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Crítica | A História Mais Triste do Mundo (Mostra de SP 2026)

Ana Beatriz Andrade

29 de out de 2026 · 3 min de leitura

A delicadeza de crescer entre despedidas em uma fábula para os pequenos

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Não posso afirmar com toda certeza qual foi a primeira vez que, ainda criança, um filme me fez compreender um sentimento complexo. Posso dizer, no entanto, que “Ponte para Terabítia” foi um marco. Acho que tinha por volta dos oito anos quando assisti ao filme e me lembro de sentir uma verdadeira avalanche de emoções. Talvez porque, naquela época, tenha começado a compreender coisas difíceis de processar mesmo com o passar dos anos. Era a solidão e o medo de ficar sozinha no mundo.


Em “A História Mais Triste do Mundo”, exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, encontramos uma tentativa semelhante de traduzir sentimentos duros em uma narrativa infantil. Acompanhamos Marco, que, ainda muito pequeno, precisa lidar com a morte do irmão gêmeo e com a indiferença dos próprios pais, que o vendem a um circo de passagem pela cidade por causa de seus cabelos vermelhos e de suas orelhas protuberantes. É ali que começa sua jornada, entre figuras improváveis, encontros inesperados e descobertas sobre a vida e sobre si mesmo.


Quase todo o filme é conduzido pela voz de um Marco já adulto, que revisita a própria infância em retrospecto. Baseada no livro de Mário Corso, a obra encontra maneiras interessantes de dividir os capítulos dessa história, recorrendo a diferentes recursos audiovisuais que transitam entre a animação e o live-action. A direção de Hique Montanari constrói uma atmosfera lúdica ao redor de Marco e dos personagens que passam a fazer parte de sua vida, como Bia, filha dos equilibristas do circo e seu futuro interesse romântico, e Pastel, seu amigo e companheiro de jornada.


Nesse universo, até as amizades mais improváveis ganham espaço. A relação com Osso, seu cachorro, e a aproximação com Sudão, o leão do circo de Fausto, ajudam a compor esse pequeno mundo de afetos que Marco constrói para si. Em meio a tantas ausências, são esses vínculos que oferecem ao menino alguma sensação de pertencimento.


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O que faz a trama de Marco merecer o título de “a história mais triste do mundo” são as constantes partidas que atravessam sua vida. Para ele, o abandono parece menos uma possibilidade do que uma certeza, uma espécie de destino que insiste em se repetir a cada novo vínculo estabelecido. Ainda assim, tudo é contado com uma dose de fantasia e irrealismo que transforma o filme em uma fábula audiovisual que, em boa medida, entrega o que promete. Há delicadeza na maneira como a narrativa aborda temas tão difíceis sem abrir mão do encantamento, encontrando no universo infantil uma linguagem capaz de acolher sentimentos que, tantas vezes, os adultos preferem esconder.


O problema é que essa mesma liberdade imaginativa começa a pesar sobre o ritmo nos minutos finais. Por volta dos últimos 30 minutos, uma sucessão de acontecimentos se torna repetitiva, e algumas situações parecem se afastar demais da realidade emocional que o filme vinha construindo. A fantasia, que até então servia como uma ponte entre a experiência de Marco e o espectador, por vezes se transforma em um desvio, enfraquecendo o impacto de questões que mereciam mais espaço para respirar. É um tropeço relativamente fácil de relevar, mas que pode testar a paciência até dos espectadores mais crescidinhos.


Pode ser que o que impeça a história de Marco de ser, de fato, a mais triste do mundo seja justamente seu otimismo incurável e sua insistência em seguir em frente. Mesmo quando a vida parece determinada a lhe ensinar sobre perdas, o menino continua encontrando motivos para se apegar às pessoas e acreditar na possibilidade de ser amado. Existe algo de comovente nessa disposição de recomeçar, sobretudo quando sabemos o quanto o abandono pode nos ensinar a esperar sempre o pior.


Em suma, “A História Mais Triste do Mundo” compreende que crescer também é descobrir que nem toda ausência pode ser reparada e que nem sempre conseguimos impedir as pessoas de partir. Mas, há uma diferença entre aprender a conviver com a solidão e permitir que ela ocupe todos os espaços da nossa vida. Marco, com toda a sua ingenuidade e esperança, parece escolher a primeira opção. Às vezes, sobreviver à tristeza não significa deixar de senti-la, mas descobrir que ela não precisa ser a única história que temos para contar.


