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  • Foto do escritorAianne Amado

Crítica | Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho

A máfia com samba no pé

Foto: Divulgação


Não gosto muito de fazer comparações ou analogias nas minhas críticas. Primeiro porque cada obra é uma obra e segundo porque ninguém precisa ver A para entender B. Mas abro aqui uma exceção.


Eu diria que é inevitável mencionar Poderoso Chefão (1972) e Família Soprano (1999-2007) para falar de Vale o Escrito. A própria série documental e seus entrevistados estabelecem tais referências diversas vezes. Então não, você não precisa ter visto filmes e séries de máfia para gostar de Vale o Escrito… mas se você gosta de filmes e séries de máfia, vai adorar Vale o Escrito. A produção, exibida em sete episódios pela Globoplay, traz tudo que um fã do gênero aprecia: personagens extravagantes, violência desproporcional, luxo indiscriminado, homens com sede de poder (muitas vezes manipulados por mulheres sagazes), código de ética próprio, linha de sucessão, corrupção institucional, escândalo midiático e, na cereja do bolo: envolvimento político com o próprio ex-presidente da república e seus filhos.


Acredito que, como eu, o brasileiro médio tenha conhecimento do jogo do bicho principalmente como um esquema de apostas ilegal mas bastate ativo. Lembro de escutar o termo “bicheiro” vez ou outra durante o noticiário de algum crime hediondo no Rio de Janeiro. Mais que isso, não fazia ideia do que se passava. Acho que imaginava um submundo operado nas sombras por pessoas com disfarces e codinomes. Tamanha foi minha surpresa quando percebi que era precisamente o contrário.


De submundo, o jogo do bicho não tem nada, uma vez que nunca tentou se esconder. Seu movimento, na verdade, sempre foi de divulgação: começa como uma inocente brincadeira de apostas no zoológico, ganha as ruas do rio e, quando se torna contravenção, a avenida – e não qualquer avenida, mas sim a Marquês de Sapucaí. É que os bicheiros buscaram validação social – e, claro, fama e mulheres – ao apadrinhar e presidir as mais famosas escolas de samba cariocas.

Foto: Divulgação


Não deveria surpreender, então, que muitos dos personagens dessa história (os que estão vivos, pelo menos) tenham aceitado ser entrevistados para o documentário. Mas não deixa de ser espantoso como eles conseguiram reunir tantas pessoas para, de forma tão serena, deixar registrado o seu lado da história – lados que muitas vezes se contradizem, tornando tudo ainda mais interessante.


A única coisa em que podemos confiar é na impressionante e minuciosa pesquisa de arquivos realizada pela equipe da série, que levou três anos para ser realizada. Para contar essa história, roteirizada por Fellipe Awi e Ricardo Callil, brilhantemente dirigida por estes e por Gian Carlo Bellotti, com supervisão artística e narração de Pedro Bial, opta-se por tomar como fio condutor a vida de duas protagonistas literalmente dignas de novela: Shanna e Tamara Garcias, gêmeas que se auto comparam com as icônicas Ruth e Raquel.


Até chegar a elas, somos apresentados às cinco famílias que comandam o jogo do bicho na cidade do Rio de Janeiro. A paz e a camaradagem são alcançadas graças à cúpula formada pelo alto escalão, que divide as áreas por bicheiro, como num tabuleiro de War. Porém a tranquilidade dura pouco e, quando novas gerações passam a entrar na disputa, assassinatos brutais começam a surgir. Uma das dessas vítimas é Maninho Garcia, pai das gêmeas, que deixa uma lacuna na linha de sucessão, impossibilitada de ser preenchida por mulheres.


Daí para frente somos apresentados a uma série de disputas internas que fogem ao proporcional para qualquer cidadão comum, sempre comentadas por coadjuvantes que enriquecem ainda mais essa já muito opulenta narrativa.


Vale o Escrito não é uma série qualquer. Ela não tem mocinhos nem heróis. Tem início mas ainda não sabemos o fim. E, certamente, não tem moral da história. Mas ainda assim, ou talvez por isso, entra imediatamente para o hall da fama de grandes produções documentais desse país.


Nota: 5/5

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