top of page
Background.png

Crítica | Minotauro (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 4 horas
3 min de leitura
Andrey Zvyagintsev atualiza premissa de clássico de Claude Chabrol para o contexto de uma Rússia cada vez mais fraturada pela guerra. 

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Um marido que, após enfim obter a confirmação de estar sendo traído, resolve tirar satisfação com o amante da esposa. Essa é a premissa de A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol, que já ganhara uma versão em 2002 pelas mãos de Adrian Lyne, em Infidelidade e agora é novamente adaptado, dessa vez por Andrey Zvyagintsev em Minotauro. Aqui, porém, Zvyagintsev entrelaça o drama familiar com o que mais gosta de fazer: explorar (e criticar) a política e a sociedade russa.


Nesta versão, ambientada nos primeiros dias da Guerra da Ucrânia em 2022, o marido, Gleb (Dmitriy Mazurov) comanda uma empresa numa cidade do interior russo e, assim como outros empresários, recebe a intimação do exército do país

de listar funcionários que possam atender ao serviço militar para a iminente guerra. Mas essa nem de longe é a sua maior preocupação, e sim as suspeitas de que a esposa, Galina (Iris Lebedeva), o está traindo. Quando enfim tem a confirmação do caso dela com o fotógrafo Anton (Yuriy Zavalnyouk), Gleb vai tomar as providências, mas a situação então escalona para resultados inesperados.


Um dos grandes méritos de Minotauro está na crescente atmosfera de cinismo que vai dominando não só as ações dos personagens, mas também a situação geral da Rússia. Alguns dos personagens são contrários à guerra, mas suas motivações para isso são meramente egoístas ou oportunistas; já outros, como o próprio Gleb, pouco se importam com o que está para acontecer, apenas com os efeitos sobre seus negócios. A maneira como o protagonista vai usando para contornar a convocação do exército sem que saia prejudicado é a maneira pela qual Zvyagintsev mostra como essa classe média-alta russa pode escapar impune de um conflito cujos efeitos não se deram apenas no país, mas a nível global.


No âmbito doméstico, a construção do conflito de Gleb com Galina e Anton vai sendo feita a passos lentos, que podem cansar pelo ritmo e pelo clima gélido nas interações entre os personagens, mas que encontram sua recompensa na segunda metade do filme, à medida que as consequências das ações do protagonista vão se espalhando por entre aqueles ao seu redor e culminam num final ambíguo (e também bastante cínico). É até difícil dar maiores spoilers, mas talvez o ponto alto do filme seja justamente toda a sequência iniciada na visita de Gleb a Anton, cuja sucessão de eventos alterna entre a passionalidade, a frieza e até mesmo um humor meio sombrio.


Imagem: Divugação
Imagem: Divugação

Mas se destaquei essas duas esferas (pessoal/familiar e política/nacional) em parágrafos distintos, é também para ilustrar o principal problema de Minotauro: a sua dificuldade em fazer essas duas esferas conversarem ou interagirem entre si. Ainda que a seus próprios modos elas possuam seus destaques, no fim das contas elas pouco se tocam ou se influenciam, salvo instantes pontuais, de modo que é difícil não passar o filme todo se perguntando onde está a grande conexão que Zvyagintsev parece querer construir ou aludir. A dissolução do casamento entre Gleb e Galina é um reflexo da dissolução da Rússia enquanto nação nas mãos do Putin? A Guerra da Ucrânica é um reflexo da guerra que se ameaça entre o casal? Não há muito no filme que evidencie tais leituras, ou quaisquer outras que justifiquem trazer estes dois núcleos correndo em paralelo. É como ter dois filmes diferentes, cada um muito bom individualmente, mas que quando somados perdem força e fazem desse todo menor que a soma de ambas as partes.


Essa desconexão, aliada a um final que talvez se prolongue por tempo demais, mina boa parte do impacto de Minotauro. É o tipo de filme que chega aqui debaixo de várias expectativas, olhando sua aclamação em Cannes – mas é possível observar como boa parte dessa aclamação vem de um sentimento contrário à Rússia que paira sobre os grandes festivais e premiações nos últimos anos. Embora o filme certamente desfrute de seus méritos e nos engaje com seu cinismo cortante, ele nunca consegue justificar plenamente porque insere neste cotidiano de drama familiar, o qual se sustentaria por si só, no cenário da Rússia contemporânea.


Nota: 3.5/5



LEIA TAMBÉM NO SITE:

FILMES BRASILEIROS DE 2026

bottom of page