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Crítica | Ted Lasso (4ª temporada)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 2 horas
5 min de leitura

Temporada não restaura a série aos dias de glória dos seus primeiros anos, mas mostra que ela ainda tem boas histórias a contar.

Divulgação


De queridinha do público em suas duas primeiras temporadas, Ted Lasso foi alçada quase a uma “serie non grata” depois de sua terceira temporada... controversa, para dizer o mínimo. Mesmo achando ela melhor que uns 90% das pessoas, é inegável que uma série de decisões narrativas e criativas minimamente questionáveis minaram muito do carinho que o público e a crítica tinham pela série, o que, aliado a um final que parecia quase conclusivo, só reforçava a ideia de que era hora de Ted Lasso acabar.


Mas é claro que a AppleTV não ia largar da sua galinha dos ovos de ouro e, três anos após o seu aparentemente encerramento, a série está de volta. A questão é: ainda há espaço para Ted Lasso na grade televisiva atual? A julgar pelos 10 episódios desta quarta temporada, a resposta é um “sim, mas modere suas expectativas”.


Abraçando o intervalo de tempo entre este novo ano e o anterior, temos aqui um Ted (Jason Sudeikis) dividido entre o trabalho ordinário no supermercado e uma presença mais próxima do seu filho Henry (Grant Feely), por quem voltou da Inglaterra e deixou o Richmond para trás. Mas quando Rebecca (Hannah Waddingham), Keeley (Juno Temple) e Higgins (Jeremy Swift) aparecem em sua porta, fica claro que a história de Ted com o Richmond não acabou, só será recomeçada em um novo desafio: treinar o time feminino do clube, que passa longe de desfrutar do mesmo prestígio (e oportunidades) do masculino.


Após um primeiro episódio que investe mais na vida de Ted no Kansas e em sua hesitação para assumir o novo cargo (e em que, ao contrário da maioria, gostei da inversão de perspectivas ao trazerem os protagonistas britânicos como os “peixes fora d’água”), logo somos levados junto com Ted – e família, desta vez – de volta para a Inglaterra no segundo episódio. E conta muito ao favor da série como ela rapidamente nos insere naquele clima familiar, leve e bem-humorado do universo do Richmond. Sim, ainda há a presença dos elementos dramáticos que se tornaram mais proeminentes na segunda e terceira temporadas, mas parece haver um entendimento dos showrunners de que parte essencial da correção de rota que a série precisava envolvia uma ampliação dos elementos mais cômicos.


Aliás, “correção de rota” parece ser o mote da temporada, já que parte do esforço dela reside em corrigir as decisões mais criticadas da temporada anterior e suas consequências. Seja a decisão de enfim separar Beard (Brendan Hunt) e Jane (Phoebe Walsh), a redução na duração dos episódios (embora estes ainda superem e muito a faixa dos 20-30 minutos dos episódios da primeira temporada), a já mencionada ênfase mais no humor e menos no drama: são muitos os momentos em que é perceptível como os showrunners e roteiristas quiseram entregar o que os fãs queriam após um ano anterior tão desbalanceado e criticado.


Em nenhum lugar isso fica tão evidente como na gradativa reconciliação de Keeley e Roy (Brett Goldstein). Este, aliás, parece permanecer na série apenas pela sua subtrama com Keeley, já que sua presença continua em certa medida vinculada mais ao time masculino. Mas é sempre um prazer inegável ver Goldstein em tela com seu tipo turrão e “straight guy”, e a química entre ele e Temple é (quase) suficiente para perdoarmos a demora para que o casal volte a ficar junto.


Porém, se por um lado, Ted Lasso está interessada em oferecer familiaridade e conforto ao público a quem decepcionou, a série tem novas cartas na manga que possam justificar sua renovação. A principal delas é a ênfase no time feminino, e ainda que dentro deste grupo principal ainda não haja destaques a níveis individuais como ocorreu com o time masculino nas três temporadas passadas – embora goste bastante de personagens como Lizzie (Faye Marsay), Boots (Jude Mack), Gemma (Abbie Hern) e as gêmeas irlandesas Niamh (Aisling Sharkey) e Siobhan (Rex Hayes) –, é de se valorizar que a série dá a essas jogadoras personalidades próprias ao invés de transformá-las em meras cópias de Jamie Tartt, Sam, Dani Rojas (há até uma piada envolvendo esse que mostra a vontade da série de não refazer o mesmo caminho) e outros.


