Crítica | Carrie, A Estranha - 2026 (1ª temporada)

há 7 horas
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Ao expandir a história de Stephen King, Mike Flanagan encontra no fanatismo, na violência e na solidão de Carrie novas formas de refletir sobre uma sociedade que continua produzindo seus próprios monstros.

Há algo de muito particular na filmografia de Mike Flanagan e na maneira como o cineasta constrói o terror e o sensível dentro de suas obras. Seja ao transformar o luto e seus traumas em uma presença quase física em A Maldição da Residência Hill, seja ao utilizar o sobrenatural como uma alegoria profunda para discutir fanatismo religioso, culpa, alcoolismo e a forma como o ser humano manipula crenças para exercer poder sobre os outros em Missa da Meia-Noite, Flanagan se consolidou como uma das vozes mais proeminentes do terror contemporâneo justamente por ir além de simplesmente contar uma história ou apostar em jumpscares baratos. Seus trabalhos quase sempre parecem encontrar uma maneira muito específica de convergir o horror com aquilo que existe de mais intrinsecamente humano.
Quando foi anunciado como showrunner da nova adaptação de Carrie, A Estranha, portanto, a escolha não chegou a ser uma surpresa. Flanagan já havia adaptado três obras de Stephen King, Jogo Perigoso, Doutor Sono e A Vida de Chuck, e agora recebeu a missão de revisitar talvez uma das histórias mais conhecidas do mestre do terror. A nova série chega ao Prime Video em 7 de outubro e, de forma antecipada, o Oxente Pipoca assistiu aos oito episódios desta versão atualizada para 2026.
A tarefa, no entanto, estava longe de ser simples. Carrie não é apenas um livro conhecido. É uma história que foi contada, recontada, encenada, referenciada e transformada de inúmeras maneiras ao longo das últimas cinco décadas. O romance de King, publicado em 5 de abril de 1974, ganhou sua adaptação mais emblemática apenas dois anos depois, quando Brian De Palma levou a história aos cinemas com Sissy Spacek como Carrie White e Piper Laurie como Margaret White. O filme de 1976 não apenas se tornou um dos grandes clássicos do terror, como também estabeleceu imagens que passaram a fazer parte do imaginário coletivo, especialmente a cena do baile e o balde de sangue derramado sobre a protagonista.
Depois de De Palma, vieram A Maldição de Carrie (The Rage: Carrie 2), de 1999, uma sequência que expandia a história original; a adaptação televisiva de 2002, estrelada por Angela Bettis; e o longa dirigido por Kimberly Peirce em 2013, com Chloë Grace Moretz e Julianne Moore. A obra também ganhou uma versão musical na Broadway e inúmeras referências na cultura pop. No Brasil, a influência chegou até Chocolate com Pimenta, novela de 2003 que reproduziu a famosa ideia da humilhação de Carrie ao colocar Ana Francisca em uma situação inspirada diretamente no clássico de King e De Palma.
É justamente esse impacto cultural que torna a nova série uma tarefa tão complicada. Muito provavelmente, boa parte das pessoas que assistirão a Carrie no próximo dia 7 já sabe muito bem o que vai acontecer. Sabemos quem é Carrie, sabemos quem é Margaret, sabemos o que acontece no baile e sabemos que, em algum momento, aquele acúmulo de violência vai explodir. A história já faz parte do imaginário popular de uma maneira que poucas obras de terror conseguiram alcançar.
E ainda assim, mais de cinco décadas depois, continua impressionante perceber como uma obra bem construída pode ser atemporal e, ao mesmo tempo, moldada para os diferentes períodos em que é contada. A premissa permanece essencialmente a mesma: Carrie White é uma adolescente retraída, submetida ao fanatismo religioso da família e à crueldade dos colegas de escola, que descobre possuir poderes telecinéticos e chega ao limite depois de uma sequência de humilhações. O que muda é o mundo ao redor dela.
Flanagan entende isso muito bem e se apropria do gênero para imprimir sua própria marca sem perder o fio da história original. A grande diferença é que agora temos oito episódios para ampliar aquilo que antes precisava caber em um romance ou em um filme. Personagens que poderiam existir apenas como figuras secundárias ganham espaço, relações são aprofundadas e determinadas atitudes passam a ter consequências maiores. A série aumenta Carrie em escala macroscópica sem necessariamente perder sua essência.

