Encontro de Ideias chega à sua sexta edição debatendo e dialogando sobre as várias facetas do cinema brasileiro (Mostra de SP 2026)

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Confira a cobertura do Oxente Pipoca no primeiro dia do evento, que integra a Mostra de SP.

Créditos: Sara De Santis
Há seis anos, a Mostra de SP tem buscado expandir sua abrangência para além da exibição das centenas de filmes de diversas partes do globo. Através do Encontro de Ideias, diversos painéis, encontros e debates visam propor o que move o audiovisual brasileiro hoje. Neste ano, o Encontro chega à sua sexta edição em uma casa nova, o Solar Fábio Prado, contando com 60 palestrantes, 22 marcas, mais de 12 ativações e profissionais de dez países (Estados Unidos, Holanda, China, Cuba, Uruguai, França, Grécia, Alemanha, Portugal e Espanha).
Neste ano, o Oxente Pipoca está cobrindo o evento, cuja abertura ocorreu na última terça (20) e cujo encerramento será nesta sexta (23). No dia 21, acompanhamos dois painéis: “O Processo Criativo de Feito Pipa” e “Da Vida À Tela – Entre os Fatos, a Dramaturgia e o Mercado”. Vem conferir abaixo como foram ambos os painéis:
“Há uma necessidade de ver nordestinos trazendo esse olhar que é só nosso”

Créditos: Sara De Santis
Exibido pela primeira vez no Festival de Berlim, Feito Pipa, de Allan Deberton, foi o escolhido para representar o Brasil na corrida do Oscar 2027. Ambientado no interior do Ceará, o filme acompanha a história de Gugu (Yuri Gomes), um garoto assumidamente gay e afeminado que vive uma relação afetuosa com a avó Dilma (Teca Pereira), ao passo que a com o pai, Batista (Lázaro Ramos), é marcada por tensões e distanciamentos. O filme foi exibido no Festival do Rio (a crítica pode ser lida aqui) e também está sendo exibido na Mostra de SP antes da sua estreia nos cinemas, no dia 05 de novembro.
Junto ao roteirista do filme, André Araújo, Allan e Lázaro participaram do painel “O Processo Criativo de Feito Pipa”, mediado por Rachel do Valle, jornalista e diretora do Projeto Paradiso. Na ocasião, André comentou da importância do roteiro, no qual ele já trabalhava há vários anos. O roteirista destacou que, embora a história de Gugu não fosse exatamente autobiográfica, muitos pontos em comum foram identificados, sendo ele um homem gay que nasceu e cresceu no interior do Ceará. Além disso, escrever essa história foi fundamental para ele pensar a necessidade de representações autênticas do Nordeste no cinema e que saibam fugir do óbvio ou dos estereótipos.
“Eu acho que o que me motivou a escrever e enveredar pelo cinema foi pensar a forma como a gente tem produzido imagens sobre o sertão, sobre o Nordeste, e, mais do que isso, atualizar esse imaginário. Há uma necessidade de ver nordestinos construindo essas imagens, produzindo essas imagens, atualizando elas, trazendo essa especificidade, esse olhar que é só nosso”, afirmou André.
Nesse sentido, a entrada de Allan no projeto foi fundamental. O diretor nasceu na mesma cidade que André – Russas, no sertão cearense –, mas eles se conheceram anos depois, em razão do primeiro curta do roteirista. Daí nasceu uma parceria que se estendeu ao longo do tempo, como atestado pelas colaborações em Pacarrete, primeiro longa-metragem de Allan, e agora em Feito Pipa.
O diretor destacou as dificuldades para conseguir financiamento para Feito Pipa, às vezes pelos motivos mais esdrúxulos possíveis: “De certa forma parecia que o roteiro trazia ali o estigma de cinema nordestino, de um personagem queer, e que parecia verdadeiro demais para poder fazer sentido, dentro dessa expectativa de negócio, de venda de ingresso, de sucesso. Ele tinha muita cara de ‘cinema brasileiro’, eu escutei bastante isso: “ah não, parece ser mais um filme brasileiro’. E aí, quando essas coisas vêm para mim, isso se torna na verdade um motivador, parece que eu tenho uma raiva, uma vontade de superar, que vem de algum lugar: ‘não, agora que a gente vai fazer o filme’.
À vontade de Allan de fazer o filme, se juntou a vontade de Lázaro Ramos de trabalhar com ele. O ator baiano comentou que conheceu o trabalho do diretor cearense num período em que estava desanimado com sua carreira e cogitava seguir apenas como diretor. Ao assistir Pacarrete no Festival de Gramado, surgiu o desejo – e o pedido – de ser dirigido por Allan numa produção futura, o que veio a se concretizar com Feito Pipa.
Lázaro não se fez de rogado em elogiar o trabalho de Yuri Gomes como Gugu, destacando o processo criativo com o ator mirim – o qual, como ele, é nativo de Salvador e esteve envolvido em projetos de artes cênicas desde novo. “Esse é o primeiro filme de um menino extremamente talentoso, ele é uma luz, ele é inteligente, mas tem um dado que é importante falar, que é a experiência dele em aula de dança e teatro num projeto social chamado Projeto Axé, em Salvador, na Bahia”, revelou o ator, que continuou:
“Essa criança chega com essa luz, com esse brilho, com essa espontaneidade, mas também com consciência cênica, com consciência do que é o processo de criação artística. Às vezes, como criança, ele dava uns defeitos, porque queria brincar, porque não queria fazer a cena, porque não concordava com a cena, que acordava de mau humor, porque estava com saudade de casa, como qualquer criança. Mas ao mesmo tempo ele vem de uma experiência como essa, e daí a importância desse projeto social, um projeto que olha para um território cheio de necessidades, mas também com muitas possibilidades, e oferece arte, cultura e ocupação. E o Yuri é um exemplo disso”.
Embora já tenha trabalhado com várias crianças e adolescentes ao longo da carreira, Lázaro enfatizou que nunca viveu uma experiência no set como a de Feito Pipa, onde o tempo das crianças era sempre respeitado. “A criança não está ali somente à disposição do cinema. Houve respeito ao tempo das crianças e, ao mesmo tempo, educava-se elas a respeito do que é fazer cinema. (...) Eu acho que isso é muito importante ser falado, porque preserva o bem-estar e o psicológico das crianças. Esse filme tem essa qualidade por isso também”, declarou o ator.
“Nossa função como cinema é apresentar o Brasil para o Brasil”