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Dentro disso, a série consegue usar esse espaço para problematizar e trazer diversas críticas à precarização que envolve o futebol feminino, bem como a misoginia ainda introjetada na mente das pessoas ao lidarem com este universo e quererem compará-lo ao futebol masculino. Ela também consegue incorporar com muita naturalidade as sexualidades destas mulheres sem fazer disso uma bandeira proselitista, mas como aspecto essencial de suas identidades e muito bem-integrado às suas vidas.


Nesse aspecto, a introdução de Alice (Tanya Reynolds) como a nova treinadora-assistente de Ted e Beard é o aspecto mais essencial pelo qual se pode medir o sucesso deste retorno da série. Embora haja momentos em que seu arco na temporada possa flertar com o de Nathan (Nick Mohammed) nas temporadas anteriores, ela é uma personagem autônoma, com sua própria personalidade, e talvez o grande trunfo da série neste novo ano. Muito disso vem da atuação de Reynolds, que consegue infundir a personagem com nuances, inseguranças, destaques e falhas que a enriquecem e constroem um contraponto interessante entre sua sisudez e pragmatismo e o otimismo e ingenuidade de Ted. Mesmo que a justificativa para ela não assumir de cara o time feminino não cole muito, ver sua evolução (e os percalços) no caminho até chegar no seu merecido final fazem por si só valer a pena voltar a Ted Lasso depois de tanto tempo.


Ainda assim, estes acertos não eximem a temporada de falhas notáveis que a impedem de alcançar o mesmo nível que as duas primeiras tinham. É estranho ver como Rebecca é tão mal trabalhada aqui, seja no seu âmbito pessoal – tudo envolvendo seu relacionamento com Matthijs (Matteo van der Grijn) me faz revirar os olhos mais do que já me fazia na temporada passada – ou profissional, com suas resistências ao time feminino ou a relação com Zelda (Tracey Ullman). Esta última, inclusive, é disparada a pior adição deste novo ano, tanto pelo seu tom exagerado que está acima da média da própria série ou pelo encadeamento do seu arco e os plot twists relacionados a ele que, no fim das contas, não surpreendem ninguém.


Ainda assim, talvez o problema mais nítido a essa altura do campeonato em Ted Lasso é a incapacidade da série de saber o que fazer com seu próprio protagonista. A terceira temporada já tinha alçado Ted a uma posição de coadjuvante, mas havia ali algum rascunho de arco narrativo (mesmo que fosse o próprio Sudeikis tentando expurgar seus sentimentos por ter sido traído pela Olivia Wilde e, bom, sabemos no que deu). Desta vez, o retorno de Ted parece mais uma conveniência narrativa, visto que a temporada marca um novo ciclo para a série onde talvez ele não fosse mais de fato necessário.


Sim, Ted é sempre uma presença agradável em tela com seu humor bobo, otimismo espirituoso e empático, referências específicas e sotaque interioriano – e um nítido amadurecimento tanto enquanto indivíduo quanto enquanto treinador, isso devemos admitir, mas a série parece ter crescido tanto para além dele que sequer se esforça para mantê-lo como protagonista. Entendo que criar um spin-off poderia não render o mesmo público do que retornar com um nome tão forte, mas me pergunto até quando a série vai querer continuar se chamando Ted Lasso enquanto escanteia seu próprio personagem principal.


Apesar desses percalços, porém, Ted Lasso consegue justificar em boa parte seu retorno, apostando no seguro e na correção da sua rota para exibir suas marcas familiares e pontos fortes, enquanto injeta sobrevida através do núcleo do futebol feminino para cravar um novo espaço. Ainda falta um longo caminho para superar todos os fantasmas deixados pela temporada passada e reconquistar a glória das duas primeiras, mas talvez esse nem seja o objetivo neste novo começo para a série. Dentro daquilo que foi oferecido nesta nova leva de episódios, me contento (e, sobretudo, me divirto) com o que ela irá me entregar daqui em diante.


Nota: 3.5/5

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