A atualização para 2026 também faz com que a história pareça assustadoramente familiar. Se as versões mais recentes de Carrie dialogavam com uma sociedade marcada pelo trauma de Columbine e pelo debate sobre violência nas escolas, a série de Flanagan encontra um período em que praticamente todas as discussões envolvendo educação se tornaram campos de batalha cultural: censura de livros, tecnologia, direitos parentais, religião, controle de armas, inclusão LGBTQIA+, redes sociais e os conflitos entre ciência e fé. A escola deixa de ser apenas o espaço onde Carrie sofre bullying e passa a funcionar como um reflexo de uma sociedade cada vez mais fragmentada.
O fanatismo religioso, um dos pilares da história de King, continua ocupando um espaço central. E talvez seja justamente aqui que Flanagan consiga colocar uma de suas marcas mais reconhecíveis. Assim como em Missa da Meia-Noite, a religião não aparece simplesmente como elemento decorativo ou como uma explicação para o comportamento de seus personagens. Ela é também uma ferramenta de controle, uma estrutura capaz de determinar o que é certo e errado e, principalmente, quem tem o direito de decidir isso.
É nesse contexto que Samantha Sloyan encontra uma das grandes atuações da temporada como Margaret White. A personagem poderia facilmente ser reduzida à imagem da grande vilã da história, uma mãe fanática e cruel que transforma a própria filha em prisioneira de suas crenças. Sloyan, porém, encontra humanidade onde seria muito mais fácil enxergar apenas monstruosidade.
Sua Margaret continua sendo profundamente perturbadora, mas também existe nela dor, medo, culpa e uma forma completamente distorcida de amor. Ela acredita estar protegendo Carrie. E justamente por acreditar que suas ações são necessárias é que se torna ainda mais assustadora. O horror não está simplesmente em uma mulher que faz coisas terríveis, mas em alguém que constrói uma justificativa moral para fazê-las.
Essa humanidade acrescentada à personagem é um dos grandes acertos da série. Margaret deixa de ser apenas uma caricatura do fanatismo religioso para se tornar alguém que também foi moldada por suas próprias feridas e que, ao tentar impedir que a filha seja destruída pelo mundo, acaba reproduzindo dentro de casa a mesma violência da qual tenta protegê-la.
Do outro lado dessa relação está Summer H. Howell, que assume uma personagem que talvez seja uma das mais difíceis de interpretar dentro do gênero. Depois de Sissy Spacek transformar Carrie em um dos rostos mais marcantes do terror, qualquer nova versão precisaria inevitavelmente lidar com essa comparação. Howell, felizmente, não tenta repetir a interpretação anterior. Sua Carrie encontra um frescor próprio e uma fragilidade que combina com a proposta mais extensa da série.
Existe ingenuidade, medo e isolamento em sua performance, mas também existe uma personagem começando a descobrir quem é e o que deseja. E é justamente aqui que a série apresenta uma de suas escolhas mais interessantes, mas também mais discutíveis.
A Carrie de Flanagan parece, em diversos momentos, muito mais inclinada à bondade e à inocência do que a personagem de Stephen King permite interpretar. Existe uma tendência de enxergá-la como alguém essencialmente não vingativa, de coração puro, quase sempre colocada na posição de vítima. Essa leitura pode ser problemática porque simplifica justamente uma das maiores forças da personagem original: sua ambiguidade. Carrie não precisa ser uma vilã para ser perigosa. Mas também não precisa ser completamente inocente para ser vítima.
É nessa zona cinzenta que a personagem se torna verdadeiramente fascinante. A versão de Flanagan, mesmo quando se aproxima demais de uma Carrie essencialmente bondosa, abre espaço para uma dualidade feroz que impede que ela seja reduzida ao binarismo entre bem e mal. Ela é vítima, mas também é agente. É alguém que sofreu violência, mas que pode reproduzi-la. E compreender essa contradição é muito mais interessante do que simplesmente decidir se Carrie é uma heroína ou um monstro.
Essa construção ganha ainda mais força porque Flanagan sabe exatamente para onde está levando sua história. O público conhece o destino. Sabe que existe um baile. Sabe que haverá sangue. Sabe que Carrie chegará ao seu limite. A tensão, então, não nasce da pergunta sobre o que vai acontecer, mas de como cada pequeno acontecimento levará inevitavelmente até aquele momento.

A narrativa é lenta, como já é característico do trabalho de Flanagan, mas existe propósito nessa lentidão. O horror vai se desenvolvendo de maneira gradual e extremamente efetiva, enquanto cada relação, conflito e detalhe aparentemente pequeno começa a ganhar importância conforme a temporada avança. Quando chegamos aos dois episódios finais, a sensação é de que tudo aquilo que vimos anteriormente estava sendo cuidadosamente colocado no lugar para que finalmente pudéssemos compreender a grandiosidade daquele momento.
