No último dia do Encontro de Ideias, painel debate o filme “100 Dias” (Mostra de SP 2026)
Amyr Klink, Carlos Saldanha, Filipe Bragança, Elena Soares e Thais Tavares se reuniram para falar sobre o longa-metragem, adaptado do best-seller de Klink

O Encontro de Ideias chegou ao seu fim nesta sexta-feira (23) após três dias intensos de painéis, ativações e outras atividades que visaram os diferentes cenários encontrados no audiovisual brasileiro contemporâneo. O Oxente Pipoca esteve presente nos dois primeiros dias (que você pode conferir aqui e aqui) e não podia ser diferente nesta sexta, onde acompanhamos o painel “100 Dias: Entre o Livro e o Filme”.
A proposta do painel foi debater a adaptação do livro Cem Dias Entre o Céu e o Mar, de Amyr Klink, no filme 100 Dias, dirigido por Carlos Saldanha (A Era do Gelo, Robôs, Rio, O Touro Ferdinando), exibido durante a Mostra de SP e com estreia prevista para 29/10. Participaram do evento, além de Klink e Saldanha, as roteiristas do filme, Elena Soares (Eu Tu Eles, Casa de Areia) e Thais Tavares (O Mecanismo, Ângela Diniz – Assassinada e Condenada), e o protagonista, Filipe Bragança (Meu Coração Ferve Por Você, Coração Acelerado). A mediação ficou por conta de Paula e Cosenza (produtora e sócia da TREMA).
Em sua fala, Amyr Klink relatou que, embora tenha escrito o material que serviu de base ao livro ainda durante a viagem (realizada entre a Namíbia e a Bahia em 1984) em forma de diário, o fez por códigos alfanuméricos. Foi só ao chegar à Bahia que ele foi convencido de que deveria transformar suas anotações no diário em um livro, para que as pessoas conhecessem a dimensão do seu feito em atravessar o Atlântico. Mais tarde, sua esposa Marina Klink o convenceu de que o livro valia a pena ser transformado em filme, mas anos de atrasos na produção, trocas de roteiristas e até a perda do diretor Breno Silveira (falecido em 2022) quase o fizeram crer que o projeto jamais veria a luz do dia.
Foi quando Carlos Saldanha entrou em cena. Apesar da extensa carreira com as animações da BlueSky (chegando a ser indicado ao Oscar por O Touro Ferdinando), o diretor acreditou desde o começo que Cem Dias deveria ser adaptado como um filme live-action. Sendo ele fã de Klink e do livro, seu objetivo consistiu em adaptar não apenas a parte mecânica da história, mas sobretudo a parte emocional. Por isso, se cercar de profissionais que o ajudassem a cumprir essa visão foi fundamental, e aí entraram Elena Soares e Thais Tavares.
Para Elena, entender sobre o que tratava o roteiro era crucial para destravar o próprio filme, e essa própria compreensão lhe veio tempos depois: “A travessia do Amyr é paradigmática do que seja original na nossa espécie, que é esse pedido de atravessamento. A nossa espécie é a única que, diante do que se apresenta, pede além disso. A gente não voa, a gente inventa avião. Enfim, temos essa pulsão de atravessamento, de pedir o contrário do que a gente tem. Então, o Amyr fez essa travessia, só que ele bate lá, atravessa, e ele vai precisar fazer isso infinitas vezes, porque a gente atravessa imaginando o que tem no outro lado. Aí a gente retorna, acrescido dessa experiência, e vai de novo”.

Já Thais pontuou que, uma vez que já se sabia onde o filme começava e onde terminava, a perguntava que a inquietava era: por que Amyr fez essa travessia? Para respondê-la, foi necessário escrutinar a vida do navegador, mas ele deu total liberdade a ela, Elena e Carlos para fazerem sua própria história, considerando que a sua versão dos fatos já estava registrada no livro. “Então, com essa carta branca a gente partiu, e chegamos no que no cinema se chama de coming-of-age, né, que é esse trajeto desse jovem virando adulto. E ao final, quando o irmão dele diz: ‘Parabéns, você atravessou’, e ele diz: ‘Atravessamos’. Então, acho que o maior desafio desse roteiro foi justamente descobrir esse personagem e a motivação desse seu atravessar”, afirmou ela.
Respondidas essas perguntas, faltava encontrar uma peça crucial: o ator que daria vida à Amyr Klink nas telas. Para Filipe Bragança, a oportunidade de interpretar o navegador foi prenunciada num sonho ocorrido dias antes do seu teste de elenco, onde ele nadava sozinho no oceano e então várias baleias começavam a nadar ao seu redor. Quando, ao ler o roteiro, ele se deparou com uma cena específica envolvendo baleias, entendeu que seu sonho carregava um significado especial.

Uma vez que foi selecionado para estrelar o filme, Filipe buscou ler o livro para buscar referências para o seu trabalho, o que foi fundamental para compreender mais do próprio Amyr. “Era uma maneira de encontrar o significado e o que preenchia tantos silêncios, porque um homem sozinho no oceano naturalmente estava em silêncio durante muito tempo, e a gente traduz isso para a tela do cinema. Se alguém já tiver visto o filme, sabe que é um filme com muitos silêncios, e era importante para mim tentar entender como essa experiência atravessou o Amyr e o que todos esses silêncios significavam, para que eu pudesse comunicar isso ao público através da minha performance”, comentou ele.
Por fim, Filipe destacou a importância de trazer a história de Amyr a toda uma nova geração por intermédio de 100 Dias: “muita gente não faz ideia que teve um brasileiro maluco, biruta [risos], que resolveu a atravessar o oceano Atlântico remando em 1984. E eu acho que é uma história que merece ser contada e que merece ser passada adiante para uma geração que não conhece. Muitas pessoas leram o livro e conheceram essa história, muitas pessoas agora vão conhecer essa história através do filme. Então, muito feliz também de poder passar essa história adiante”.