Créditos: Sara De Santis
O painel “Da Vida À Tela – Entre os Fatos, a Dramaturgia e o Mercado” buscou discutir o fenômeno das cinebiografias no cinema brasileiro dos últimos 20 anos, abordando os critérios de escolha dos personagens e os elementos que fazem com que figuras reais continuem dialogando com o espectador contemporâneo, bem como os os processos de pesquisa, curadoria e seleção de acontecimentos que moldam a narrativa. Participaram dele Jefferson De (diretor de Bróder, M8, Doutor Gama, Narciso e a futura biografia de Carolina Maria de Jesus), Juliana Capelini (diretora executiva da Conspiração Filmes e produtora executiva de Ainda Estou Aqui), Hugo Prata (diretor de Elis, Angela e Se Não For Eu Quem Vai Fazer Você Feliz?) e Patricia Andrade (roteirista de Dois Filhos de Francisco e Gonzaga – De Pai Para Filho), com mediação de Flávia Costa (gerente sênior de conteúdo – Filmes e Infantil da Globoplay, Globo Filmes, Gloob e Gloobinho).
Os participantes destacaram o sucesso de Dois Filhos de Francisco, corroteirizado por Patricia Andrade e Carolina Kotscho, o qual foi um divisor de águas para se apostar nas cinebiografias no Brasil. Para Jefferson De, um dos fatores do sucesso do filme, mesmo entre o público que não fosse de Zezé de Camargo e Luciano ou do sertanejo, foi o fato dele não ser uma história sobre a dupla de artistas, mas sim sobre a história de seu pai, o que trouxe um apelo muito mais amplo à obra. Para ele, essa compreensão foi fundamental para dirigir suas próprias cinebiografias.
“[Dois Filhos de Francisco] era algo sobre o interior do Brasil, sobre novas histórias, novas possibilidades, um deslocamento geográfico. E obviamente, quando fui fazer Doutor Gama, o efeito era o mesmo. A maioria desse país é feita de pessoas muito próximas do meu tom de pele, mas tinha uma coisa no cinema brasileiro de se falar sobre a contribuição negra no esporte, na culinária, na religião, mas pouco se falava sobre a contribuição negra do ponto de vista intelectual, do direito brasileiro. Então, essa era uma dessas novas histórias que a gente poderia contar e que estava intimamente ligada ao Brasil. E eu acho que essas novas histórias é que alimentam o cinema”, afirmou Jefferson.
Em relação à sua futura cinebiografia de Carolina Maria de Jesus, o diretor pontuou que ela foi a autora que mais explicou o que é o Brasil, por intermédio do seu seminal livro Quarto de Despejo. Segundo ele, trabalhar os contrapontos presentes na vida e na obra de Carolina – a sua vida de pobreza e fome num dos períodos mais gloriosos do Brasil – é uma forma de contribuir com uma das coisas que o cinema sabe fazer de melhor: apresentar o Brasil para o Brasil.
Já Juliana – que atualmente está envolvida na futura cinebiografia sobre a jogadora Marta, protagonizada por Alice Carvalho – comentou a respeito dos processos necessários para a criação e construção de uma cinebiografia. O primeiro passo, segundo ela, reside na admiração por aquela figura pública, mas a partir disso é preciso se perguntar: a história de vida dessa pessoa renderia um bom filme? Quem será o público que irá assistir àquela obra? Para ela, é fundamental que o filme não seja visto apenas pelos fãs daquela personalidade, mas também seja acessível para um público que não conhece a vida e obra dessa pessoa.
Juliana também destacou outros desafios que surgem em termos de recorte da narrativa e de se pensar o que pode ou o que não pode entrar no filme, especialmente quando o biografado está vivo. Estes comentários foram reforçados por Patricia Andrade (que atualmente trabalha na cinebiografia de Roberto Carlos) e Hugo Prata, os quais destacaram outros pontos como os direitos autorais de canções, no caso das cinebiografias musicais. Hugo também reforçou a importância de um bom elenco que consiga capturar a essência destas figuras reais, citando o trabalho de Andreia Horta como Elis Regina em Elis ou de José Loreto como Chorão em Se Não For Eu, Quem Vai Te Fazer Feliz?
Patricia também reforçou que o aspecto primordial para o sucesso de uma cinebiografia é que ela possua um apelo universal para o público: “Todas essas histórias que a gente está falando aqui são histórias universais. Você não precisa gostar de futebol, você não precisa gostar de sertanejo, porque o que interessa é a trajetória humana desses personagens, como eles conseguem superar as adversidades e chegar onde eles chegam, cada um à sua maneira, cada um por seu motivo. Cada biografia tem um assunto por trás, não é só uma sucessão de fatos; a gente não está colando os melhores momentos da vida. A gente tem que desenhar um arco, tem que humanizar ao máximo e dar sentido a essa história”.



















