Painel do Encontro de Ideias debate as novas formas de acesso do público aos documentários brasileiros (Mostra de SP 2026)

há 2 horas
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Ibirá Machado, André Saddy e Alice Riff discutiram a trajetória do documentário no cinema brasileiro e os desafios e estratégias para que ele seja mais assistido.

Créditos: Sara De Santis
Em seu segundo dia, o Encontro de Ideias continuou a ser um palco de debates e conversas que ajudam a pensar as novas caras e possibilidades do cinema brasileiro. O evento, que é realizado durante a Mostra de SP e chega à sua sexta edição, conta neste ano com 60 palestrantes, 22 marcas, mais de 12 ativações e profissionais de dez países (Estados Unidos, Holanda, China, Cuba, Uruguai, França, Grécia, Alemanha, Portugal e Espanha).
No seu segundo dia de realização, o Oxente Pipoca cobriu ao painel “Documentários – novos caminhos até o público”, que buscou propor uma reflexão sobre como o público se relaciona com o documentário brasileiro, os desafios do circuito comercial, estratégias de lançamento, a construção de audiência e o impacto dos streamings. Participaram dele Ibará Machado (sócio-diretor da Descoloniza Filmes), André Saddy (sócio e diretor-geral do Canal Brasil) e Alice Riff (diretora de Sagrado, Eleições e Meu Corpo é Político), com mediação de Maria Clara Senra (coordenadora de conteúdo do Canal Brasil e editora-chefe do Cinejornal).
Num cenário onde o próprio cinema nacional como um todo já enfrenta diversas barreiras para ser assistido, os documentários – que representam cerca de 1/3 da produção cinematográfica brasileira que é exibida nos cinemas – enfrentam um desafio ainda maior. Ibará destacou a importância de gerar no público uma vontade por esses documentários, e como essa falta de vontade é fruto de uma cadeia de consequências. Segundo ele, ainda são poucos os casos de documentários que conseguiram furar a barreira, especialmente num cenário em que a produção e lançamento de filmes brasileiros nos cinemas praticamente dobrou, mas os números do público estagnaram nos últimos 20 anos.
“Existe uma falha sistêmica acontecendo na formação de público, na circulação, no fomento aos espaços de circulação, na geração de desejo na população. A gente não está conseguindo melhorar esse espaço de circulação e o aumento do direcionamento do nosso público para os nossos filmes”, afirmou Ibará, que pontuou uma característica da cadeia exibidora: a de por os filmes nacionais em horários comerciais, como às 13h ou 14h da tarde, o que leva a sessões com pouco público e a reprodução de um discurso de que estes filmes não atraem público.
Uma das estratégias adotadas por Ibará, junto à Descoloniza Filmes, ocorreu recentemente com o lançamento da chamada “Trilogia da Memória”, composta pelos filmes Anatomia do Caos, A Fabulosa Máquina do Tempo e Não Existe Almoço Grátis. A estratégia consistiu em lançar os três filmes com apenas algumas semanas de intervalo, estimulando a discussão proposta por eles sobre fatos históricos recentes do país. A cada um dos filmes assistidos, o público poderia preencher uma carteirinha semelhante à carteira de vacinação; o espectador que assistisse aos três filmes estaria, portanto, com a memória “imunizada”. Apesar da proposta arriscada, o resultado deu certo: enquanto em média um documentário tem um público de 700 pagantes, Anatomia do Caos teve cerca de 7000, o que também impulsionou os outros dois filmes.

Créditos: Sara De Santis
Em sua fala, Alice Riff defendeu a existência de todos os tipos de filmes, inclusive os documentários e, sobretudo, os de caráter mais autoral. Mas os desafios já começam na cadeia produtiva, com a concentração de recursos para o audiovisual em determinados setores. Já em termos de distribuição, a diretora ressaltou a necessidade de se pensar novas estratégias para além dos formatos tradicionais da cadeia de exibição, comentando da experiência que teve com seu filme Eleição, que foi lançado logo após as eleições presidenciais de 2018 e foi exibido todos os dias às 18h durante a realização da Bienal da UNE, em Salvador. Dali, ela conseguiu contatos com Secretarias de Educação de vários estados para a exibição do filme, além de uma parceria com o Clube do Professor, um programa exibido semanalmente aos sábados, bem como com os Institutos Federais, e uma tour pelos interiores de São Paulo.
Por fim, Ibará considerou que há uma necessidade de revisão da cadeia produtiva e exibidora para oferecer mais oportunidades aos filmes brasileiros, sobretudo os documentais, muitos dos quais ainda penam para conseguir a cota mínima de 10 salas de cinema para exibição simultânea. “Eu prefiro não ficar refletindo se vale a pena a gente pensar se um filme não pode ir direto para o streaming em vez de ir para a sala de cinema, já que já que é assim que tem acontecido, e sim a gente ser muito mais chato do que já tem sido hoje em relação ao investimento público na exibição e na distribuição”, afirmou ele, que destacou como uma outra estratégia o fomento de sessões acompanhadas de debate, para assim estimular a maior presença do público e um maior apoio ao cinema documental brasileiro.



















