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Crítica | O Urso (1ª Temporada)

Vinicius Oliveira

16 de out de 2022 · 3 min de leitura

O caos e a mundanidade da vida por uma lente gastronômica.

Divulgação: FX Networks


Carmen “Carmy” Berzatto (Jeremy Allen White) é um jovem e renomado chef de cozinha que construiu uma carreira para si em Nova York. Entretanto, a morte do seu irmão mais velho o leva de volta para sua terra natal Chicago, onde se vê incumbido de gerenciar o restaurante deixado por ele e se vê preso a uma rotina caótica e extenuante, cercado por funcionários que não o respeitam e ainda por cima enfrentando um luto que parece não conseguir (ou querer) processar.


É sobre essa premissa que The Bear se constrói como uma das melhores estreias do ano. Apesar de ser vendida como uma comédia, a série é na verdade um pungente drama que nos deixa sem fôlego ao mergulhar no estresse e desgaste das suas cenas na cozinha, ao mesmo tempo em que traz personagens ricos, falhos e com notáveis arcos de evolução. O primeiro episódio nos poupa de qualquer mínima apresentação para nos lançar sem nenhuma piedade no cotidiano caótico da cozinha e das interações e trocas furiosas entre os personagens (quase como se os irmãos Safdie fossem os diretores), de modo que não é nenhum exagero afirmar que saímos do episódio emocionalmente exaustos.


Ainda assim, a curta duração da maioria dos episódios (entre 20 e 30 minutos) nos convida a voltar, e é um retorno que vale a pena, pois ainda que diminua um pouco o frenesi deste primeiro episódio, a série nunca perde de vista esse caos enquanto mergulha mais e mais no interior dos personagens, em especial Carmy. Pouco a pouco aprendemos que ele praticamente evita o resto de sua família para focar no restaurante, que precisou lidar com chefs abusivos em Nova York, e que inconscientemente está reproduzindo padrões desse abuso sobre seus subalternos). White entrega uma performance brilhante, repleta de fúria, tragédia, incoerências e pequenos toques que o humanizam, culminando em um monólogo devastador no último episódio.

Divulgação: FX Networks


Mas a série é inteligente o suficiente para ir além de Carmy, explorando boa parte do núcleo de personagens do restaurante. Destaco em especial dois deles: Sydney (Ayo Edebiri), a recém-chegada que idolatra Carmy e possui diversas ideias e talento, mas nenhuma paciência; e Richie (Ebon Moss-Bachrach), o complicadíssimo melhor amigo do irmão de Carmy que está sempre envolvido nos negócios mais escusos possíveis enquanto tenta se readequar à nova gestão do restaurante, comumente batendo de frente com Carmy por conta disso. Se Sydney é uma espécie de bússola moral, especialmente quando recebe a oportunidade de estar mais à frente na criação dos pratos com a equipe, Richie é o extremo quase oposto.


Ainda assim, a série nunca demoniza um em detrimento do outro; a vemos errar rudemente em alguns momentos e vemos nele lampejos de humanidade e bondade que ilustram o quão trágico e complexo esse homem é, especialmente por não conseguir de forma alguma processar o luto que sente. A eles se juntam outros personagens memoráveis, como o gentil e sensível confeiteiro Marcus (Lionel Boyce) e a teimosa Tina (Liza Colón-Zayas), que apresenta uma das mais nítidas evoluções na temporada. Além disso, a série transforma a própria Chicago, mais especificamente esta região onde o restaurante se localiza, em uma personagem à parte, que é vivida e amada (e odiada) por seus moradores, trazendo ainda o tema da gentrificação para o primeiro plano.


Some-se a isso uma execução técnica impecável (em especial no penúltimo episódio, que consiste de um único plano-sequência nos entregando o momento mais crítico e caótico da temporada), uma trilha sonora sublime – com nomes como Genesis, Wilco, Beach Boys, LCD Soundsystem e Radiohead – e temos muitos fatores que fazem The Bear se destacar em meio ao mar de ofertas medíocres da “peak TV”. Seja no frenesi de uma cozinha ou nas trocas honestas e complexas dos seus personagens, esta temporada inaugural se firma como uma das melhores do ano.