E mesmo sabendo o que vai acontecer, existe tensão. Porque agora conhecemos melhor aquelas pessoas. O sangue derramado sobre Carrie deixa de ser apenas uma imagem icônica reproduzida mais uma vez. Ele passa a carregar tudo aquilo que aconteceu antes. Cada humilhação, cada omissão, cada tentativa de controle e cada oportunidade perdida de impedir que aquela situação chegasse ao extremo.
É justamente nessa ampliação que a série encontra uma das suas maiores forças. Flanagan não transforma Carrie em uma história completamente diferente. Ele entende que o material original já possui tudo o que precisa e utiliza o formato seriado para olhar mais de perto para aquilo que existia entre as linhas.
A violência também ganha novas dimensões em um mundo no qual a humilhação pode ser registrada, compartilhada e transformada em entretenimento em questão de segundos. A dor de alguém não precisa mais ficar restrita ao ambiente onde aconteceu. Ela pode ser publicada, comentada e consumida por milhares de pessoas.
O bullying deixa de ser apenas uma questão entre adolescentes e passa a integrar uma estrutura muito maior, na qual adultos, instituições e comunidades também participam, direta ou indiretamente, da construção da tragédia. A série entende que acontecimentos extremos raramente são resultado de uma única decisão. Eles podem nascer de uma sucessão de pequenas violências, omissões e escolhas que, isoladamente, parecem insignificantes, mas que juntas produzem consequências irreversíveis.
É uma leitura que conversa diretamente com o que Stephen King já fazia em seu romance. Carrie nunca existiu isoladamente. Ela é produto do ambiente em que foi criada, das pessoas que a cercam e das estruturas que permitiram que sua violência continuasse acontecendo. Flanagan apenas aumenta o alcance dessa ideia.
E talvez seja por isso que Carrie continue funcionando tão bem quase cinquenta anos depois. A história pode mudar de época, de atriz, de diretor e de linguagem, mas seu centro permanece assustadoramente reconhecível. A sociedade continua encontrando maneiras de determinar quem pertence e quem deve ser colocado à margem.
Brian De Palma continua sendo uma presença impossível de ignorar. Sua versão de 1976 é tão marcante que qualquer nova adaptação precisaria encontrar uma justificativa própria para existir. Flanagan não tenta apagar essa sombra e tampouco parece interessado em competir diretamente com ela. Sua proposta é outra. Ele entende que uma história atemporal não é uma história congelada no tempo. Carrie permanece relevante justamente porque pode mudar junto com o mundo.
A série encontra força ao levar uma história conhecida para um presente no qual fanatismo religioso, violência escolar, redes sociais e disputas culturais fazem parte do cotidiano. Ao mesmo tempo, mantém o coração trágico do romance de King e utiliza seus oito episódios para compreender melhor as pessoas que fazem parte dessa tragédia.
Ao ampliar a história, Flanagan também amplia sua tragédia. Ao humanizar seus personagens, torna suas escolhas mais dolorosas. E, ao encontrar novas possibilidades para uma narrativa que já conhecemos tão bem, mostra que talvez Carrie nunca tenha sido apenas sobre uma garota com poderes telecinéticos.
É sobre uma mãe que transforma a fé em instrumento de controle. Sobre uma escola que assiste à violência até que seja tarde demais. Sobre jovens que confundem crueldade com diversão. Sobre uma sociedade que transforma a humilhação de alguém em espetáculo. E, principalmente, sobre o que pode acontecer quando uma pessoa é empurrada para o limite por aqueles que deveriam ter impedido sua queda.
A série também entende que, quando o público já conhece o destino de uma história, o verdadeiro desafio está no caminho. E Flanagan faz esse percurso lentamente, acumulando acontecimentos e relações até chegar aos episódios finais, quando tudo aquilo que parecia pequeno passa a fazer sentido dentro de uma engrenagem muito maior.
Carrie, A Estranha talvez não seja uma tentativa de reinventar completamente o clássico de Stephen King. É algo mais interessante: uma demonstração de como uma história pode permanecer reconhecível mesmo quando seu contexto muda por completo. Porque Carrie continua sendo Carrie. O baile continua sendo o baile. O sangue continua sendo sangue.
Mas, cinquenta anos depois, nós já não somos exatamente os mesmos espectadores que assistiram àquilo pela primeira vez. E é nessa diferença que Mike Flanagan encontra espaço para contar novamente uma história que todos nós achamos que já conhecíamos. Nota: 4.5/5



















