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Entrevista | Jorge Thielen Armand fala sobre “A Morte Não Tem Dono”

Vinicius Oliveira

27 de out de 2026 · 5 min de leitura

Diretor veio ao Brasil para apresentar o filme na Mostra de SP, e comentou sobre as heranças coloniais e os conflitos de classe na Venezuela e na América Latina

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Exibido pela primeira vez na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes neste ano, A Morte Não Tem Dono é um dos filmes exibidos na Perspectiva Internacional da 50ª Mostra de SP. Ambientado na Venezuela contemporânea, o filme acompanha Caro (Asia Argento), herdeira de uma propriedade cacaueira que retorna à casa depois de décadas para vendê-la, o que a põe em conflito com os funcionários, que vivem lá em sua ausência. Você pode conferir a crítica aqui.


O diretor de A Morte Não Tem Dono, Jorge Thielen Armand, está no Brasil para apresentá-lo durante a Mostra, e o Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistá-lo. Na ocasião, Jorge comentou sobre a natureza da disputa entre os personagens no filme, que remonta ao passado colonial na América Latina e seus reflexos em termos de raça e classe, as influências cinematográficas e literárias da obra e o uso de elementos do cinema de gênero, em especial o horror e o gótico, para a construção da atmosfera e da narrativa. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): À medida que eu assistia o filme, pensava muito no conceito de “colonialidade do poder” desenvolvido por Aníbal Quijano, que fala sobre como a colonização na América Latina impôs esses papéis e hierarquias sociais a partir de critérios de raça. Como você vê o filme debatendo essas questões tão presentes na história dos países latino-americanos? Considerando que temos nele esse embate entre Caro, uma mulher branca de ascendência europeia, e Sonia, uma mulher negra.

Jorge Thielen Armand: Um bom ponto de partida poderia ser falar sobre o cacau, que é um símbolo no filme. O cacau está presente porque é um recurso de conveniência para a colônia, que chegou a ser muito importante na Venezuela. E, a partir daí, formaram-se essas castas. O cacau era explorado pelos espanhóis e trabalhado por escravizados indígenas e negros, então já começa a se formar essa construção. Além disso, na Venezuela existiu formalmente um sistema de castas. E esse sistema de castas — assim como o cacau, digamos — baseava-se no seguinte princípio: quanto mais próxima fosse a sua relação com a Europa, mais acima você estava. Por exemplo, Simón Bolívar não estava no topo absoluto, pois, embora fosse filho de europeus, nasceu na Venezuela; era, portanto, um criollo. Assim, nesse sistema de castas, quanto mais escura a pele vai ficando, mais abaixo você se encontra.

E isso aparece representado no filme de uma maneira bem direta, com ​​essa escolha de personagens: tem a europeia, o indígena — que, na verdade, é um fantasma, o que acho que também remete a essa ausência — e a Sonia, que é negra. E, além disso, há vários outros personagens de diferentes raças, mestiços. Mas acho que esse sistema de castas, embora tenha sido abolido há muitíssimo tempo, ainda permanece no subconsciente coletivo. Ou seja, se você consegue traçar sua proximidade com a Europa, você acaba tendo mais valor na sociedade, digamos. E, a partir disso, surgem muitos comportamentos.

Então, acredito que o filme reconhece isso, tanto nas cenas de época quanto nos gestos que são herança dessas ideias, tanto na Caro quanto nos outros personagens. Por exemplo, quando a Sonia diz ao menino: "Leve a mala para cima", e o menino olha para ela com uma cara de espanto, porque ele não está acostumado a ser um empregado, mas ela, logo de cara, assume essa postura. E tem também a maneira como a Caro fala com o menino, dizendo: "Talvez seu nome seja esse, Michael, não Maico”, e aí já dá para notar um gesto violento. Depois, a cena na cozinha com a arepa... elas retomam imediatamente aos seus papéis antigos, digamos assim, e de uma forma bastante bizarra.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Há todo um histórico de produções latino-americanas que focam nos conflitos de classe. Pensei em “O Pântano”, de Lucrecia Martel, mas acho que o filme que mais me veio à cabeça foi “Propriedade”, de Daniel Bandeira. Houve referências cinematográficas específicas que te influenciaram a dirigir “A Morte Não Tem Dono”? Se sim, quais seriam?

Jorge Thielen Armand: O Pântano é uma boa comparação, no sentido de que acredito que os dois filmes compartilham o “gótico tropical”, que é essa coisa da decomposição da classe poderosa, de como isso se transforma em um desastre e como todos esses elementos começam a se tornar quase alucinógenos. Eu ainda não vi o filme do Bandeira, mas estou muito a fim de assistir, porque aqui no Brasil muita gente me comentou que é um filme que aborda o mesmo tema. 