Nota: 4,5/5

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Atualizado: 8 de out.

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Divulgação: FX Networks


Carmen “Carmy” Berzatto (Jeremy Allen White) é um jovem e renomado chef de cozinha que construiu uma carreira para si em Nova York. Entretanto, a morte do seu irmão mais velho o leva de volta para sua terra natal Chicago, onde se vê incumbido de gerenciar o restaurante deixado por ele e se vê preso a uma rotina caótica e extenuante, cercado por funcionários que não o respeitam e ainda por cima enfrentando um luto que parece não conseguir (ou querer) processar.


É sobre essa premissa que The Bear se constrói como uma das melhores estreias do ano. Apesar de ser vendida como uma comédia, a série é na verdade um pungente drama que nos deixa sem fôlego ao mergulhar no estresse e desgaste das suas cenas na cozinha, ao mesmo tempo em que traz personagens ricos, falhos e com notáveis arcos de evolução. O primeiro episódio nos poupa de qualquer mínima apresentação para nos lançar sem nenhuma piedade no cotidiano caótico da cozinha e das interações e trocas furiosas entre os personagens (quase como se os irmãos Safdie fossem os diretores), de modo que não é nenhum exagero afirmar que saímos do episódio emocionalmente exaustos.


Ainda assim, a curta duração da maioria dos episódios (entre 20 e 30 minutos) nos convida a voltar, e é um retorno que vale a pena, pois ainda que diminua um pouco o frenesi deste primeiro episódio, a série nunca perde de vista esse caos enquanto mergulha mais e mais no interior dos personagens, em especial Carmy. Pouco a pouco aprendemos que ele praticamente evita o resto de sua família para focar no restaurante, que precisou lidar com chefs abusivos em Nova York, e que inconscientemente está reproduzindo padrões desse abuso sobre seus subalternos). White entrega uma performance brilhante, repleta de fúria, tragédia, incoerências e pequenos toques que o humanizam, culminando em um monólogo devastador no último episódio.

Divulgação: FX Networks


Mas a série é inteligente o suficiente para ir além de Carmy, explorando boa parte do núcleo de personagens do restaurante. Destaco em especial dois deles: Sydney (Ayo Edebiri), a recém-chegada que idolatra Carmy e possui diversas ideias e talento, mas nenhuma paciência; e Richie (Ebon Moss-Bachrach), o complicadíssimo melhor amigo do irmão de Carmy que está sempre envolvido nos negócios mais escusos possíveis enquanto tenta se readequar à nova gestão do restaurante, comumente batendo de frente com Carmy por conta disso. Se Sydney é uma espécie de bússola moral, especialmente quando recebe a oportunidade de estar mais à frente na criação dos pratos com a equipe, Richie é o extremo quase oposto.


Ainda assim, a série nunca demoniza um em detrimento do outro; a vemos errar rudemente em alguns momentos e vemos nele lampejos de humanidade e bondade que ilustram o quão trágico e complexo esse homem é, especialmente por não conseguir de forma alguma processar o luto que sente. A eles se juntam outros personagens memoráveis, como o gentil e sensível confeiteiro Marcus (Lionel Boyce) e a teimosa Tina (Liza Colón-Zayas), que apresenta uma das mais nítidas evoluções na temporada. Além disso, a série transforma a própria Chicago, mais especificamente esta região onde o restaurante se localiza, em uma personagem à parte, que é vivida e amada (e odiada) por seus moradores, trazendo ainda o tema da gentrificação para o primeiro plano.


Some-se a isso uma execução técnica impecável (em especial no penúltimo episódio, que consiste de um único plano-sequência nos entregando o momento mais crítico e caótico da temporada), uma trilha sonora sublime – com nomes como Genesis, Wilco, Beach Boys, LCD Soundsystem e Radiohead – e temos muitos fatores que fazem The Bear se destacar em meio ao mar de ofertas medíocres da “peak TV”. Seja no frenesi de uma cozinha ou nas trocas honestas e complexas dos seus personagens, esta temporada inaugural se firma como uma das melhores do ano.


Nota: 4,5/5

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