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Crítica | Hope – O Primeiro Impacto

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
45min
4 min de leitura

Na Hong-jin honra e incorpora os códigos do cinema de ação e de monstro hollywoodiano em blockbuster frenético e alucinante.


Divulgação


Antropofagia cultural: o ato de “deglutir” influências estrangeiras e transformar em algo próprio e local, sem meramente copiar essas influências. O conceito, discutido pela primeira vez na Semana de Arte Moderna de 1922, parece se aplicar muito bem ao que o diretor coreano Na Hong-Jin faz em Hope – O Primeiro Impacto, seu primeiro longa em dez anos. Talvez uma das obras mais divisivas e comentadas em Cannes nesta última edição, é um filme que chega envolto de mistérios (muitos dos quais desnecessários), mas que surpreende em sua frontalidade.


Tentarei honrar a divulgação elusiva do filme e contar o mínimo possível a seu respeito, mas basta dizer que ele começa com o delegado Ko Bum-seok (Hwang Jung-min) e seu primo, o caçador Ko Sung-ki (Zo In-sung), descobrindo o corpo dilacerado de uma vaca no meio de uma estrada na pequena cidade costeira que dá nome ao filme, localizada na fronteira entre as duas Coreias. A partir disso ele se bifurca em duas linhas narrativas: a primeira segue Bum-seok de volta à Hope para encarar junto à sua assistente Im Sung-ae (Jung Ho-yeon) e os moradores locais uma ameaça como jamais viram; e a segunda acompanha Sung-ki e seus colegas caçadores à espreita pela floresta em busca de pistas, mas se deparando com revelações chocantes.


Não é nenhum spoiler dizer que as ameaças enfrentadas por estes personagens são monstros, pois Hope é, em essência, um filme filiado à tradição do cinema de monstro. E como os melhores filmes do gênero, ele entende que a(s) criatura(s) precisam ser reveladas o mínimo possível – e/ou terem a revelação delas adiada o máximo possível. Em seu livro O Campo Cego, o teórico Pascal Bonitzer nos diz que "se a visão é parcial, o inimigo está em todas as partes"; por isso, Hong-Jin protela a identidade e aparência do(s) monstro(s) o máximo possível, prolongando nossa expectativa (e ansiedade) tanto ao ocultá-los dos olhos de Bum-seok conforme ele vaga pela cidade à caça da criatura, ou ao nos dar seu ponto de vista subjetivo enquanto observa Sung-ki e os colegas.


Até que essa revelação seja feita, porém, o filme se filia a outro gênero: a ação. E muito me surpreende a frontalidade com a qual Hong-jin filma as sequências desta primeira hora, conferindo-lhe um ritmo frenético e quase ininterrupto onde vemos uma sucessão de perseguições, tiroteios, mortes e destruição pela cidade. É nesse aspecto que o diretor passa a trabalhar sua antropofagia, sobretudo pelo viés da sátira, como se ora tratasse os códigos destes gêneros com absoluta seriedade e reverência, mas também brincasse com eles e os ridicularizasse (como na questão do arsenal infinito à disposição dos personagens ou as balas que nunca acabam conforme atiram em tudo e em todos).


Nesse sentido, Hong-jin insere um subtexto político que pode passar despercebido, mas se faz presente: os cartazes admoestando a identificação de espiões norte-coreanos, as minas espalhadas pela fronteira, o belicismo dos personagens e, mais do que tudo, o uso do monstro como Outro. A tradição das artes (sobretudo no cinema e na literatura) muitas vezes discutiu hegemonicamente o monstro como algo que pode e deve ser temido – basta pensar em Drácula e Nosferatu como representações habitualmente antissemitas na Europa do começo do século passado –, mas aqui Hong-jin está mais interessado em conferir gradativas nuances aos monstros, especialmente quando entendemos o que motivou seus ataques em primeiro lugar.


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Após a explosiva primeira hora, é inevitável que o longa dê uma desacelerada no ritmo que pode esfriar os ânimos acalorados após tanta ação incessante, mas essa “pausa” serve tanto para reposicionar os personagens quanto para ampliar o escopo da mitologia gradualmente trabalhada aqui. O filme não tarda a acelerar seu ritmo novamente e lançar seus protagonistas mais uma vez no conflito (agora com os monstros plenamente revelados), mas o faz incorporando tanto os códigos da ação e do horror como os do faroeste. Estes últimos, já introduzidos na fantástica introdução de Sung-ae na primeira hora, ganham ainda mais força à medida que o filme progride, embarcando em perseguições a cavalo e/ou de carro, numa reta final que certamente figurará entre as melhores sequências de ação do cinema recente.


Ainda assim, o interesse de Hong-jin pelo escopo e pela mitologia permanece até o fim, com direito a um acontecimento nos minutos finais que parece um prenúncio de uma sequência que, talvez, jamais verá a luz do dia. Outra brincadeira com os códigos dos blockbusters hollywoodianos ou uma mera replicação destes códigos com um certo toque de deslumbramento? Difícil dizer, mas não deixa de ser um certo balde de água fria após a alucinante meia hora anterior. Vale lembrar que a Coreia do Sul é um dos países que mais incorporou o soft power estadunidense, e isso é perceptível no seu cinema comercial. Ainda assim, a antropofagia permanece; e se os comentários críticos ao Ocidente podem ser mais contidos do que em um filme como O Hospedeiro, de Bong Joon-Ho, a presença de atores europeus e estadunidenses como Michael Fassbender, Alicia Vikander, Taylor Russell e Cameron Britton (e não, não vou dizer quem eles interpretam) não deixa de ser em si um toque ácido que mostra o interesse de Na Hong-Jin em “deglutir” as convenções daquilo que já vimos aos montes no cinema comercial hollywoodiano.


Hope – O Primeiro Impacto pode não fazer jus a todo o mistério construído em torno de sua trama, muito mais simples do que parece à primeira vista. Essa simplicidade, porém, não é um demérito, pois é um filme que confia na força da sua imagem e dos códigos com os quais trabalha. Mesmo que por vezes pareça enamorado demais destes códigos, é uma maravilha ver uma produção desse tipo no cinema contemporâneo que não se acanha em aproveitá-los, dispensando o cinismo, a vergonha e a metalinguagem para articular a todo vapor diferentes gêneros comumente tidos como “menores”, mas aqui apresentados com o respeito que merecem (e com um certo toque de brincadeira). Mesmo em suas imperfeições, o filme brilha como um dos melhores blockbusters do ano – e certamente o mais enérgico.


Nota: 4/5

 

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