Crítica | Resident Evil (2026)

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Zach Cregger leva sua assinatura para uma das franquias mais conhecidas e encontra espaço para equilibrar horror, absurdo, humor e desespero.

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Resident Evil chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira (17) sob a direção de Zach Cregger, cineasta que chamou a atenção do público nos últimos anos com Noites Brutais e A Hora do Mal. Embora sejam filmes bastante diferentes entre si, os dois ajudam a compreender a assinatura que Cregger construiu dentro do terror contemporâneo: histórias que partem de situações reconhecíveis para conduzi-las ao absurdo, misturando tensão, violência, humor e uma dose considerável de estranhamento.
A missão da vez, porém, é diferente. Depois de dois sucessos autorais, Cregger assume uma franquia que já carrega décadas de história nos videogames e mais de seis filmes produzidos para o cinema. Resident Evil chega, então, como uma espécie de recomeço, com uma história inédita para o público dos cinemas, mas inserida em um universo cujo legado já está muito bem estabelecido dentro da cultura pop e do imaginário dos zumbis.
Mesmo sem entrar no mérito de o quanto esta nova versão é fiel aos jogos, existe algo evidente na maneira como Cregger se apropria desse material. O diretor entende que está trabalhando com um universo pré-existente, mas não parece interessado em simplesmente reproduzi-lo. Em vez disso, encontra dentro dele espaço suficiente para construir uma narrativa com identidade própria e, principalmente, que conversa diretamente com aquilo que ele já vinha fazendo em seus filmes anteriores.
A história acompanha Bryan, um jovem aparentemente comum que se vê no meio de um apocalipse zumbi provocado por um desastre criado em laboratório. Longe de assumir a postura tradicional do herói invencível, ele é justamente o contrário. Erra, xinga, toma decisões questionáveis, não consegue acertar os tiros como gostaria e frequentemente parece estar tão assustado quanto qualquer outra pessoa diante do caos ao seu redor. Ainda assim, existe nele uma obstinação quase ingênua em tentar ajudar quem encontra pelo caminho.
É aí que Austin Abrams encontra uma das melhores oportunidades do filme. Bryan funciona porque é construído a partir de contradições. Ao mesmo tempo em que precisa sobreviver, ele se vê diante do dilema da gravidez da namorada, insiste em cumprir uma entrega e tenta ajudar uma criança infectada. São escolhas que poderiam facilmente transformar o personagem em um protagonista excessivamente heroico, mas Cregger prefere mantê-lo falho, inseguro e, muitas vezes, impulsivo.
Essa humanidade torna Bryan facilmente identificável para quem assiste. Ele não parece preparado para aquele mundo e nem particularmente destinado a salvá-lo. É justamente por isso que acompanhar suas decisões se torna uma das partes mais interessantes da experiência. O personagem está sempre dividido entre aquilo que seria mais seguro fazer e aquilo que acredita ser certo.

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Essa combinação entre horror e comicidade também não é novidade na filmografia de Cregger. Em Noites Brutais, o diretor já havia demonstrado interesse em transformar situações absurdas em momentos de horror físico, especialmente através do body horror. Em A Hora do Mal, por sua vez, a estranheza e o humor aparecem de maneira bastante particular, inclusive quando a narrativa se aproxima de seu ato final. Em Resident Evil, essa mesma disposição para misturar tons aparece de maneira ainda mais evidente.
O resultado é um filme que consegue ser brutal sem abandonar completamente o absurdo. A graça não existe para diminuir o horror, mas para tornar seus personagens mais humanos dentro dele. Bryan pode estar diante de uma situação grotesca e, ainda assim, reagir como alguém que simplesmente não sabe o que está fazendo. É uma escolha que aproxima o filme de uma experiência de videogame sem transformá-lo em uma reprodução literal de um jogo.
A própria cinematografia trabalha nesse sentido. Uma das escolhas mais interessantes de Cregger está nos momentos em que a câmera assume uma perspectiva em primeira pessoa, aproximando a experiência daquilo que o espectador reconhece imediatamente nos videogames. A opção poderia soar como um recurso meramente ilustrativo, uma tentativa óbvia de lembrar ao público a origem da franquia, mas funciona melhor justamente porque não domina a linguagem do filme.
Cregger utiliza esses momentos como parte de uma construção cinematográfica própria. A câmera pode colocar o espectador dentro da ação, mas o filme continua tendo a identidade visual do diretor. Há uma preocupação constante com a maneira como os corpos ocupam o espaço, com a criação de tensão e com a transformação de ambientes aparentemente comuns em lugares ameaçadores. O resultado é uma cinematografia que conversa com o videogame sem abandonar o cinema.
E talvez essa seja a principal qualidade desta nova versão de Resident Evil. O filme não parece preocupado em provar o tempo inteiro que é uma adaptação de um jogo. Ele entende que existe um público que já conhece esse universo, mas também constrói uma experiência que consegue funcionar por conta própria.
O mesmo vale para seu desfecho. Assim como aconteceu nos trabalhos anteriores de Cregger, é possível imaginar que o final provoque reações bastante diferentes. No meu caso, ele funciona justamente por não buscar uma conclusão confortável. Existe uma espécie de desesperança coerente com aquilo que o próprio filme estabelece: estamos diante de um apocalipse zumbi provocado por um experimento criado em laboratório, e nem tudo precisa terminar com uma solução reconfortante.
Resident Evil poderia ter sido apenas mais uma tentativa de recomeçar uma franquia conhecida. Em vez disso, encontra uma maneira interessante de colocar a personalidade de Zach Cregger dentro de um universo que não pertence originalmente a ele. O filme entende o peso da marca, utiliza elementos reconhecíveis do imaginário dos jogos e, ao mesmo tempo, preserva aquilo que tornou o diretor uma figura relevante dentro do terror atual.
Não é uma reinvenção definitiva do gênero, tampouco precisa ser. É um filme que funciona melhor quando abraça suas contradições: é violento e engraçado, familiar e diferente, próximo dos videogames sem deixar de ser cinema. E, no centro de tudo, existe Bryan, um protagonista tão despreparado quanto qualquer pessoa provavelmente seria diante do fim do mundo.
É essa imperfeição que faz Resident Evil funcionar. Em um universo povoado por monstros, zumbis e experimentos científicos fora de controle, seu personagem mais interessante é justamente aquele que parece mais humano.
Nota: 4/5



















