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Crítica | Zi (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 4 horas
3 min de leitura
Kogonada parte da apreciação pelo cinema de Wong Kar-Wai para apresentar narrativa fragmentada e romântica pelas ruas de Hong Kong.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Zi (Michelle Mao) está tendo visões de si mesma no futuro. Ela não sabe como isso é possível, tampouco o que as visões querem dizer, mas isso a aterroriza e a faz pensar na finitude da sua vida. Enquanto vagueia pelas ruas de Hong Kong, lidando com a imprevisibilidade desse fenômeno, ela é abordada por uma estranha, Elle (Haley Lu Richardson), a quem já havia vislumbrado nessas visões. O que a presença de Elle nelas significa ainda é um mistério, mas a conexão entre as duas aos poucos forja, se não uma resposta, pelo menos um alento – e a possibilidade de algo mais.


Dono de uma renomada trajetória como ensaísta e analista fílmico antes de migrar para a direção, Kogonada tem construído uma carreira especializada nas interações e conexões humanas, algo já perceptível desde seu primeiro filme, Columbus (também estrelado por Haley Lu Richardson). Após o fracasso do seu longa anterior, A Grande Viagem da Sua Vida, ele optou por uma produção em escala significativamente menor, rodada em apenas três diárias pelas ruas de Hong Kong e centrada unicamente em suas três figuras principais: Zi, Elle e Min (Jin Ha), ex-namorado de Elle que se junta às duas para ajudar a resolver a condição de Zi, embora seu interesse nesta condição já seja perceptível desde antes.


É impossível falar de um filme que trata de relações humanas e seja ambientado em Hong Kong sem citar Wong Kar-Wai. De fato, Kogonada não se acanha em referenciar diretamente Kar-Wai em planos como os slow motions de personagens pelas ruas, a ênfase na atmosfera sobre a narrativa e sobretudo em fazer da cidade uma personagem vívida à parte, com sua geografia e mix cultural tão particulares. Isso, é claro, sem falar do aspecto romântico que permeia a obra, algo evidenciado pela química evidente entre Mao e Lu Richardson desde a primeira interação das duas (além de ter orientado Lu Richardson a assistir justamente Amores Expressos para se inspirar na icônica personagem de Brigitte Lin e sua peruca).

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Entretanto, o filme prolonga e estica a culminação dessa química, porque em sua segunda metade, com a efetiva introdução do personagem de Jin Ha na trama, há uma ênfase cada vez mais crescente num possível triângulo amoroso, visto que os sentimentos mal-resolvidos entre Elle e Min parecem surgir como um obstáculo para a efetivação dos sentimentos nascidos entre Elle e Zi. E, embora eu não me oponha a um triângulo amoroso (mesmo não sendo um dos meus tropos românticos favoritos), a sensação é que nestes instantes a direção de Kogonada acaba desbalanceando as interações entre os personagens: ora é Min (e Jin Ha) que é escanteado como  a terceira ponta desse triângulo que já sabemos de antemão como vai terminar; ora é a própria Zi, cuja condição particular, tão bem trabalhada na primeira meia hora confusa e experimental, vai sendo deixada de lado em diversos momentos.


Assim, a verdadeira força do filme vem quando ele trabalha efetivamente o trio em conjunto, nas suas caminhadas e vagadas noturnas por Hong Kong (novamente, outro grande aceno para Kar-Wai), ou ao adentrar esse terreno mais experimental da fragmentação temporal de Zi, que é expressa sobretudo na montagem desorientadora, a qual nos insere nesse estado de confusão mental da personagem. As trocas, os instantes de revelação, os olhares; existem muitas sutilezas no texto e na atuação do trio principal que independiam de apostar na tensão romântica entre eles (pelo menos aquela que envolve a presença de Min em cena) para sustentar o filme.


Zi evoca um tipo de filme que gosto bastante, onde personagens vagam pela cidade compartilhando suas vidas, desejos e sonhos, e acerta em fazer de Hong Kong uma personagem à parte ao longo de sua duração. Além disso, consegue através da sua forma nos empatizar com a condição de sua protagonista, mesmo que se veja em alguns momentos uma “estética experimental” meio calculada da parte de Kogonada. É só uma pena que o filme enverede por caminhos tão convencionais em sua segunda metade, sobretudo com um dos tropos mais saturados do romance, e acabe caindo bem longe do que sua principal influência foi capaz de fazer em seu cinema.


Nota: 3/5 


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