Se eu puder citar uma referência cinematográfica em particular, diria que é The Shout (Estranho Poder de Matar), de Jerzy Skolimowski. É um filme que esteve muito presente na minha cabeça durante as filmagens. Mas, acima de tudo, acredito que minha principal referência seja a obra de Rómulo Gallegos, que é um dos principais escritores da Venezuela. Ele escreveu um romance chamado Dona Bárbara e, neste romance, há um personagem chamado Santos Luzardo, que retorna às terras de sua família para tentar civilizar a região — já que é um lugar onde as pessoas se apropriam das terras à força —, e há também a personagem Dona Bárbara, que se parece um pouco com o Yoni, do meu filme. Portanto, existe uma imersão nesse mundo que acaba engolindo os personagens, e acho que é isso que acontece no meu filme. É como se a terra engolisse a Caro, como o Yoni diz bem no começo.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Uma coisa que me marcou muito ao longo do filme é essa atmosfera insólita, com toques sobrenaturais, que paira sobre Caro e aquela casa. Percebo que esses elementos de horror têm aparecido com muita frequência em obras que discutem o passado colonial da América Latina. Como você considera que o cinema de gênero pode ajudar a falar desse nosso passado tão violento e das influências dele no nosso presente?

Jorge Thielen Armand: No caso do meu filme, o termo “gótico” é muito pertinente, porque a literatura gótica parte de um clima de medo, um clima permanente, letal, letárgico, em que é sempre o passado que ameaça retornar e te picar como uma cobra. E é essencialmente isso que acontece ali: a Caro está nessa situação, e todo o peso do passado — do qual ela é herdeira e pelo qual não tem, necessariamente, culpa direta — acaba pesando sobre ela; é isso que cria essa atmosfera. 

Na verdade, eu concebi o filme sem pensar em gênero; pensei no fato de que gosto de um cinema sem leis, um cinema selvagem. Por isso, há uma espécie de mistura de gêneros no filme. Mas, claro, poder incluir elementos sobrenaturais abre espaço para metáforas e dualismos poéticos que, se estivéssemos dentro de uma linguagem realista, simplesmente não estariam presentes. 

Acredito que o cinema oferece possibilidades muito superiores quando se está aberto a esse tipo de coisa. Por exemplo, essa liberdade de poder ver o personagem observando a si mesmo, nesse desdobramento que faz parte desse código do gótico e desses terrores noturnos, que são todas essas coisas que são fantásticas, mas nem tanto. Elas estão ali. E esse é o terreno de que eu gosto, essa ambiguidade.





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há 14 horas
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Diretor veio ao Brasil para apresentar o filme na Mostra de SP, e comentou sobre as heranças coloniais e os conflitos de classe na Venezuela e na América Latina

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Exibido pela primeira vez na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes neste ano, A Morte Não Tem Dono é um dos filmes exibidos na Perspectiva Internacional da 50ª Mostra de SP. Ambientado na Venezuela contemporânea, o filme acompanha Caro (Asia Argento), herdeira de uma propriedade cacaueira que retorna à casa depois de décadas para vendê-la, o que a põe em conflito com os funcionários, que vivem lá em sua ausência. Você pode conferir a crítica aqui.


O diretor de A Morte Não Tem Dono, Jorge Thielen Armand, está no Brasil para apresentá-lo durante a Mostra, e o Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistá-lo. Na ocasião, Jorge comentou sobre a natureza da disputa entre os personagens no filme, que remonta ao passado colonial na América Latina e seus reflexos em termos de raça e classe, as influências cinematográficas e literárias da obra e o uso de elementos do cinema de gênero, em especial o horror e o gótico, para a construção da atmosfera e da narrativa. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): À medida que eu assistia o filme, pensava muito no conceito de “colonialidade do poder” desenvolvido por Aníbal Quijano, que fala sobre como a colonização na América Latina impôs esses papéis e hierarquias sociais a partir de critérios de raça. Como você vê o filme debatendo essas questões tão presentes na história dos países latino-americanos? Considerando que temos nele esse embate entre Caro, uma mulher branca de ascendência europeia, e Sonia, uma mulher negra.

Jorge Thielen Armand: Um bom ponto de partida poderia ser falar sobre o cacau, que é um símbolo no filme. O cacau está presente porque é um recurso de conveniência para a colônia, que chegou a ser muito importante na Venezuela. E, a partir daí, formaram-se essas castas. O cacau era explorado pelos espanhóis e trabalhado por escravizados indígenas e negros, então já começa a se formar essa construção. Além disso, na Venezuela existiu formalmente um sistema de castas. E esse sistema de castas — assim como o cacau, digamos — baseava-se no seguinte princípio: quanto mais próxima fosse a sua relação com a Europa, mais acima você estava. Por exemplo, Simón Bolívar não estava no topo absoluto, pois, embora fosse filho de europeus, nasceu na Venezuela; era, portanto, um criollo. Assim, nesse sistema de castas, quanto mais escura a pele vai ficando, mais abaixo você se encontra.

