida e passem a assassinar os moradores.


Se essa premissa lhe parece ridícula, é porque é, e aí reside a beleza de Privadas de Suas Vidas (se é que posso usar essa palavra para esse filme): ele não tem medo de assumir esse ridículo e se comprometer com ele até o fim. É um filme que consegue se levar a sério ao ponto de nos fazer investir no conflito delineado ao longo da trama, à medida que as privadas se tornam cada vez mais mortíferas, mas nunca se leva a sério demais para que pareça envergonhado de contar uma história tão absurda – como se vê em muitos filmes por aí que lidam com os elementos do cinema de gênero de maneira autoconsciente.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

E quando eu digo que o longa se compromete até o fim em seu ridículo, é porque ele não se acanha em seu teor gráfico, seja pelo viés da escatologia, do horror corporal e da brutalidade um bocado cômica. Desde sua primeira cena, onde vemos um cocô feito por Malu flutuar até ser engolido pela descarga, passando pela morte de seu filho, e todas as sequências cada vez mais inventivas de mortes, o filme não está necessariamente querendo nos chocar, mas também não se faz de rogado com a violência e toda a profusão de fluídos e excrementos que vemos em tela. Não é para os sensíveis, embora talvez diga muito de nós se nos incomodamos mais com um cocô a flutuar no vaso do que com um personagem sendo destripado.


Seus momentos mais instáveis e fracos vêm dos conflitos de Malu e Gênesis. Este últime atende de maneiras um tanto inconvenientes àquele estereótipo de adolescente LGBTQIA+ revoltado(e), embora aqui a ideia de zoar com a binariedade de gênero dos chás revelação, mote principal que interliga Malu aos personagens de Braz e Pigossi, seja um adicional cômico bem trabalhado. Mas são porções em que o filme tenta resvalar num certo drama que o aproxima demais do tipo de produção que está satirizando, e acabam fazendo o filme cansar em alguns momentos, sobretudo em sua porção do meio, o que, junto com algumas piadas que se esticam um tanto demais, o tornam um pouco inchado em determinadas partes.


Paradoxalmente, essa certa ênfase no drama em alguns instantes só reforça que Privadas de Suas Vidas é muito mais interessante quando está bebendo diretamente das fontes dos filmes B de terror, seja nos efeitos práticos ou na direção por diversas vezes tresloucada e frenética que tanto evidencia suas limitações orçamentárias quanto as usa a seu favor. Entre o gore, a abundância de excrementos e a completa entrega ao mais bizarro e “feio”, o filme consegue nos arrancar muitas risadas. Quem diria que uma produção sobre privadas assassinas seria a mais divertida da Mostra até o momento?


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