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Crítica | A Morte Não Tem Dono (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 4 horas
3 min de leitura
(Mais) uma obra sobre o conflito de classes como espelho da herança colonial latino-americana.
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Em seu texto Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, o sociólogo peruano Aníbal Quijano discutiu sobre como a colonização europeia na América ajudou a difundir a ideia moderna de raça, usando-a para definir relações sociais e de trabalho, bem como identidades sociais – “índios”, “negros”, “mestiços”, etc. – que foram atreladas às hierarquias, lugares e papéis sociais correspondentes, impondo-se através delas um determinado padrão de dominação.


Na trajetória do cinema latino-americano, não faltam obras que discutam esses padrões de dominação por intermédio das identidades e relações sociais e do trabalho, enfatizando o conflito que muitas vezes advém do choque entre essas identidades. O filme venezuelano A Morte Não Tem Dono é a mais nova obra a se inscrever nessa leva, estrelando Asia Argento como Caro, a herdeira de um latifúndio no interior da Venezuela que retorna ao país depois de anos para vender as propriedades do país, mas se vê em conflito com Sonia (Dogreika Tovar), que reside na casa com o filho e tem seus próprios motivos para disputar a herança.


Nos últimos anos, as produções latino-americanas que trabalham esse conflito de classes muitas vezes o fazem por intermédio do cinema de gênero – foi impossível não pensar no brasileiro Propriedade, de Daniel Bandeira, enquanto assistia a este aqui –, sobretudo com incursões no horror, insólito e sobrenatural. Em A Morte Não Tem Dono, o diretor Jorge Thielen Armand enfatiza a construção de uma atmosfera inquietante, onde imagens aparentemente desconexas desnudam a psique de Caro e seu desconforto em voltar a um lugar que lhe trouxe muita dor (não apenas física), ainda que essa dor não seja o bastante para impedi-la de atingir seu objetivo ali.


Não que tais objetivos sejam muito claros, para além do seu interesse na venda. Há alusões ao instável cenário sociopolítico da Venezuela, mas as motivações da personagem parecem ser enterradas ao ponto de nunca abraçarmos completamente seu retorno à propriedade, e, por extensão, a tensa relação dela com Sonia e as demais figuras que orbitam o lugar. Pode se argumentar que é a lógica colonial e suas implicações em termos de raça ainda enraizadas – afinal de contas Caro é branca e Sonia e a maioria dos personagens nestas posições de subalternos são negros ou indígenas –, mas enfocar apenas isso rouba nuances e até contradições dentro dessa lógica. 

Imagem: Divulgação
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O fato de que o filme isola Caro em determinado momento da narrativa, fazendo-a voltar para a casa lá pelos trinta minutos finais apenas, também mina muito desse conflito que vai se delineando entre as duas mulheres. Ainda que o protagonismo seja evidente de Caro (e Asia Argento consegue incutir bem mais das nuances propostas à personagem do que o texto esparso tenta nos dizer), essa posição quase esquemática de Sonia na narrativa também revela um problema recorrente dessas produções: se a ideia é tecer críticas à lógica colonial das relações do trabalho, por que continuamos tendo quase sempre o ponto de vista dos patrões?


A Morte Não Tem Dono até oferece um frescor em determinados momentos ao investir nessa atmosfera de horror, com um teor quase sobrenatural permeando a obra e seus personagens. Mas a começar pela sua premissa, não há nada de muito novo ou que já não tenhamos visto em outras obras, melhores e mais articuladas ao problematizarem as marcas coloniais nas divisões de classe e de trabalho através do continente.


Nota: 3/5


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