E isso aparece representado no filme de uma maneira bem direta, com ​​essa escolha de personagens: tem a europeia, o indígena — que, na verdade, é um fantasma, o que acho que também remete a essa ausência — e a Sonia, que é negra. E, além disso, há vários outros personagens de diferentes raças, mestiços. Mas acho que esse sistema de castas, embora tenha sido abolido há muitíssimo tempo, ainda permanece no subconsciente coletivo. Ou seja, se você consegue traçar sua proximidade com a Europa, você acaba tendo mais valor na sociedade, digamos. E, a partir disso, surgem muitos comportamentos.

Então, acredito que o filme reconhece isso, tanto nas cenas de época quanto nos gestos que são herança dessas ideias, tanto na Caro quanto nos outros personagens. Por exemplo, quando a Sonia diz ao menino: "Leve a mala para cima", e o menino olha para ela com uma cara de espanto, porque ele não está acostumado a ser um empregado, mas ela, logo de cara, assume essa postura. E tem também a maneira como a Caro fala com o menino, dizendo: "Talvez seu nome seja esse, Michael, não Maico”, e aí já dá para notar um gesto violento. Depois, a cena na cozinha com a arepa... elas retomam imediatamente aos seus papéis antigos, digamos assim, e de uma forma bastante bizarra.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Há todo um histórico de produções latino-americanas que focam nos conflitos de classe. Pensei em “O Pântano”, de Lucrecia Martel, mas acho que o filme que mais me veio à cabeça foi “Propriedade”, de Daniel Bandeira. Houve referências cinematográficas específicas que te influenciaram a dirigir “A Morte Não Tem Dono”? Se sim, quais seriam?

Jorge Thielen Armand: O Pântano é uma boa comparação, no sentido de que acredito que os dois filmes compartilham o “gótico tropical”, que é essa coisa da decomposição da classe poderosa, de como isso se transforma em um desastre e como todos esses elementos começam a se tornar quase alucinógenos. Eu ainda não vi o filme do Bandeira, mas estou muito a fim de assistir, porque aqui no Brasil muita gente me comentou que é um filme que aborda o mesmo tema. 

Se eu puder citar uma referência cinematográfica em particular, diria que é The Shout (Estranho Poder de Matar), de Jerzy Skolimowski. É um filme que esteve muito presente na minha cabeça durante as filmagens. Mas, acima de tudo, acredito que minha principal referência seja a obra de Rómulo Gallegos, que é um dos principais escritores da Venezuela. Ele escreveu um romance chamado Dona Bárbara e, neste romance, há um personagem chamado Santos Luzardo, que retorna às terras de sua família para tentar civilizar a região — já que é um lugar onde as pessoas se apropriam das terras à força —, e há também a personagem Dona Bárbara, que se parece um pouco com o Yoni, do meu filme. Portanto, existe uma imersão nesse mundo que acaba engolindo os personagens, e acho que é isso que acontece no meu filme. É como se a terra engolisse a Caro, como o Yoni diz bem no começo.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Uma coisa que me marcou muito ao longo do filme é essa atmosfera insólita, com toques sobrenaturais, que paira sobre Caro e aquela casa. Percebo que esses elementos de horror têm aparecido com muita frequência em obras que discutem o passado colonial da América Latina. Como você considera que o cinema de gênero pode ajudar a falar desse nosso passado tão violento e das influências dele no nosso presente?

Jorge Thielen Armand: No caso do meu filme, o termo “gótico” é muito pertinente, porque a literatura gótica parte de um clima de medo, um clima permanente, letal, letárgico, em que é sempre o passado que ameaça retornar e te picar como uma cobra. E é essencialmente isso que acontece ali: a Caro está nessa situação, e todo o peso do passado — do qual ela é herdeira e pelo qual não tem, necessariamente, culpa direta — acaba pesando sobre ela; é isso que cria essa atmosfera. 

Na verdade, eu concebi o filme sem pensar em gênero; pensei no fato de que gosto de um cinema sem leis, um cinema selvagem. Por isso, há uma espécie de mistura de gêneros no filme. Mas, claro, poder incluir elementos sobrenaturais abre espaço para metáforas e dualismos poéticos que, se estivéssemos dentro de uma linguagem realista, simplesmente não estariam presentes. 

Acredito que o cinema oferece possibilidades muito superiores quando se está aberto a esse tipo de coisa. Por exemplo, essa liberdade de poder ver o personagem observando a si mesmo, nesse desdobramento que faz parte desse código do gótico e desses terrores noturnos, que são todas essas coisas que são fantásticas, mas nem tanto. Elas estão ali. E esse é o terreno de que eu gosto, essa ambiguidade.





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