Nota: 3/5


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Imagem: Divulgação
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Não posso afirmar com toda certeza qual foi a primeira vez que, ainda criança, um filme me fez compreender um sentimento complexo. Posso dizer, no entanto, que “Ponte para Terabítia” foi um marco. Acho que tinha por volta dos oito anos quando assisti ao filme e me lembro de sentir uma verdadeira avalanche de emoções. Talvez porque, naquela época, tenha começado a compreender coisas difíceis de processar mesmo com o passar dos anos. Era a solidão e o medo de ficar sozinha no mundo.


Em “A História Mais Triste do Mundo”, exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, encontramos uma tentativa semelhante de traduzir sentimentos duros em uma narrativa infantil. Acompanhamos Marco, que, ainda muito pequeno, precisa lidar com a morte do irmão gêmeo e com a indiferença dos próprios pais, que o vendem a um circo de passagem pela cidade por causa de seus cabelos vermelhos e de suas orelhas protuberantes. É ali que começa sua jornada, entre figuras improváveis, encontros inesperados e descobertas sobre a vida e sobre si mesmo.


Quase todo o filme é conduzido pela voz de um Marco já adulto, que revisita a própria infância em retrospecto. Baseada no livro de Mário Corso, a obra encontra maneiras interessantes de dividir os capítulos dessa história, recorrendo a diferentes recursos audiovisuais que transitam entre a animação e o live-action. A direção de Hique Montanari constrói uma atmosfera lúdica ao redor de Marco e dos personagens que passam a fazer parte de sua vida, como Bia, filha dos equilibristas do circo e seu futuro interesse romântico, e Pastel, seu amigo e companheiro de jornada.


Nesse universo, até as amizades mais improváveis ganham espaço. A relação com Osso, seu cachorro, e a aproximação com Sudão, o leão do circo de Fausto, ajudam a compor esse pequeno mundo de afetos que Marco constrói para si. Em meio a tantas ausências, são esses vínculos que oferecem ao menino alguma sensação de pertencimento.


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O que faz a trama de Marco merecer o título de “a história mais triste do mundo” são as constantes partidas que atravessam sua vida. Para ele, o abandono parece menos uma possibilidade do que uma certeza, uma espécie de destino que insiste em se repetir a cada novo vínculo estabelecido. Ainda assim, tudo é contado com uma dose de fantasia e irrealismo que transforma o filme em uma fábula audiovisual que, em boa medida, entrega o que promete. Há delicadeza na maneira como a narrativa aborda temas tão difíceis sem abrir mão do encantamento, encontrando no universo infantil uma linguagem capaz de acolher sentimentos que, tantas vezes, os adultos preferem esconder.


O problema é que essa mesma liberdade imaginativa começa a pesar sobre o ritmo nos minutos finais. Por volta dos últimos 30 minutos, uma sucessão de acontecimentos se torna repetitiva, e algumas situações parecem se afastar demais da realidade emocional que o filme vinha construindo. A fantasia, que até então servia como uma ponte entre a experiência de Marco e o espectador, por vezes se transforma em um desvio, enfraquecendo o impacto de questões que mereciam mais espaço para respirar. É um tropeço relativamente fácil de relevar, mas que pode testar a paciência até dos espectadores mais crescidinhos.


Pode ser que o que impeça a história de Marco de ser, de fato, a mais triste do mundo seja justamente seu otimismo incurável e sua insistência em seguir em frente. Mesmo quando a vida parece determinada a lhe ensinar sobre perdas, o menino continua encontrando motivos para se apegar às pessoas e acreditar na possibilidade de ser amado. Existe algo de comovente nessa disposição de recomeçar, sobretudo quando sabemos o quanto o abandono pode nos ensinar a esperar sempre o pior.


Em suma, “A História Mais Triste do Mundo” compreende que crescer também é descobrir que nem toda ausência pode ser reparada e que nem sempre conseguimos impedir as pessoas de partir. Mas, há uma diferença entre aprender a conviver com a solidão e permitir que ela ocupe todos os espaços da nossa vida. Marco, com toda a sua ingenuidade e esperança, parece escolher a primeira opção. Às vezes, sobreviver à tristeza não significa deixar de senti-la, mas descobrir que ela não precisa ser a única história que temos para contar.


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