Entrevista | Boots Riley fala sobre “I Love Boosters” e fazer cinema político em Hollywood
Diretor veio ao Brasil para sessões especiais do seu novo filme, exibido na Mostra de SP.

Oito anos após seu filme de estreia, Desculpe te Incomodar, Boots Riley está de volta aos cinemas com I Love Boosters. O diretor e rapper, conhecido pelo seu ativismo comunista, trabalha em seu novo longa o conflito entre um grupo de amigas ladras de lojas de roupas (Keke Palmer, Naomi Ackie e Taylour Page) e uma renomada estilista (Demi Moore). A crítica pode ser lida aqui.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Boots Riley na ocasião da visita do diretor ao Brasil para promover o filme na 50ª Mostra de SP. Em uma roundtable, o diretor comentou sobre suas escolhas para fazer o filme ganhar sentido perante o público mesmo com seus elementos mais satíricos e absurdos, e também discorreu sobre sua trajetória como um comunista declarado nos EUA, operando dentro do sistema de Hollywood para fazer o seu cinema sobre luta de classes.
Indagado sobre as dificuldades de se fazer um cinema abertamente político no sistema industrial hollywoodiano, Riley refletiu sobre sua própria trajetória como ativista e os movimentos dos quais participou. Esses movimentos, segundo ele, eram pequenos e produziram “poucos como ele”, que buscou trilhar o caminho artístico – primeiro com grupos de hip-hop como The Coup e Street Sweeper Social Club (este último com Tom Morello, do Rage Against the Machine) e depois como diretor.
Riley não escondeu as dificuldades financeiras que passou ao longo das últimas décadas, mesmo quando já se consolidava como rapper e diretor. “A gente lançava discos que as pessoas conheciam, enquanto eu dependia de auxílio-alimentação ou de programas de assistência social. Inclusive, na época em que estávamos filmando Desculpe te Incomodar, eu estava morando de ocupação em uma casa”, contou ele. “Por isso, é difícil falar sobre quais foram os obstáculos, porque, na verdade, eu nem os via como obstáculos; eu apenas os encarava como as coisas que eu precisava fazer para conseguir lançar esse material. Nunca tive a expectativa de que as coisas deveriam ser de um jeito específico — eu só queria que tivessem uma proporção maior”.
O diretor também comentou sobre como o período de lançamento de Desculpe te Incomodar influenciou a percepção das pessoas. Embora o roteiro do filme tenha sido escrito ainda durante a administração Obama, as filmagens já se deram durante o primeiro governo Trump e, no clima político da época, o público normalizou muito mais as discussões do filme sobre protestos trabalhistas. Anos antes, na esteira do movimento Occupy que tomou os EUA, menções ao capitalismo na grande mídia estadunidense haviam crescido significativamente, quando antes do movimento se restringiam a duas menções apenas.
“Essa foi, por assim dizer, uma mudança profunda que estava ocorrendo; e, com isso, creio que houve muita confusão, já que muitos pensaram se tratar de um filme de viés liberal. Foi apenas a partir da reação ao filme que as pessoas começaram a compreender qual era a sua proposta política, uma vez que organizadores estavam utilizando Desculpe te Incomodar no ambiente de trabalho — exibindo-o para as pessoas — a fim de convencê-las a votar pela greve; e houve relatos sobre isso. Então, quando Desculpe te Incomodar foi lançado e fez sucesso, ficou bem mais fácil viabilizar a produção de outros filmes; afinal, o longa deu lucro, e as pessoas querem estar associadas a algo que gera dinheiro”.
Após fazer a série Sou de Virgem para a Amazon Prime Video, Riley agora retorna às telonas de cinema com I Love Boosters, o qual contou com um orçamento seis vezes maior que o de Desculpe te Incomodar (20 milhões de dólares, contra 3 milhões do primeiro filme). O maior orçamento permitiu uma visão ainda mais bizarra – que inclui modelos-demônio, seres capazes de trocar de pele, bilionários vivendo em apartamentos tortos, rebeliões de operários numa fábrica na China e dispositivos de teletransporte ativados pelo materialismo didático.
Como apontei na minha crítica, são esses elementos despirocados que fortalecem a visão satírica de Riley, enquanto outros longas contemporâneos que tentam satirizar a realidade atual falham por não darem conta da insanidade da realidade. Quando perguntei ao diretor sobre o segredo para fazer uma boa sátira hoje em dia – que não soe datada, óbvia e rasa –, ele comentou das suas estratégias.
Segundo Riley, aquilo que é considerado “absurdista” em seus filmes faz parte da construção do seu argumento: de que a contradição principal do capitalismo – a exploração do seu trabalho – é absurda por si só. “Então, é isso que estou fazendo com essa questão. Grande parte do que é absurdo faz parte de um argumento maior. Não é apenas um ‘olhem só para mim, vejam como isso é absurdo’. É algo que tem um propósito; o conteúdo leva a algum lugar. A parte que traz um fundamento mais sólido é justamente a proposta que apresento sobre o que poderíamos fazer”, declarou o diretor.
“Não estou tentando apenas revelar verdades. Acredito que, muitas vezes, o que os autores satíricos abordam são coisas que nós já sabemos; não há um processo de esclarecimento. Portanto, esse não é, necessariamente, o meu objetivo. Na medida em que meus filmes expõem a verdade, é apenas para abrir caminho para a etapa seguinte: o que podemos fazer a respeito disso”, disse ele, que continuou: “Parto, portanto, do princípio de que quero propor algo com o qual as pessoas se envolvam ao final do filme — quero que elas participem da criação de um movimento trabalhista radical, militante e de massas. Quero que as pessoas comecem a se organizar em seus locais de trabalho”.













