Crítica | Amadeo e o Hipotético Mundo Novo (Mostra de SP 2026)
Animação ousa sonhar uma utopia em pleno Brasil colonial

No seriado Mad Men, uma personagem explica os dois significados dados pelos gregos à palavra utopia: eu-topos, “o bom lugar”, ou ou-topos, “o lugar que não pode ser”. Ao longo dos tempos, a ideia de utopia foi sendo associada quase a uma espécie de paraíso, mas sobretudo um paraíso inacessível. Mas se ele é inacessível, o que nos custa pelo menos sonhar com sua existência?
Em Amadeo e o Hipotético Mundo Novo, a dupla de diretores e roteiristas Brenda Lígia e Edu Felistoque ousa sonhar essa utopia num dos lugares mais improváveis possíveis: o Brasil colonial, mais especificamente no contexto pós-independência. O filme não está interessado numa reconstituição exata dos eventos históricos, mas sim em usá-los como ponto de partida para explorar o Brasil, o “hipotético mundo novo” do seu título, como um lugar onde outras realidades podem ser fabuladas e possibilitadas.
A animação segue seu protagonismo homônimo, um jovem africano tirado à força de sua tribo na Guiné-Bissau e levado como um escravizado até Portugal, onde acaba sendo inesperadamente libertado pelas forças bonapartistas. A partir daí, seus caminhos se cruzam com o do cientista muçulmano Aziz, cujo sonho é partir numa expedição ao Brasil. O tempo passa e Amadeo aprofunda seu lado como um prodigioso inventor através da mentoria de Aziz, mas quando uma tragédia interrompe os planos deles de expedicionarem pelo Brasil, ele se vê formando alianças improváveis – inclusive com a jovem Linda, herdeira de um senhor de terras falido – para libertar os escravizados destas terras.
Apesar dos temas duros com os quais trabalha (e de uma certa dose de violência, aqui e ali), Amadeo... evidente se constrói como uma obra voltada para um público geral, mas para o infantil, antes de tudo. Isso é expresso no trabalho em 2D da animação, que, embora sejam marcados por uma “rigidez” em termos de expressões dos personagens, gera um encantamento pelos traços angulares e em um design dos corpos que, se à primeira vista parece irreal demais pelo exagero, também colabora para que nos “descolemos” de qualquer demanda por fidelidade aos fatos históricos para ancorar o filme nesse universo mais lúdico e fantasioso.

Entretanto, a abrangência do público a ser alcançado por vezes conduz a uma certa oscilação tonal, em que o humor mais infantil contrasta com sequências mais sérias e dramáticas, sem que se encontre um equilíbrio entre essas partes. O filme também encontra uma dificuldade de equilibrar seus diferentes blocos, como, por exemplo, o interesse de Amadeo na invenção da fotografia – a qual, embora alardeada pela sinopse como o mote principal do filme, só é de fato introduzida lá para a segunda metade da obra. E, embora ele se proponha a ser um exercício utópico, é difícil não se dissociar da sensação de que certas resoluções se mostram muito convenientes ou até ingênuas (como a do bloco de libertação dos escravizados).
Mas, no fim das contas, pouco importa se na vida real um homem africano não criou a câmera fotográfica; afinal, quantas descobertas importantes foram feitas por povos não-brancos antes dos europeus as reivindicarem para si? Assim, Lígia e Felistoque buscam em Amadeo e o Hipotético Mundo Novo brincar com as possibilidades e brechas da própria realidade para construir uma narrativa que, embora possa parecer muito ingênua em determinados momentos, deseja nos tirar de um lugar de cinismo e apatia para sonhar e lutar para que tal mundo novo seja possível.
Nota: 3/5













