Crítica | O Ser Querido (Mostra de SP 2026)
Muito mais que um Valor Sentimental espanhol

São inevitáveis as comparações entre O Ser Querido e o vencedor do Oscar Valor Sentimental, já que ambos partem de um lugar em comum: o diretor de cinema consagrado que deseja se reconciliar com a filha atriz através da produção de um filme juntos. Mas essas comparações param por aí, pois em O Ser Querido o diretor Rodrigo Sorogoyen está muito mais interessado em usar o próprio processo de filmagem do filme fictício aqui gravado para expor as fraturas dessa relação, bem como as possibilidades de cura ou reconciliação entre ambas as partes.
Assim, este é um daqueles “filmes sobre filmes”, uma categoria que sempre me interessa pela possibilidade do cinema realizar esse olhar interno e autorreflexivo para seus próprios processos. Logo em sua primeira cena, vemos o prestigiado diretor Esteban Martínez (Javier Bardem), de volta à Espanha depois de décadas nos EUA, num almoço com sua filha Emilia (Victoria Luengo) para convencê-la a participar do seu novo filme, intitulado Deserto. Toda essa sequência, gravada em planos e contraplanos claustrofóbicos que se fecham sobre os rostos de Bardem e Luengo, emana o desconforto existente entre os dois, que não se veem há mais de uma década, e como esse desconforto logo escala para o ressentimento e as mágoas e feridas profundas.
É até curioso como depois dessa sequência o filme já salte para Victoria a caminho das gravações de Deserto; uma elipse um tanto abrupta que parece conveniente para fazer o filme prosseguir (mesmo com toda a tensão entre os dois personagens indicada na abertura), mas que também ajuda a obra a seguir seu próprio caminho, como se seguisse de onde Valor Sentimental parou. A dinâmica entre Esteban e Emilia, mesmo permeada pelo contexto da produção e pela trajetória profissional e pessoal dele – que se tornou conhecido pela personalidade colérica e controversa –, se revela cada vez mais a alma da obra, à medida que eles vão se (re)conhecendo, mas também se conflitando.
A direção de Sorogoyen até passa a adotar um recurso estético na forma do filtro preto-e-branco, que passa a aparecer nos instantes em que os personagens desenvolvem um tipo de conexão, seja em olhares, um gesto sutil como um toque de mão nas costas ou mesmo quando um fala do outro sem que este outro esteja em cena. Mas embora o recurso funcione em determinados momentos (como o instante do toque nas costas, mergulhado no mais absoluto silêncio), há pouco que ele de fato comunique em termos de relação dos personagens, parecendo uma inserção estética vaidosa numa obra que se interessa mais por uma abordagem naturalista em termos formais.

O ritmo plácido da obra acaba operando contra ela em alguns momentos, visto que, salvo a sequência de abertura ou uma envolvendo um tenso dia de gravação, o filme não está exatamente interessado nos altos e baixos da relação de Esteban e Emilia. Ao mesmo tempo, ele não está interessado em uma resolução fácil ou clichê para os problemas entre pai e filha, e ajuda muito a entrega de Bardem e Luengo, com o primeiro sendo o destaque indiscutível, sem surpresas. O ator veterano transita entre essa versão mais amadurecida e arrependida do homem que já foi e os ecos deste homem, que vão aparecendo com cada vez mais recorrência ao longo da obra.
O Ser Querido pode não ser Valor Sentimental, mas no fim das contas esse é o seu grande acerto. Talvez soe mais “convencional” e em alguns pontos talvez mais clichê, mas se beneficia do olhar autorreflexivo sobre o próprio ofício do fazer fílmico e das tensas dinâmicas de um set de filmagem, e sobretudo encontra nas atuações de Bardem e Luengo sua força para expressar seus próprios méritos nessa “seara” de obras sobre as frágeis relações entre pais cineastas e filhas atrizes.
Nota: 3.5/5













