Crítica | A Professora de Francês (Mostra de SP 2026)
O fanatismo religioso transforma o acolhimento em ameaça no terror de Ricardo Alves Jr.

O que acontece quando a ajuda oferecida em um momento de fragilidade se transforma em uma ferramenta de controle? Em A Professora de Francês, longa-metragem brasileiro dirigido por Ricardo Alves Jr., o horror não nasce apenas de acontecimentos inexplicáveis, mas também de situações cotidianas que, aos poucos, revelam o lado mais perverso do fanatismo religioso. Presente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2026, o filme tem lançamento comercial previsto para 2027 e aposta na construção gradual do desconforto para discutir intolerância, conservadorismo e a violência escondida sob discursos de acolhimento.
Interpretada por Grace Passô, Graça é uma professora particular de francês que vive em Belo Horizonte com a namorada francesa. Quando uma emergência de saúde envolvendo seu pai a obriga a retornar à casa onde cresceu, no subúrbio mineiro, ela reencontra um ambiente no qual já não parece pertencer. A família vizinha, responsável por um culto religioso na comunidade, oferece apoio durante esse período delicado. O problema é que a solidariedade vem acompanhada de expectativas, cobranças e tentativas de enquadrá-la em um modelo moral que não corresponde à sua maneira de viver.
Ricardo Alves Jr. constrói muito bem a atmosfera de suspense, que cresce conforme a narrativa avança. A casa, os espaços reduzidos, os corredores e a movimentação dos personagens ajudam a criar uma sensação de aprisionamento, como se Graça estivesse perdendo o controle sobre o próprio território. O trabalho de fotografia, especialmente no uso das sombras e da iluminação, contribui para esse efeito sufocante. Entre o terror psicológico e o sobrenatural, o longa encontra momentos de genuína inquietação ao transformar olhares, conversas e gestos aparentemente banais em sinais de ameaça.
A força do filme está justamente na maneira como o horror se infiltra na rotina. Não é necessário recorrer o tempo inteiro a manifestações extraordinárias quando a própria convivência já é capaz de produzir medo. A oferta de ajuda ao pai de Graça, por exemplo, deixa de representar um gesto desinteressado e passa a funcionar como uma espécie de dívida moral. A protagonista se vê cercada por pessoas que parecem agir em nome do bem, mas cuja generosidade depende de sua disposição para aceitar regras e valores alheios.
É nesse ponto que A Professora de Francês encontra sua dimensão mais perturbadora. O fundamentalismo religioso não aparece somente como um conjunto de crenças, mas como um instrumento de vigilância e coerção. Sob a justificativa de proteger, orientar ou salvar alguém, a comunidade tenta determinar quais comportamentos são aceitáveis e quais devem ser corrigidos. O filme entende que a violência conservadora nem sempre se apresenta de maneira explícita: ela também pode se manifestar na pressão constante, na invasão da privacidade e na tentativa de fazer alguém sentir vergonha da própria existência.
Essa discussão ganha um peso particular quando pensamos nas pessoas LGBTQIA+, frequentemente colocadas diante de discursos que tratam sua identidade e seus afetos como problemas morais a serem resolvidos. Para quem nunca precisou temer a rejeição da própria família por ser quem é, pode parecer exagerada a preocupação com o avanço do conservadorismo religioso e suas consequências. Entretanto, basta observar quantas famílias deixam de se falar, quantos filhos são afastados de seus pais e quantas relações são destruídas em nome de determinadas convicções para compreender que esse medo não é abstrato.

O filme dialoga, assim, com um cenário brasileiro em que a religião também ocupa um lugar importante nas disputas políticas e na definição de quais direitos devem ser reconhecidos. Após anos de polarização, em que discursos moralistas foram mobilizados para atacar minorias e transformar diferenças em ameaças, seria ingenuidade tratar o fundamentalismo como uma questão restrita à esfera privada. Quando determinadas crenças passam a justificar a retirada de direitos, a perseguição de pessoas e o rompimento de vínculos afetivos, a intolerância deixa de ser apenas uma divergência de opiniões. Ela se torna uma forma de violência que afeta a vida concreta de quem não se encaixa no modelo considerado correto.
A escolha de uma família tradicional mineira como parte desse universo também contribui para a construção do longa. O ambiente doméstico, que poderia representar acolhimento e pertencimento, transforma-se em um espaço de confronto entre diferentes formas de compreender o mundo. Graça retorna à origem, mas descobre que compartilhar uma história com aquele lugar não significa necessariamente encontrar segurança nele. A sensação de estranhamento é ampliada pela distância entre sua vida atual e os valores da comunidade que a cerca, reforçando a ideia de que a intimidade pode se tornar um território hostil quando o afeto é condicionado à obediência.
Grace Passô é fundamental para sustentar essa experiência. Com uma atuação marcada pela expressividade do olhar e pela contenção, a atriz transmite o desconforto de uma mulher que percebe, gradualmente, estar envolvida em uma situação da qual não consegue compreender todas as dimensões. Sua presença confere força à personagem mesmo nos momentos em que o roteiro não oferece elementos suficientes para aprofundar sua construção psicológica. Pedro Goifman também merece destaque no papel de um personagem cuja simpatia aparente torna suas atitudes ainda mais inquietantes. O embate entre os dois intérpretes é um dos pontos altos do filme.
Apesar das qualidades, a narrativa esbarra em uma fragilidade importante: a passividade de sua protagonista. Em diferentes momentos, as situações se tornam suficientemente absurdas para que a decisão de ir embora pareça a saída mais evidente. A insistência de Graça em permanecer naquele ambiente exige do espectador uma disposição que o roteiro nem sempre consegue justificar. Em vez de desenvolver com maior profundidade os motivos emocionais, familiares ou psicológicos que a mantém ali, o filme frequentemente parece depender de sua falta de reação para que os acontecimentos continuem avançando.
Essa limitação prejudica parcialmente a identificação com a personagem e enfraquece alguns dos conflitos que deveriam sustentar o suspense. Afinal, se o longa pretende mostrar como o controle se instala gradualmente nas relações, seria interessante compreender melhor por que Graça demora tanto a reconhecer a dimensão do perigo e quais vínculos a impedem de romper com aquela situação. A construção de sua psique poderia ser mais consistente, especialmente diante de uma conclusão que exige uma transformação significativa na maneira como compreendemos a protagonista.
Ainda assim, o desfecho recupera parte da força que a narrativa perde pelo caminho. A sequência final é muito bem construída e reforça o potencial do filme ao aproximar o horror de questões que ultrapassam a experiência individual de Graça. Mesmo que a mudança da personagem não seja preparada com toda a profundidade necessária, a conclusão funciona como um dos momentos mais marcantes do longa e ajuda a justificar a experiência.
Com A Professora de Francês, Ricardo Alves Jr. demonstra sensibilidade para construir atmosferas e explorar as possibilidades do terror como ferramenta de comentário social. O filme nem sempre consegue equilibrar a construção de sua protagonista com a progressão dos acontecimentos, mas acerta ao mostrar que o perigo pode se esconder justamente nos lugares em que esperamos encontrar acolhimento. Em uma sociedade na qual tantas pessoas ainda precisam negociar a própria liberdade para preservar vínculos familiares ou comunitários, o horror apresentado pelo longa está longe de ser apenas uma fantasia cinematográfica.
Nota: 4/5













